Acho que as varandas nunca são tão usadas como no Verão. E com isso acho também que é no Verão que os mexericos se espalham mais facilmente de janela em janela, mesmo sem haver grande vento que ajude no processo. Eu não falo com os meus vizinhos porque não partilho o gosto de fumar ou de atirar lixo do 2º andar do rapaz da frente e no lado estão agora franceses que não se impressionariam simplesmente com a minha conjugação do verbo avoir e être. Quem falou comigo foi a senhora do comboio e eu fiquei a saber a vida do filho dela, que até era parecido comigo.
Às vezes das janelas projectam-se câmaras fotográficas e então eu passo a desfilar pela rua a acenar com a mão, discretamente, para não ficar com cara de emplastro caso fique enquadrado nalguma fotografia. Às vezes é nesses actos que faço realmente figuras menos felizes porque sou apanhado em flagrante e tenho de fingir que estava a passar a mão pelo cabelo áspero do sal da praia. Talvez um dia venha a descobrir que apareço em postais de férias à conta disso, tal como aconteceu às minhas tias. É já por isso que ando a treinar os autógrafos na última página do bloco que anda comigo.
Das panelas das cozinhas saem cheiros que perfumam a rua, alguns dos quais conheço e outros que me são totalmente desconhecidos. Os cheiros provocam-me miragens e activam-me a fase cefálica da digestão. Inicia-se o jogo mental de tentar descobrir o que vai ser o jantar, que acaba quando chego a casa e vejo a travessa na mesa. Às vezes engulo em seco a lasanha que tinha imaginado porque há uma diferença entre aquilo que quero e aquilo com que me deparo. Mas mesmo quando a comida não me agrada tenho de deixar o prato bem composto porque senão a mãe diz que estou cada vez mais magro. (e não é verdade, a balança testemunha em meu favor!) Este é o Verão dos pepinos. Há sempre pepino a acompanhar o prato principal e eu viciei neles. Se fossem como os espinafres do Popeye eu já estava um verdadeiro gladiador de tanto os comer.
