sábado, 10 de março de 2012

Insolação

Em dias como os de hoje, em que posso usar os meus ténis preferidos sem que me digam que vou ter frio com eles, apetece-me atravessar a casa até à varanda a dançar charleston, saltar em mortal seguido de umas quantas piruetas para mergulhar numa piscina. Sou capaz de imaginar um júri a avaliar o meu mergulho para a piscina em 10.0 e um sundae de morango à minha espera no balneário.
O que acontece na realidade é que me ponho a tentar dançar algo parecido com charleston no quarto, de porta fechada para ninguém saber que não tenho jeito ou chamar-me louco, entre os intervalos do estudo porque não há piscina nenhuma nem sequer um gelado no congelador que me faça ir até à cozinha.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Os horóscopos contam histórias

Todos os dias há alguém na faculdade que lê o horóscopo à hora do almoço. É costume rirmo-nos com aquilo, mas reparámos que de tempos a tempos os avisos eram bastante parecidos. Havia pelo menos um dia  na semana que aparentemente tinha dores de coluna! Resolvi estar mais atento naqueles momentos de leitura profunda e apercebi-me que poderia muito bem ser uma personagem de várias histórias. Ora vejamos: 

Dia 1-03-2012 
Amor: Organize um jantar para juntar os seus amigos. 
Saúde: A rotina poderá levá-lo a estados depressivos. 
Dinheiro: Não se precipite nos gastos. 

Dia 07-03-2012 
Amor: Esteja alerta, o amor poderá surgir. 
Saúde: Controle mais as emoções, pois o seu sistema nervoso anda alterado. 
Dinheiro: Não se precipite nas suas compras, pode sair prejudicado. 

Considerando uma periodicidade de 6 dias, as coisas até batem certo. Há seguimento na história! Iupi! Mas haverá alguma verdade? 

Não organizei jantar nenhum, mas a verdade é que tinha combinado com algumas amigas da faculdade uma ida ao café à noite e por lá estivemos na conversa umas horinhas a conversar. Não me parece que o amor vá surgir aí, pelo menos não da minha parte. Se alguma das raparigas se interessar por mim será complicado… Tenho de ver se há relação entre as histórias do horóscopo delas com as minhas. 

Tenho também de admitir que a rotina me tem levado a estados depressivos, o que é resultado de um certo descontentamento do presente. Pois, o embrulho do presente nem sempre me agrada, tudo depende de como controlo as emoções… O meu presente é muito semelhante ao de muita gente da minha idade e já que elas não parecem incomodar-se tanto com isso, então talvez eu devesse fazer o mesmo. Isso é complicado porque é em grande parte o efeito colateral da minha tendência exagerada para pensar, coisa que é bastante difícil de alterar. Penso no possível e no impossível, no plausível e no absurdo, perco-me em sonhos e descarrego na realidade. Um bem-estar momentâneo é bom, mas não me agrada assim muito porque não sabe àquilo que imagino na minha cabeça. Quero mais. Quero saber que ele será duradouro, quero ser capaz de dizer que o dia não podia ter corrido melhor e que não desejo que as coisas sejam diferentes. Se conseguir isso, então a rotina não me afectará mais! 
Até os pavões do jardim se fartam da rotina, por isso é que de vez em quando saem da relva e se põem nas escadas da biblioteca! E quando isso acontece eu fico a desejar que um se resolva a formar um leque com as suas penas. Um atendeu às minhas preces no outro dia e um outro veio comer à minha mão! 

Quanto ao dinheiro, acho que não me tenho precipitado nos gastos. Comprei um livro a semana passada. Será que lhe falta um caderno pelo meio? Será que foi uma compra precipitada?

quinta-feira, 8 de março de 2012

ao fim da tarde,

depois de me ter inscrito como dador de medula óssea (finalmente!) e da senhora ter agradecido com um grande sorriso o meu gesto, vim para casa devolver vermelho ao meu corpo.
Peguei no frasco com o que sobrava da compota de morango e fui para a varanda comê-la. Não levei colher, pelo que tive de movimentar o frasco como se estivesse a beber por ele. Ao fazê-lo, a compota escorregou e o fundo perdeu a cor vermelha para ficar branco. Inconscientemente tinha apontado o frasco para a Lua, de modo que ela era o fundo do recipiente. Usei-o como monóculo para a ver melhor. A sua luz distorcia-se e desfocava-se ao atravessar o vidro e os restos de doce, mas chegava até a mim e fazia-me sorrir.
A Lua há-de sempre ser uma mulheraça e deixar-me deslumbrado! Apatetado a olhar para ela através do frasco, encostei-o ao olho e desenhei um círculo de compota na cara que ma deixou pegajosa. Rimo-nos os dois.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Guerras

Lembras-te do dia em que acordámos com o Buddy Holly a cantar Everyday na rádio?

