quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Já não sei o que costumo escrever aqui

Será possível não pensar em ti durante muito tempo, de maneira a que quando o fizer no futuro longínquo, não passes de nevoeiro na minha cabeça? Não, não será possível. Infelizmente não posso deduzir a incógnita e chegar à conclusão que a equação em que figuras não é possível no conjunto dos números reais. Talvez no conjunto dos números complexos fosse possível, mas já não me lembro muito bem como se resolvem e nunca soube aplicar os números imaginários ao dia a dia (a partir de agora, vou dizer que todas as coisas que não percebo e que não fazem sentido para mim pertencem a esse domínio).

Será então possível não pensar em ti de vez em quando? Talvez fosse, mas há algumas músicas no computador que trazem recordações, há hábitos muito anteriores a ti que agora já não são o mesmo para mim porque a tua memória simplesmente alterou o significado que tinham para mim. E claro, se de cada vez que tu resolves pavonear-te na minha cabeça eu dou por mim a escrever sobre e para ti, é claro que não serás nevoeiro. 

Mas sabes, mesmo em dias de nevoeiro, o Sol consegue brilhar se assim o quiser. E à noite, a Lua pode ainda exibir-se para mim sem nunca perder a dignidade. E as estrelas, as minhas estrelas, estão onde eu quiser, mesmo que o raio de um buraco negro tenha engolido uma bem acima da minha cabeça. Tu o que és? Podes ser a dor de garganta que parece que hoje tenho; só reparo nela quando me pergunto se estou a respirar. Amanhã provavelmente já não a vou ter, por isso talvez não tenhas oportunidade de ser um dos big bang que se formam a cada trinta e três vírgula quarente e sete segundos (e se fores, condeno-te a um imediato big crunch [não os cereais Crunch]).

E não, hoje não é um dos dias em que dou um dos teus gritos em silêncio. Na verdade, acho que já não grito desde há um mês e se hoje o fizesse, não seria em silêncio e tu deves perceber porquê (ou então és um bom patife e nunca voltas à cena do crime).

O Agosto está para acabar mas voltará para o ano. Se até os meses do ano vão e vêm, poderias achar que estás no direito de também fazer o mesmo. Nem tudo gira à minha volta pois não? Mas sabes, ainda bem que assim é - ainda vomitavam para cima de mim de tanto girarem.

Não se admirem se à noite me virem a dançar com os fantasmas


Não gosto de dormir de barriga para cima. Não sei se é por não estar habituado ou se é porque não sinto o meu coração a bater, apenas sei que 10 segundos depois de estar assim deitado, já estou impaciente e cansado. Viro-me então para um lado, para onde está a janela. Começo a contar as frinchas da persiana por onde as luzes dos candeeiros da rua se espreguiçam. Chego às 37, mas já me começam a doer os olhos pois a cabeça, imóvel, não ajuda na contagem. Fecho-os e meto uma mão a apoiar a cabeça. Assim consigo  sentir o meu coração, seja através da carótida que pulsa na mão, seja do rufar do próprio coração no cotovelo. Sinto-me tranquilo a sentir as diástoles e sístoles. Porque elas são eu e se alguém me quiser reduzir a um centro de massa, peço que tomem o meu coração como referência.

Não é só o coração que sinto e ouço. As tábuas de madeira rangem e eu interrogo-me se algo ou alguém saiu da caixa, se ele saiu da minha beira e anda a descobrir a casa às escuras ou se tudo não passa da amplificação do sons dos meus órgãos a funcionar. Quando estou nestes dilemas, é comum dar saltos na cama. Acho-lhes imensa piada e fico sempre à espera que voltem a acontecer. 

E também não é só isso. Um dente do siso está a crescer e eu tenho medo. Dentes do siso significam crescimento. De momento não dói, mas e no futuro? Que me reserva o futuro? Não tenho medo de envelhecer, apenas tenho medo que o meu futuro seja diferente do futuro que desejo no presente, que me esqueça da trovoada, da Lua e das estrelas.

E se um dia vir a chuva a cair e me lembrar de quem fui, mas não passar disso – uma recordação? Isso assusta-me, por isso espero que o dente do siso não cresça mais…

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Então, novidades?

As minhas mãos estão pesadas e doridas. O meu polegar direito parece ter um coração só para ele, bem perto da epiderme. Está vermelho e parece pulsar. Tenho ainda uma marca redonda e vermelha algures por cima do semilunar (acho que ele também se interroga muito acerca da outra face da lua, se bem que não da minha Lua. Os nossos ossos sofrem tanto com as coisas que lhes chamamos...). Nestas alturas gosto de abrir e fechar as mãos e esfregar uma na outra, descobrir as imperfeições delas e sentir a textura. Descubro sempre coisas novas e isso para mim são novidades, mas não aquelas que posso responder quando me perguntam "então, novidades?".

Quem quiser saber novidades, folheie o novo catálogo do IKEA. Eu vou fazê-lo daqui a pouco e sei que me entreterei durante muito tempo. Ele chegou hoje e trouxe-me um sorriso à cara, juntamente com recordações dos tempos que passei a montar móveis. Eu gosto de montar móveis. Gosto de ver os parafusos a juntarem as várias peças. Faço-os girar de um lado para o outro porque me fazem lembrar bailarinas, a andar aos círculos em pontas ao som do Quebra-Nozes.


