terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

tu...

-Um, dois, três! 

Saltavas da cama e arrastavas-me contigo. Dizeres os números era o feitiço contra a preguiça que nos deixava entorpecidos. Só assim nos conseguíamos levantar e deixar os lençóis que pareciam insistir em ser a nossa roupa do dia. Em seguida, dançavas sempre qualquer coisa para despertares completamente. Eu demorava a completar essa parte porque assim dava-te tempo para ires até cozinha e dares pela falta do pão. 

-Se não há vai comprar! – dizia eu. 
-Vai tu! – respondias. 
-Eu disse primeiro! E despacha-te que eu tenho fome. –  respondia de volta. 

Dizia aquilo para te provocar. Queria saber se te atrevias a sair de roupão e chinelos de quarto até à padaria da frente. Tu nunca viste isso como um desafio. Saías descontraidamente e se alguma criança a caminho da escola te estranhasse (“já é Carnaval?”) ou fizesse troça, punhas-lhe a língua de fora e adoptavas um passo galante que deixava sempre os miúdos embasbacados. Nunca fraquejaste, mas é claro que depois me testavas a mim. Comias os melhores pães (fofos e quentes, barrados com muita manteiga) e eu ficava com os demasiado estaladiços ou mais queimados (que enchia de compota). Também eu nunca me queixei. Era o preço a pagar pelo espectáculo que tu me proporcionavas. Observava sempre aquele teu desfile em roupas pouco típicas na rua da janela com entusiasmo e quando te ia abrir a porta de casa deixava-me ficar encostado à porta a ouvir-te a assobiar. Os pássaros que se abrigavam no parapeito da janela pareciam escutar-te, mas na verdade era eu e só eu que ficava deslumbrado contigo. Descobriste a clave, o compasso, a tonalidade, o andamento e o timbre com que eu vivia e sentia as coisas, pelo que ao ouvir-te eu ouvia o mundo. 

Por vezes não cantavas. Algo na rua silenciava a tua boa disposição. Eu sentia-o também porque o eco dos teus passos soava diferente, mais pesado. Sentavas-te num degrau das escadas e respiravas profundamente. Eu ia buscar-te. Sentava-me ao teu lado e abraçava-te. Ficávamos assim durante algum tempo que eu contava pelas batidas do teu coração. 9. Depois das 9 tu soltavas-te do abraço e lançavas um desafio: 

-O primeiro a chegar lá acima fica com o croissant de chocolate! 

Havia sempre mais do que um croissant, por isso não era preciso correr. Subíamos a pé coxinho e ríamo-nos quando algum inquilino do prédio nos via e fazia uma cara de desagrado. 

Nas vezes em que eu sonhava que tinha sido levado por um buraco negro tu nunca me deixavas sair de casa sem um sorriso na cara. Dizias tu que enquanto os meus lábios não se afastassem e os meus olhos não brilhassem da maneira como tu gostavas eu estava nu e, por isso, não podia sair à rua porque poderia ferir a susceptibilidade das pessoas. Punhas-te entre mim e a porta e começavas a fazer caretas. Isso era o suficiente para eu sorrir, mas às vezes ficávamos a jogar ao jogo do sério. Nunca resisti muito tempo. Em poucos segundos estava a rir-me. Abrias então a porta e desejavas-me um bom dia. 

Quantos nus via eu na rua. Era triste (acho que era isso que te desanimava quando vinhas da padaria) e eu cumprimentava-as na esperança de que elas saíssem dos seus próprios buracos negros. Acho que nunca fui capaz de sorrir como tu. 

E agora sinto eu falta do teu sorriso e por isso faço o que me ensinaste. Ligo a torneira quente da banheira, espero que o quarto de banho fique cheio de vapor, ponho-me em frente ao espelho embaciado e contorno os meus olhos e boca no reflexo. Imagino que estás ali comigo e conto-te as peripécias do dia. Enquanto o vapor se mantém esqueço um pouco a solidão, mas quando ele se esfuma constato que os meus pensamentos existem, mas não são reais.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Aquecimento global

Um dia hei-de ir à biblioteca requisitar um livro de astronomia que me ensine a reconhecer as constelações para que em noites como as de hoje, em que me fui deitar na praia, saiba ler as histórias que o céu conta.

