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sábado, 17 de setembro de 2011

Havia uma música que dizia "dois sóis, um só sentido", não era?

-Quando for grande quero ser astrónomo.
-Para quê?
-Para estudar estrelas, planetas, satélites naturais, cometas, meteoróides, fenómenos espaciais e especiais e mais outras coisas que ainda não sei.
-Mas para que é que queres limitar-te a estudar, se as podes ter?
-Ter?
-Sim. O que se passa lá em cima é um reflexo do que se passa cá em baixo em grandes proporções. Há pessoas que são brilhantes como as estrelas e quando crescem tornam-se gigantes vermelhas. Outras são como os meteoróides, deslumbram-nos e fazem-nos pedir desejos. Os satélites naturais são as pessoas apaixonadas, girando à volta de alguém. Infelizmente, há também cá na Terra buracos negros. Evita-os!
-Eu sou uma estrela?
-Para mim, és a estrela mais brilhante que existe. És aquela que os olhos meus olhos procuram incessantemente nas noites mais escuras porque és tu... Sim, tu, pára de te rir. És tu que brilhas mesmo quando a escuridão me envolve e me aquece. Na verdade, eu costumo pôr-te no bolso do pijama. (e às vezes, manténs-me acordado porque brilhas demasiado e és muito grande para o meu bolso)
-Então pronto. Quero desde já coleccionar estrelas. Queres ser a minha primeira aquisição?

Foi assim que começámos a coleccionar estrelas, satélites naturais, cometas, meteoróides, fenómenos espaciais e especiais. Às vezes experimentávamos outros papéis. Fui Lua, fui cometa, fui meteoróide, mas evitei sempre ser buraco negro.

Agora, agora fomos separados. Terá sido o vento que nos empurrou para lados opostos? Será que o hélio se acabou a algum de nós e agora não somos capazes de nos ver um ao outro nas noites pintadas de preto?
Li uma notícia que ias gostar. Foi descoberto um planeta com dois sóis. Já imaginaste ver dois pores-do-sol? Já pensaste que não íamos ter de esperar tanto tempo para ver eclipses? Já pensaste que não íamos ter de competir com quem ficava com o sol na caderneta, porque havia um para cada um de nós?

Queria ser capaz de te mostrar a minha caderneta de estrelas. Se o conseguisse, a primeira página (e a segunda e a terceira) voltaria a ter o brilho de outrora e eu não me sentiria sozinho. Não te tenho comigo e em desespero, insultei aquele planeta. Disse que ele era poligâmico e que não gostava disso e que por isso ele nunca havia de entrar na minha colecção. Espero que ele tenha percebido que o amor faz-nos ser estúpidos e que na verdade eu tinha era ciúmes de ele ter alguém presente...

Sinto a tua falta. Estou à tua espera e todas as noites procuro-te da minha varanda. Tenho deixado a janela aberta para que possas entrar e alojar-te de novo no pijama. Enquanto te procuro, rio-me. Pode ser que o meu riso te atraia até mim.  Pode ser que a vibração das partículas do ar sejam detectadas pelas tuas máquinas e que o teu telescópio consiga ver a ténue luz que ainda emito (na verdade, o que fiz foi passar o teu pó de estrela no meu corpo...).

Sinto a tua falta...




-As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para os viajantes, as estrelas são guias. Para outros, não passam de luzinhas. Para outros, os cientistas são problemas. Para o meu homem de negócios, eram ouro. Mas todas essas estrelas estão caladas. Tu, tu vais ter estrelas como mais ninguém…
-O que é que isso quer dizer?
-À noite, pões-te a olhar para o céu e, como eu moro numa delas, como eu me estou a rir numa delas, para ti, é como se todas as estrelas se rissem! Vais ser a única pessoa do mundo que tem estrelas capazes de rir!
E voltou a rir.
-E quando te tiveres consolado (porque acabamos sempre por nos consolar), hás-de sentir-te muito contente por me teres conhecido. Hás-de ser sempre meu amigo. Vai-te apetecer rir comigo. E, às vezes, sem mais nem menos, vai-te dar para abrir a janela, só porque é bom… E os teus amigos hão-de ficar de boca aberta quando te ouvirem rir a olhar para o céu. Mas tu dizes-lhes: “Pois é! As estrelas sempre me deram vontade de rir!” E eles ficam a pensar que tu estás maluco. Rica partida que eu te vou pregar, não é?
E voltou a rir.
-É como se, em vez de estrelas, eu te desse quinhentos milhões de guizinhos capazes de rir!
E voltou a rir. Depois, fez-se sério e disse:
-Esta noite… Vê lá se percebes… Não venhas comigo.
-Vou! Vou! Não te quero abandonar!
-Mas há-de parecer que me dói muito… Há-de parecer que eu estou a morrer. Tem de ser assim. Não venhas ver uma coisa dessas que não vale a pena.
Antoine de Saint-Exupéry - O Principezinho