[apetecia-me agora um bolo de noz...]

Mas também ninguém está interessado no bailado que faço com os parafusos e as ferramentas. Não sei mesmo o que algumas pessoas pretendem que lhes diga quando me perguntam por novidades. Será que estão à espera que lhes diga que morreu alguém? Afinal, todos os noticiários de televisão abrem com mortes e desastres por este mundo fora. 

Talvez um dia invente uma história como quando o Orson Welles se lembrou de fazer uma adaptação dA Guerra dos Mundos pela rádio. Talvez já achem isso novidades.

sábado, 27 de agosto de 2011

Every time you close a door and nothing opens in its place you've wasted

Primeiro soube que a Terra já teve duas luas, mas que uma se perdeu pelo caminho. Depois foi o desaparecimento de uma estrela à conta de um buraco negro. O Universo perde coisas tal como eu (não sei se fico consolado por não ser o único. Em vez de uma só entidade incompleta e triste ficam duas...), mas hoje já soube que ele ganhou mais uma coisa para guardar na caixa dos tesouros, que é bem  maior do que a minha porque tudo o que lá existe, além de ser em grande número e estar cada vez mais a crescer (eu não acredito na história do Big Bang, mas pronto) é grande em dimensões.

"Quando se fecha uma janela, abre-se uma porta". Quando se perde algo, encontra-se outra coisa (nem que seja a realidade que perdemos uma coisa).
Foi uma grande aquisição é verdade. Um planeta formado por oxigénio, uma material em forma de cristais e... montes de carbono, como um diamante! E é maior do que a Terra, por isso imaginem a quantidade de diamantes bem mais pequenos que se podiam fazer.

Na minha caixa, que pode ser medida aos palmos, não há verdadeiros diamantes, feitos de carbono puro disposto em planos bem empacotados. Se atender à sua importância e beleza, posso então dizer que tenho muitos diamantes lá. E se atender ao brilho, então quando numa das inúmeras noites em que observo o céu (à procura das minhas estrelas. Elas são como as ovelhas e eu sou o pastor que as leva até ao monte para pastarem) e vejo as gotas de água da chuva que se acumulam na varanda, tenho pequenos diamantes perto de mim.

O Universo ganhou um planeta feito de diamante, mas eu não. Contento-me com os 16kg de carbono que fazem parte do meu corpo. Talvez um dia deixe que alguém faça de mim um diamante. Um dia, quando encontrar alguém capaz de tal. E se ele me deixar e eu estiver com paciência, faço dele o par. Seremos dois diamantes como nunca antes ninguém viu. Alma com alma, carbono com carbono. E já que juntos ocuparemos o termo máximo da escala de Mohs, só poderemos ser riscados um pelo outro. E como eu não deixarei que tal aconteça, brilharemos para sempre, mesmo quando o hidrogénio do Sol acabar. 

.:.   .:.

A obra mais cara do mundo é uma caveira incrustada com 8601 diamantes no valor de 100 milhões de dólares. Mas que grande parvoíce. Não trocava nada da minha caixa por isto.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

It seems you only want the things that you can't have


Estudos nos anos 70 demonstraram que crianças até aos 10 anos que tinham perdido a ponta do dedo tinham a capacidade de a regenerar num mês, desde que o ferimento não fosse tratado com excerto de pele. Em 2005, graças a matriz extracelular em pó, assistiu-se à regeneração de praticamente um dedo inteiro de um adulto.

O fígado pode regenerar-se a partir de 25% de tecido hepático.

Dizem que o cabelo cresce a uma taxa de 0,44 mm por dia (as células do cabelo são das que crescem e dividem mais rapidamente, por isso é que são tão afectadas pela quimioterapia) e as unhas 0,1mm por dia. 

Os ossos só estão totalmente formados depois de muitos dias de vida, quando os dias dão lugar a meses e os meses a anos e os anos a décadas. É por isso que deixamos de crescer.

Ainda bem que existem genes alelos, porque senão fico com a sensação que Genética seria uma coisa bastante desinteressante.

Ontem choveu muito à noite, mas hoje os raios de Sol aquecem-me os pés enquanto leio na varanda. Apesar de as coisas serem sempre as mesmas que às vezes cansa, é bom saber que há estas pequenas alterações.

Depois da tempestade vem a bonança

Parece que assim é, às vezes. E ainda bem. Algumas coisas não ficam bem incompletas (estive a pensar, acho que as únicas coisas que ficam bem incompletas são os chocolates e os bolos. É sinal que já os comemos e que tivemos a nossa dose de felicidade instantânea e momentânea).
Mas às vezes eu gosto da tempestade (e da chuva de ontem - só a chuva - eu gostei), por isso tenho medo de voltar a escapulir-me da bonança. Há no entanto coisas pelas quais não vale a pena arriscar a felicidade instantânea e momentânea. Corremos o risco dela se tornar infelicidade duradoura. Corremos o risco de ser sugados por buracos negros. Por isso, evitarei certos trilhos.

Ontem perdi uma estrela, não perderei mais nada. Seria como se tivesse sido levado para outro planeta e não ter ninguém com quem ver as estrelas cadentes. Teria de esperar solitariamente pela morte do Sol. E quem sabe, pela minha...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"NASA apanha buraco negro a engolir estrela"


Foi uma das minhas estrelas, umas das que eu venho a coleccionar ao longo das noites e que guardo durante o dia numa caixa que, mesmo vazia, continua a brilhar. Nessa caixa não há só astros, há mais coisas. Fico deslumbrado com o que lá encontro quando é preciso arranjar espaço para novas coisas. São fragmentos de quem fui e de quem sou, pedaços de outras pessoas, sonhos, ilusões, promessas...

