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quinta-feira, 7 de junho de 2012

O último Baci foi escrito. Agora vou guardar tudo num sítio escuro para um dia queimar e rir-me da minha palermice.

terça-feira, 29 de maio de 2012

This is a story of boy meets boy, but you should know upfront, this is not a love story.


Às vezes apercebo-me que o meu grau de idiotice é maior do que julgava.

É absurdamente ridícula a situação em que me encontro, mais do que o texto do Fernando Pessoa poderia afirmar. Chega a ser mais ridícula do que os romances histéricos do Nicholas Sparks ou de sei lá mais quem. E eu sou tão ridículo como todas aquelas personagens dos livros e filmes que se sentiam ridiculamente contentes quando viam passar uma certa pessoa na rua. O rapaz da biblioteca parece ter-se instalado numa poltrona na minha cabeça. E fazendo contas, já lá vai quase o tempo de uma gestação! 

Está mais que na hora de expulsá-lo por fazer demasiado barulho e distrair o bibliotecário. Note-se que o bibliotecário nem sabe exactamente como há-de categorizar fulaninho porque não passam de desconhecidos. Se não o fizer deprimirei constantemente e ainda acabo por tornar-me obeso de tantos chocolates que como para escrever no invólucro uma pequena mensagem [sim, eu ando a escrever as minhas próprias mensagens dos chocolates Baci]. Talvez um dia eu fique diabético. Ao menos que nessa altura já tenha esquecido o rapaz!



E embora adore a Sue, não quero ser como ela:

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Urso apolar

Quando estava a dançar feito imbecil na cozinha ao som da música do anúncio televisivo dei um salto quando a tampa da panela caiu, um salto provavelmente igual ao que daria se me tivesse apercebido de que estava a ser observado (se bem que neste caso teria fingido que tinha queimado o dedo ao cozinhar). Sorri e continuei a dança enquanto o anúncio não acabava, contente por ver que tinha bolachas de chocolate para mais uma noite!

Depois de me saciar, regressei ao quarto e deitei-me sobre a cama a ver as constelações no tecto. A chuva caia e encontrei perdida uma Ursa Apolar. (Pelo menos a encontrar constelações nunca falho, embora não consiga encontrá-las novamente depois de desviar o olhar.) Falei-lhe e disse-lhe que se quisesse lhe encontrava um urso polar para lhe fazer companhia. Ela disse-me que não era preciso, que estava bem, sozinha e a refrescar-se à chuva. Piscou-me o olho e desapareceu.


Eu estou provavelmente a dar em doido. Suspeito que alguma da chuva que cai há horas tenha entrado pelos ouvidos e que agora o meu cérebro esteja a afogar-se. Já não faço sentido nenhum...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

You can't do that. You can't live trying to avoid pain...

«I'm really happy only when I'm on my own. Even being alone, it's better than sitting next to a lover and feeling lonely. It's not so easy for me to be a romantic. You start off that way, and after you've been screwed over a few times... you forget about your delusional ideas and you take what comes into your life.
I was fine until I read your fucking book. It stirred shit up, you know? It reminded me how genuinely romantic I was... How I had so much hope in things... and now it's like I don't believe in anything that relates to love. I don't feel things for people anymore. In a way, I put all my romanticism into that one night... and I was never able to feel all this again. Like, somehow this night took things away from me... and I expressed them to you, and you took them with you. It made me feel cold, like love wasn't for me. I guess I've been heartbroken too many times and then I recovered. So now, you know, from the starts, I make no effort. I know it's not gonna work out.»



«Mas misturada com aquela sua mania havia qualquer coisa mais, uma insatisfação mais profunda, uma espécie de carência que se revelava naquela sua ânsia de procurar pessoas que o escutassem. Porque atrás dessa procura ocultava-se uma outra, diferente. Cosimo não conhecia ainda o amor, e sem o amor de que se pode dizer afinal que valha qualquer experiência? De que vale ter arriscado a vida quando não se conhece ainda o verdadeiro e profundo sabor dessa mesma vida?»




Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my thoughts
Let me sing you a waltz
About this one night stand
You were, for me, that night
Everything I always dreamt of in life
But now you're gone
You are far gone
All the way to your island of rain
It was for you just a one night thing
But you were much more to me, just so you know
I don't care what they say
I know what you meant for me that day
I just want another try, I just want another night
Even if it doesn't seem quite right
You meant for me much more than anyone I've met before
One single night with you, little Jesse, is worth a thousand with anybody
I have no bitterness, my sweet
I'll never forget this one night thing
Even tomorrow in other arms, my heart will stay yours until I die
Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my blues
Let me sing you a waltz
About this lovely one night stand 


E sorrimos todos no fim. Ele perdeu o avião, mas eu não. Ele ficou pelas árvores, mas eu não. Com as mãos nos bolsos do casaco e olhos nos cordões dos ténis fiz o meu caminho no horário normal. Sozinho, a pensar em mim, neles, em pessoas. Juntaram-se palavras, imagens e sons. Depois adormeci.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Pixel | Good friends are hard to find

Eu. Tu. Nós?

Que será feito de nós?

Daremos as mãos algum dia, não no habitual cumprimento, tímido, mas num gesto em que te puxo para mim para sussurrar “amo-te” ao ouvido?

Os nossos lábios alguma vez provar-se-ão ou ficaremos a roer as unhas para que eles não cheguem a saber aquilo que perdem?

Atiraremos as t-shirts para o chão e passaremos o embaraço da primeira vez ou vamos fingir que apenas gostamos da roupa um do outro?


Que será feito de nós?

Sorriremos apaixonadamente um para o outro daqui a anos ou vamos fingir que nunca nos conhecemos?

Partilharemos o pequeno-almoço ainda em pijama e depois sairemos juntos para o trabalho ou vamos virar as costas quando nos cruzarmos no corredor das bolachas no supermercado?

Rir-nos-emos da maneira peculiar como nos conhecemos ou vamos dizer que tudo não passou de um erro?

