Parece-me que muita gente vive o dia-a-dia tendo por base um lema semelhante a "faça corresponder a cada idade um acontecimento". Estabelecer algo que queremos atingir pode ser bom e há, de facto, situações que marcam uma determinada etapa, mas a partir de uma certa idade (logo por sinal a minha) parece-me que os objectivos se tornam um pouco redutores e limitantes.
Quando pequenos, os 5 anos parecem ser a idade perfeita. Finalmente uma mão cheia! O processo de esticar dedos quando nos perguntam "quantos anos tens?" torna-se mais fácil porque não há cá confusões. Até ao dar uma estalada a alguém não erramos na idade! Os planos para o futuro são bastante simples: comer bollycaus a tempo inteiro e coleccionar os cromos. Espera, não é assim tão simples. De vez em quando, um carrinho ou um Action Man mete-se no caminho e escolher qual guardar é complicado. É o princípio do pensamento "nunca estamos satisfeitos com nada".
Com os 6 vem a ida para a escola primária, um dos momentos mais importantes da primeira década de vida. Finalmente aprender a ler, a escrever e a fazer contas como a gente crescida! Há os trabalhos de casa, considerados fixes nesta altura, o desejo de chegar ao meio do caderno ou acabar a tinta da esferográfica. As brincadeiras do recreio, as visitas de estudo, o dia mundial da criança! Nada parece impossível, o mundo é todo nosso.
Depois os 6, 7, 8, 9 anos passam de moda e o fixolas é ter 10 para mudar de escola e já ter dois dígitos de idade. Os TPC passam para a categoria do desinteressante e jogar à bola e pentear cabelos passam a ser os projectos de vida. Tudo o que está abaixo parece demasiado infantil, mas a verdade é que os Pokémons ainda andam no bolso das calças. Os anos vão passando e ter uma dezena ou dúzia de anos deixa de ser especial. Bom mesmo é ter os 16.
Com os 16 começamos já a fazer perguntas para além de "o que é que vai ser o jantar?". Compreendemos, por fim, que afinal as pessoas sempre tinham razão quando diziam que éramos insuportáveis na idade da parvalheira. As amizades ganham outra importâncias, o que passa por incluir mais pessoas do sexo oposto no grupo de amigos. Os temas de conversa vão mudando, percebemos que não somos o centro do mundo e que temos muito a aprender com os outros, desenvolvemos relações como nunca antes! E claro, há também os namoros. A maior parte não consegue durar o secundário todo, mas os desgostos amorosos não são tão graves como virão a ser, talvez porque a imaturidade misturou sentimentos e nunca chegámos a gostar verdadeiramente da outra pessoa, talvez porque a imaturidade nos faz acreditar que não há tempo para pensar em sentimentos.
Ter 16 anos é quase épico, mas o direito a consumir e a comprar bebidas alcoólicas em nada se compara à liberdade dos 18 anos. Por essa altura gozamos tudo a que temos direito, mas apenas parte daquilo que somos. Apesar de tudo, ainda somos bem capazes de revelar uma grande imaturidade quando fazemos não aquilo que realmente queremos e que traduz aquilo que somos, mas aquilo que toda a gente faz. Talvez por isso se diga que os 18 anos são a idade dos excessos. Os mais velhos são só velhos, que sabem eles sobre ser-se jovem? Negamos que a maioridade vem também acompanhada de mais responsabilidades.
Parece-me que no entanto é a partir daí que a variabilidade de personalidades aumenta. Já que vivemos mais de de 20% da nossa vida até faz sentido que assim seja. Decisões começam a ser feitas para que sejamos capazes de viver os restantes 80% mais perto daquilo que vamos idealizando. Se há quem procure seguir estudos, há quem opte por arranjar um emprego para tomar rédeas da sua vida mais cedo. Se há quem goste de farra, há quem seja mais pacato. Se há quem tenha encontrado um grande amor, se há quem goste de experimentar vários lábios por noite, há quem goste de estar sozinho, há quem goste de se queixar que está sozinho.
Parece-me que um dos marcos para os 18-20 anos é arranjar um namorado ou namorada. Isso é visto um pouco como a cura para todos os males e a não realização pode suscitar vários desencantos. Embora desvalorizem os filmes que viram quando pequenos, parece-me que querem acreditar que um namoro nesta idade já representará o "viveram felizes para sempre". Isso acaba por influenciar a atitude que se tem no dia-a-dia. Será que a necessidade de estabelecermos uma relação é assim tão grande? Seremos assim tão incapazes de usufruir mais da nossa própria companhia? Será que se torna impossível conhecermo-nos melhor sozinhos?
Dizem que vida há só uma. Dependendo daquilo em que acreditemos, poderá ou não haver uma só vida, mas isso não implica que tenha de haver pressas. Tendo por base a esperança média de vida, ainda temos 80% de vida pela frente. Porque haveremos de querer tudo ao mesmo tempo? Não estou a negar que estar acompanhado possa ser bom. Estou a dizer que fazer birras "quero estar acompanhado!" não é bom.
Tenho 19 anos e às vezes sinto-me demasiado diferente da grande maioria das pessoas que me rodeia na faculdade. Não gosto de farra e já faço muita pouca birra. Dizem que me conformei com a solidão, que penso como um velho e que isso não é bom. Não consigo concordar com isso. Não totalmente. É certo que não ser capaz de me achar semelhante às pessoas da minha idade contribui para as minhas fracas capacidades de socialização e isso não é bom porque cria uma distância cada vez maior e, um dia, poderei ser incapaz de contornar a situação. No entanto, de momento julgo-me ser capaz de apreciar melhor as pequenas coisas do dia-a-dia, como as pequenas gotas de chuva que hoje caem e que eu vejo como o ambiente perfeito para ir dar um passeio até ao parque da cidade. A minha companhia não me é assim tão nefasta e estar sozinho não me deprime assim tanto. Não para já.
Estar numa relação não é o meu objectivo dos 19 anos e por isso acabo por me concentrar mais no curso. Ele não será o meu final feliz, mas será um acontecimento importante. Até aqui sabia que depois da escola primária vinha o ensino básico e depois o secundário e o superior. O que para lá disso é-me desconhecido. É como se o mundo passasse a ser novamente plano. O curso dar-lhe-á algum sentido (assim espero). Se houver alguém com quem desbravar os continentes por descobrir e que me ajude a nomear as estrelas e os planetas que for descobrindo, será melhor. Talvez me torne no Sol de alguém e esse alguém se torne o meu Sol. Talvez assim a teoria heliocêntrica faça mais sentido.
(que lamechas, vou parar por aqui)