O céu hoje está simplesmente escuro, sem diamantes a enfeitá-lo. A noite está triste, sem a mistura de cores e de intensidades de ontem; é como se tivessem tirado as decorações do pinheiro de Natal e ainda assim me quisessem convencer que elas estavam no sítio do costume. Os diamantes, essas coisinhas que brilham, estão ao longo das cordas do estendal. Está a chover. É o céu a chorar a perda de uma amiga, de uma amante, de um familiar.

Enquanto escrevo isto ouço a chuva a cair no vidro do quarto. Cresce em mim a vontade de ir lá fora dar uma volta, chorar com o céu. Sinto que estou a perder algo mais do que aquela estrela e mesmo sem ter um inventário das coisas que tenho na caixa, sei o que foi. Mas não vou deixar que isto continue. Não sou capaz.

(para quem quiser saber mais sobre a minha estrela. Se num sonho a virem, digam-lhe que tenho saudades dela) 

What the heart thinks, the tongue should speak (William Shakespeare)

Será que é bem assim? A língua só fala por palavras, mas o coração fala com cores, sabores, cheiros e muitas outras sensações que a língua rudemente traduz. Além disso, algumas palavras accionam feitiços que provocam resultados diferentes aos que queríamos. É um grande risco o falar, pois há feitiços imperdoáveis e sons que jamais deveriam ser pronunciados. E que podemos fazer depois, quando alguém fica Confundido ou Desarmado ou Atordoado ou fazemos alguém fugir? Usar palavras não é seguro - ainda fazemos tudo de novo -, mas o coração tem de ficar onde está, para continuar a bombear o sangue... (a língua pode ser posta de fora, mas o coração não. Nunca tentem meter o vosso de fora).

A língua e o coração são da mesma cor, mas raramente são verdadeiros cúmplices um do outro. Na verdade, eles não se amam, por isso é que estão separados um do outro. Às vezes conseguem estar em sintonia e comandam outros músculos para que se consiga fazer certos gestos. 

Coração, língua e gestos já são uma combinação melhor.

E o que estou para aqui a escrever foi comandado pela minha língua. No meu coração as coisas soavam melhor e não pareciam tão ridículas.

Há coisas que nunca devem ser ditas...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Capela Sistina


Às vezes ando por lá. É fascinante...
blinkanditsover:

Zodiacal Light over La Silla (by European Southern Observatory)



- Para onde estás a olhar?
- Para o céu. Está bonito.
- Não tem nada de especial.
- Isso é porque não estás a ver direito.
- Não digas asneiras e anda para dentro que estás a apanhar frio.


Estava bonito. Uma mistura de cores e intensidades, de sonhos e de realidades. Gostava de ir até lá cima e passear, provar nuvens e falar com as gaivotas. Talvez elas concordassem comigo que aquilo é bonito. Talvez lá não haja pó (ou se calhar há, mas não é preciso limpar; pode-se comer porque sabe a estrelas).

Acho que quando estou a olhar o céu o tempo não passa. Mas quando me forçam a desviar a cara e depois miro novamente o algodão em rama de lá de cima, fico com a sensação que alguém comeu um bocado e agora está a rir-se de mim. Nunca virem a cara, deixem que aquilo perdure para sempre.. .

O champanhe acabou enquanto olhava o céu. Agora vou jogar Monopólio. E em vez de hotéis vou construir céus e vou obrigar-te a pagar-me com auroras boreais e nuvens. E quando não tiveres mais nada para saldar as dívidas, terás de te transformar numa estrela para eu pendurar em cima da minha cama. Porque quando o jogo acaba, é hora de ir dormir e contigo por cima de mim, não estarei sozinho.

Livra-te de caíres!

Eu nunca gostei de metáforas...

Ao tentar tocar isto, dou por mim a desejar ter umas mãos mais pequenas. Talvez fosse mais fácil tocar as oitavas e trocar dedos. Mas talvez deva simplesmente parar e pensar que existe uma outra mão para ajudar quando é preciso. Juntas dividem notas mas tocam a mesma melodia. O trabalho poderá ser simplificado, basta querer, basta que uma mão reconheça a existência e a capacidade da outra.

Mas por vezes há um medo oculto nesses movimentos que parecem tão inócuos. Não é o medo do protagonismo roubado. Não, longe disso. É o medo de as duas mãos querem tocar sempre juntas, mesmo quando há apenas uma nota. Corre-se o risco de violar a peça do compositor. E é também o medo de se magoarem uma à outra naquela partilha.

E isso não acontece um pouco com tudo? 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Incisivos, caninos, molares

- Will you keep out all the sadness?
- I have a sadness shield that keeps out all the sadness, and it's big enough for all of us.

Eu dormi um pouco descoberto, será que isso fez diferença? Talvez sim, talvez não - afinal,  as coisas também não correram como tu querias e eras rei e eles gigantes.
Os escudos não são indestrutíveis e têm ângulos mortos. Começo a descobrir alguns deles e tento reforçá-los. Há no entanto uma série deles que ainda desconheço e por onde vou sendo atingido. Se calhar também preciso de uma armadura. Não quero um elmo, não quero fingir, apenas quero uma armadura...

