segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A rapariga

Hoje, naqueles mesmos jardins onde já estive sozinho durante bastante tempo, viam-se imensas pessoas. Rapazes e raparigas aos pares de mão dada, a andarem de um lado para o outro. Quando vi um rapaz com uma rosa na mão e a entregá-la a uma rapariga, interroguei-me se me tinha enganado na data e se hoje já era dia 14, mas o meu jantar é só amanhã pelo que não tinha baralhado o calendário. Deduzi que aqueles dois tiveram de antecipar os planos. Receei que o meu lugar do costume estivesse ocupado, mas à medida que me aproximava reparei que não havia ninguém por lá, apenas uma gaivota que via o Sol a boiar sobre o rio. Isso tranquilizou-me porque senão teria de dar uma descompostura aos casalinhos e dizer que não tem jeito nenhum eles só aproveitarem os encantos do Jardim quando está Sol e que dado que eu era cliente durante o ano todo, mesmo quando chovia, tinha prioridade e queria o meu lugar.

Sentei-me no muro, tirei o livro da mochila, rodei sobre a pedra para poder ficar com os pés a baloiçar no ar e foi aí que a vi. Uma rapariga, sozinha, sentada no relvado de baixo com as costas apoiadas no muro a ler, de gorro e óculos de sol, mas descalça e sem meias, com uma perna esticada enquanto a outra desenhava um acento circunflexo. Estava imóvel, como se já lhe tivessem nascido raízes e ela fosse parte integrante do verde, mas estava de branco, pelo que deduzi que era antes neve compacta. O cabelo era empurrado pelo vento, mas parecia que isso não a atrapalhava. Só se mexia para mudar de página.

Pensei em descer até junto dela e perguntar-lhe se me podia sentar ao lado dela. Se a resposta fosse afirmativa, perguntava-lhe quantas páginas tinha o livro dela [quando os primos pequenos vêm cá a casa e me vêem a ler, não me perguntam como se chama o livro ou de que trata, mas sim quantas páginas tem. E quando eu lhes pergunto que livros já leram, nunca sabem o nome, só o número de folhas] e depois mostrava-lhe o meu. Poderíamos assim iniciar o clube de leitores do Jardim!

Não tive coragem. A bota dela estava ao alcance da mão, pelo que poderia tentar atirá-la à minha cara se achasse que me estava a fazer a ela. Continuei então lá em cima a ler, a vê-la ler, a ouvir os casalinhos que passavam atrás de mim, a aproveitar o vento que me virava as folhas.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Miúdos

Mãe, olha a grruca! gritou a menina na estação, apontando com o dedo para o túnel do Metro.
Gruta, corrigiu a mãe e continuaram a andar para abandonarem a estação.
Eu lembro-me das viagens de comboio em que a mãe dizia “agora vai ficar noite e por isso têm de dormir. Boa noite!” quando nos aproximávamos dos túneis. Eu e os meus irmãos riamo-nos, mas depois fechávamos os olhos e tentávamos prolongar o escuro do lado de fora. Acho que nunca conseguimos aguentar muito tempo porque depois algum de nós soltava uma gargalhada e voltávamos a ficar eufóricos por tudo lá fora correr muito rápido enquanto nós estávamos sentados. Às vezes ainda fecho os olhos e torno-me cúmplice da noite encenada por falta de iluminação. Quando ouço os risos, sorrio e sei que é dia novamente.



Havia algo de diferente no andar dela. Não estava apressada nem seguia em linha recta, ia antes… a dançar enquanto andava. Desfilava sem preocupações e tinha um sorriso nos olhos porque a boca abria e fechava. Sim, ela estava a cantar. Era cá das minhas. Passamos lado a lado e ela não reparou em mim. Podia ter-lhe feito concorrência naquele corredor, já que também eu seguia caminho com música nos ouvidos e não me importava com a maneira como os meus pés pisavam o chão e até me servia dos dedos e das mãos para fazerem de bateria, mas não o fiz. Assumi o papel de espectador e ainda me virei para trás para a ver novamente entretida a apreciar o momento. Depois segui caminho, meio envergonhado. Não era capaz de igualar o porte dela.