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Qual Faísca qual quê? Loucura!

"sinto a tua falta, meu amor, como sempre. Mas hoje é particularmente difícil porque o oceano tem estado a cantar para mim e a canção é a da nossa vida juntos. Quase consigo sentir-te a meu lado enquanto escrevo esta carta e consigo cheirar o aroma de flores silvestres que me faz sempre lembrar de ti"

É claro que não somos um romance do Nicholas Sparks. Tu fazias-me lembrar morangos e baunilha, não frutos silvestres. E não era o mar que nos cantava. Era o vento, que agitava as nossas árvores, e as gaivotas, que tentavam imitar o teu grasnar.
Mas sim, sinto a tua falta e tudo me faz lembrar de ti.

"sei que, de alguma maneira, todos os passos que dei desde o momento em que comecei a andar eram passos dirigidos ao teu encontro. Estávamos destinados a encontrarmo-nos"

E mais uma vez ele está errado. Dizer que estávamos destinado a encontrarmo-nos é praticamente dizer que nem tínhamos poder de escolha e não passávamos de marionetas nas mãos de alguém. Se ele não tivesse escrito a última frase e tivesse escrito "voar" em vez de "andar", então ele talvez tivesse alguma razão. Tu sempre quiseste voar. Lembras-te quando te punhas aos saltos na cama e no intervalo de tempo que estavas sem os pés apoiados no colchão gritavas:

"K., K., estou a voar!"

E tentavas puxar-me o braço para te acompanhar, mas eu não ia. Tinha medo de voar e tu, naquele êxtase, podias não conseguir estender-me o braço caso caísse.


Lembras-te quando íamos até à praia à noite e nos deixávamos envolver pela água? Quando nos estendíamos tu punhas areia nos meus braços e nas minhas pernas. Às vezes dizias que era porque eu ficava brilhante como a prata. Outras dizias que eram os raios da Lua que desciam até mim e se fundiam com as minhas células.
Ontem descobri uma maneira disso acontecer sem sairmos de casa. Nestes últimos dias tem-me custado adormecer e embora não esteja ninguém deitado a meu lado, fico cheio de calor. As minhas mãos suadas brilham à luz do candeeiro. As linhas da mão (que tu costumavas seguir com o teu indicador, numa tentativa de me leres a sina) reluzem como se fossem os fios de prata.


Estou a ficar louco, só pode. 

"esquizofrenia é quando ouves vozes, como na rádio"

Estarei a ficar esquizofrénico? Já são muitas as conversas na minha cabeça. Mais do que habitual.


Ontem disseram-me que quando vemos a Lua, pensamos sempre em alguém.
Eu pensava em ti, mas não sei quem és "tu". Podes ser inacessível (não te culpo se o fores, acho que eu também o sou) a muitos níveis, por isso vou deixar de ver a Lua. Talvez assim deixe de pensar em ti, quem quer que sejas.
.:Quando todas as luzes brilham, não te vejo no meio delas:.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mais um dia de espera


Como já não me posso deliciar com as tuas palavras que sabiam a morango e baunilha, contentei-me com uma maçã. Estava muito boa, sumarenta, e lembrei-me que tu eras das poucas pessoas que, tal como eu, adorava sumo de maçã. Mais tarde, quando era hora de lanchar, preparei a taça com cereais e leite. Depois de tantas vezes o aquecer muito e depois de muitos cereais pastosos, tinhas-me dito que havia de experimentar leite frio. Fi-lo desta vez. E tinhas razão, ficava muito bom com os cereais de sabor a mel.

("Porque é que hás-de ter sempre razão? Porque tinhas de ser tão perfeito?")

