sexta-feira, 31 de agosto de 2012

diário

Agosto, 8

Sonhei com um rapaz que andou comigo no secundário e que esteve um período de tempo na mesa do lado e a quem eu dizia as escolhas múltiplas de Matemática. Era de noite e ele vinha por trás de mim e abraçava-me como se viesse para as minhas cavalitas e perguntava como é que eu estava. Depois dizia que me queria dar um beijo e fazia-o sem esperar por consentimento meu. Dávamos as mãos e continuávamos a andar.
Foi um sonho estranho e perturbador.
Não foi o namorar em si que me perturbou. Foi o modo como me sentia no sonho.
Tenho sonhos estúpidos em que não sinto nada. Tenho aqueles sonhos ou lá que é durante a paralisia do sono em que sinto medo porque parece que vou ficar preso naquele estado. Quando acordado tenho mil e uma coisas a passar-me pela cabeça. Mas no sonho de hoje era tudo diferente. Eu estava bem. Calmo comigo mesmo. Feliz com ele. Foi assustadoramente bom.
«Antigamente sonhava acordado. Desta vez sonhei dormindo. E dormindo os sonhos se parecem mais com realidade.»
E dias mais tarde tive um sonho com cheiro...




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

actualizações com formatação do disco



Se pudesse, comia distâncias ao pequeno-almoço e enchia a caneca até cima as vezes que fossem preciso para que no dia seguinte pudesse comer já cereais de trigo com mel, ou chocolate em pó, ou nestum, ou cerelac, ou bolachas, ou chá, ou sumo, acompanhado. Ou que pelo menos pudesse embrulhar um pão com queijo ou fiambre, ou com queijo e fiambre, ou com manteiga de amendoim, ou manteiga simplesmente, ou chocolate de barrar, ou compota, ou pão simples num guardanapo para depois partilhar.

As distâncias existem e não são poucas as vezes em que se tornam muito próximas e provocam uma comichão nos olhos ou no coração. E custa sempre.

Talvez certas situações pudessem tornar-se menos difíceis se eu resolvesse aumentar certas distâncias até que estas fossem superior ao raio de alcance da minha máquina de sentir. Talvez se eu deixasse de tentar que o presente se assemelhasse ao passado e o deixasse evoluir naturalmente para o futuro a comichão passasse mais rápido quando estou com certas pessoas.

A rapariga da biblioteca continua a resistir ao tirar o top na praia e a recusar-se a ir à água por causa da temperatura que para ela é sempre gelada. Continua a comer gelados e a implicar comigo quando a ganho no Uno e a considerar-se a melhor do mundo quando a vitória lhe calha a ela. Continua a insistir em comparar os nossos tons de pele só para depois gozar comigo por ser branco e atira-me areia para a toalha depois de eu acabar de a sacudir.

Mas agora já não larga o telemóvel e suspira por a mãe não a deixar ir mais cedo para a cidade onde estuda. Agora reformula o podíamos ir a tal sítio para vou lá com os meus amigos da faculdade. Agora já não fala das peripécias de quando no secundário fomos acampar ou do baile de finalistas porque já disse mais do que uma vez que agora é que está mesmo bem. E custa-me sempre ouvir isso.

Também eu fiz amigos quando fui para a faculdade que se tornaram pessoas importantes para mim mas tento deixar espaço em mim para as que já existiam. Foi no secundário que as amizades se enraizaram em mim e talvez por isso sinta que devo investir sempre nessas e que sou desleal caso não o faça. Mas não depende tudo de mim e não tenho força para segurar as pessoas.

Acho que foi por isso que deixei de usar o beijinhos nas sms ou postais ou emails para um abraço grande!. Acho que assim sinto sempre mais a pessoa em mim, ainda que apenas pelo tempo que a pessoa demora a ler as palavras.

heartbeat chilli

E já que estou numa de culinária, fica aqui uma música que me agrada bastante de uma banda que canta muitas vezes comigo.





I was in the kitchen on my own making chilli
You came in with an onion and got dicing
It seems silly, but this chilli has two heartbeats in the recipe
So come over, give your heart to me

I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine

* * *

I was in the kitchen on my own making spaghetti
You came in with an onion and got dicing
It seems silly, but spaghetti has two heartbeats in the recipe
So come over, give your heart to me
So come over, give your heart to me
I adore you, give your heart to me

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

bolo de noz

Ingredientes:
   .6 ovos
   .250g de nozes moídas
   250g de açúcar
   30g de farinha

Modo de preparação: bata as gemas com o açúcar até obter um creme esbranquiçado, misture a farinha com as nozes moídas. Acrescente a mistura de farinha e das nozes ao batido de gemas e açúcar. Envolva tudo muito bem e, por fim, junte as claras batidas em castelo. Leve ao forno 50 minutos a 160ºC em forma untada de manteiga e farinha. 