Sim, que será feito de nós? Eu vou ser eu e tu vais ser tu, mas alguma vez chegará a haver um nós diferente daquele que já existe? Debato-me frequentemente com a pergunta, mas tenho medo de ta fazer. Bons amigos são difíceis de encontrar, talvez não deva querer mais do que isso. O medo de te poder perder é talvez maior do que a vontade de pousar a mão no teu peito para sentir o teu coração enquanto te vejo dormir a meu lado.


Talvez…




(Participei no 1º concurso de Pequenas Histórias LGBT promovido pelo sad eyes. Aqui estou eu, depois de um provável delírio mental...)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Do I make you proud?

Eu tenho duas mãos e dois braços, duas pernas e dois pés. Tenho um só nariz, mas tenho dois ossos nasais. Parece que a anatomia humana foi feita com base no número dois. E é bom que as coisas existam aos pares - se uma delas for lesada, a outra permanece e tenta manter as funções.

A minha disposição também varia ao longo do dia, normalmente. Hoje de manhã acordei bem disposto, saltei no quarto e agitei os braços como se eles fossem uma espiga de milho agitada pelo vento. Mas agora estou a ouvir a mesma música e os meus membros não respondem freneticamente como de manhã. Estou apático e embora tenha uma tablete de chocolate mesmo ao lado, não me apetece comê-la. Na verdade, não me apetece fazer nada.


Agora a música mudou e quer-me parecer que os olhos querem soltar lágrimas, mas isso não pode acontecer. Fico com a visão desfocada e ainda tenho coisas para ler.


Estive sentado na sala com a luz apagada. O LED da televisão e do aparelho que fica por baixo emitiam luz vermelha; olhando para a janela via as luzes do candeeiro que depois de sofrerem reflexão, refracção e muitos mais fenómenos, chegavam até mim como uma cruz laranja. E eu era capaz de ficar a olhar para essa cruz até à eternidade. Quando ela se apagasse, talvez eu tombasse do sofá e me apagasse também.

Não sei dar o valor certo às coisas e dou demasiada importância às coisas que não devia. Eu sei-o porque caso contrário não diria que levantar-me da cama é como um reflexo do meu corpo ao ouvir do despertador e que ligar o despertador na noite anterior é um processo automático que faço apenas porque tenho de fazer. Não é contudo algo que eu não goste minimamente de fazer: antes de levantar-me da cama fico a ouvir a música do despertador que foi escolhida não com o intuito de me acordar, mas para que eu possa apreciá-la. Mas também não é algo que eu queira mesmo muito fazer.
Acho que não me sinto realizado. E sim, provavelmente não tenho razões para dizer isto e devia estar mas é calado (já estou calado. Todo eu estou muito calado hoje), mas sinto isso. E também acho que isso não muda durante o dia, apenas às vezes está selado com vários encantamentos para não dar por mim a pensar nisso.

Pergunto-me agora se posso fazer algo para mudar isso.
("Posso fazer algo para mudar isso?")
Provavelmente sim. Seria extremamente difícil porque volto aos meus patamares mais cedo ou mais tarde. Apercebo-me que o que imagino na cabeça não tem qualquer possibilidade de existir. É tudo demasiado perfeito e utópico. Na vida real isso jamais será assim.
Tenho de me contentar com o que tenho e usar as ferramentas que me vão sendo dadas para tentar mudar o suficiente para chegar a um patamar que me traga estabilidade.

Agora alguém deveria bater-me. Eu gostava de dar um estalo alguém, mas acho que seria mais justo que alguém me desse um a mim. Estou a entrar num processo de resignação com a estagnação e decadência em que me encontro. Que treta, agora até me apetecia cair abaixo da cadeira e ficar deitado até adormecer.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O mundo não gira à nossa volta

Ingenuamente, às vezes penso no que virá depois do rio (sim, lembram-se daquela música da Pocahontas "Depois do rio, o que é que vem"? Eu lembrei-me agora) e tento saber o que o futuro traz (parece que chuva ainda não é para já). Já me disseram que o meu mal é pensar em demasia, porque sou capaz de imaginar mil cenários e como a realidade não se afigura a nenhum deles, fico desapontado e frustrado. Se penso em demasia? Sim, talvez. Mas não vou dizer que isso é o meu mal. É um método de auto-defesa para o que poderá vir a acontecer, já que os linfócitos não podem tratar de tudo. Não nego que às vezes fico frustrado, mas gosto de pensar que pensar não é a causa, mas também uma consequência.
Não acho que pensar faça mal, acho é que não devemos tomar algumas coisas que se desenrolam na nossa cabeça como certas, que é o mesmo que que dizer que não devemos criar expectativas em relação a nada. Assim não temos de passar por aquela fase em que pomos as culpas nos outros e não em nós (sim, temos o hábito de culpar os outros, mas é verdade que muitas vezes a culpa é nossa. Quem nos manda a nós imaginar coisas?). Bem, eu falo por mim porque assim que me apercebo que estou nessa fase idiota, sinto-me mal.
A culpa é minha, eu admito, e não dele. Ele não fez nada (de facto, foi por não ter feito nada que eu pensei, mas não disse alto, que a culpa era dele. Peço-lhe, mas não lhe digo, que me desculpe). Agora que penso nisso, acho que foi melhor assim. Talvez tenha muito a aprender com ele (uso a palavra "talvez", que remete para dúvida, para não criar expectativas) e o sentir-me assim signifique alguma coisa. Às vezes esqueço-me que o mundo não gira à minha volta. Estou certo que reaprendi mais uma vez isso, hoje (vês, afinal já aprendi algo com ele. Descobri algo, mesmo sem ter criado expectativas).
Com o tentar prever o que sairia nos dados, dei por mim a pensar naqueles dois.
"If the two of us didn't live in Kansas and lived in a city of, say, Fairy Town Homohio... would you and I still be together? I'm just asking. Are we a couple because we love each other or are we just at the mercy of simple math?"
Tentei chegar a uma resposta que tomasse como verdadeiramente correcta e imaginar-me na situação deles. Às vezes só pensamos naquilo que é proveitoso ou fácil para nós. Acho que em relação a ele estava a principiar a pensar assim. Poderia (poderá) ser proveitoso para mim, mas será que deveria (deverá)  acontecer? Embora tudo deva ter um par, não nos devemos ficar pelo útil. Somar não é difícil, mas é mesmo isso que precisamos? Não. E pensar nas coisas antes de cometermos algum erro é mau? Eu não acho.
Penso, mas não lhe digo, que foi bom ele não ter feito nada. Assim eu dei por mim a pensar nisto e sei que devo pensar no que faço e que é estúpido eu sentir-me assim. O mundo não gira à minha volta, mas as minhas acções afectam as pessoas à minha volta.

