quarta-feira, 22 de agosto de 2012

o Verão dos pepinos

Acho que as varandas nunca são tão usadas como no Verão. E com isso acho também que é no Verão que os mexericos se espalham mais facilmente de janela em janela, mesmo sem haver grande vento que ajude no processo. Eu não falo com os meus vizinhos porque não partilho o gosto de fumar ou de atirar lixo do 2º andar do rapaz da frente e no lado estão agora franceses que não se impressionariam simplesmente com a minha conjugação do verbo avoir e être. Quem falou comigo foi a senhora do comboio e eu fiquei a saber a vida do filho dela, que até era parecido comigo.

Às vezes das janelas projectam-se câmaras fotográficas e então eu passo a desfilar pela rua a acenar com a mão, discretamente, para não ficar com cara de emplastro caso fique enquadrado nalguma fotografia. Às vezes é nesses actos que faço realmente figuras menos felizes porque sou apanhado em flagrante e tenho de fingir que estava a passar a mão pelo cabelo áspero do sal da praia. Talvez um dia venha a descobrir que apareço em postais de férias à conta disso, tal como aconteceu às minhas tias. É já por isso que ando a treinar os autógrafos na última página do bloco que anda comigo.

Das panelas das cozinhas saem cheiros que perfumam a rua, alguns dos quais conheço e outros que me são totalmente desconhecidos. Os cheiros provocam-me miragens e activam-me a fase cefálica da digestão. Inicia-se o jogo mental de tentar descobrir o que vai ser o jantar, que acaba quando chego a casa e vejo a travessa na mesa. Às vezes engulo em seco a lasanha que tinha imaginado porque há uma diferença entre aquilo que quero e aquilo com que me deparo. Mas mesmo quando a comida não me agrada tenho de deixar o prato bem composto porque senão a mãe diz que estou cada vez mais magro. (e não é verdade, a balança testemunha em meu favor!) Este é o Verão dos pepinos. Há sempre pepino a acompanhar o prato principal e eu viciei neles. Se fossem como os espinafres do Popeye eu já estava um verdadeiro gladiador de tanto os comer. 

sábado, 18 de agosto de 2012

é assim a minha mãe

A mim doem-me as pernas da corrida de hoje quando me armei em Usain Bolt. À mãe doem as pernas mesmo agora que está de férias mas não é de usar tacões altos como as modelos. E os calos nas minhas mãos não passam da prova do meu capricho em frequentar o ginásio enquanto que os da mãe e a sua pele áspera são a impressão de anos de trabalho. As pernas da mãe, com as suas varizes, cicatrizes e outras marcas, contam também várias histórias. Era ainda miúda e já trabalhava. E nunca parou.
"Lembro-me de ver a tua mãe a caminho do trabalho a empurrar-te no carrinho de bebé com os teus irmãos, um de cada lado", dizem-me. Pois, talvez não devesse ter feito isso. Teria sido melhor se tivesse abrandado um pouco naquele tempo (e que agora também resolvesse descansar entre as muitas coisas que arranja para fazer - ou que deixasse os filhos fazerem alguma coisa!). Tem 55 anos mas o peso da vida dá-lhe uma marcha de pessoa mais velha. Mesmo sem brincar comigo aos piratas de perna de pau, às vezes a mãe manca. Os ossos estão gastos os tendões dos músculos frágeis das operações que já fez...
Quando sobe as escadas do prédio reconheço-a pelo barulho dos sapatos na pedra ou pelo das sacas que carrega quando batem na porta e pelo tilintar do colar de ouro. Levanto-me para lhe abrir a porta e ajudar com os sacos. E uma parte de mim está quase sempre naqueles sacos. Um chocolate, umas bolachas, um sumo, um bolo... Sorri-me quando lhe digo que não precisava ter comprado aquilo para mim e diz que se pudesse me dava mais. Não é preciso que o faça. A minha mãe vale muito mais do que tudo aquilo mesmo que combinado com o ouro que ela mesma guarda na caixinha com muito orgulho.

Sim, mãe, gosto muito de ti!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

As histórias que o pai contava à noite passavam-se sempre num reino muito distante, o que devia ser depois da casa dos avós, a muitos pés de minha casa. Naquela altura contava a distância pelo número de passos que dava e a língua enrolar-se por não conseguir digerir as sílabas todas era sinal de que já tinha andado mesmo muito. Por isso é que nas histórias eles usavam cavalos. Depois aprendi na escola a contar centímetros e metros e a transformá-los em quilómetros. Passei então a usar um mapa e uma régua para saber o que era longe e o que era perto.

Isso falhou quando o avô morreu. A mãe ensinou-me a falar com ele através das estrelas, o que para mim era muito longe mas a mãe dizia que ele estava sempre comigo. Não percebia muito bem. Acho que foi por isso que não chorei. Pensei que o avô tinha pegado nas coisas de explorador e ido à procura da Terra do Nunca para depois me levar lá com ele. No entanto, a mãe não parecia não lidar muito bem com a situação e chorava muito. Eu só chorei mais tarde.

Quando compreendi que o mundo não girava à minha volta percebi melhor a importância dos outros na minha vida. E os beijos e abraços que dantes dava frequentemente e de modo quase automático tornaram-se mais raros mas com mais significado. Por isso foi mais difícil quando a avó morreu. Chorei quando me deram a notícia de que ela tinha partido e ainda mais quando descobri que a distância e a saudade andavam de mãos dadas mas eu não podia sentir uma última vez as mãos ásperas da avó a acariciar-me. E embora ajudasse ter as estrelas à janela, os anos-luz eram insuportáveis. 