Ao ouvir o som da máquina de escrever, dos pratos a serem estilhaçados e dos livros a serem rasgados por um grupo de gorilas aproximei-me do ecrã no meio da loja. Aquela era das minhas músicas preferidas do filme quando eu tinha quê, 8 anos? Agora estava com mais dez em cima, mas não deixei de trautear a melodia como dantes fazia, tentando acertar nos shooby doop e nos dobby dop. Ao meu lado, um miúdo com menos de 8 anos apertava o comando da PS3 e disparava freneticamente contra a parede manchada de sangue que aparecia no ecrã dele. Estranho...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Nem o Charlie Bartlett sonhava com isto!


Eu só sonho a partir dos 4:37 e até aos 5:05

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Pela Cedofeita

Apesar do frio, é sempre bom sair à rua e deliciarmo-nos com as situações que vão tomando lugar numa simples caminhada.

Hoje lá ia eu na rua, com as mãos nos bolsos para as manter quentes enquanto trauteava uma música qualquer como habitual. À minha frente e a vir em direcção a mim seguia o trio filha, mãe, avó. A pequena devia ter uns 6 anos e vinha a dançar enquanto as senhoras mais velhas conversavam. Pensei para mim que alguém lá em cima deveria ter feito de propósito para que nos cruzássemos. Eu cantava, a menina bailava, a mãe e a avó eram as espectadoras que assistiam em silêncio à nossa actuação e que de tão fascinadas que ficavam não se atreviam a bater palmas. Seria um bom cenário, mas nada aconteceu dessa maneira.
Quando estávamos à distância de duas pernas minhas, a menina imobilizou os braços e ficou a olhar para mim com a boca meia aberta. Li-lhe os pensamentos: “este rapaz deve ser tolinho para ir a falar sozinho!”. Confirmei tal pensamento começando a sorrir e reduzi a distância para um passo. Olhei para as senhoras e vi que elas pararam de falar e que também olhavam para mim embasbacadas. Não devem ter ficado com dúvidas quando me viram rir.

Aquecido por esta boa disposição, segui o meu caminho. Mais à frente encontrei o acordeonista do costume. Ainda não foi desta que tocava algo que eu conhecia de ouvido, mas hoje batia o pé, fazendo vibrar uns pratos que tinha preso à sola. Parei a ouvi-lo e quando terminou, abri o porta-moedas. Uma moeda caiu e vi-a rolar pelo chão. Parou debaixo do pé do músico; era a prova de que a merecia. Apanhei-a e pousei-a na caixa do instrumento. O senhor sorriu-me e iniciou uma nova música.

Já alguém tinha sorrido comigo, pelo que já havia dois tolinhos na rua. Sorri de volta e continuei a andar. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pesadelos

Já não os tinha há bastante tempo ou pelo menos nunca me tiraram o sono ou fizeram andar às voltas como ontem. Talvez em parte eu seja responsável por isso ter acontecido já que me deitei com o pensamento na cabeça, mesmo sem ter a certeza de que ele tinha todos os critérios para realmente ser mau. O cérebro alimentou-se do que quer que circulasse no sangue, o que me deu fome. Pensei em levantar-me e ir até à cozinha, mas sabia o que os armários tinham e sabia que não iam tranquilizar-me. O que eu não sabia era o que me deixava assim.
Como um verdadeiro pesadelo, andou cá durante o resto do dia. Silenciou os relógios ao ponto de o dia parecer nunca mais passar, mas não silenciou as vozes na cabeça nem os sons cardíacos. Tentei averiguar se havia razões para estar assim, mas não sei até que ponto isso é possível. Talvez eu tenha tido um pesadelo no qual tive o pesadelo.

O que é que eles pensam? O que é que eles sabem? Eles existem?

Agora talvez o cansaço provocado vença um possível pesadelo. Tentarei a minha sorte.