sábado, 1 de outubro de 2011

Não vás. Ainda é noite



Os meus sonhos costumam ser demasiado imbecis para que neles pudesse ouvir uma música tão bonita. Nem mesmo nos sonhos menos anormais conseguiria ouvir aquilo. Só podia ser o despertador a tocar e sendo assim, já não dormia. Estava acordado.

Levantei-me involuntariamente assim que parei o alarme do telemóvel. Ainda ensonado, dirigi-me ao quarto de banho. O frio das lajes nos pés e nas mãos o frio do lavatório indicavam-me que estava em frente ao espelho, mas os olhos, cansados e magoados pelo sono e pela claridade das luzes, não queriam abrir. Via ainda as luzinhas amarelas em fundo preto.

Tu podias ser os meus olhos naquele momento, mas não estavas ali.

Usei as mãos como concha e passei água pela cara. Mais frio, mas era revigorante. Aos poucos os olhos abriam e comecei a distinguir os objectos pousados no armário ali ao lado. Vi-me ao espelho. O cabelo estava despenteado e o lado esquerdo da cara estava vermelho. Foi a tua mão ontem à noite que me despenteou. Disseste que os teus dedos eram elfos que viviam no meu cabelo e exemplificavas passando a mão no topo da minha cabeça. Os teus dedos facilmente passariam por elfos, altos e esguios, mas o meu cabelo jamais poderia ser a moradia de seres tão perfeitos. Tu não concordaste comigo. Disseste que em mais nenhum lugar se pode sentir um cheiro tão bom a frutos silvestres. E para mo comprovares, cheiraste-o profundamente e fingiste que comias uma framboesa.

Voltei ao quarto para ir buscar roupa para vestir. Arrastei os pés para que a madeira não rangesse e tu acordasses. Sempre te invejei por conseguires fazer aquela dança em que todos os teus movimentos não produziam qualquer ruído, mesmo quando pousavas os pés no chão depois de teres dado um salto. Peguei nas primeiras coisas que os meus dedos palparam e fui tomar banho. O champô não era de frutos silvestres – apanhei-te na tua brincadeira. Não pude deixar de sorrir no entanto.

A minha barriga roncou (ou como tu dizias depois de veres “À Procura de Nemo”, falava baleiês). Na cozinha comi um iogurte (esse sim de frutos silvestres) e um pão com Nutella. Só havia um pão e o chocolate estava a acabar. Pensei para mim que irias ter pouca sorte quando acordasses, mas era bem feito – para a próxima não comas o que bem te apetece ao jantar; se pensas que eu vou estar sempre a deixar metade do meu pequeno-almoço para ti, estás bem enganado.

Quando saí à rua estava nevoeiro e o chão estava molhado. Seria do orvalho ou da birra que fizeste ontem quando eu te disse para te portares bem porque eu estava a ler?

Não estavas comigo para que pudesse perguntar-te se tinhas ido chorar para a varanda antes de eu ter colhido as tuas lágrimas para fazer cristais de halite para nós dois.

Continuei por isso o meu caminho até ao Metro (parecia que te conseguia ouvir a dizer que já não é Metro mas sim Noventa Centímetros porque, dada a sua lentidão, tu o tinhas penalizado). Numa das paragens sentou-se um homem ao meu lado. Não lhe vi a cara porque estava concentrado na leitura, mas era impossível não prestar atenção ao cheiro dele. Um perfume forte (sabes que para mim os perfumes são todos iguais), mas que apenas se notava ligeiramente porque havia um cheiro ainda mais forte, a tabaco. Troquei de lugar e prossegui a leitura no Noventa Centímetros.

Tu podias ser as partículas no ar que provocavam o cheiro, mas tinhas ficado na cama.

O dia arrastou-se com o ponteiro das horas. Tentei em vão transfigurar o 3 num 8 para que pudesse voltar para casa para junto de ti. Tentei em vão que o Sol se deslocasse mais rapidamente para chegar a casa e ver-te à minha espera na varanda.

Agora já estou em casa, mas não junto a ti. Ainda vou ter de esperar mais algumas horas, ainda tenho de adormecer. Tu podias estar aqui agora, mas és o produto de um sonho. E mesmo sendo eu capaz de sonhar acordado, é quando estou a dormir que tu apareces e me começas a fazer cócegas ao de leve nos braços. Acordas-me e temos um dia inteiro em conjunto até que a noite acabe e o despertador volte a tocar.

domingo, 18 de setembro de 2011

Podíamos ser felizes, mas podes sê-lo só tu


You could be happy and I won't know
But you weren't happy the day I watched you go
And all the things that I wished I had not said
Are played on loops 'till it's madness in my head

Is it too late to remind you how we were?
But not our last days of silence, screaming, blur
Most of what I remember makes me sure
I should have stopped you from walking out the door

You could be happy, I hope you are
You made me happier than I'd been by far
Somehow everything I own smells of you
And for the tiniest moment it's all not true

Do the things that you always wanted to
Without me there to hold you back, don't think, just do
More than anything I want to see you girl
Take a glorious bite out of the whole world




E eu julgo-me detentor do mesmo direito de ser feliz. Por isso posso ser feliz e tu (quem quer que seja a pessoa a quem ele se refere. "Tu" pode ser muita gente e não ser ninguém) também, sozinhos porque não nos conhecemos, ou juntos, um dia.

