terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Seremos índios para a próxima


Quando não nos deixaram ir acampar para o jardim, acampar no céu pareceu a alternativa perfeita.

Levámos as coisas lá para cima e pousámo-las em cima de uma nuvem. Com o peso, elas atravessaram as nuvens como se estas não passassem de algodão doce. Apressámo-nos a juntar várias nuvens para dar mais consistência e assim suportar melhor os nossos apetrechos. Ainda demorámos um bom bocado porque tu quiseste provar nuvens e não te ficaste com uma só dentada. Encheste as mãos e levaste tudo à boca. Depois disseste:
“Um pouco de canela e ficava perfeito”

A seguir fomos montar a tenda e tivemos de subir bastante porque, uma vez aberta, a tenda ia funcionar como um pára-quedas. Atirei-a como se ela fosse um boomerang e voltámos a recorrer às meadas de nuvens para sustentar as estacas e os ferros. Conseguimos montar à 13ª tentativa, depois de acertarmos com a quantidade de nuvens a usar e com o tempo que demorávamos a coloca-las no sítio certo.

A fome veio pouco depois. Tive a ideia de usarmos a antena de casa como grelha para cozinharmos. Não tínhamos carvão nem fósforos, pelo que tivemos de improvisar. Deitámo-nos numa nuvem a pensar e chegamos à conclusão que em vez de carvão podíamos usar penas de pássaros.

Fomos então procurar um bando de gaivotas e assim que o encontrámos, tu gritaste que nem um louco por entre elas para as assustar e eu fiquei por baixo delas a apanhar as penas que lhes caíam com o susto. Repetimos isso várias vezes até termos uma quantidade considerável, depois ficamos na dúvida. Sempre quisemos um cocar de índios e nunca até então tínhamos reunido tantas penas – só faltava pintá-las, já que nenhuma apresentava as cores exuberantes que queríamos. Acabámos por decidir que arranjávamos mais penas numa próxima vez, naquele momento tínhamos era de comer porque estávamos cansados.

Quanto aos fósforos não foi muito difícil. Tínhamos os pauzinhos do Mikado e o Sol por perto. Caminhámos para ele com os braços estendidos. Não sabíamos a que distância os raios solares seriam suficientemente quentes para incendiar a ponta do pauzinho e assim, com os braços esticados, não corríamos o risco de queimarmos os pés. Mal víssemos fumo, corríamos para trás. Foi assim que tudo correu mal.

Incendiámos por acidente uma nuvem e o fogo rapidamente se alastrou à volta. Assustámo-nos, mas sabíamos que tínhamos de salvar a Lua que começava a aparecer. Corremos para ela e começámos a comer as nuvens à volta (engraçado, comer nuvens não enche) para criar uma área de segurança e assim que achámos que ela já estava safa, descemos para o telhado de casa.

Sentados numa telha, ficámos a ver o pôr-do-sol enquanto comíamos batatas fritas. Foram a única coisa que conseguimos resgatar das mochilas que ardiam lá em cima e entretiveram-nos até nos chamarem para jantar.

Combinámos que para a próxima não nos atrevemos a cozinhar. Levaremos já tudo preparado. E o frasco da canela.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Pessoas

A lista "pessoas que quero conhecer nesta vida" foi diminuída, já que três pessoas passaram para a lista "pessoas que quero ver mais vezes" [listas destas são complicadas de fazer porque às vezes surge facilmente vontade de conhecer pessoas mas o medo de depois não ser capaz de manter alguma relação com elas faz com que estejam constantemente a sair da lista (para depois voltarem a entrar)].

