quarta-feira, 28 de março de 2012

The kids are all right

Na rua as crianças andam aos saltinhos e fazem-me sempre recordar os tempos do infantário em que se cantava: 

De olhos vermelhos, 
De pelo branquinho, 
Dou saltos bem altos, 
Eu sou o coelhinho! 

Comi uma cenoura 
Com casca e com tudo, 
Ela era tão grande 
Que eu fiquei um barrigudo! 

Aos saltos para a frente, 
Aos saltos para trás, 
Eu sou o coelhinho 
De que tudo sou capaz! 

Talvez os pensamentos dela sejam uma música que lhe dás vontade de dançar permanentemente. Eu tenho também o hábito de cantar para que o tempo passe mais depressa. Já o fazia nas aulas de educação física, quando era teste de resistência e tínhamos de correr 12 minutos. Eu cantava para ter uma ideia do tempo que já tinha passado. Umas 4-5 canções eram o suficiente. Agora canto (ou murmuro – tudo depende das pessoas que tenho por perto) nas mais diversas situações, mas os meus pensamentos não são música permanente. Por vezes são coelhomens que comem a minha serotonina e me deixam pequenino. 

As crianças têm também o costume de olharem fixamente para as pessoas com quem se cruzam até o pescoço já não poder rodar mais. Quando eu sou a vítima do teste de resistência do esternocleidomastoideu costumo pôr-lhes a língua de fora ou piscar o olho. Algumas coram de vergonha e desatam a correr, outras fazem-me igualmente caretas, o que acaba sempre por terminar com um sorriso. Já com a gente crescida o máximo que consigo é um cumprimento por engano (acho que às vezes me vêem rir sozinho ou cantar e pensam que as estou a cumprimentar, pelo que ao passarem por mim dizem-me timidamente “olá!”). Sempre que isso acontece eu dou uma gargalhada interna e sigo caminho. 

E as crianças sabem fazer da chuva um parque aquático e eu não. Tenho de me contentar em esperar pelas 13h das segundas-feiras, hora em que aparentemente ligam os aspersores da relva da faculdade, e pôr-me lá à beira para me molhar. Se estiver encostado à pedra da esquina na rua até parece que chove porque o regador do andar de cima, ao dar a volta, projecta água para os lados que acaba por fazer um arco íris e molhar-me. E eu sorrio.

sábado, 24 de março de 2012

Fósseis

Olho para o relógio e conto os segundos. Os segundos somam-se e formam minutos que agrupados aos molhos de 60 dão uma hora. As horas dão dias, que se tornam em meses e eventualmente passam-se anos. 

Um ano passou desde que comecei a escrever aqui. E nesse tempo muitas coisas passaram-me pela cabeça. Umas perderam-se no movimento dos ponteiros do relógio ou foram engolidas pelo cuco que espreita de vez em quando, outras sentaram-se e acomodaram-se neles e acompanham-me desde essa altura. Confirmei isso quando no outro dia li aleatoriamente alguns textos aqui publicados e me apercebi de que poderia mudar a data em que eles foram escritos para a actual e eles ainda assim continuariam a fazer sentido. Pelo menos para mim. Quanto a outros rio-me pela estupidez do seu conteúdo (basicamente rio-me da minha estupidez) e outros parecem-me escritos por outra pessoa que não o eu de agora. 

No início fazia da minha homossexualidade um bicho-de-sete-cabeças e as hormonas andavam aos saltos com o início da Primavera. Estar sozinho custava e fiz sei lá quantas vezes a birra “quero ter alguém!”. Ao longo do passeio com o tempo isso mudou e, a bem ou a mal, houve pessoas que conheci pelo caminho que também contribuíram para isso. Agora sou eu o bicho-de-sete-cabeças e os conflitos internos são bem maiores do que a homossexualidade (onde já vai essa!) e são-no assim porque na minha cabeça não há limites para o pessimismo, confusão, complicação e incoerência das minhas ideias.

(K, “Life could be simple but you never fail to complicate it every single time!”)