(eu costumo inventar um "tu" para dar um corpo a uma das vozes que tenho na cabeça. Assim as pessoas não pensam que sou louco)


(agora os meus dedos estão a dançar pelo teclado... 
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e eu estou feliz a fingir. Também estás? Espero que não. Ou então que pelo menos sejas um bom fingidor como eu. Não digas a ninguém, mas eu vou ganhar o Óscar de Melhor Fingidor (e nem sequer sou poeta). Vai ser a Maggie Smith a entregar-me a estatueta (e eu vou dar-lhe um abraço porque gosto muito dela) e no meu discurso a fingir, vou fingir que estou surpreendido por ter ganho aos outros concorrentes. E eles vão fingir que estão contentes por mim, mas como não são tão bons fingidores, eu vou perceber. Mas não me vou importar, porque vou fingir que estou contente.

Se algum dia nos conhecermos, vou mostrar-te o cavaleiro (não de bronze, mas de estanho com folha de ouro) e podemos deixar de fingir. Seremos felizes a sério!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

What the heart thinks, the tongue should speak (William Shakespeare)

Será que é bem assim? A língua só fala por palavras, mas o coração fala com cores, sabores, cheiros e muitas outras sensações que a língua rudemente traduz. Além disso, algumas palavras accionam feitiços que provocam resultados diferentes aos que queríamos. É um grande risco o falar, pois há feitiços imperdoáveis e sons que jamais deveriam ser pronunciados. E que podemos fazer depois, quando alguém fica Confundido ou Desarmado ou Atordoado ou fazemos alguém fugir? Usar palavras não é seguro - ainda fazemos tudo de novo -, mas o coração tem de ficar onde está, para continuar a bombear o sangue... (a língua pode ser posta de fora, mas o coração não. Nunca tentem meter o vosso de fora).

A língua e o coração são da mesma cor, mas raramente são verdadeiros cúmplices um do outro. Na verdade, eles não se amam, por isso é que estão separados um do outro. Às vezes conseguem estar em sintonia e comandam outros músculos para que se consiga fazer certos gestos. 

Coração, língua e gestos já são uma combinação melhor.

E o que estou para aqui a escrever foi comandado pela minha língua. No meu coração as coisas soavam melhor e não pareciam tão ridículas.

Há coisas que nunca devem ser ditas...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

blinkanditsover:

Zodiacal Light over La Silla (by European Southern Observatory)



- Para onde estás a olhar?
- Para o céu. Está bonito.
- Não tem nada de especial.
- Isso é porque não estás a ver direito.
- Não digas asneiras e anda para dentro que estás a apanhar frio.


Estava bonito. Uma mistura de cores e intensidades, de sonhos e de realidades. Gostava de ir até lá cima e passear, provar nuvens e falar com as gaivotas. Talvez elas concordassem comigo que aquilo é bonito. Talvez lá não haja pó (ou se calhar há, mas não é preciso limpar; pode-se comer porque sabe a estrelas).

Acho que quando estou a olhar o céu o tempo não passa. Mas quando me forçam a desviar a cara e depois miro novamente o algodão em rama de lá de cima, fico com a sensação que alguém comeu um bocado e agora está a rir-se de mim. Nunca virem a cara, deixem que aquilo perdure para sempre.. .

O champanhe acabou enquanto olhava o céu. Agora vou jogar Monopólio. E em vez de hotéis vou construir céus e vou obrigar-te a pagar-me com auroras boreais e nuvens. E quando não tiveres mais nada para saldar as dívidas, terás de te transformar numa estrela para eu pendurar em cima da minha cama. Porque quando o jogo acaba, é hora de ir dormir e contigo por cima de mim, não estarei sozinho.

Livra-te de caíres!

Eu nunca gostei de metáforas...

Ao tentar tocar isto, dou por mim a desejar ter umas mãos mais pequenas. Talvez fosse mais fácil tocar as oitavas e trocar dedos. Mas talvez deva simplesmente parar e pensar que existe uma outra mão para ajudar quando é preciso. Juntas dividem notas mas tocam a mesma melodia. O trabalho poderá ser simplificado, basta querer, basta que uma mão reconheça a existência e a capacidade da outra.

Mas por vezes há um medo oculto nesses movimentos que parecem tão inócuos. Não é o medo do protagonismo roubado. Não, longe disso. É o medo de as duas mãos querem tocar sempre juntas, mesmo quando há apenas uma nota. Corre-se o risco de violar a peça do compositor. E é também o medo de se magoarem uma à outra naquela partilha.

E isso não acontece um pouco com tudo? 

sábado, 20 de agosto de 2011

Mataram os baloiços

{Hello, stranger.}





Onde está a chuva que me tinham prometido e que eu esperava que hoje me molhasse a cara, a roupa, o calçado e me lavasse a alma?
Onde está o granizo que me tinham prometido e que eu esperava ver acumular na varanda da cozinha, formando uma pista de gelo temporária para eu patinar?
Onde está a trovoada que me tinham prometido e para a qual eu tinha guardado trovoada feita dentro de mim para lhe fazer companhia?
Digam-me, onde está? Nada vi, nada senti, nada cheirei. Não gritei nem corri pela casa. Tudo que me tinham prometido foi substituído por um dia de canícula que eu não quis nem pedi.

Será que só eu acho que altas temperaturas e falta de vento fazem mal? Os electrões ficam excitados, as interacções moleculares aumentam, a entropia aumenta, a perda de energia é maior e por fim, fico num estado irritadiço. O Demónio quer voltar a dançar comigo, mas, apesar de tudo, não tenho paciência para ele (na verdade, acho que já dancei, mas fiz um grande esforço para conter tudo dentro de mim. nem toda a gente aguenta a violência dos gestos dele).