E agora que os cereais já nem sequer são bolo alimentar e o leite já aqueceu dentro de mim, pergunto-me porque ando a escrever estes textos tolos.

Serei simplesmente parvo ou algo mais?

Bah, acho que não tarda nada e ainda serei uma personagem do Nicholas Sparks (mas não aquela que morre!).

("E porque é que ainda continuo a não querer contradizer-te?")

Se calhar o que escrevo não é ficção, mas a realidade que me ocupa a cabeça traduzida em letras que se juntam para formar palavras, que formam frases e parágrafos e que contam uma história. A nossa história.

Se calhar é uma história ficcional. Ou se calhar sou simplesmente parvo e não faço ideia do que ando cá a fazer. Ou a dizer. Ou a escrever.

E agora apetecia-me gritar mas não o vou fazer.

Vou esperar. Mas sabes, esperar é cansativo porque não sei por quanto tempo o terei de fazer. E isso é um pouco assustador, não concordas? Ontem vi a Lua quando estava na Estação de Metro (estava bonita lá em cima, aquele branco a brilhar sobre a minha cabeça, e parecia que as nuvens a cobriam como se fossem lençóis transparentes. As nuvens andavam de um lado para o outro mas a Lua estava estática. Havias de ter gostado de a ver. Tirei uma foto para quando estivermos juntos a poderes ver).

("Quando voltaremos a estender-nos na varanda a ver a Lua?")

Depois sentei-me no banco de pedra e olhei para o painel para ver as horas. Foi aí que me assustei com o "esperar". Os pontos luminosos que formavam os números 23:59 não mudaram para as 24:00 e não continuaram para as 24:01. Voltaram aos 00:00. É como se tudo voltasse ao início.

Vou estar sempre a voltar àquele início? Eu não quero. Tenho medo e tu tinhas dito que estarias sempre aqui quando tivesse medo.

E por falar na Lua, há uns tempos li uma notícia intitulada "a outra face da Lua". E sabes o que dizia? Que a Terra já teve 2 luas, uma maior do que a outra, e que chocaram entre si. O resultado disso foi que uma desapareceu e é por isso que a outra face da Lua é mais escarpada do que a que eu vi ontem à noite.

Será que fomos as 2 luas e colidimos e tu desapareceste? Eu diria que sim, não fosses tu ser a lua maior e que por isso deveria ter permanecido...

É tudo uma confusão. Já são demasiadas incógnitas na equação. E eu só aprendi a resolver equações com quantas incógnitas: quatro? cinco?. E não sei usar a máquina calculadora para resolver esta grande equação...

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."
Responde-me ao menos a isto: vieste ao meu quarto ontem à noite? É que as sapatilhas que eu te escondia estavam ao lado da minha cama e não me recordo de as ter visto antes de me deitar...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Dentes do siso



Não sonhei contigo (a menos que agora sejas um zombie), mas ainda assim pensei em ti. E isso é também uma forma de estar acompanhado.

Há dias em que me sinto vazio e hoje é um deles. Se to tivesse dito, ter-me-ias dado uma aula de anatomia, fisiologia, filosofia e talvez até de religião. Por fim, dirias que eu podia não acreditar em nada do que acabaras de dizer, mas que tinhas ainda mais um argumento, infalível.

"Quando estavas a dormir, eu soprei para o teu coração. E desse sopro nasceu algo muito maior do que tu e eu e que irá crescer cada vez mais."

Na altura fiquei sem saber o que querias dizer, mas quando deixei de pensar num "eu" para pensar num "nós", tu disseste-me que isso era um rebento da tal coisa. E deste-lhe um nome que pareceu dançar nos teus lábios e que ressoou nos teus dentes perfeitos: "amor".

Será que ainda tenho esse sopro de vida? Ou será que ele foi expirado no momento que acordei?

Saltei numa tentativa de ouvir o seu chocalhar. Nada. Talvez ele não se ouça. Talvez não se veja, mas se sinta. Se calhar ainda o tenho e é isso que me faz ficar triste. Se calhar não é o tenho e por isso me sinto vazio.
Ou se calhar sinto-me vazio porque tenho fome. Mas nem só de pão, leite e bolachas vivo... Talvez um pouco daquilo me fizesse bem.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Na Nova Zelândia está um grande nevão"

A minha mãe disse aquelas palavras sem saber o impacto que isso teria em mim, tal como a Mrs Darling desconhecia o que aconteceria aos seus filhos ao sair de casa para ir ao nº 27: "Na Nova Zelândia está um grande nevão."