Ou talvez não.

Continuarei a inventar as minhas constelações e é certo que posso não saber para que lado fica o Norte, mas desde que encontre a minha Ursa Apolar encontro-me a mim.

Pelo menos quase sempre.

A Ursa Apolar nem sempre é fiel ao que me disse aqui há uns tempos. Às vezes não está muito bem sozinha a refrescar-se à chuva e pergunta-me pelo urso que eu tinha dito que podia tentar encontrar. Outras vezes diz que preferia ser uma foca porque essas são mais despreocupadas. Às tantas perco-me com aquelas conversas com ela, mas acho que já estava antes perdido com as conversas com pessoas. De vez em quando aquilo que ouço aloja-se na cabeça e faz com que pense de forma diferente do habitual.

Ver romances à noite provoca-me isso.

Acho que a Ursa às vezes se regozija com o automóvel que bate nas personagens. Deve ser a maneira dela encarar o degelo constante da vida dela.

Felizmente há chuva para ela se refrescar e ficar bem.

Um dia hei-de ir à biblioteca requisitar um livro de artes que me ensine a dança da chuva.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Reencontro

Há um ano conheci duas meninas, irmãs. Dois anos separavam-nas no friso cronológico, mas os sonhos característicos daquela tenra idade uniam-nas. Encontrei-as no dia seguinte e assim que me viram, a recomendação da mãe “deixem o rapaz em paz que ele já não tem a vossa idade” revelou-se um desperdício de palavras. Também não repararam que às vezes eu fingia cansaço para me ausentar um bocado ou então fizeram de propósito. Queriam seguir-me para todo o lado naqueles dias de férias e o resultado foi que me puseram a jogar Nintendo DS, a partilhar os meus chocolates, a rebolar na areia e a procurar búzios e concha para lhes oferecer, a cantar e a dançar. 

Há pouco estava a caminhar quando me pareceu ver duas meninas, uma de cada lado de uma senhora, uma com óculos e cabelo à tigela e outra mais pequena, mais envergonhada e de cabelo ondulado. Voltei a olhar para trás e vi que também elas me reconheceram. Sorriam-me com o mesmo sorriso de há um ano (ou talvez não. Não pude contar os dentes que via e por isso não sei se entretanto lhes cresceram ou caíram mais dentes) e eu sorri de volta (um sorriso grande à mesma, mas já com mais dentes do siso). 

Não pude parar para falar com elas, mas acho que naqueles sorrisos todos nos encontramos e brincamos novamente. Ainda temos todos idade para brincar.

Já me esqueci do nome delas, o que é uma vergonha da minha parte, mas ao contrário do que aconteceu com a Sara ainda me lembro da cara delas. Serão todas Sara até descobrir como cada uma se chama e lembrar-me-ei delas sempre delas três como as meninas que me fazem voltar a ser criança. O Peter Pan tem mesmo de começar a trazer meninas para a Terra do Nunca e a deixar de ter ciúmes delas.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Tenho de fazer a lista dos cadernos a comprar para a faculdade

Hoje disseram-me que estou no topo de algo parecido com a minha lista de "pessoas que quero conhecer" e eu fiquei de boca aberta. Tinha acabado de dizer à pessoa que não a queria conhecer e ela vem-me com aquilo. Meto-me em cada uma!

Da minha lista já risquei mais uma pessoa que estava lá há muito tempo (:D) e já que estava com a mão na massa risquei mais outra que entretanto fora adicionada (:P). A lista está assim quase vazia. Restam dois nomes. Ou talvez só um, já que um é um mero capricho.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012