Separar a gema e a clara é sempre uma trabalheira! Bater o ovo na esquina da banca, parti-lo em dois com os dedos e embalar as metades para a clara escorrer. Os dedos vão ficando pegajosos e besuntados mas com cuidado não há misturas indevidas dos constituintes do ovo.
Na altura de juntar o açúcar, esqueço-me de que sei ler e ignoro todos os avisos de segurança da professora de Química porque para me certificar de que pego no pacote certo mergulho os dedos na embalagem e levo-os à boca [nunca devem cheirar ou provar o conteúdo dos frascos. Devem sempre ler os rótulos e estar atentos aos sinais de perigo, dizia ela]. É só lá que sei que peguei no ingrediente certo. [às vezes repito o procedimento. Não faz mal nenhum jogar pelo seguro (e até é bom!].
Por muito que desse à manivela com a colher de pau, os ovos caseiros impossibilitaram que o creme ficasse esbranquiçado. Ainda assim segui em frente. 
As nozes ainda tinham de ser partidas porque a razão de fazer o bolo era gastar as nozes que tinham dado aos meus pais. Foram 30 minutos de crack crack. A mão tremia do esforço continuado dos músculos. Enquanto isso tentava procurar uma noz que fosse o mais parecida com um cérebro humano. Algumas tinham o giro central mas não tinham o parieto-occipital, outras tinham o giro frontal mas não tinham o calcarino. Algumas que não passavam na selecção eram comidas e dadas como sacrifício aos sucos digestivos que se começavam a formar com a mera visualização de comida. 
A farinha não foi adicionada sem primeiro passar pela minha cara. Assim como gosto de fazer de conta que sou estrangeiro quando vou passear com a minha irmã e falamos em inglês, gosto de às vezes passar por outras pessoas. Com a farinha na cara era como o palhaço do circo. Ou como as senhoras que metem pó na cara antes de saírem de casa para um encontro romântico. 
Por fim, juntar as claras em castelo. São, a seguir ao acto de comer, a minha parte preferida. Bater tudo, inverter a bacia sobre a cabeça e certificar-me de que não cai. É sempre a medo que o faço ainda que possam estar bem presas. Se pudesse voltar atrás no tempo ensinava aos construtores a maneira de edificarem castelos e fortalezas sem risco de derrubamento por forças inimigas. O segredo estaria no uso das claras na argamassa. Acho que seria infalível.
Enquanto o bolo ganhava consistência no forno, guardava e lavava o material todo. Guardei uma casca de noz que mascarei de barco. Usei um palito para fazer de mastro, enchi o interior com açúcar para fazer de mercadoria e a farinha foi usada para fazer de espuma do mar que era as claras que tinham ficado nas cascas dos ovos.

E o bolo ficou bom. Para a próxima vou ver se faço este.

domingo, 26 de agosto de 2012

tatuagem


A menina no penúltimo banco da igreja, de vestido com flores estampadas e cabelo loiro apanhado numa trança caída no ombro esquerdo, ficou encantada quando descobriu a tatuagem feita pelos raios de Sol assim que atravessavam o vidro e se dividiam nas suas muitas cores. Quando viu o arco-íris mexer-se quando moveu o braço os olhos abriram-se ainda mais e começou a rir-se. 

É bom ser-se criança e o mundo caber-nos nas mãos. E as coisas acontecerem-nos a nós porque somos maiores do que nós mesmos. Somos o Robin Hood, o Power Ranger vermelho, as Tartarugas Ninjas, o Batman, o Action Man, o San Goku e o Inspector Gadget e quem nos apetecer. 

Aprendi algures que a jarra de vidro cortava a mão mas ainda assim o Game Boy só existia verdadeiramente quando o tinha na mão. Quando me esquecia dele em casa conseguia-o imaginar no sofá mas era como se ele não existisse porque ninguém estava a olhar para ele. Mas agora o mundo é demasiado grande e as minhas mãos só fazem nonas no piano e o meu metro e oitenta e cinco só me permite chegar facilmente às prateleiras de cima, onde às vezes escondo as bolachas.