terça-feira, 5 de junho de 2012

cuidado

Cuidado comigo, que sou louco.

Colecciono cadernetas do banco e marco os livros com uma meia na qual prendo os maus da fita.

E às vezes tenho de me prender a mim. Porque também sou mau da fita.

Sou como um vírus ou uma bactéria, de nome científico Kappa questionmark, e vou alterando as proteínas de superfície e acabo por baralhar o sistema imunitário das outras pessoas. É um processo progressivo e, por isso, não há manifestações repentinas. A minha patogenicidade reside aí. Assumo ser uma coisa e depois mudo. E depois tudo muda.

Devo ter enganado as pessoas que vieram falar comigo com palavras simpáticas e depois desapareceram. Fugiram. Melhor para elas. Melhor para mim.

Enganei pessoas pois falei com elas com palavras simpáticas e depois passei para o ataque e acabei por me afastar.
Fujo. Houve dano nos dois lados...

Enganei pessoas que aqui passaram e deixaram escrito "pelo que leio sobre ti, és uma das pessoas mais fantásticas que anda por aí". Isso é, obviamente, uma mentira. Escrevo o que quero e revelo os pecados que me apetece. Sou é um bom vírus. Introduzo ideias falsas na cabeça das outras pessoas e crio ilusões.

Não se fiem em mim. Embora coma Nestum ou Cerelac, mordo...

cuidado, mordo e cuspo fogo


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujour


Jamais je n'aurais cru que tu me plairais toujours 
Ô mon amour 
Jamais nous n'aurions pensé pouvoir vivre ensemble 
Sans nous lasser 
Nous réveiller tous les matins aussi surpris de nous trouver si bien 
Dans le même lit 


(esta não canto bem na banheira porque não sei francês)

domingo, 3 de junho de 2012

na carteira


Enquanto arrumava a carteira para entregar ao pai os talões das despesas da faculdade encontrei o post-it com o teu nome e morada. E sorri porque ainda esta noite te encontrei num sonho.

Acho que foi o primeiro em que falámos e te vi mesmo (já se tinha dado o caso de seres mencionado em sonhos, mas hoje terias direito a aparecer nos créditos finais). Passeávamos junto à Torre dos Clérigos, se bem que era diferente da verdadeira torre, e tu, apontando para uma determinada área do chão, dizias-me que tinha sido ali que tinhas tirado uma determinada fotografia.

Corri até lá para tirar a minha própria fotografia e reparei que indo um pouco mais para o lado e abaixando-me conseguia apanhar-te. E nada te disse.

Tirei a foto e... acho que acordei.

sábado, 2 de junho de 2012

some day


You've been on your own as long as I recall:
if loneliness was art, I could hang you from the wall
in some Berlin hall.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

às vezes vivo de noite

Fujo por volta da meia-noite. 

Corro pelas ruas a pique, cravando os pés nas pedras da calçada para fazer as curvas. No meio dos trilhos abro os braços para abarcar com eles a largura do eléctrico e acelero mais um pouco para a imitação ser melhor. Só não grito para não acordar quem mora perto da rua. Mas assusto as gaivotas que se metam no caminho. 

Aceno aos pescadores que aproveitaram a noite para lançarem a cana à água. Usam lanternas na cabeça e parecem extraterrestres. 

Mas corro ainda mais, para onde não há ninguém. E então sento-me com as pernas a baloiçar no ar acima das águas e como uvas. Era o que havia em cima da mesa. 

Espero pelo novo dia. E depois regresso a casa.