- You know what it feels like when all your teeth are falling out really slowly and you don't realize and then you notice that, well, they're really f a r   a p a r t? And then one day... you don't have any teeth anymore?

As pessoas são um pouco como dentes, não? Lentamente e sem darmos por isso, vão-se afastando umas das outras (ou às vezes, aproximam-se). Em algumas situações é possível voltar a uni-las (os dentistas têm uma grande variedade de aparelhos dentários para quem precisa), mas às vezes é demasiado tarde e as pessoas apenas encontram companhia no vazio. Na solidão. Acontece também que algumas partem antes de nós, outras tornam-se definitivas (podemos relembrar os dentes de leite se os tivermos guardados) e há ainda as próteses e placas...

Passei a língua pelos dentes todos para verificar se ainda os tinha todos. Na boca sim, estão todos, mas algumas pessoas já não estão comigo. Outras estão a afastar-se e é complicado decidir o que fazer. Quando nem todas as pessoas envolvidas se apercebem de que algo se passa, eu fico de pé atrás e preocupo-me apenas comigo.

There were some buildings... There were these really tall buildings and they coul walk. Then there were some vampires. And one of the vampires bit the tallest building and his fangs broke off. Then all his other teeth fell out. Then he started crying. And then, all the other vampires said, "Why are you crying? Werent't those your baby teeth?", and he said, "No. Those were my grown-up teeth". And the vampires knew he couldnpt be a vampire anymore, so they left him. The end.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Não havia uma almofada, mas um aspirador

Dêem-me um quarto almofadado e um colete de forças, prometo que quando ficar irritado não chateio ninguém para além de mim! Enquanto não me derem, percebam que às vezes tenho razão para estar assim.

domingo, 21 de agosto de 2011

Cada coisa a seu dono

Compota de ameixa e canela numa fatia de queijo. Hum… A compota saía pelas duas extremidades do queijo enrolado, mas ainda assim muito bom. Pão com compota de ameixa e canela. Não tão bom como o queijo, mas com direito a repetir. A acompanhar, um iogurte de pêssego.

Depois do lanche, troquei o sofá pela varanda da cozinha como lugar de leitura. A almofada do sofá aquecia-me demasiado o pescoço e comecei a suar. Tudo isso contribuiu para um estado de sonolência, no qual as palavras deixaram de fazer sentido e só sonhava em encontrar pessoas cuja cara desconhecia.



Na varanda, no meio de baldes, esfregonas, cestos de vime e muitas mais tralhas, procurei embrenhar-me mais na savana africana (e a minha em nada se comparava à do livro). Esperava que as gaivotas se transformassem em juburus e marabus, mas elas continuaram gaivotas, de um lado para o outro, o grasnar delas a repetir-se de um lado para o outro. E se tivesse elefantes dentro de mim, aquele era também o momento ideal para eles saírem. Na verdade, queria ver as trombas deles. Se os visse a lançar água uns para os outros, saberia que ia chover. Se os ouvisse a bramir, saberia que trovejava na minha savana.

Mais tarde, trovejou e choveu na minha savana e na minha cidade. Inicialmente calmo como um tambor, o ribombar do trovão foi-se tornando cada vez mais forte. O chão parecia tremer e gritei, não de medo, mas de contágio. E a chuva, apesar de não ser tão forte como eu queria, foi o suficiente para arrefecer o meu corpo e produzir aquele barulho que eu tanto gosto nas folhas das árvores.

E lembrei-me de ti e quis insultar-te, mas não vale a pena fazê-lo, pois não?Acho que me tornei um pouco inacessível por tua causa, mas ainda não tenho a certeza. Se calhar a culpa é minha. E cada coisa a seu dono.

sábado, 20 de agosto de 2011

Mataram os baloiços

{Hello, stranger.}





Onde está a chuva que me tinham prometido e que eu esperava que hoje me molhasse a cara, a roupa, o calçado e me lavasse a alma?
Onde está o granizo que me tinham prometido e que eu esperava ver acumular na varanda da cozinha, formando uma pista de gelo temporária para eu patinar?
Onde está a trovoada que me tinham prometido e para a qual eu tinha guardado trovoada feita dentro de mim para lhe fazer companhia?
Digam-me, onde está? Nada vi, nada senti, nada cheirei. Não gritei nem corri pela casa. Tudo que me tinham prometido foi substituído por um dia de canícula que eu não quis nem pedi.

Será que só eu acho que altas temperaturas e falta de vento fazem mal? Os electrões ficam excitados, as interacções moleculares aumentam, a entropia aumenta, a perda de energia é maior e por fim, fico num estado irritadiço. O Demónio quer voltar a dançar comigo, mas, apesar de tudo, não tenho paciência para ele (na verdade, acho que já dancei, mas fiz um grande esforço para conter tudo dentro de mim. nem toda a gente aguenta a violência dos gestos dele).

Os meus planos de chuva foram não pela água abaixo (ela nem sequer caiu) mas sim secaram ao Sol. Secaram demasiado ou então eram tão grandes que tocaram o Sol e desapareceram. O meu passeio à chuva teve de ser substituído por um passeio nocturno pela beira da praia.
Não vou dizer que não gostei – na verdade, a praia fica bonita à noite e é agradável passear por lá e ver as estrelas a pairar e o mar adquire uma tonalidade prata nos sítios onde a luz dos candeeiros atinge. Mas se chovesse as ruas estariam pouco movimentadas e por isso seria como se estivesse sozinho na solidão. Mas assim não. As ruas estavam cheias. Estava sozinho na multidão.