As tuas palavras ecoaram na minha cabeça, tal e qual como as tinhas murmurado: "Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."

Nunca percebi exactamente como o consegues. Lanças um Portus no ar que me envolve para que eu vá ter contigo? Colocaste um tabu para que eu Desapareça e Apareça à tua beira? Ou tudo será um sonho?

"Diz-me, o que é?"

Num segundo eu estava ali, agora estou aqui.

"Nova Zelândia? Porquê? Foi por eu ter ficado deslumbrado com as paisagens das filmagens do Senhor dos Anéis? Foi porque te lembraste que eu disse que gostava de ir até lá para ouvir falar da Paikea? Porque ficas sempre por meias palavras? Eu sempre te disse que não era bom entendedor. Os meus neurónios não enviam neurotransmissores ao neurónio seguinte. Enviam a tudo o que está à volta. E à conta disso, eu crio mil cenários para as tuas palavras."

"Vamos caminhar" foi a tua resposta. A maneira tranquila com que falaste fez-me corar de vergonha.

Não me deste a mão e eu estranhei. Costumas dar-me a mão e enquanto andamos vais passando o teu polegar no meu pulso. Isso faz cócegas, mas eu nunca to disse. Receio que deixes de o fazer por saberes que as cócegas são torturas para mim (acho que na verdade esta não é a razão. Tu sabes que só sou torturado quando as cócegas me são feitas debaixo do braço ou no tronco. Tenho simplesmente medo de que ao falar tu pares momentaneamente aquele gesto e percebas que a minha frequência de pulso aumenta quando me tocas). Quis perguntar-te o que se  passava, mas tu ias à minha frente e eu acelerei o passo.

"Tenho frio. Não sabia que vinha logo para aqui, senão teria trazido uma  camisola" exclamei, com um certo azedume.

"Eu não tenho". (como é que podias não ter se estavas em tronco nu?)

Continuavas a andar. E o mais estranho é que não havia pegadas tuas. Olhei para trás. Só via um conjunto de pegadas, as minhas, mas as tuas não estavam lá. Tu enterravas os pés na neve - eu via o branco aparecer entre os teus dedos morenos - e no entanto quando os levantavas, não havia vestígios de que tivesses sequer arrastado neve.

Tudo aquilo era anormal. Mas que diabo se estava a passar? Corri para ti e quando estava suficientemente perto, estendi o meu braço para ti. Estavas frio como seria de esperar (e dizias tu que não tinhas frio) mas no entanto não deste a entender que tinhas sentido o meu toque.
Deste um passo em frente mas eu já não aguentava mais. Atirei-me para ti, enrolei os meus braços à volta da tua cinta e rebolamos pela neve. Não ofereceste resistência. Mas que diabos? No entanto os teus olhos não estavam escuros de curiosidade e tranquilidade. Estavam escuros de medo e o medo apoderou-se de mim.

Reuni as forças que ainda tinha e esmorrei-te. Foi a coisa que mais me custou fazer, mas parecia-me que era o que tinha de fazer. O meu sangue tingiu o branco. O solo fora maculado e no entanto tu continuavas perfeito e imaculado aos meus olhos.

"Mas que se passa? Porque não gritas, porque não tremes de frio, porque não sangras, porque me estás a fazer isto? Ainda não percebeste que me estás a assustar?"

"Pensei que soubesses." O medo invadia a tua cara. O teu coração não batia debaixo da minha mão. Como era possível?

"O quê? Que eras um idiota, um imbecil, um fantasma, um sonho?"

"Sim."

Não sei se me meteram neve pela boca abaixo (provavelmente não), mas foi isso que senti. Isso e uma grande pancada na cabeça. Mas a pancada na cabeça foi provocada pelas palavras que me passavam pela cabeça numa tentativa de perceber a tua resposta. "Idiota"? Não, isso também eu o sou e sempre nos rimos disso quando nos tentávamos equilibrar nas traves de madeira que ficavam atrás da porta do quintal e que nos levavam à praia. "Imbecil" era uma das tuas palavras preferidas e dizias que o eras quando te sentias culpado de alguma coisa. "Fantasma"? Isso assustou-me, mas o Ron ensinou-me que os fantasmas são transparentes ("e os Inferi são corpos sem vida") e tu não o eras. Seria possível então que fosses... "um sonho?"