Acabei por conhecer outras pessoas, o que foi um desafio. Como ainda não tenho um atestado de inaptidão social nem faço questão de o ter, tentei integrar-me no ambiente. Penso que correu bem - fui pelo menos capaz de manter vários minutos de conversa com pessoas que não conhecia de lado nenhum e algumas eram até bem mais velhas do que eu. Confesso que algumas conversas foram completamente triviais ("então o que é que estudas?", "e o que é que faz?", "os tempos estão difíceis", "já nada é como era!", ...), mas quando não há nada em comum (afinal havia dois ambientes e num deles eu era um estranho completo) é o que se arranja. Ainda assim, usei adjectivos para prolongar as respostas curtas e não parecer que estava demasiado desinteressado. Reparei que havia gente bem pior do que eu no que toca a interagir com pessoas. O rapaz ao meu lado, por exemplo, não foi capaz de grunhir sequer, pelo que só fiquei a saber que ele gosta muito de brincar com o telemóvel. E não, eu não usei o telemóvel para escapar a conversas pouco interessantes!

Havia um senhor bastante simpático que não ligou aos 40 anos que nos separavam. Aproximou-se de mim e começou a falar como se até já me conhecesse. Nunca nos tínhamos visto, provavelmente nunca nos veremos a ver porque há vários países a separar-nos (ele ainda ficou com o meu mail, mas parece-me que liga mais ao Facebook e ficou chocado por eu não ter uma conta por lá), mas falou comigo mais do que muita gente que me vê todos os dias. Foi engraçado. Tinha olhos azuis claros atrás de uns óculos de massa e era mais jovem do que o rapaz de vinte e poucos anos que estava ao meu lado.

Há pessoas que rejuvenescem à medida que envelhecem. Terei de esperar para ver o que o futuro me reserva.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Só falta arrumar a secretária

Agora que os exames acabaram e me restam alguns dias sem que caiam mais folhas de apontamentos ao chão, está na altura de repor o stock de esferográficas azuis. Perdi a conta de quantas usei. Umas foram infiéis e só duraram umas semanas porque a tinta deixou de correr, outras tiveram um tempo de vida que lhes dava o direito de terem um nome, mas nunca fiz isso. No entanto, as perdas foram sempre devidamente sentidas e eu sempre fui fiel à caneta do momento. Nunca troquei o azul pelo preto e só tinha olhos para uma de cada vez.

Hoje lá andei a deambular pela casa, tentando decidir o que fazer. Vi que o Sol espreitava pela janela e por isso decidi que me ia deitar a ler. Lá fora estava frio, por isso fiquei do lado de dentro da varanda. A visão da areia do lado de lá do vidro fez com que trocasse a sweat por uma t-shirt e que fosse buscar os óculos de sol à gaveta. Era o mais parecido com um dia de Verão que conseguia, à excepção do gorro que me recusei a tirar. Durante umas horas vi a minha sombra mudar de página, de posição e de lugar, depois desapareceu.

Fui então lanchar. Coloquei compota nas tostas e pus o leite a aquecer no microondas. Fiquei a ver a malga girar lá dentro e quando ouvi o trim adicionei o chocolate em pó e os corn flakes. Os cereais dourados ficaram escuros, mas deliciosos. Sentei-me no chão, em frente à máquina de lavar roupa, e enquanto comia dei por mim a abanar a cabeça nalguma tentativa de acompanhar o movimento da roupa lá dentro. Foi estranho. Acho que férias me fazem mal.

Eras tu?

Diz-me, eras tu? Eras tu ontem à noite a tocar sucessivos Mis ao piano?

Estava deitado na cama, à espera que o sono viesse, mas em vez de ser invadido por sonhos nos quais ouvia um piano, fui invadido pelo som do piano, o que me fez pensar se serias tu. Fiquei parado a tentar descobrir em que compasso tocavas, se me convidavas para me juntar a ti para improvisar qualquer melodia que nos faria dançar pela casa ou se estavas a tentar embalar-me. Se essa era a tua sensação, não foste bem sucedido. Senti o meu coração bater mais depressa embora o som do piano fosse um lento, não um allegro. Saltei da cama e procurei-te. Não acendi a luz porque para te encontrar nunca foi preciso isso. És capaz de te esconder na luz porque tu próprio brilhas. Não estava ninguém ao piano e ao virar-me para voltar para o quarto, fui contra o armário. Fiz um arranhão e enquanto esperava que a dor passasse, resolvi que ia dar um passeio.

