Gosto de noites como estas em que o céu está pintado com um cinzento escuro tingido com o laranja das luzes dos candeeiros e eu fico a ver a chuva a cair nas janelas. Às vezes as gotas a descer o vidro lembram-me espermatozóides e eu faço apostas sobre qual será o primeira a chegar ao fim da janela. Mas a procriação tem sempre lugar em alturas superiores, quando uma gota se junta a outra para dali a pouco se dividir, o que me leva a rir da imbecilidade da minha comparação.
Pela altura em que o chá termina, já a minha mente decidiu o programa da noite. Um passeio à chuva.
Como a noite será grandiosa, escolher roupa é complicado. Qualquer dia visto o fato. Já que está no armário mais vale dar-lhe uso. E como ninguém me vai ver com ele, melhor ainda. Nunca percebi porque é que as ruas ficam desertas em noites como esta, mas não me importo. É da forma que posso cantar, dançar e sorrir tranquilo.
É agradável sentir a água a bater no corpo e a acomodar-se em nós. Quando pus o carapuço, a água que lá se acumulara foi descendo pelo pescoço e entrou para o peito. Estremeci um pouco quando senti frio, mas passou rápido. O entusiasmo era suficientemente caloroso para não me deixar com frio. Fui caminhando pela cidade, contado o tempo que passava pelo grau de aderência das calças às pernas. Aproveitei o meu reflexo numa montra para pentear o cabelo. À medida que punha o cabelo todo no ar, gotas de água eram projectadas para outro lado. Acho que se me sacudisse pareceria um cão.
Quando já toda a ganga tinha ficado escura, virei para trás e fiz o percurso inverso. Ao chegar a casa meti-me debaixo da água quente da banheira. E a noite acaba.