"Sim. Pensavas o quê? Que eu era um romance do Nicholas Sparks? Não, nesses morre sempre alguém e aqui não morreu ninguém. Um romance da Jane Austen? Não, aí as coisas começavam um bocadinho para o torto e depois endireitavam-se. Connosco não foi assim. Não foi, porque eu sou um sonho. Fui o que tu pensaste, o que quiseste que eu fosse. Mas depois quebraste as regras e desejaste que eu fosse real. Não se podem quebrar as regras, K."

"Mas então e agora? Não posso voltar a adormecer e ter outro sonho?"

"Poder podes, mas eu continuarei a ser um sonho, só que desta vez terás noção disso e serás torturado de cada vez que eu aparecer e a realidade se apossar de ti no sonho. Eu voltarei se assim o desejardes, quando o verde ficar branco, mesmo quando o Sol nascer em oeste e se puser a este. Mas se quiseres, poderei voltar mais vezes, sem te atormentar."

"Como??"

"É impossível dizê-lo agora. Talvez tenha outra cara. Outro corpo. Outra voz. Outro coração. Outro nome. Na altura saberás. Espera. Espera como esperávamos pelos pirilampos que iluminavam o jardim nas noites de Verão."

"Mas..."

"Num outro sonho talvez. Agora são 4h. E tu já acord..."

E agora que estou acordado, quero gritar-te isto, mas a tua voz, sempre mais melodiosa do que a minha, sobrepõem-se e canta-me uma outra música. E eu dou por mim a acompanhar-te em alguns versos...

Sleep don't weep
My sweet love
Your face it's all wet
And your day was rough
So do what you must do
To find yourself
Wear another shoe
Paint my shelf
There's times that I was broke
When you stood strong
I think I've found a place
Where I …

Sleep don't weep
My sweet love
Your face it's all wet
'Cause our days were rough
So do what you must do
To fill that hole
Wear another shoe
To comfort the soul
There's times that I was broke
When you stood strong
I think I've found a place
Where I feel I will…


Sleep don't weep
My sweet love
My face it's all wet
'Cause my day was rough
So do what you must do
To find yourself
Wear another shoe
Paint my shelf
There's times that I was broke
When you stood strong
I hope I find a place
Where I feel I belong

Sleep don't weep
My sweet love
My face it's all wet
'Cause my day was rough.

Don't weep, my sweet love
My face it's all wet
'Cause my days are rough

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Lâmpadas fundidas

"Quando o leite aquece mais do que era suposto, as bolinhas Nesquick ficam pastosas. E enquanto vou adicionando leite frio para não queimar a língua, os cerais vão saindo da caneca e tu aproveitas logo para os comer. Assim não dá. Assim nenhum dos dois lancha em condições.
Depois, quando nos sentamos a comer, passam minutos até que um de nós se levante para lavar a caneca. É nesses minutos que uma formiga sobe a mesa e eu ofereço-lhe a minha mão (aquela mesma onde podia estar um peixe) e o meu braço para ela passear. Tu sorris, achas piada a que eu faça isso.
Quando a formiga sai, queres tu assumir o lugar dela. E assim vais descobrindo os sinais que tenho no braço. No outro dia disseste-me quantos eram, mas eu esqueci-me..."


Por agora deixaste-me sozinho, a ler aquelas folhas onduladas do diário que deixamos cair durante um dos muitos passeios à chuva, mas não sem antes me fazeres uma promessa.

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."


Quando fui agora à rua, para ir até à praia ver o céu fogo como me tinhas aconselhado, contei as lâmpadas fundidas (que por sinal eram 4) e lembrei-me de alguém hoje dizer:

"Quando se fecha uma porta, abre-se uma janela"

Então voltei para casa a correr e abri a janela e deixei a porta aberta.
Quando o Peter Pan sai da Terra do Nunca, instala-se lá o nevoeiro. Talvez tu sejas à espécie de um Peter Pan. Talvez "quando o verde ficar branco" não se refira a neve aqui. Talvez a tua vinda para aqui faça com que o verde que agora há no sítio onde estás se transforme em branco (e o meu branco fica verde). Se assim for, tens a janela aberta para entrares quando quiseres.
Espera. Não, tu não és o Peter Pan porque ele esquecia-se de tudo (pobre Wendy, tinha de estar sempre a dizer-lhe quem ela era) e tu não és assim. Se fosses um Peter Pan, não te lembrarias de mim por esta altura e sei que isso não é verdade. Sabes quem eu sou e cumprirás a tua promessa.