Os meus planos de chuva foram não pela água abaixo (ela nem sequer caiu) mas sim secaram ao Sol. Secaram demasiado ou então eram tão grandes que tocaram o Sol e desapareceram. O meu passeio à chuva teve de ser substituído por um passeio nocturno pela beira da praia.
Não vou dizer que não gostei – na verdade, a praia fica bonita à noite e é agradável passear por lá e ver as estrelas a pairar e o mar adquire uma tonalidade prata nos sítios onde a luz dos candeeiros atinge. Mas se chovesse as ruas estariam pouco movimentadas e por isso seria como se estivesse sozinho na solidão. Mas assim não. As ruas estavam cheias. Estava sozinho na multidão.

E passei pelo parque onde brinquei várias vezes quando era mais pequeno. Foi aí que fiquei triste. Mataram os baloiços que me possibilitaram mandar uns grandes pontapés às nuvens e ao céu. As cordas que seguravam o assento eram agora muito pequenas, em nada se comparavam às gigantes onde as minhas mãos tantas vezes passaram.
Pobres crianças que lá brincavam. Não sabem elas o quanto eu chateava o meu pai para me levar lá (mesmo em dias de chuva, é verdade) para brincar nos melhores baloiços da cidade.

Pobre eu, que agora já não encontro a mesma diversão de antigamente nos baloiços onde agora me balanço.




{- I don't love you anymore.}
{- Since when?}
{- Now.}

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Qual Faísca qual quê? Loucura!

"sinto a tua falta, meu amor, como sempre. Mas hoje é particularmente difícil porque o oceano tem estado a cantar para mim e a canção é a da nossa vida juntos. Quase consigo sentir-te a meu lado enquanto escrevo esta carta e consigo cheirar o aroma de flores silvestres que me faz sempre lembrar de ti"

É claro que não somos um romance do Nicholas Sparks. Tu fazias-me lembrar morangos e baunilha, não frutos silvestres. E não era o mar que nos cantava. Era o vento, que agitava as nossas árvores, e as gaivotas, que tentavam imitar o teu grasnar.
Mas sim, sinto a tua falta e tudo me faz lembrar de ti.

"sei que, de alguma maneira, todos os passos que dei desde o momento em que comecei a andar eram passos dirigidos ao teu encontro. Estávamos destinados a encontrarmo-nos"

E mais uma vez ele está errado. Dizer que estávamos destinado a encontrarmo-nos é praticamente dizer que nem tínhamos poder de escolha e não passávamos de marionetas nas mãos de alguém. Se ele não tivesse escrito a última frase e tivesse escrito "voar" em vez de "andar", então ele talvez tivesse alguma razão. Tu sempre quiseste voar. Lembras-te quando te punhas aos saltos na cama e no intervalo de tempo que estavas sem os pés apoiados no colchão gritavas:

"K., K., estou a voar!"

E tentavas puxar-me o braço para te acompanhar, mas eu não ia. Tinha medo de voar e tu, naquele êxtase, podias não conseguir estender-me o braço caso caísse.


Lembras-te quando íamos até à praia à noite e nos deixávamos envolver pela água? Quando nos estendíamos tu punhas areia nos meus braços e nas minhas pernas. Às vezes dizias que era porque eu ficava brilhante como a prata. Outras dizias que eram os raios da Lua que desciam até mim e se fundiam com as minhas células.
Ontem descobri uma maneira disso acontecer sem sairmos de casa. Nestes últimos dias tem-me custado adormecer e embora não esteja ninguém deitado a meu lado, fico cheio de calor. As minhas mãos suadas brilham à luz do candeeiro. As linhas da mão (que tu costumavas seguir com o teu indicador, numa tentativa de me leres a sina) reluzem como se fossem os fios de prata.


Estou a ficar louco, só pode. 

"esquizofrenia é quando ouves vozes, como na rádio"

Estarei a ficar esquizofrénico? Já são muitas as conversas na minha cabeça. Mais do que habitual.


Ontem disseram-me que quando vemos a Lua, pensamos sempre em alguém.
Eu pensava em ti, mas não sei quem és "tu". Podes ser inacessível (não te culpo se o fores, acho que eu também o sou) a muitos níveis, por isso vou deixar de ver a Lua. Talvez assim deixe de pensar em ti, quem quer que sejas.
.:Quando todas as luzes brilham, não te vejo no meio delas:.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mais um dia de espera


Como já não me posso deliciar com as tuas palavras que sabiam a morango e baunilha, contentei-me com uma maçã. Estava muito boa, sumarenta, e lembrei-me que tu eras das poucas pessoas que, tal como eu, adorava sumo de maçã. Mais tarde, quando era hora de lanchar, preparei a taça com cereais e leite. Depois de tantas vezes o aquecer muito e depois de muitos cereais pastosos, tinhas-me dito que havia de experimentar leite frio. Fi-lo desta vez. E tinhas razão, ficava muito bom com os cereais de sabor a mel.

("Porque é que hás-de ter sempre razão? Porque tinhas de ser tão perfeito?")

E agora que os cereais já nem sequer são bolo alimentar e o leite já aqueceu dentro de mim, pergunto-me porque ando a escrever estes textos tolos.

Serei simplesmente parvo ou algo mais?

Bah, acho que não tarda nada e ainda serei uma personagem do Nicholas Sparks (mas não aquela que morre!).

("E porque é que ainda continuo a não querer contradizer-te?")

Se calhar o que escrevo não é ficção, mas a realidade que me ocupa a cabeça traduzida em letras que se juntam para formar palavras, que formam frases e parágrafos e que contam uma história. A nossa história.

Se calhar é uma história ficcional. Ou se calhar sou simplesmente parvo e não faço ideia do que ando cá a fazer. Ou a dizer. Ou a escrever.

E agora apetecia-me gritar mas não o vou fazer.

Vou esperar. Mas sabes, esperar é cansativo porque não sei por quanto tempo o terei de fazer. E isso é um pouco assustador, não concordas? Ontem vi a Lua quando estava na Estação de Metro (estava bonita lá em cima, aquele branco a brilhar sobre a minha cabeça, e parecia que as nuvens a cobriam como se fossem lençóis transparentes. As nuvens andavam de um lado para o outro mas a Lua estava estática. Havias de ter gostado de a ver. Tirei uma foto para quando estivermos juntos a poderes ver).

