terça-feira, 9 de outubro de 2012

diz-me o Álvaro

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano, 
Firmo o projeto, aqui isolado, 
Remoto até de quem eu sou. 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 
O tique-taque estalado das máquinas de escrever. 
Que náusea da vida! 
Que abjeção esta regularidade! 
Que sono este ser assim! 

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros 
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância), 
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho, 
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve, 
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes. 

Outrora. 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 
O tique-taque estalado das máquinas de escrever. 

Temos todos duas vidas: 
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância, 
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa; 
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros, 
Que é a prática, a útil, 
Aquela em que acabam por nos meter num caixão. 

Na outra não há caixões, nem mortes, 
Há só ilustrações de infância: 
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler; 
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde. 
Na outra somos nós, 
Na outra vivemos; 
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer; 
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ... 

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Álvaro de Campos



«nesta morremos, que é o que viver quer dizer»... nestes últimos dias parece-me que é mesmo assim...

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

no campo

As linhas do arado perpendiculares à sombra das árvores desenhavam uma folha quadriculada na terra. Ainda pensei em chamar os primos para que jogássemos xadrez mas em vez disso pusemo-nos a comer uvas. Atirávamo-las ao ar e tentávamos que caíssem direitinhas na boca. Muitas bateram nos óculos ou na testa ou nos dentes mas não magoavam nem deixavam a gengiva a sangrar como quando uma vez resolvi comer M&M's desta forma. Rimo-nos e para que não dissessem que estávamos a estorvar ainda colhemos alguns cachos para a caixa mas guardámos alguns nos bolsos para comer no caminho de regresso a casa.  Deixámos que o Sol nos aquecesse as costas e nas descidas da estrada aproveitava-mos o impulso para correr e abrir os braços para sentir a deslocação do ar a roçar-nos na pele. Depois sentámo-nos no muro de casa e ficamos à espera que o resto da família chegasse.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

hands, touching hands

Alertam-nos para a importância de lavar as mãos e até nos mostram vídeos de como o fazer. E eu fico a pensar que toco num monte de objectos mas em pessoas é relativamente raro. Um aperto de mão ou nem isso.
Convivemos diariamente com pessoas e conhecemo-las de várias maneiras, mas o tacto da cara não costuma ser uma delas…

Que parvoíce a minha. O álcool desinfectante deve ter-me atingido o cérebro!

salta

Temos o mundo aos nossos pés até ao dia em que fazemos o pino. Por vezes fazemo-lo porque queremos, outras porque as leis do cosmo se alteram e nós sofremos com isso. Às vezes ainda podemos brincar com o mundo nas mãos, seja aos berlindes ou ao malabarismo. Mas pode dar-se o caso de sermos atingidos por meteoritos que acham que nos estamos a divertir muito e que assim não pode ser. Os berlindes rolam, alguns para debaixo dos armários e nada é como dantes. E andamos perdidos até percebermos que temos os pés no mundo e que ele faz de nós o que quiser.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Outono=Outubro

Na minha cabeça Outubro e Outono são a mesma coisa, tanto é que andei a pensar que hoje era o começo do Outono e não de Outubro. E se me perguntarem quando é que faço anos talvez vos diga que é no Outono e não em Outubro [e talvez diga que tenho 18 anos quando na verdade já tenho 19. Passou já quase um ano e ainda não me habituei ao novo número].
Chegou o Outono. Vamos viver. Vamos passear à chuva. Comer castanhas em casa com manteiga [ou com batata doce] ou na rua embrulhadas em papel de jornal. Vamos usar camisolas de malha e casacos com botões de pipos. Vamos à praia correr de um lado para o outro porque ela é toda nossa. Vamos para a janela fazer apostas nas gotas de chuva para ver qual é a primeira a chegar lá baixo. Vamos ver os espectáculos de luzes dos semáforos e dos carros reflectidas nas poças de água. Vamos!