Desci até à praia, mas julguei estar num outro sítio. As nuvens estavam escuras e pareciam montanhas e a Lua estava bastante elegante. Se conseguisse chegar ao cume da montanha mais inclinada, acho que era capaz de usar a Lua como uma prancha para fazer ski. Como seria engraçado e assustador! Inexperiente como sou, facilmente cairia ao mar, o que seria perigoso. As ondas batiam nas rochas e lambiam-nas como se elas fossem um gelado, deixando-as salgadas. A espuma voltava para trás e tornava a comer as rochas. Devia ser uma boa refeição e eu fiquei com vontade de comer um gelado, mas não vi um vendedor por perto. Tive de me contentar a comer o ar (estava frio, por isso não era muito diferente de um verdadeiro gelado).

Quando o piano se silenciou, regressei a casa. Meti-me novamente na cama (não sem primeiro ver se alguém tinha mexido nas partituras) e senti o meu corpo aquecer-se debaixo dos cobertores. Depois adormeci e sonhei contigo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Metas

Parece-me que muita gente vive o dia-a-dia tendo por base um lema semelhante a "faça corresponder a cada idade um acontecimento". Estabelecer algo que queremos atingir pode ser bom e há, de facto, situações que marcam uma determinada etapa, mas a partir de uma certa idade (logo por sinal a minha) parece-me que os objectivos se tornam um pouco redutores e limitantes.

Quando pequenos, os 5 anos parecem ser a idade perfeita. Finalmente uma mão cheia! O processo de esticar dedos quando nos perguntam "quantos anos tens?" torna-se mais fácil porque não há cá confusões. Até ao dar uma estalada a alguém não erramos na idade! Os planos para o futuro são bastante simples: comer bollycaus a tempo inteiro e coleccionar os cromos. Espera, não é assim tão simples. De vez em quando, um carrinho ou um Action Man mete-se no caminho e escolher qual guardar é complicado. É o princípio do pensamento "nunca estamos satisfeitos com nada".

Com os 6 vem a ida para a escola primária, um dos momentos mais importantes da primeira década de vida. Finalmente aprender a ler, a escrever e a fazer contas como a gente crescida! Há os trabalhos de casa, considerados fixes nesta altura, o desejo de chegar ao meio do caderno ou acabar a tinta da esferográfica. As brincadeiras do recreio, as visitas de estudo, o dia mundial da criança! Nada parece impossível, o mundo é todo nosso.

Depois os 6, 7, 8, 9 anos passam de moda e o fixolas é ter 10 para mudar de escola e já ter dois dígitos de idade. Os TPC passam para a categoria do desinteressante e jogar à bola e pentear cabelos passam a ser os projectos de vida. Tudo o que está abaixo parece demasiado infantil, mas a verdade é que os Pokémons ainda andam no bolso das calças. Os anos vão passando e ter uma dezena ou dúzia de anos deixa de ser especial. Bom mesmo é ter os 16.

Com os 16 começamos já a fazer perguntas para além de "o que é que vai ser o jantar?". Compreendemos, por fim, que afinal as pessoas sempre tinham razão quando diziam que éramos insuportáveis na idade da parvalheira. As amizades ganham outra importâncias, o que passa por incluir mais pessoas do sexo oposto no grupo de amigos. Os temas de conversa vão mudando, percebemos que não somos o centro do mundo e que temos muito a aprender com os outros, desenvolvemos relações como nunca antes! E claro, há também os namoros. A maior parte não consegue durar o secundário todo, mas os desgostos amorosos não são tão graves como virão a ser, talvez porque a imaturidade misturou sentimentos e nunca chegámos a gostar verdadeiramente da outra pessoa, talvez porque a imaturidade nos faz acreditar que não há tempo para pensar em sentimentos.