("Quando voltaremos a estender-nos na varanda a ver a Lua?")

Depois sentei-me no banco de pedra e olhei para o painel para ver as horas. Foi aí que me assustei com o "esperar". Os pontos luminosos que formavam os números 23:59 não mudaram para as 24:00 e não continuaram para as 24:01. Voltaram aos 00:00. É como se tudo voltasse ao início.

Vou estar sempre a voltar àquele início? Eu não quero. Tenho medo e tu tinhas dito que estarias sempre aqui quando tivesse medo.

E por falar na Lua, há uns tempos li uma notícia intitulada "a outra face da Lua". E sabes o que dizia? Que a Terra já teve 2 luas, uma maior do que a outra, e que chocaram entre si. O resultado disso foi que uma desapareceu e é por isso que a outra face da Lua é mais escarpada do que a que eu vi ontem à noite.

Será que fomos as 2 luas e colidimos e tu desapareceste? Eu diria que sim, não fosses tu ser a lua maior e que por isso deveria ter permanecido...

É tudo uma confusão. Já são demasiadas incógnitas na equação. E eu só aprendi a resolver equações com quantas incógnitas: quatro? cinco?. E não sei usar a máquina calculadora para resolver esta grande equação...

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."
Responde-me ao menos a isto: vieste ao meu quarto ontem à noite? É que as sapatilhas que eu te escondia estavam ao lado da minha cama e não me recordo de as ter visto antes de me deitar...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Dentes do siso



Não sonhei contigo (a menos que agora sejas um zombie), mas ainda assim pensei em ti. E isso é também uma forma de estar acompanhado.

Há dias em que me sinto vazio e hoje é um deles. Se to tivesse dito, ter-me-ias dado uma aula de anatomia, fisiologia, filosofia e talvez até de religião. Por fim, dirias que eu podia não acreditar em nada do que acabaras de dizer, mas que tinhas ainda mais um argumento, infalível.

"Quando estavas a dormir, eu soprei para o teu coração. E desse sopro nasceu algo muito maior do que tu e eu e que irá crescer cada vez mais."

Na altura fiquei sem saber o que querias dizer, mas quando deixei de pensar num "eu" para pensar num "nós", tu disseste-me que isso era um rebento da tal coisa. E deste-lhe um nome que pareceu dançar nos teus lábios e que ressoou nos teus dentes perfeitos: "amor".

Será que ainda tenho esse sopro de vida? Ou será que ele foi expirado no momento que acordei?

Saltei numa tentativa de ouvir o seu chocalhar. Nada. Talvez ele não se ouça. Talvez não se veja, mas se sinta. Se calhar ainda o tenho e é isso que me faz ficar triste. Se calhar não é o tenho e por isso me sinto vazio.
Ou se calhar sinto-me vazio porque tenho fome. Mas nem só de pão, leite e bolachas vivo... Talvez um pouco daquilo me fizesse bem.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Na Nova Zelândia está um grande nevão"

A minha mãe disse aquelas palavras sem saber o impacto que isso teria em mim, tal como a Mrs Darling desconhecia o que aconteceria aos seus filhos ao sair de casa para ir ao nº 27: "Na Nova Zelândia está um grande nevão."

As tuas palavras ecoaram na minha cabeça, tal e qual como as tinhas murmurado: "Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."

Nunca percebi exactamente como o consegues. Lanças um Portus no ar que me envolve para que eu vá ter contigo? Colocaste um tabu para que eu Desapareça e Apareça à tua beira? Ou tudo será um sonho?

"Diz-me, o que é?"

Num segundo eu estava ali, agora estou aqui.

"Nova Zelândia? Porquê? Foi por eu ter ficado deslumbrado com as paisagens das filmagens do Senhor dos Anéis? Foi porque te lembraste que eu disse que gostava de ir até lá para ouvir falar da Paikea? Porque ficas sempre por meias palavras? Eu sempre te disse que não era bom entendedor. Os meus neurónios não enviam neurotransmissores ao neurónio seguinte. Enviam a tudo o que está à volta. E à conta disso, eu crio mil cenários para as tuas palavras."

"Vamos caminhar" foi a tua resposta. A maneira tranquila com que falaste fez-me corar de vergonha.

Não me deste a mão e eu estranhei. Costumas dar-me a mão e enquanto andamos vais passando o teu polegar no meu pulso. Isso faz cócegas, mas eu nunca to disse. Receio que deixes de o fazer por saberes que as cócegas são torturas para mim (acho que na verdade esta não é a razão. Tu sabes que só sou torturado quando as cócegas me são feitas debaixo do braço ou no tronco. Tenho simplesmente medo de que ao falar tu pares momentaneamente aquele gesto e percebas que a minha frequência de pulso aumenta quando me tocas). Quis perguntar-te o que se  passava, mas tu ias à minha frente e eu acelerei o passo.

"Tenho frio. Não sabia que vinha logo para aqui, senão teria trazido uma  camisola" exclamei, com um certo azedume.

"Eu não tenho". (como é que podias não ter se estavas em tronco nu?)

Continuavas a andar. E o mais estranho é que não havia pegadas tuas. Olhei para trás. Só via um conjunto de pegadas, as minhas, mas as tuas não estavam lá. Tu enterravas os pés na neve - eu via o branco aparecer entre os teus dedos morenos - e no entanto quando os levantavas, não havia vestígios de que tivesses sequer arrastado neve.

Tudo aquilo era anormal. Mas que diabo se estava a passar? Corri para ti e quando estava suficientemente perto, estendi o meu braço para ti. Estavas frio como seria de esperar (e dizias tu que não tinhas frio) mas no entanto não deste a entender que tinhas sentido o meu toque.
Deste um passo em frente mas eu já não aguentava mais. Atirei-me para ti, enrolei os meus braços à volta da tua cinta e rebolamos pela neve. Não ofereceste resistência. Mas que diabos? No entanto os teus olhos não estavam escuros de curiosidade e tranquilidade. Estavam escuros de medo e o medo apoderou-se de mim.