Não foi preciso contares até três para combatermos a preguiça porque levaste logo com a almofada na cara e como eu não queria esperar pela resposta já tinha saído do quarto quando te levantaste. O cão assustou-se com as nossas gargalhadas e veio até ao quarto espreitar e ladrar como que a dizer “mas vocês não crescem?!”, mas eu encurralei-o, e ele a mim, no corredor. Enquanto o meu cérebro pensava no que deveria fazer, já tu vinhas atrás de mim para te vingares. Por engano entrei no quarto-de-banho e para me proteger dos teus ataques peguei no chuveiro. Estava completamente louco para ligar a água fria e apontá-la para ti! Havias de ver a tua cara quando levaste com um jacto na cara! Aquilo até as remelas te limpou! Esticaste o braço e fizeste com que eu me molhasse um pouco, porque já eu passava por ti e entrava na cozinha. 

Não me parecia que íamos tomar um pequeno-almoço relaxadamente. Perseguias-me à volta da mesa e, enquanto isso, íamos preparando o pão. As migalhas espalhavam-se por todo o lado e deixámos cair compota. Pedi-te que me passasses uma tosta e tu deste-lhe uma trinca antes de ma passares. Que truque baixo! Quando me pediste a compota fiz questão de comer os pedaços inteiros de morango. Olho por olho, dente por dente. Foi um pequeno-almoço relâmpago, interrompido por muita tosse porque nos engasgámos frequentemente a comer. As regras do jogo obrigam-nos a comer, andar, sorrir e fazer cara má ao mesmo tempo. Foi complicado quando começámos a jogar. Lembras-te daquela vez que eu tropecei na cadeira e puxei a toalha da mesa e parti tudo? Ou quando tu te riste enquanto bebias o leite e sujaste tudo? Sorrio ao pensar nisso.

Depois de não sei quantas voltas pela cozinha, saí disparado pelo corredor contigo no meu encalço. Cheguei à sala, saltei por cima dos sofás (lembro-me de te ouvir dizer: “o quê, agora andas a treinar para os Jogos Olímpicos?”), abri a janela e fui para o quintal. Pensavas que me ias ganhar porque fechando a janela eu não tinha por onde escapar, mas enganaste-te. E eu também me enganei se pensava que era o justo vencedor por ter conseguido atravessar a casa de uma ponta à outra sem encontrar resistência a sério. Os aspersores da rega ligaram-se e fomos os dois atingidos. Rimo-nos e o cão ladrava. Ele tentava escapar da água, mas nós, completamente encharcados, decidimos aproveitar.

Deitámo-nos na relva e rebolámos. Quando estávamos zonzos ficámos a ver a difracção da luz nas gotas de água através da qual se formavam inúmeros arco-íris. Dizem que na ponta do arco-íris há um tesouro, mas o meu tesouro estava ao meu lado e assim continuou mesmo quando a rega parou. Olhei para ti para o confirmar e levei com água na cara. Devia ter-me lembrado que gostavas de imitar o Squirtle e fazer a pistola de água. Rimo-nos disso e ficámos estendidos a secar ao Sol. Sentir a terra a ficar dura nos pés e as pernas a aquecerem era agradável. Até a comichão provocada pelas formigas a caminharem pelos braços era boa. Estendi-te a mão e tu amarraste-a. Que erro tão grande o meu! Saltaste para cima de mim e começaste a fazer-me cócegas. 

-Rende-te! 
-Nunca! 
-Rende-te! Quem é o vencedor? Eu ou tu? 
-Eu! 
-Quem? 
-TU! 

Não suporto cócegas. Que tortura! 

-Ah, eu bem sabia! 

Ainda recuperava das cócegas, pelo que só consegui deitar-te a língua de fora. Fizeste-me o mesmo e depois deitaste-te com a cabeça apoiada na minha barriga.

A guerra tinha acabado. Venceste-a. Eu não me importava, desde que estivesses comigo.

Contigo eu não me importava que os dias fossem todos iguais. 

Contigo viver 80 anos parecer-me-ia pouco. 

Contigo cada dia seria uma festa.

domingo, 4 de março de 2012

tinha assobiado com ele pela manhã

                            
                                                                    



Andrew Bird, o solitário, confessa que voltou a "acreditar nas pessoas":
«Ser auto-suficiente, como fui durante dez anos, em que não precisei de uma banda e conseguia viajar pelo mundo, funciona até chegar a um ponto em que te perguntas: ‘e então?' Podes massajar as tuas próprias costas, mas não te sabe ao mesmo. E não podes quebrar o teu próprio coração [o título ‘Break it yourself', é sobre essa impossibilidade]". Percebeu-o "algures" na Bélgica, por altura de "Noble Beast", quando se sentiu "atingir o ponto zero": "Imaginei se havia um limite para tudo o que pudesse pôr cá fora e era notório que o tinha atingido. Zero. Estava a esvaziar-me de mim todas as noites e apercebi-me da claridade que surge de estar tão vazio. Algo aconteceu a partir desse momento".»

Dia 5 de Março sai o novo álbum, "Break It Yourself". Vamos ver se daqui a uns tempos o ando a assobiar na rua e se entretanto também me perguntei 'e então?'. De momento as pessoas que habitam na minha cabeça parecem-me melhores do que a maioria das que tomam um corpo e uma voz que não a minha...