Ter 16 anos é quase épico, mas o direito a consumir e a comprar bebidas alcoólicas em nada se compara à liberdade dos 18 anos. Por essa altura gozamos tudo a que temos direito, mas apenas parte daquilo que somos. Apesar de tudo, ainda somos bem capazes de revelar uma grande imaturidade quando fazemos não aquilo que realmente queremos e que traduz aquilo que somos, mas aquilo que toda a gente faz. Talvez por isso se diga que os 18 anos são a idade dos excessos. Os mais velhos são só velhos, que sabem eles sobre ser-se jovem? Negamos que a maioridade vem também acompanhada de mais responsabilidades.
Parece-me que no entanto é a partir daí que a variabilidade de personalidades aumenta. Já que vivemos mais de de 20% da nossa vida até faz sentido que assim seja. Decisões começam a ser feitas para que sejamos capazes de viver os restantes 80% mais perto daquilo que vamos idealizando. Se há quem procure seguir estudos, há quem opte por arranjar um emprego para tomar rédeas da sua vida mais cedo. Se há quem goste de farra, há quem seja mais pacato. Se há quem tenha encontrado um grande amor, se há quem goste de experimentar vários lábios por noite, há quem goste de estar sozinho, há quem goste de se queixar que está sozinho.
Parece-me que um dos marcos para os 18-20 anos é arranjar um namorado ou namorada. Isso é visto um pouco como a cura para todos os males e a não realização pode suscitar vários desencantos. Embora desvalorizem os filmes que viram quando pequenos, parece-me que querem acreditar que um namoro nesta idade já representará o "viveram felizes para sempre". Isso acaba por influenciar a atitude que se tem no dia-a-dia. Será que a necessidade de estabelecermos uma relação é assim tão grande? Seremos assim tão incapazes de usufruir mais da nossa própria companhia? Será que se torna impossível conhecermo-nos melhor sozinhos?

Dizem  que vida há só uma. Dependendo daquilo em que acreditemos, poderá ou não haver uma só vida, mas isso não implica que tenha de haver pressas. Tendo por base a esperança média de vida, ainda temos 80% de vida pela frente. Porque haveremos de querer tudo ao mesmo tempo? Não estou a negar que estar acompanhado possa ser bom. Estou a dizer que fazer birras "quero estar acompanhado!" não é bom. 

Tenho 19 anos e às vezes sinto-me demasiado diferente da grande maioria das pessoas que me rodeia na faculdade. Não gosto de farra e já faço muita pouca birra. Dizem que me conformei com a solidão, que penso como um velho e que isso não é bom. Não consigo concordar com isso. Não totalmente. É certo que não ser capaz de me achar semelhante às pessoas da minha idade contribui para as minhas fracas capacidades de socialização e isso não é bom porque cria uma distância cada vez maior e, um dia, poderei ser incapaz de contornar a situação. No entanto, de momento julgo-me ser capaz de apreciar melhor as pequenas coisas do dia-a-dia, como as pequenas gotas de chuva que hoje caem e que eu vejo como o ambiente perfeito para ir dar um passeio até ao parque da cidade. A minha companhia não me é assim tão nefasta e estar sozinho não me deprime assim tanto. Não para já.

Estar numa relação não é o meu objectivo dos 19 anos e por isso acabo por me concentrar mais no curso. Ele não será o meu final feliz, mas será um acontecimento importante. Até aqui sabia que depois da escola primária vinha o ensino básico e depois o secundário e o superior. O que para lá disso é-me desconhecido. É como se o mundo passasse a ser novamente plano. O curso dar-lhe-á algum sentido (assim espero). Se houver alguém com quem desbravar os continentes por descobrir e que me ajude a nomear as estrelas e os planetas que for descobrindo, será melhor. Talvez me torne no Sol de alguém e esse alguém se torne o meu Sol. Talvez assim a teoria heliocêntrica faça mais sentido.
(que lamechas, vou parar por aqui)