E passei pelo parque onde brinquei várias vezes quando era mais pequeno. Foi aí que fiquei triste. Mataram os baloiços que me possibilitaram mandar uns grandes pontapés às nuvens e ao céu. As cordas que seguravam o assento eram agora muito pequenas, em nada se comparavam às gigantes onde as minhas mãos tantas vezes passaram.
Pobres crianças que lá brincavam. Não sabem elas o quanto eu chateava o meu pai para me levar lá (mesmo em dias de chuva, é verdade) para brincar nos melhores baloiços da cidade.

Pobre eu, que agora já não encontro a mesma diversão de antigamente nos baloiços onde agora me balanço.




{- I don't love you anymore.}
{- Since when?}
{- Now.}

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Qual Faísca qual quê? Loucura!

"sinto a tua falta, meu amor, como sempre. Mas hoje é particularmente difícil porque o oceano tem estado a cantar para mim e a canção é a da nossa vida juntos. Quase consigo sentir-te a meu lado enquanto escrevo esta carta e consigo cheirar o aroma de flores silvestres que me faz sempre lembrar de ti"

É claro que não somos um romance do Nicholas Sparks. Tu fazias-me lembrar morangos e baunilha, não frutos silvestres. E não era o mar que nos cantava. Era o vento, que agitava as nossas árvores, e as gaivotas, que tentavam imitar o teu grasnar.
Mas sim, sinto a tua falta e tudo me faz lembrar de ti.

"sei que, de alguma maneira, todos os passos que dei desde o momento em que comecei a andar eram passos dirigidos ao teu encontro. Estávamos destinados a encontrarmo-nos"

E mais uma vez ele está errado. Dizer que estávamos destinado a encontrarmo-nos é praticamente dizer que nem tínhamos poder de escolha e não passávamos de marionetas nas mãos de alguém. Se ele não tivesse escrito a última frase e tivesse escrito "voar" em vez de "andar", então ele talvez tivesse alguma razão. Tu sempre quiseste voar. Lembras-te quando te punhas aos saltos na cama e no intervalo de tempo que estavas sem os pés apoiados no colchão gritavas:

"K., K., estou a voar!"

E tentavas puxar-me o braço para te acompanhar, mas eu não ia. Tinha medo de voar e tu, naquele êxtase, podias não conseguir estender-me o braço caso caísse.


Lembras-te quando íamos até à praia à noite e nos deixávamos envolver pela água? Quando nos estendíamos tu punhas areia nos meus braços e nas minhas pernas. Às vezes dizias que era porque eu ficava brilhante como a prata. Outras dizias que eram os raios da Lua que desciam até mim e se fundiam com as minhas células.
Ontem descobri uma maneira disso acontecer sem sairmos de casa. Nestes últimos dias tem-me custado adormecer e embora não esteja ninguém deitado a meu lado, fico cheio de calor. As minhas mãos suadas brilham à luz do candeeiro. As linhas da mão (que tu costumavas seguir com o teu indicador, numa tentativa de me leres a sina) reluzem como se fossem os fios de prata.


Estou a ficar louco, só pode. 

"esquizofrenia é quando ouves vozes, como na rádio"

Estarei a ficar esquizofrénico? Já são muitas as conversas na minha cabeça. Mais do que habitual.


Ontem disseram-me que quando vemos a Lua, pensamos sempre em alguém.
Eu pensava em ti, mas não sei quem és "tu". Podes ser inacessível (não te culpo se o fores, acho que eu também o sou) a muitos níveis, por isso vou deixar de ver a Lua. Talvez assim deixe de pensar em ti, quem quer que sejas.
.:Quando todas as luzes brilham, não te vejo no meio delas:.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mais um dia de espera


Como já não me posso deliciar com as tuas palavras que sabiam a morango e baunilha, contentei-me com uma maçã. Estava muito boa, sumarenta, e lembrei-me que tu eras das poucas pessoas que, tal como eu, adorava sumo de maçã. Mais tarde, quando era hora de lanchar, preparei a taça com cereais e leite. Depois de tantas vezes o aquecer muito e depois de muitos cereais pastosos, tinhas-me dito que havia de experimentar leite frio. Fi-lo desta vez. E tinhas razão, ficava muito bom com os cereais de sabor a mel.

("Porque é que hás-de ter sempre razão? Porque tinhas de ser tão perfeito?")

E agora que os cereais já nem sequer são bolo alimentar e o leite já aqueceu dentro de mim, pergunto-me porque ando a escrever estes textos tolos.

Serei simplesmente parvo ou algo mais?

Bah, acho que não tarda nada e ainda serei uma personagem do Nicholas Sparks (mas não aquela que morre!).

("E porque é que ainda continuo a não querer contradizer-te?")

Se calhar o que escrevo não é ficção, mas a realidade que me ocupa a cabeça traduzida em letras que se juntam para formar palavras, que formam frases e parágrafos e que contam uma história. A nossa história.

Se calhar é uma história ficcional. Ou se calhar sou simplesmente parvo e não faço ideia do que ando cá a fazer. Ou a dizer. Ou a escrever.

