domingo, 16 de setembro de 2012


às vezes todo eu sou vazio. vou então até ao quarto dos pais e deito-me na cama de braços e pernas abertas para encher o espaço à minha volta. fico a olhar para o tecto, de onde roubo tinta branca para tentar pintar a cores na cabeça. depois levanto-me e começo a fazer alguma coisa até que surja outra que passe a ocupar o meu tempo. agora vou dormir e esperar que o sonho da neve de ontem continue hoje. vou ver se consigo abrir os braços e as pernas para fazer um anjo no gelo.



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

monopólio


Everybody else will be out drinking
But I don't feel like drinking
Do you wanna stay in and hang out with me?
We could play some Monopoly

It's embarrassing to think that at 25
I'm not doing something more wild with my life
There's a party over here, a party there
But my favourite party is in my bed

So will you please spend New Year's with me?
We can hide in my bedroom and watch cartoons all night




»-Calhei nas tuas propriedades. Não tenho dinheiro para te pagar.
-Não faz mal. Aceito beijos.
-Quantos?
-Vai dando até eu mandar parar.
.
..
...
-Posso calhar mais vezes nas tuas casas?
-Podes.
:)«

domingo, 9 de setembro de 2012

el final


Quando vi a série Verão Azul há uns anos rapidamente aprendi a cantarolar a música e no último episódio instalou-se um silêncio em mim e os olhos humedeceram. E naquele Verão, e no seguinte, quis conhecer um Piraña, um Tito, uma Bea e Desi, um Javi, Pancho e Quique com quem pudesse entreter-me. Houve um ano em que numas férias a Espanha ainda cheguei a conhecer uns rapazes e raparigas espanhóis no hotel e com quem passei algumas tardes mas não passámos de companhia útil para nos divertirmos na piscina ou na esplanada. Actualmente as pessoas que me acompanham na praia têm nomes portugueses e são amigos e colegas dos tempos do secundário e eu já me limito a assobiar, seja porque a realidade caiu em mim seja porque já tenho amigos com quem partilhar emoções.

E o Verão chega ao fim. Não porque o Outono já ocupou o seu lugar mas porque a faculdade começa amanhã e já não haverá tempo para ir para a praia, que é a situação patognomónica da estação solarenta. Sinto-me apático. Passei o dia a montar um puzzle e depois desfi-lo. Às vezes a efemeridade das coisas mexe comigo. Mas o Outono está para chegar e eu gosto dele.

Amanhã tenho de comprar canetas. Azuis. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

as crianças


Estás tão grande! E magro!
Pois estou. Foi de jogar ao jogo do elástico no ATL. Tinha de esticar as pernas para conseguir ultrapassar os elásticos e elas acabaram por crescer. É certo que às vezes também as adubava. Sabia bem enterrar os pés na areia na praia, molhá-los ao saltar nas pocinhas de água quando chovia e cobri-los com terra quando andava pelo jardim. A força de gravidade também me deu alguns milímetros ao puxar-me as pernas quando me pendurava no ferro superior dos baloiços. Mais deram-me os suissinhos que eu comia. Eram bons. No Inverno aquecia-os no microondas até que descobri que o cheiro de plástico queimado era mau sinal. E se sou magro é de me ter contorcido todo quando jogava às caçadinhas. Não eram só as boas pernas que me mantinham em jogo, era o conseguir esquivar-me das mãos que me persigam encolhendo a barriga ou arqueando as costas.

Tens uns olhos tão bonitos!
A mãe tratou disso. Não só através dos alelos – que o pai também deu – mas também porque às vezes descascava cenouras e dava-mas para comer. Era no tempo em que precisava de ficar em cima de uma cadeira junto à banca para ficar da altura dela. Às vezes usava avental e podia ser eu a temperar a comida sob o seu olhar atento. Também me dava a provar mais coisas e ensinou que tinha de comer o que quer que aparecesse na mesa. Por isso é que eu não fazia birras no infantário quando apareciam legumes no arroz. Sou do tempo em que se faziam vulcões com o puré que expeliam ervilhas e isso era o máximo! Só nunca gostei muito do feijão-frade nem dos brócolos nem dos grelos mas com o tempo controlei a cara de esgar.

E tens uma imaginação tão grande!
O pai obrigava a ler 20 páginas por dia, o que para os meus irmãos era uma obrigação mas que para mim era um momento de prazer e que se estendia para além das 2 dezenas de páginas. E o que sonhava depois com aquilo que lia! Diverti-me com os sobrinhos do pato Donald, lutei ao lado do Príncipe Valente, fiz amizades com o Harry, andei pelo Shire com o Frodo, fiquei triste com os irmãos Baudelaire, voei com o Eragon e com os meus irmãos nunca havia falta de brincadeiras. Às vezes eramos jornalistas, noutras cientistas, estilistas, médicos e pacientes, polícias, arqueólogos, actores de cinema, animais selvagens e outras tantas coisas!

Agora as crianças só queimam os dedos porque não largam as consolas e confundem ervilhas com feijões, couves com alface e morangos com pimentos. Pensam que o mikado é uma cidade, têm medo dos livros sem imagens e com mais de 10 páginas e têm amigos pelo facebook em vez de saírem à rua com um pauzinho do chinês na mochila a fazer de varinha de feiticeiro.

Fui uma criança feliz.

domingo, 2 de setembro de 2012