Reuni as forças que ainda tinha e esmorrei-te. Foi a coisa que mais me custou fazer, mas parecia-me que era o que tinha de fazer. O meu sangue tingiu o branco. O solo fora maculado e no entanto tu continuavas perfeito e imaculado aos meus olhos.

"Mas que se passa? Porque não gritas, porque não tremes de frio, porque não sangras, porque me estás a fazer isto? Ainda não percebeste que me estás a assustar?"

"Pensei que soubesses." O medo invadia a tua cara. O teu coração não batia debaixo da minha mão. Como era possível?

"O quê? Que eras um idiota, um imbecil, um fantasma, um sonho?"

"Sim."

Não sei se me meteram neve pela boca abaixo (provavelmente não), mas foi isso que senti. Isso e uma grande pancada na cabeça. Mas a pancada na cabeça foi provocada pelas palavras que me passavam pela cabeça numa tentativa de perceber a tua resposta. "Idiota"? Não, isso também eu o sou e sempre nos rimos disso quando nos tentávamos equilibrar nas traves de madeira que ficavam atrás da porta do quintal e que nos levavam à praia. "Imbecil" era uma das tuas palavras preferidas e dizias que o eras quando te sentias culpado de alguma coisa. "Fantasma"? Isso assustou-me, mas o Ron ensinou-me que os fantasmas são transparentes ("e os Inferi são corpos sem vida") e tu não o eras. Seria possível então que fosses... "um sonho?"

"Sim. Pensavas o quê? Que eu era um romance do Nicholas Sparks? Não, nesses morre sempre alguém e aqui não morreu ninguém. Um romance da Jane Austen? Não, aí as coisas começavam um bocadinho para o torto e depois endireitavam-se. Connosco não foi assim. Não foi, porque eu sou um sonho. Fui o que tu pensaste, o que quiseste que eu fosse. Mas depois quebraste as regras e desejaste que eu fosse real. Não se podem quebrar as regras, K."

"Mas então e agora? Não posso voltar a adormecer e ter outro sonho?"

"Poder podes, mas eu continuarei a ser um sonho, só que desta vez terás noção disso e serás torturado de cada vez que eu aparecer e a realidade se apossar de ti no sonho. Eu voltarei se assim o desejardes, quando o verde ficar branco, mesmo quando o Sol nascer em oeste e se puser a este. Mas se quiseres, poderei voltar mais vezes, sem te atormentar."

"Como??"

"É impossível dizê-lo agora. Talvez tenha outra cara. Outro corpo. Outra voz. Outro coração. Outro nome. Na altura saberás. Espera. Espera como esperávamos pelos pirilampos que iluminavam o jardim nas noites de Verão."

"Mas..."

"Num outro sonho talvez. Agora são 4h. E tu já acord..."

E agora que estou acordado, quero gritar-te isto, mas a tua voz, sempre mais melodiosa do que a minha, sobrepõem-se e canta-me uma outra música. E eu dou por mim a acompanhar-te em alguns versos...

Sleep don't weep
My sweet love
Your face it's all wet
And your day was rough
So do what you must do
To find yourself
Wear another shoe
Paint my shelf
There's times that I was broke
When you stood strong
I think I've found a place
Where I …

Sleep don't weep
My sweet love
Your face it's all wet
'Cause our days were rough
So do what you must do
To fill that hole
Wear another shoe
To comfort the soul
There's times that I was broke
When you stood strong
I think I've found a place
Where I feel I will…


Sleep don't weep
My sweet love
My face it's all wet
'Cause my day was rough
So do what you must do
To find yourself
Wear another shoe
Paint my shelf
There's times that I was broke
When you stood strong
I hope I find a place
Where I feel I belong

Sleep don't weep
My sweet love
My face it's all wet
'Cause my day was rough.

Don't weep, my sweet love
My face it's all wet
'Cause my days are rough

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Lâmpadas fundidas

"Quando o leite aquece mais do que era suposto, as bolinhas Nesquick ficam pastosas. E enquanto vou adicionando leite frio para não queimar a língua, os cerais vão saindo da caneca e tu aproveitas logo para os comer. Assim não dá. Assim nenhum dos dois lancha em condições.
Depois, quando nos sentamos a comer, passam minutos até que um de nós se levante para lavar a caneca. É nesses minutos que uma formiga sobe a mesa e eu ofereço-lhe a minha mão (aquela mesma onde podia estar um peixe) e o meu braço para ela passear. Tu sorris, achas piada a que eu faça isso.
Quando a formiga sai, queres tu assumir o lugar dela. E assim vais descobrindo os sinais que tenho no braço. No outro dia disseste-me quantos eram, mas eu esqueci-me..."


Por agora deixaste-me sozinho, a ler aquelas folhas onduladas do diário que deixamos cair durante um dos muitos passeios à chuva, mas não sem antes me fazeres uma promessa.

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."


Quando fui agora à rua, para ir até à praia ver o céu fogo como me tinhas aconselhado, contei as lâmpadas fundidas (que por sinal eram 4) e lembrei-me de alguém hoje dizer:

"Quando se fecha uma porta, abre-se uma janela"

Então voltei para casa a correr e abri a janela e deixei a porta aberta.
Quando o Peter Pan sai da Terra do Nunca, instala-se lá o nevoeiro. Talvez tu sejas à espécie de um Peter Pan. Talvez "quando o verde ficar branco" não se refira a neve aqui. Talvez a tua vinda para aqui faça com que o verde que agora há no sítio onde estás se transforme em branco (e o meu branco fica verde). Se assim for, tens a janela aberta para entrares quando quiseres.
Espera. Não, tu não és o Peter Pan porque ele esquecia-se de tudo (pobre Wendy, tinha de estar sempre a dizer-lhe quem ela era) e tu não és assim. Se fosses um Peter Pan, não te lembrarias de mim por esta altura e sei que isso não é verdade. Sabes quem eu sou e cumprirás a tua promessa.

