Na rua as crianças andam aos saltinhos e fazem-me sempre recordar os tempos do infantário em que se cantava:
De olhos vermelhos,
De pelo branquinho,
Dou saltos bem altos,
Eu sou o coelhinho!
Comi uma cenoura
Com casca e com tudo,
Ela era tão grande
Que eu fiquei um barrigudo!
Aos saltos para a frente,
Aos saltos para trás,
Eu sou o coelhinho
De que tudo sou capaz!
Talvez os pensamentos dela sejam uma música que lhe dás vontade de dançar permanentemente. Eu tenho também o hábito de cantar para que o tempo passe mais depressa. Já o fazia nas aulas de educação física, quando era teste de resistência e tínhamos de correr 12 minutos. Eu cantava para ter uma ideia do tempo que já tinha passado. Umas 4-5 canções eram o suficiente. Agora canto (ou murmuro – tudo depende das pessoas que tenho por perto) nas mais diversas situações, mas os meus pensamentos não são música permanente. Por vezes são coelhomens que comem a minha serotonina e me deixam pequenino.
As crianças têm também o costume de olharem fixamente para as pessoas com quem se cruzam até o pescoço já não poder rodar mais. Quando eu sou a vítima do teste de resistência do esternocleidomastoideu costumo pôr-lhes a língua de fora ou piscar o olho. Algumas coram de vergonha e desatam a correr, outras fazem-me igualmente caretas, o que acaba sempre por terminar com um sorriso. Já com a gente crescida o máximo que consigo é um cumprimento por engano (acho que às vezes me vêem rir sozinho ou cantar e pensam que as estou a cumprimentar, pelo que ao passarem por mim dizem-me timidamente “olá!”). Sempre que isso acontece eu dou uma gargalhada interna e sigo caminho.
E as crianças sabem fazer da chuva um parque aquático e eu não. Tenho de me contentar em esperar pelas 13h das segundas-feiras, hora em que aparentemente ligam os aspersores da relva da faculdade, e pôr-me lá à beira para me molhar. Se estiver encostado à pedra da esquina na rua até parece que chove porque o regador do andar de cima, ao dar a volta, projecta água para os lados que acaba por fazer um arco íris e molhar-me. E eu sorrio.