Não tenho cabelo para te estender à janela qual Rapunzel. Mas tens sempre a porta aberta. Ainda é a mesma, mas desta vez não terás de tocar à campainha. Ela estará aberta e tu já conheces o que há do outro lado.

Do outro lado só desconhecemos o espelho... Quando estendo a minha mão para ele, não é a palma da tua mão que envolve a minha. A tua vejo a uns centímetros ao meu lado, porque a estendemos os dois simultaneamente na esperança de encontrarmos uma passagem secreta.


Fico à espera da neve...

Jardins. Eu e "tu"


Uma. Duas. Três. Quatro. Mais infinito.
Eram muitas as gotas de água ao longo da corda do estendal. Eram os restos da chuva do formigueiro dos últimos dias. Pus um dedo numa das extremidades e fui a caminhar, a passo lento até à outra extremidade, arrastando o dedo ao longo do fio verde como faço no frasco da manteiga de amendoim. As gotas iam escorregando para a palma da mão onde formaram um pequeno lago.
Nesse lago querias pôr um peixe, mas não nos decidíamos: eu queria um peixe palhaço, tu um grama real. A minha escolha era tímida, a tua pacifica. Optamos antes por usar o lago como um espelho. Nas águas cristalinas vi o reflexo da tua cara e quando pus a minha cabeça à frente da tua, tu atiraste a água contra mim.
Soltaste uma gargalhada quando me viste a tremer com o contacto da água fria no meu corpo. Acordaste um pássaro que voou sobre ti, como se estivesse a investigar quem perturbava a frequência das partículas do ar.

O teu riso jamais poderá ser imitado por alguém. Conquistaste-o ao longo do tempo e agora fazes inveja aos melhores compositores, às melhores orquestras. Não há melodia como a tua.

Ao passar pelas árvores do quintal, os ramos batiam ao de leve no topo da minha cabeça. Por vezes tinha de me abaixar para que um não me atingisse a cara e a sujasse. Levavas-me às cavalitas porque dizias que eu era uma pena que tu, o índio, levavas na cabeça.
Lá mais para baixo, a relva húmida molhava-te os pés. Eu disse que devias calçar aqueles ténis que de vez em quanto tos escondo para eu usar, mas tu disseste que querias sentir o calor da terra, porque isso te fazia sentir vivo. Pouco depois disseste que a brisa matinal te fazia cócegas e pousaste-me no chão.

Fomos então para junto do poço. O interior estava escuro como a noite de ontem quando nos deitamos. Escuro como os teus olhos. Pusemo-nos a gritar lá para dentro e ouvimos o eco. Depois atirámos seixos lá para dentro e ficamos a imaginar os círculos que se desenhavam na água. 

"Se caíssemos lá para dentro, ficaria escuro, mesmo durante o dia. Juntos esperaríamos até que a Lua ficasse exactamente por cima da abertura do poço e então saberíamos que estávamos juntos ao luar. Os raios de luz brilhariam nos teus olhos e seríamos felizes assim".

Vi os teus olhos brilharem naquele momento, como se neles se desenrolasse o que acabara de proferir. O brilho foi-se quando uma nuvem tapou o Sol por cima de nós. Não fazia mal, continuavas a brilhar para mim.
Pus a minha mão sobre o teu peito nu. Estava quente (e moreno; juntos fazíamos um bonito contraste) e quando senti o teu coração a pulsar debaixo da minha mão, arrepiei-me. O meu coração principiava a sincronizar-se com o teu.

Depois fechei os olhos e a última coisa que recordo é de sentir as tuas mãos ásperas (que para mim são suaves) na minha cara. Passaste pela testa e penteaste-me o cabelo. Roçaste os olhos, a linha do nariz e depois paraste na minha boca. Senti o teu dedo pressionar o meu lábio superior e murmuraste

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."

 Depois...

Uma. Duas. Três. Quatro batidas do relógio. Acordei.

domingo, 14 de agosto de 2011

"Porque é que quando estou calado, ouço vozes dentro de mim?"