E agora apetecia-me gritar mas não o vou fazer.

Vou esperar. Mas sabes, esperar é cansativo porque não sei por quanto tempo o terei de fazer. E isso é um pouco assustador, não concordas? Ontem vi a Lua quando estava na Estação de Metro (estava bonita lá em cima, aquele branco a brilhar sobre a minha cabeça, e parecia que as nuvens a cobriam como se fossem lençóis transparentes. As nuvens andavam de um lado para o outro mas a Lua estava estática. Havias de ter gostado de a ver. Tirei uma foto para quando estivermos juntos a poderes ver).

("Quando voltaremos a estender-nos na varanda a ver a Lua?")

Depois sentei-me no banco de pedra e olhei para o painel para ver as horas. Foi aí que me assustei com o "esperar". Os pontos luminosos que formavam os números 23:59 não mudaram para as 24:00 e não continuaram para as 24:01. Voltaram aos 00:00. É como se tudo voltasse ao início.

Vou estar sempre a voltar àquele início? Eu não quero. Tenho medo e tu tinhas dito que estarias sempre aqui quando tivesse medo.

E por falar na Lua, há uns tempos li uma notícia intitulada "a outra face da Lua". E sabes o que dizia? Que a Terra já teve 2 luas, uma maior do que a outra, e que chocaram entre si. O resultado disso foi que uma desapareceu e é por isso que a outra face da Lua é mais escarpada do que a que eu vi ontem à noite.

Será que fomos as 2 luas e colidimos e tu desapareceste? Eu diria que sim, não fosses tu ser a lua maior e que por isso deveria ter permanecido...

É tudo uma confusão. Já são demasiadas incógnitas na equação. E eu só aprendi a resolver equações com quantas incógnitas: quatro? cinco?. E não sei usar a máquina calculadora para resolver esta grande equação...

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."
Responde-me ao menos a isto: vieste ao meu quarto ontem à noite? É que as sapatilhas que eu te escondia estavam ao lado da minha cama e não me recordo de as ter visto antes de me deitar...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Dentes do siso



Não sonhei contigo (a menos que agora sejas um zombie), mas ainda assim pensei em ti. E isso é também uma forma de estar acompanhado.

Há dias em que me sinto vazio e hoje é um deles. Se to tivesse dito, ter-me-ias dado uma aula de anatomia, fisiologia, filosofia e talvez até de religião. Por fim, dirias que eu podia não acreditar em nada do que acabaras de dizer, mas que tinhas ainda mais um argumento, infalível.

"Quando estavas a dormir, eu soprei para o teu coração. E desse sopro nasceu algo muito maior do que tu e eu e que irá crescer cada vez mais."

Na altura fiquei sem saber o que querias dizer, mas quando deixei de pensar num "eu" para pensar num "nós", tu disseste-me que isso era um rebento da tal coisa. E deste-lhe um nome que pareceu dançar nos teus lábios e que ressoou nos teus dentes perfeitos: "amor".

Será que ainda tenho esse sopro de vida? Ou será que ele foi expirado no momento que acordei?

Saltei numa tentativa de ouvir o seu chocalhar. Nada. Talvez ele não se ouça. Talvez não se veja, mas se sinta. Se calhar ainda o tenho e é isso que me faz ficar triste. Se calhar não é o tenho e por isso me sinto vazio.
Ou se calhar sinto-me vazio porque tenho fome. Mas nem só de pão, leite e bolachas vivo... Talvez um pouco daquilo me fizesse bem.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Na Nova Zelândia está um grande nevão"

A minha mãe disse aquelas palavras sem saber o impacto que isso teria em mim, tal como a Mrs Darling desconhecia o que aconteceria aos seus filhos ao sair de casa para ir ao nº 27: "Na Nova Zelândia está um grande nevão."

As tuas palavras ecoaram na minha cabeça, tal e qual como as tinhas murmurado: "Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."

Nunca percebi exactamente como o consegues. Lanças um Portus no ar que me envolve para que eu vá ter contigo? Colocaste um tabu para que eu Desapareça e Apareça à tua beira? Ou tudo será um sonho?

"Diz-me, o que é?"

Num segundo eu estava ali, agora estou aqui.

"Nova Zelândia? Porquê? Foi por eu ter ficado deslumbrado com as paisagens das filmagens do Senhor dos Anéis? Foi porque te lembraste que eu disse que gostava de ir até lá para ouvir falar da Paikea? Porque ficas sempre por meias palavras? Eu sempre te disse que não era bom entendedor. Os meus neurónios não enviam neurotransmissores ao neurónio seguinte. Enviam a tudo o que está à volta. E à conta disso, eu crio mil cenários para as tuas palavras."

"Vamos caminhar" foi a tua resposta. A maneira tranquila com que falaste fez-me corar de vergonha.

Não me deste a mão e eu estranhei. Costumas dar-me a mão e enquanto andamos vais passando o teu polegar no meu pulso. Isso faz cócegas, mas eu nunca to disse. Receio que deixes de o fazer por saberes que as cócegas são torturas para mim (acho que na verdade esta não é a razão. Tu sabes que só sou torturado quando as cócegas me são feitas debaixo do braço ou no tronco. Tenho simplesmente medo de que ao falar tu pares momentaneamente aquele gesto e percebas que a minha frequência de pulso aumenta quando me tocas). Quis perguntar-te o que se  passava, mas tu ias à minha frente e eu acelerei o passo.