Passei a temer a distância e cego por ela aproximei-me mais das pessoas que amava. Pensava eu que se as prendesse a mim talvez elas não partissem e assim não teria de recorrer a astrolábios. Foi duro quando vi que isso não acontecia. E pior era quando ficavam coisas em mim por dizer e fazer. Nunca me habituei à separação. Era até cada vez mais difícil. Acabava sempre por ficar mais sozinho. O silêncio que ficava era esmagador e eu desejei que o meu coração também se calasse de vez.

Não o fez e por isso resolvi combater a distância com distância. Sente-se mais a distância quanto mais perto estamos e eu quis estar longe. Se criasse uma distância emocional entre mim e os outros então não lidaria com mais nenhuma perda e isso parecia-me bem. Sabia que escolhia o caminho da solidão mas se era uma opção não podia ser tão mau como diziam. Achava eu.

Afinal era possível estar mais sozinho, mesmo com recordações. O silêncio é a batida das saudades e é nele que se ouve melhor as vozes e os risos e se sente mais a ausência do toque e do calor daqueles que já tinham partido. E daqueles de quem nos distanciamos. Se alguém tinha morrido tinha sido eu. Porque a vida é melhor partilhada e eu tinha-me distanciado. 





«E eu não me esquecia dêle. Das suas risadas. Da sua fala diferente. Até os grilos lá fora imitavam o réquete, réquete da sua barba. Não podia deixar de pensar nêle. Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segrêdo. Dor que dava desânimo nos braços, na cabeça, até na vontade de virar a cabeça no travesseiro.»

«Os anos se passaram, meu caro Manuel Valadares. Hoje tenho quarenta e oito anos e às vêzes na minha saudade eu tenho impressão que continuo criança. Que você a qualquer momento vai me aparecer me trazendo figurinhas de artista de cinema ou mais bolas de gude. Foi você quem me ensinou a ternura da vida, meu Portuga querido. Hoje sou eu que tento distribuir as bolas e as figurinhas, porque a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vêzes sou feliz na minha ternura, às vêzes me engano o que é mais comum.»
José Mauro de Vasconcelos, Meu Pé de Laranja Lima

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

sinais

Perdeu a cabeça! disseram quando perguntei quem me acompanhava num gelado em pleno Inverno. Eu não tinha perdido a cabeça (a mãe sempre me ensinou a ser responsável). Sabia onde ela estava. Depois de ma teres ocupado, decapitaste-me e levaste-a quando partiste. O hipocampo ficou e o hábito de comermos um gelado e competirmos para ver quem era o mais resistente ao frio ainda fazia com que fizesse aquela pergunta e esperasse uma resposta afirmativa. Agora apenas me chamavam louco.

Santinho! disseram quando depois espirrei. Mas era despropositado. A minha alma não iria sair. Já tinha saído. Levaste-a contigo. Espirrei novamente porque espirrava sempre aos pares. E não devia. Agora já não gostava de que as coisas existissem no plural porque faziam-me sentir pequeno. Já não era como dantes. Como eu gostava daqueles dias em que era o sono e não o sonho que me dava visão dupla logo ao acordar, permitindo-me assim ver-te duplamente. Não havia melhor forma de acordar. Depois tu passavas a mão no meu cabelo, limpavas-me alguma remela e acabavas com a minha diplopia. Passava a ver uma só imagem tua mas isso não era uma redução. Naquela altura eras tão grande que enchias todos os meus olhos. A menina dos olhos até se sentia intimidada. E tinha razões para isso.

Eras tudo para mim e quando foste embora do tudo que me fazias sentir ficou o nada. Nada. E como tu sempre foste a minha referência agora não sei encontrar-me. Já tentei unir com um marcador preto (até suportei as cócegas!) os sinais que tenho nas costas para encontrar a Ursa Maior e a Menor e o Orion mas não as encontro porque para além de não ser contorcionista, na minha pele branca há poucos pandas e o caçador não anda por lá a caçá-los para não os levar à extinção.

Faltam-me os teus sinais. Faltas-me tu.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

atestado médico

«Alguns empregados e psicólogos acreditam que estar longe da rede social pode ser um sinal de perigo»

«O ´Facebook` tornou-se numa parte tão importante da vida das pessoas que, hoje em dia, há quem acredite que não ter conta na rede social pode significar que algo está mal. A revista alemã ´Der Taggspiegel` chegou mesmo a salientar que o norueguês Anders Breivik e o atirador James Holmes tinham uma coisa em comum: nenhum deles tinha conta no ´Facebook`.

Segundo a revista, Holmes, suspeito da morte de 12 pessoas, frequentava apenas o site de encontros ´Adult Friend Finder`. Já Breivik usava o ´MySpace`. Nenhum deles tinha conta na maior rede social do mundo. Em entrevista ao ´Der Taggspiegel`, o psicólogo Christopher Moeller afirmou que ter conta no ´Facebook` é sinal de que se é saudável. 

O ´Slashdot` resumiu a notícia do ´Der Taggspiegel`, e declarou mesmo que “não ter conta no ´Facebook` pode ser o primeiro sinal de que você é um assassino em série.” 

Numa perspectiva menos agressiva, a ´Forbes.com` concluiu que os departamentos de recursos humanos norte-americanos consideram o ´Facebook` essencial na admissão de novos empregados. Se o candidato não está inserido na rede, isso pode significar que tem algo a esconder.


Num artigo de opinião, o jornalista Farhad Manjoo do ´Slate.com` aconselhou os jovens a não se envolverem com ninguém que não tenha conta no ´Facebook`. “Se tu tens uma certa idade, conheceste alguém com quem estás prestes a ir para a cama, e essa pessoa não tem página no ´Facebook`, tu podes estar a receber um nome falso. Pode ser uma espécie de alerta”, afirmou.»
(tirado daqui)




Não tenho Facebook. Não é preciso dizer mais nada. bang!