Gosto de me deitar na manta em cima da relva ou da terra, no campo, e olhar lá para cima. Às vezes fico com a sensação que estou dentro de uma redoma de vidro e que o céu é o topo e tudo o que os meus olhos vêem são o limite da redoma.
O céu pode ser de muitas cores. Ontem estava azul e tinha algumas nuvens que mais pareciam algodão doce a desfazer-se quando o levamos à boca. Quando pus a cabeça de lado, gostei do contraste do verde com o azul.

Olhando novamente lá para cima, via a ponta das árvores. Compridas como eram, pareciam perfurar o azul como se fossem lanças. Talvez quisessem estilhaçar o vidro da redoma e, embora parecesse que o faziam, ainda estavam longe de tocar nele.
Agitavam-se suavemente de um lado para o outro, empurradas pela brisa que se fazia sentir. O barulho que se ouvia das folhas em movimento era reconfortante e fazia-me querer abanar os braços como se eles fossem também galhos de uma árvore que o vento acariciava.
Uma música veio-me a cabeça. Não, não eram resquícios de um estado de espírito de um dia já passado. Era apenas a constatação de um sentimento que me amarrou o braço por uns dias e de coisas que às vezes (mais do que aquelas que eu gostaria) me passam pela cabeça.
You'd better fuck off now, you'd better leave me alone
Cos I'm about to explode, just like a wonderbread bomb
Ontem estava bem. O céu, as árvores, a água que corria, o pássaro que voava, tudo aquilo ajudou. Não era um demónio nem lá perto (se bem que a minha barriga ficou rosada). Era eu.
Têm-me dito que mudei. Não acho que tenha mudado. Pelo menos não como no sentido que me dizem.
Talvez o que me queiram dizer é que me revelei em algumas coisas (sem no entanto me ter rebelado).
Talvez agora tenham percebido que não gosto muito de bróculos ou feijão-frade, mesmo tendo sempre comido o que me metiam no prato.
Nunca tive pressa para fazer certas coisas. Deixei antes que o desejo amadurecesse por uns anos para me aperceber do que realmente é importante para mim e o que gostava mesmo de fazer. Não sinto que tenha perdido nada até agora. E não sinto que tenha mudado por agora fazer algumas coisas.
A Natureza é sempre Natureza, mesmo havendo estações de ano. E eu sou sempre o mesmo.
Pergunto-me se ontem foste. Eu fui e adorei. Não andei à tua procura, mas lembrei-me de ti, se é que existes.
Se calhar tu foste uma grande confusão da minha cabeça. Talvez tenhas sido um delírio ou então alguém que nasceu de um sonho e que agora confunde a minha cabeça porque não sei se és realidade ou sonho.