"Tenho frio. Não sabia que vinha logo para aqui, senão teria trazido uma  camisola" exclamei, com um certo azedume.

"Eu não tenho". (como é que podias não ter se estavas em tronco nu?)

Continuavas a andar. E o mais estranho é que não havia pegadas tuas. Olhei para trás. Só via um conjunto de pegadas, as minhas, mas as tuas não estavam lá. Tu enterravas os pés na neve - eu via o branco aparecer entre os teus dedos morenos - e no entanto quando os levantavas, não havia vestígios de que tivesses sequer arrastado neve.

Tudo aquilo era anormal. Mas que diabo se estava a passar? Corri para ti e quando estava suficientemente perto, estendi o meu braço para ti. Estavas frio como seria de esperar (e dizias tu que não tinhas frio) mas no entanto não deste a entender que tinhas sentido o meu toque.
Deste um passo em frente mas eu já não aguentava mais. Atirei-me para ti, enrolei os meus braços à volta da tua cinta e rebolamos pela neve. Não ofereceste resistência. Mas que diabos? No entanto os teus olhos não estavam escuros de curiosidade e tranquilidade. Estavam escuros de medo e o medo apoderou-se de mim.

Reuni as forças que ainda tinha e esmorrei-te. Foi a coisa que mais me custou fazer, mas parecia-me que era o que tinha de fazer. O meu sangue tingiu o branco. O solo fora maculado e no entanto tu continuavas perfeito e imaculado aos meus olhos.

"Mas que se passa? Porque não gritas, porque não tremes de frio, porque não sangras, porque me estás a fazer isto? Ainda não percebeste que me estás a assustar?"

"Pensei que soubesses." O medo invadia a tua cara. O teu coração não batia debaixo da minha mão. Como era possível?

"O quê? Que eras um idiota, um imbecil, um fantasma, um sonho?"

"Sim."

Não sei se me meteram neve pela boca abaixo (provavelmente não), mas foi isso que senti. Isso e uma grande pancada na cabeça. Mas a pancada na cabeça foi provocada pelas palavras que me passavam pela cabeça numa tentativa de perceber a tua resposta. "Idiota"? Não, isso também eu o sou e sempre nos rimos disso quando nos tentávamos equilibrar nas traves de madeira que ficavam atrás da porta do quintal e que nos levavam à praia. "Imbecil" era uma das tuas palavras preferidas e dizias que o eras quando te sentias culpado de alguma coisa. "Fantasma"? Isso assustou-me, mas o Ron ensinou-me que os fantasmas são transparentes ("e os Inferi são corpos sem vida") e tu não o eras. Seria possível então que fosses... "um sonho?"

"Sim. Pensavas o quê? Que eu era um romance do Nicholas Sparks? Não, nesses morre sempre alguém e aqui não morreu ninguém. Um romance da Jane Austen? Não, aí as coisas começavam um bocadinho para o torto e depois endireitavam-se. Connosco não foi assim. Não foi, porque eu sou um sonho. Fui o que tu pensaste, o que quiseste que eu fosse. Mas depois quebraste as regras e desejaste que eu fosse real. Não se podem quebrar as regras, K."

"Mas então e agora? Não posso voltar a adormecer e ter outro sonho?"

"Poder podes, mas eu continuarei a ser um sonho, só que desta vez terás noção disso e serás torturado de cada vez que eu aparecer e a realidade se apossar de ti no sonho. Eu voltarei se assim o desejardes, quando o verde ficar branco, mesmo quando o Sol nascer em oeste e se puser a este. Mas se quiseres, poderei voltar mais vezes, sem te atormentar."

"Como??"

"É impossível dizê-lo agora. Talvez tenha outra cara. Outro corpo. Outra voz. Outro coração. Outro nome. Na altura saberás. Espera. Espera como esperávamos pelos pirilampos que iluminavam o jardim nas noites de Verão."

"Mas..."

"Num outro sonho talvez. Agora são 4h. E tu já acord..."

E agora que estou acordado, quero gritar-te isto, mas a tua voz, sempre mais melodiosa do que a minha, sobrepõem-se e canta-me uma outra música. E eu dou por mim a acompanhar-te em alguns versos...

Sleep don't weep
My sweet love
Your face it's all wet
And your day was rough
So do what you must do
To find yourself
Wear another shoe
Paint my shelf
There's times that I was broke
When you stood strong
I think I've found a place
Where I …

Sleep don't weep
My sweet love
Your face it's all wet
'Cause our days were rough
So do what you must do
To fill that hole
Wear another shoe
To comfort the soul
There's times that I was broke
When you stood strong
I think I've found a place
Where I feel I will…


Sleep don't weep
My sweet love
My face it's all wet
'Cause my day was rough
So do what you must do
To find yourself
Wear another shoe
Paint my shelf
There's times that I was broke
When you stood strong
I hope I find a place
Where I feel I belong

Sleep don't weep
My sweet love
My face it's all wet
'Cause my day was rough.

Don't weep, my sweet love
My face it's all wet
'Cause my days are rough

Há muitas coisas que voam

Foi só ontem que me dispus a encontrar a minha almofada. Fui ingénuo ao ponto de achar que a ter comigo me faria dormir melhor. Talvez até dormisse, mas quando sinto calor logo depois de me deitar, sei que se seguem comichões no braço e que o sono irá tardar. De facto, senti comichão no braço direito e depois lá andei às voltas no colchão até adormecer.