Pensando no bem maior, isolar-me não me parece agora tão descabido já que a minha companhia deixou de me ser desagradável e será melhor para todos se não se criarem laços que poderão ser causa de transtorno porque servirão de amarras ou serão motivo de descontentamento. Nessa minha companhia posso ainda dar tranquilamente passeios à chuva, posso comer sozinho a compota de morango, posso devorar as bolachas de chocolate sozinho, posso dançar com a Ursa e falar sozinho, posso sonhar com situações que gostava que fossem reais mas que só serão realidade na minha cabeça porque se lá tudo pode ser estúpido é igualmente verdade que pode ser tudo como eu quero já que eu controlo as variáveis todas. É claro que há efeitos secundários. A realidade fora da minha cabeça parece-me cada vez mais desinteressante e em compensação o que tenho na cabeça torna-se cada vez mais apetecível, de modo que se instala um desencanto duplo. Por um lado devido à frustração com a realidade, por outro devido à frustração dos pensamentos serem só pensamentos.

(Pois, realmente eu nunca falho nisso...)

Eu gostava de ser capaz de viver um dia de cada vez, mas essa tarefa parece-me hercúlea. Estou constantemente a pensar no futuro, em dias completamente desconhecidos mas sobre os quais eu gostava de ter uma ideia. Gostava de saber que nesse futuro eu serei capaz de viver com mais calma porque isso provavelmente quererá dizer que os dias se tornaram agradáveis e que sou capaz de vivê-los sem estar constantemente em mudanças. Gostava de não ser constantemente perseguido por pensamentos que eu próprio crio sobre tudo o que me rodeia.

(Gostava disso...)

(Em)Préstimos

«Ele disse uma vez que tinha ido para o mato, à procura da própria alma e que, por fim, descobrira que não tinha uma alma que fosse só dele. Disse que tinha unicamente uma pequena parte de uma alma enorme. E ele achava que não servia de nada andar em sítios desertos porque aí a tal pequena alma que ele tinha não servia para nada. Só tinha utilidade quando estava junto das outras com que formava um todo. É engraçado como eu me lembro de tudo isso! E no entanto tinha nessa altura a impressão de que mal o ouvia... Mas agora sei que um indivíduo solitário não tem préstimo nenhum»
John Steinbeck, "As Vinhas da Ira"

Há dias e dias

Amargo. Doce. Salgado. Azedo. Umami. São os cinco sabores básicos do nosso paladar e no entanto eu uso o umami para muitas situações em que não é cientificamente correcto dizê-lo (julgo eu) e depois prefiro usar expressões como “come-se”, “é horrível”, “quero mais!”.

Já com as cores tenho necessidade em usar mais para além das cores básicas, mas não me atrevo a entrar no campo daqueles muitos adjectivos para descrever os verdes ou os azuis ou os vermelhos porque seria tudo demasiado complicado e não me entenderia.

E também não me entendo com a classificação dos dias porque para esses as tabelas de classificação parecem tão limitadas e no entanto a tarefa é muito difícil. Às vezes porque parecem-me todos iguais e no entanto a opinião que tenho sobre eles parece demasiado divergente. Noutras porque os múltiplos intervalos de tempo que constituem as 24h enquadram-se em diferentes classificações e eu não sei fazer o somatório ponderado de todos eles.

Já com as pessoas é menos difícil. Talvez porque com essas sou tão selectivo e como tento reduzir o número de categorias com as quais me devo preocupar torna-se, então, menos difícil categorizá-las. Talvez porque não deixo que muitas das excluídas possam entrar para as listas.
E estou bem assim. Não há cá desilusões para nenhuma das partes nem problemas de repartição de investimentos. Nem eu tenho de me sentir estranho nem de obrigar as pessoas a aturarem-me.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Primavera

Ao que parece já é Primavera. Eu andava a fazer contagem decrescente e só a esperava no dia 21-22 mas ela apareceu-me à porta às 5h14 do dia 20. 

As apresentações só foram feitas algumas horas mais tarde mas foram suficientes para manifestar alguns sintomas primaveris ao longo do dia. Quando saí de casa, fui contagiado pelo vento que empurrou umas folhas de uma árvore contra a minha cara e eu não pude deixar de sorrir àquele cumprimento da natureza que nunca tinha reparado. Quando regressava, pus-me a imitar o que parecia serem grilos.

Ainda não tive tempo de ver as prendas que ela trouxe na mala. Dizem que ela traz a mudança. Talvez seja, talvez não.

Há sempre coisas que mudam. Eu tenho mudado o menu dos meus banquetes: em vez de compota, sirvo agora muita manteiga em pão de forma torrado.

Há sempre coisas que não mudam. Sinto falta da chuva... o que pode ser entendido como: nunca estou satisfeito com aquilo que tenho...