sábado, 30 de junho de 2012

todas as cartas de amor são ridículas


A primeira coisa que reparei em ti? O teu pescoço. Sim, foi ele que me atraiu. Quando olhei para ti pela primeira vez o decote redondo descentrado da tua t-shirt permitia ver um pouco do teu peito. A tonalidade clara da tua pele lembrava-me a minha própria pele mas o teu peito algo musculado formava uma lomba logo abaixo das clavículas, tornando-as mais interessantes do que as minhas. De bom grado os meus dedos andariam de escorregão pelo teu peito e sentar-se-iam na tua incisura jugular, com os pés a bater no teu esterno, quando estivessem cansados da euforia. Quer dizer, na verdade acho que eles nunca assentariam por lá porque rapidamente perceberiam que seria mais divertido escalar-te o esternocleidomastoideu. Tive até de apertar a mão para que eles não se sentissem tentados a fazerem isso sem permissão. O problema é que já não eram só as minhas mãos a querer tocar-te. Os lábios queriam provar a tua pele e os dentes queriam atacar-te as carótidas e a jugular porque se sentiam intimidados perante ti. Ou talvez quisessem saber se a tua maçã-de-adão era do tipo reineta, fuji, red delicious ou golden para não terem de lhe chamar proeminência laríngea. Quis percorrer todos os triângulos musculares e as fossas anatómicas e baptizá-las com o meu nome para saber que eras meu. Não o pude fazer, mas quando ganhei coragem dei-te aquele postal. 


Gosto do teu pescoço.



quinta-feira, 28 de junho de 2012

como nos sonhos

apago a luz e por uns momentos tudo é demasiado imperceptível. depois os meus olhos vão-se habituando à luz que entra pela janela vinda da Lua e dos candeeiros e fico a olhar para o tecto que durante o dia é branco e que à noite fica castanho. não sei por quanto tempo fico assim porque eventualmente adormeço e já não tenho percepção do tempo, apenas dos sonhos. e quando acordo tenho percepção de que a minha vida é diferente daquele sonho que tive.



A esperança é uma coisa terrível, disse ela.
Ai é?
Sim, mantém-nos a viver noutro lugar, num lugar que não existe.
Para algumas pessoas é melhor do que o sítio onde estão. Para muitos é um consolo.
Na vida, disse ela. Um consolo na vida? Será que isso é algum viver?
Há pessoas que não têm outra escolha.
Não e isso é terrível.
A esperança é melhor que a infelicidade, disse ele. Ou o desespero.
A esperança não é tão má, contrapôs ele.
Ao menos o desespero tem algo de verdadeiro.
Hoje estás num estado de espírito muito negro.
Ela tentou um sorriso. É deste tempo todo que passo com os olhos fechados. Fechou os olhos.


terça-feira, 26 de junho de 2012

com os livros

Tinhas ar de quem não precisava de ninguém, disse ela.
Mas são esses os que mais precisam, retorquiu ele. Então não sabes disso?
Agora já sei, disse ela. Tarde de mais.
O saber nunca vem tarde de mais!, exclamou ele.
Talvez não, respondeu ela. Mas pode vir tarde de mais para nos servir para alguma coisa.


Não desperdices a tua vida à procura de boas razões. Vais-te fartar de esperar.




É costume fazer amigos enquanto leio. Afeiçoo-me às personagens, invejo a vida de algumas, troço de outras e depois apercebo-me de que afinal não sou lá muito diferente e às vezes chego mesmo a ter conversas com elas. Ou encontro a resposta ou algo que me ajuda a perceber melhor coisas que me vão passando pela cabeça. Um livro é uma boa companhia. Cá em casa perguntam-me sempre "mas foste para lá sozinho? Não tens ninguém que possa ir contigo?". Às vezes chegam ao ponto de me impingirem companhia que não preciso ou que não faz falta para aquela situação. Costumo andar acompanhado e ir para a praia sozinho não é assim tão mau. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

à espera de resultados


Quando comecei a estudar a sério para os exames, há coisa de 4 semanas, o lápis que usava para sublinhar era grande. Agora está do tamanho da afia e já não consigo usar os dedos para o rodar. Pelo caminho ficaram também três marcadores e um outro lápis mingou 2 centímetros.
Inicialmente o meu cérebro expandiu-se com o conhecimento qual big bang. Segue-se agora o big crunch. Apenas espero não ser surpreendido com um buraco negro na pauta enquanto se dá o processo.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

are we just kids

Ontem safei-me bastante bem para o exame que era e à tarde fui índio. Hoje voltei à banalidade e a sabedoria índia já não estava em mim.
Ao sair do exame de hoje, meti os óculos de sol para esconder a vergonha do que fiz (a professora pouco colaborou, mas ainda assim fiz bastante asneira por mim) e só os tirei na estação de Metro.
Uma menina observava-me a comer bolachas de água e sal. Estendi-lhe o pacote e perguntei-lhe se queria. Tirou uma, sorriu e atacou a bolacha assim [até eram parecidas]:




sorri tanto quanto a boca fechada e a mastigar me permitiu e não voltei a meter os óculos.