Gostava de ler o pensamento das pessoas. Não porque quisesse saber os seus segredos íntimos, não porque não haja mais nada interessante para fazer, não porque gostasse de fazer disso a minha vida. Gostava somente de saber se quando estão caladas, sozinhas, fazem como eu.

Quando estou calado, não estou calado comigo mesmo. Estou sempre a fazer perguntas, algumas dirigidas a mim outras a alguém - a Deus -, critico o que fiz e o que não fiz, canto para mim mesmo, crio histórias ridículas na minha cabeça (algumas das quais gostaria que fossem realidade) e sei lá mais o quê.

Às vezes tenho medo de me ir deitar.

Não, não é por causa do bicho papão, nem por achar que tenho monstros debaixo da cama ou no guarda-roupa. A única vez que me lembro de ter medo que estivesse alguma coisa no quarto foi há muito tempo e eram tubarões. Achava que tinha um bando de tubarões a nadar à volta da minha cama.

Não, não é por causa de aranhas que desconheço existirem no quarto ou outros bichos quaisquer. Os cientistas dizem que comemos perto de uma dezena de aranhas numa vida enquanto dormimos e embora isso seja algo nojento, consigo dormir à noite.

Não. Tenho medo é de me deitar por causa do que vou ou não pensar. Há pensamentos que são assim coisinhas irritantes que vêm em momentos em que tudo o que queremos é topping de morango.

Ontem deitei-me e resolvi desligar o telemóvel. Ele costuma ficar ligado, silencioso (não penses que ainda o deixo com o som ligado), não me incomoda sequer, mas ontem uma parte de mim quis desligá-lo. 

Os lençóis estavam frios, a cama tinha sido feita de lavado. A almofada não era a minha. Alguém deve ter-se enganado a pôr a fronha. Estranhei a falta de recheio, mas não quis procurar a minha almofada. Sabia que ia custar a adormecer, com ou sem a almofada certa.

Nunca se deve ignorar um Gritador (o Neville descobriu-o da pior maneira), pelo que dali a nada alguns pensamentos começaram a destilar. Tentei não prestar-lhe atenção, mas era escusado. Analisei-os não um a um, mas vários ao mesmo tempo. Vinham aos pares, às vezes aos trios. Uma confusão. Às vezes nem tinham nada a ver uns com os outros. Foi uma destilação mal feita.

Vento, gaivotas, não as ouvi. Ouvi o camião do lixo a passar na rua lá em baixo e o barulho que as sacas faziam ao serem atiradas lá para dentro.


Mesmo antes de me ir deitar fui-me pesar. Quando acordei voltei a assentar os pés sobre aquela superfície fria. 900 gramas tinham ficado algures entre a noite. Mas os pensamentos continuavam cá.O ar ocupa espaço e pode ser pesado, mas os pensamentos não. Não seria nada se não os tivesse, por isso tenho [tenho?] de lidar com eles.

A Lua estava quase em lua cheia, não era? Acho que ontem à noite não a vi, mas vi-a anteontem. Mas existem outras luas, outras que não são constituídas por anortosito e feldspato. O Ursinho Pooh ia gostar delas. São de mel, ou pelo menos assim chamadas.

"A nossa lua de mel vai brilhar toda a vida. Os seus raios só se apagarão sobre o teu túmulo ou sobre o meu".
Charlotte Brontë ("Jane Eyre") 

Talvez um dia me vejas sentado de perninhas à chinês na Biblioteca, a ler as lombadas dos livros ou a folhear algum deles. Gosto do cheiro do papel.
Talvez um dia me pises a mão e depois me peças desculpa. Eu responderei com um "desculpa eu". É a força do hábito.
Talvez um dia sejas tu o meu pensamento. Ou talvez me ajudes a fazer a destilação. Nunca gostei de destilações. Então fraccionadas eram uma valente seca.

E o "tu" é tão incógnito [da próxima vez que resolver uma equação, uma das incógnitas será "tu"]. Quer dizer, só o "eu" é exacto e conhecido. "Tu" não. Quem é o "tu"? Não sei. Por vezes, as equações não têm uma solução. Ainda não estou certo se esta tem ou não.


"Fica sempre à minha espera e então, alguma noite hás-de ouvir-me grasnar"




Ando à procura de uma coruja