sábado, 12 de maio de 2012

Os cupões

Eu merecia um doce e o cupão era para dois sundae. Não hesitei. Recortei-o e fui buscar os meus dois gelados.
Poderia parecer que só estava eu presente, mas a minha sombra lembra-me outras pessoas. E o gelado extra também fez de ferrero rocher e de leite condensado e de lasanha Avatar (não tenho a certeza se era Avatar, mas o gelado faria qualquer papel) e de outras coisas boas.
Mas a minha sombra não come e por isso preparo-me agora para comer o meu segundo gelado. Amanhã abstenho-me de doces.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

os gladiadores choram?


Preciso dos dias da chuva. Que as gotas se misturem com as lágrimas e que o trovão encubra o meu grito. Grito por não ser perfeito. Por achar que tu não és perfeito e que nós não somos perfeitos. Por achar que imperfeição é razão para não existirmos em conjunto.

Sim, preciso da chuva para me aperceber do quão ridículo sou sozinho mas que contigo não o sou. Ou sou-o noutra proporção mais agradável à existência. Porque tu vês mais de mim do que eu próprio vejo ao espelho. Porque quando tu não estás eu sinto-me sozinho com a minha companhia. E nunca pensei vir a dizer isto.

Mas preciso que me persigas durante a tempestade. Preciso que também te molhes. Gosto de sentir a chuva a cair ao longo dos nossos braços e acumular-se nas nossas mãos porque resolvemos enlaçá-las. Gosto de sentir as t-shirts coladas uma à outra. E das competições que fazemos para ver quem arremessa mais água quando saltamos para as poças.

Também gosto quando chegamos a casa e nos metemos debaixo do chuveiro. A roupa fica ainda mais pesada, mas o peso não nos incomoda. Se quiséssemos podíamos ser gladiadores e nem sequer precisávamos de comer feijão e cevada como a minha mãe dizia. Há muito que descobrimos que nos saciávamos com o vapor doce que emana da panela ainda quente das pipocas quando despejamos água fria para a limpar. Não se toma banho de roupa e por isso atiramo-la quando a água começa a ficar quente e os meus pés vermelhos. E a roupa jaz no chão e faz splash como as folhas que são empurradas pelo vento contra os muros.

Hão-de ser os meus passos a levar-me até ti e não eu a levá-los a ti. E vamos rir-nos dos beijinhos na testa. E eu vou saber que fiz bem em não ser anjinho.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Todos os dias podiam ser de chuva

Gosto de noites como estas em que o céu está pintado com um cinzento escuro tingido com o laranja das luzes dos candeeiros e eu fico a ver a chuva a cair nas janelas. Às vezes as gotas a descer o vidro lembram-me espermatozóides e eu faço apostas sobre qual será o primeira a chegar ao fim da janela. Mas a procriação tem sempre lugar em alturas superiores, quando uma gota se junta a outra para dali a pouco se dividir, o que me leva a rir da imbecilidade da minha comparação. 
Pela altura em que o chá termina, já a minha mente decidiu o programa da noite. Um passeio à chuva.
Como a noite será grandiosa, escolher roupa é complicado. Qualquer dia visto o fato. Já que está no armário mais vale dar-lhe uso. E como ninguém me vai ver com ele, melhor ainda. Nunca percebi porque é que as ruas ficam desertas em noites como esta, mas não me importo. É da forma que posso cantar, dançar e sorrir tranquilo.
É agradável sentir a água a bater no corpo e a acomodar-se em nós. Quando pus o carapuço, a água que lá se acumulara foi descendo pelo pescoço e entrou para o peito. Estremeci um pouco quando senti frio, mas passou rápido. O entusiasmo era suficientemente caloroso para não me deixar com frio. Fui caminhando pela cidade, contado o tempo que passava pelo grau de aderência das calças às pernas. Aproveitei o meu reflexo numa montra para pentear o cabelo. À medida que punha o cabelo todo no ar, gotas de água eram projectadas para outro lado. Acho que se me sacudisse pareceria um cão.
Quando já toda a ganga tinha ficado escura, virei para trás e fiz o percurso inverso. Ao chegar a casa meti-me debaixo da água quente da banheira. E a noite acaba.

sábado, 5 de maio de 2012

Private Moon

Já guardei os óculos de sol no bolso das calças para não me esquecer deles quando sair. Não vamos ver o Sol, mas eles também servem para ver a Lua. E dizem que ela hoje vai brilhar mais. Compraste as pipocas?
Traz uma camisola de malha. Vai estar frio. Talvez chova, mas não tragas guarda-chuva. Terá mais piada se nos molharmos.
Espero-te no último piso, no fim da última badalada da meia noite.
Até logo!

Private Moon

Ainda vivo

mas o meu cabelo que vos conte a minha história.
Está grande, o que significa que tive avaliações na faculdade. A quantidade de matéria a decorar era tanta que obrigou o cabelo a crescer. Agora está na altura de o cortar e de esquecer as coisas sem interesse que tenho no cérebro para dar espaço às que estão para vir.