Estás tão grande! E magro!
Pois estou. Foi de jogar ao jogo do elástico no ATL. Tinha de esticar as pernas para conseguir ultrapassar os elásticos e elas acabaram por crescer. É certo que às vezes também as adubava. Sabia bem enterrar os pés na areia na praia, molhá-los ao saltar nas pocinhas de água quando chovia e cobri-los com terra quando andava pelo jardim. A força de gravidade também me deu alguns milímetros ao puxar-me as pernas quando me pendurava no ferro superior dos baloiços. Mais deram-me os suissinhos que eu comia. Eram bons. No Inverno aquecia-os no microondas até que descobri que o cheiro de plástico queimado era mau sinal. E se sou magro é de me ter contorcido todo quando jogava às caçadinhas. Não eram só as boas pernas que me mantinham em jogo, era o conseguir esquivar-me das mãos que me persigam encolhendo a barriga ou arqueando as costas.
Tens uns olhos tão bonitos!
A mãe tratou disso. Não só através dos alelos – que o pai também deu – mas também porque às vezes descascava cenouras e dava-mas para comer. Era no tempo em que precisava de ficar em cima de uma cadeira junto à banca para ficar da altura dela. Às vezes usava avental e podia ser eu a temperar a comida sob o seu olhar atento. Também me dava a provar mais coisas e ensinou que tinha de comer o que quer que aparecesse na mesa. Por isso é que eu não fazia birras no infantário quando apareciam legumes no arroz. Sou do tempo em que se faziam vulcões com o puré que expeliam ervilhas e isso era o máximo! Só nunca gostei muito do feijão-frade nem dos brócolos nem dos grelos mas com o tempo controlei a cara de esgar.
E tens uma imaginação tão grande!
O pai obrigava a ler 20 páginas por dia, o que para os meus irmãos era uma obrigação mas que para mim era um momento de prazer e que se estendia para além das 2 dezenas de páginas. E o que sonhava depois com aquilo que lia! Diverti-me com os sobrinhos do pato Donald, lutei ao lado do Príncipe Valente, fiz amizades com o Harry, andei pelo Shire com o Frodo, fiquei triste com os irmãos Baudelaire, voei com o Eragon e com os meus irmãos nunca havia falta de brincadeiras. Às vezes eramos jornalistas, noutras cientistas, estilistas, médicos e pacientes, polícias, arqueólogos, actores de cinema, animais selvagens e outras tantas coisas!
Agora as crianças só queimam os dedos porque não largam as consolas e confundem ervilhas com feijões, couves com alface e morangos com pimentos. Pensam que o mikado é uma cidade, têm medo dos livros sem imagens e com mais de 10 páginas e têm amigos pelo facebook em vez de saírem à rua com um pauzinho do chinês na mochila a fazer de varinha de feiticeiro.
Fui uma criança feliz.