Não tenho cabelo para te estender à janela qual Rapunzel. Mas tens sempre a porta aberta. Ainda é a mesma, mas desta vez não terás de tocar à campainha. Ela estará aberta e tu já conheces o que há do outro lado.

Do outro lado só desconhecemos o espelho... Quando estendo a minha mão para ele, não é a palma da tua mão que envolve a minha. A tua vejo a uns centímetros ao meu lado, porque a estendemos os dois simultaneamente na esperança de encontrarmos uma passagem secreta.


Fico à espera da neve...

Jardins. Eu e "tu"


Uma. Duas. Três. Quatro. Mais infinito.
Eram muitas as gotas de água ao longo da corda do estendal. Eram os restos da chuva do formigueiro dos últimos dias. Pus um dedo numa das extremidades e fui a caminhar, a passo lento até à outra extremidade, arrastando o dedo ao longo do fio verde como faço no frasco da manteiga de amendoim. As gotas iam escorregando para a palma da mão onde formaram um pequeno lago.
Nesse lago querias pôr um peixe, mas não nos decidíamos: eu queria um peixe palhaço, tu um grama real. A minha escolha era tímida, a tua pacifica. Optamos antes por usar o lago como um espelho. Nas águas cristalinas vi o reflexo da tua cara e quando pus a minha cabeça à frente da tua, tu atiraste a água contra mim.
Soltaste uma gargalhada quando me viste a tremer com o contacto da água fria no meu corpo. Acordaste um pássaro que voou sobre ti, como se estivesse a investigar quem perturbava a frequência das partículas do ar.

O teu riso jamais poderá ser imitado por alguém. Conquistaste-o ao longo do tempo e agora fazes inveja aos melhores compositores, às melhores orquestras. Não há melodia como a tua.

Ao passar pelas árvores do quintal, os ramos batiam ao de leve no topo da minha cabeça. Por vezes tinha de me abaixar para que um não me atingisse a cara e a sujasse. Levavas-me às cavalitas porque dizias que eu era uma pena que tu, o índio, levavas na cabeça.
Lá mais para baixo, a relva húmida molhava-te os pés. Eu disse que devias calçar aqueles ténis que de vez em quanto tos escondo para eu usar, mas tu disseste que querias sentir o calor da terra, porque isso te fazia sentir vivo. Pouco depois disseste que a brisa matinal te fazia cócegas e pousaste-me no chão.

Fomos então para junto do poço. O interior estava escuro como a noite de ontem quando nos deitamos. Escuro como os teus olhos. Pusemo-nos a gritar lá para dentro e ouvimos o eco. Depois atirámos seixos lá para dentro e ficamos a imaginar os círculos que se desenhavam na água. 

"Se caíssemos lá para dentro, ficaria escuro, mesmo durante o dia. Juntos esperaríamos até que a Lua ficasse exactamente por cima da abertura do poço e então saberíamos que estávamos juntos ao luar. Os raios de luz brilhariam nos teus olhos e seríamos felizes assim".

Vi os teus olhos brilharem naquele momento, como se neles se desenrolasse o que acabara de proferir. O brilho foi-se quando uma nuvem tapou o Sol por cima de nós. Não fazia mal, continuavas a brilhar para mim.
Pus a minha mão sobre o teu peito nu. Estava quente (e moreno; juntos fazíamos um bonito contraste) e quando senti o teu coração a pulsar debaixo da minha mão, arrepiei-me. O meu coração principiava a sincronizar-se com o teu.

Depois fechei os olhos e a última coisa que recordo é de sentir as tuas mãos ásperas (que para mim são suaves) na minha cara. Passaste pela testa e penteaste-me o cabelo. Roçaste os olhos, a linha do nariz e depois paraste na minha boca. Senti o teu dedo pressionar o meu lábio superior e murmuraste

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."

 Depois...

Uma. Duas. Três. Quatro batidas do relógio. Acordei.

sábado, 6 de agosto de 2011

O amanhã é incerto

Ontem à noite fui até à praia. Quando lá cheguei, lembrei-me da última vez que lá estive àquela hora. Mas o que lá me levava era uma razão completamente diferente. Tão diferente, que todo o cenário era igualmente diferente.

Desta vez optei por tirar os ténis e levá-los na mão. Às vezes ainda consigo sentir a areia nos ténis que levei da outra vez; entranharam-se de tal maneira que ainda me fazem cócegas.
Na areia via-se as marcas das patas das minhas amigas gaivotas. Deixei as minhas pegadas à beira das delas. Espero que elas percebam que eu estive lá...

Estava mais escuro e mar e céu eram dois amantes naquela noite - estavam fundidos num só. Era impossível dizer onde começava um e acabava o outro, era tudo escuro. Às minhas doze horas (pela hora seria mais às minhas 0h), no que durante o dia eu diria que era a linha onde se fundiam os amantes, estava uma estrela. Por sinal, a única estrela de que me lembro de ontem.

O mar estava agitado e o vento empurrava as ondas para a minha direita. Umas rebentavam nas rochas, mas outras vinham languidamente até ao areal. Uma das rochas assemelhava-se a um vulcão: tinha forma afunilada, topo aplanado típico de erupções efusivas (não estou errado, pois não?), declive pouco acentuado. A parte superior era mais clara, mas a inferior, onde as águas salpicavam, estava preta. Se uma sereia ali estivesse, acho que a conseguiria ter visto.

Entretanto começou a cair chuva molha-parvos. Eu sou parvo e por isso ela molhou-me. Foi então que me vim embora. Não tinha roupa adequada para o momento. Não me importava de lá ter ficado, mas já sentia a garganta a doer.

Para a próxima levo uma garrafa termos com chocolate quente. Ou então a embalagem do Nesquick cereais. Mas não sei.

O amanhã é incerto.