Acordei pouco depois, o relógio da Igreja perto de casa ainda não tinha dado as 4 badaladas. Embora sentisse os olhos pesados, não me sentia com sono. Vesti-me e saí à rua.
Estava deserta e silenciosa. O silêncio da noite era apenas quebrado de longe a longe por um carro que passava e a escuridão era iluminada pelos faróis. Também o céu estava deserto; não estava cravejado de diamantes como habitualmente e a Lua não estava lá (e vampiros não existem).

Uma vez no carro não nos atrevemos a ligar o rádio. Há muitas coisas na noite que não devem ser acordadas do seu sono. É pena que o Pippin não tenha percebido isso a tempo quando estava em Mória. O caminho ao longe não era bem visível. O nevoeiro tem estado presente diariamente. E nevoeiro faz-me lembrar Dementors e Dementors lembram-me a infelicidade. Conjecturei um Patronus mental para me afastar de tais situações.

O local para onde me dirigia apareceu nitidamente no meio da escuridão. As luzes no interior eram uma centelha de vida que dançavam nos meus olhos viam. Voltei a pensar para mim mesmo que aquilo se afigura a um ninho, mas em vez de pauzinhos de madeira, o metal e o vidro surgem resplandecentemente, deixando ver as pessoas lá dentro. Ainda há uns dias lá estive, mas sozinho. E um pouco nervoso confesso. Mas agora não me cabia a mim estar nervoso. Pelo contrário, eu estava lá para não deixar certas pessoas nervosas.

Quando voltei a casa, os pássaros principiavam a falar uns com  os outros, o céu adquiria uma tonalidade mais prateada e em breve o frio dos lençóis voltou a abraçar-me. Adormeci rapidamente e quando acordei novamente, fui lançar a coruja.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Lâmpadas fundidas

"Quando o leite aquece mais do que era suposto, as bolinhas Nesquick ficam pastosas. E enquanto vou adicionando leite frio para não queimar a língua, os cerais vão saindo da caneca e tu aproveitas logo para os comer. Assim não dá. Assim nenhum dos dois lancha em condições.
Depois, quando nos sentamos a comer, passam minutos até que um de nós se levante para lavar a caneca. É nesses minutos que uma formiga sobe a mesa e eu ofereço-lhe a minha mão (aquela mesma onde podia estar um peixe) e o meu braço para ela passear. Tu sorris, achas piada a que eu faça isso.
Quando a formiga sai, queres tu assumir o lugar dela. E assim vais descobrindo os sinais que tenho no braço. No outro dia disseste-me quantos eram, mas eu esqueci-me..."


Por agora deixaste-me sozinho, a ler aquelas folhas onduladas do diário que deixamos cair durante um dos muitos passeios à chuva, mas não sem antes me fazeres uma promessa.

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."


Quando fui agora à rua, para ir até à praia ver o céu fogo como me tinhas aconselhado, contei as lâmpadas fundidas (que por sinal eram 4) e lembrei-me de alguém hoje dizer:

"Quando se fecha uma porta, abre-se uma janela"

Então voltei para casa a correr e abri a janela e deixei a porta aberta.
Quando o Peter Pan sai da Terra do Nunca, instala-se lá o nevoeiro. Talvez tu sejas à espécie de um Peter Pan. Talvez "quando o verde ficar branco" não se refira a neve aqui. Talvez a tua vinda para aqui faça com que o verde que agora há no sítio onde estás se transforme em branco (e o meu branco fica verde). Se assim for, tens a janela aberta para entrares quando quiseres.
Espera. Não, tu não és o Peter Pan porque ele esquecia-se de tudo (pobre Wendy, tinha de estar sempre a dizer-lhe quem ela era) e tu não és assim. Se fosses um Peter Pan, não te lembrarias de mim por esta altura e sei que isso não é verdade. Sabes quem eu sou e cumprirás a tua promessa.

Não tenho cabelo para te estender à janela qual Rapunzel. Mas tens sempre a porta aberta. Ainda é a mesma, mas desta vez não terás de tocar à campainha. Ela estará aberta e tu já conheces o que há do outro lado.

Do outro lado só desconhecemos o espelho... Quando estendo a minha mão para ele, não é a palma da tua mão que envolve a minha. A tua vejo a uns centímetros ao meu lado, porque a estendemos os dois simultaneamente na esperança de encontrarmos uma passagem secreta.


Fico à espera da neve...

Jardins. Eu e "tu"


Uma. Duas. Três. Quatro. Mais infinito.
Eram muitas as gotas de água ao longo da corda do estendal. Eram os restos da chuva do formigueiro dos últimos dias. Pus um dedo numa das extremidades e fui a caminhar, a passo lento até à outra extremidade, arrastando o dedo ao longo do fio verde como faço no frasco da manteiga de amendoim. As gotas iam escorregando para a palma da mão onde formaram um pequeno lago.
Nesse lago querias pôr um peixe, mas não nos decidíamos: eu queria um peixe palhaço, tu um grama real. A minha escolha era tímida, a tua pacifica. Optamos antes por usar o lago como um espelho. Nas águas cristalinas vi o reflexo da tua cara e quando pus a minha cabeça à frente da tua, tu atiraste a água contra mim.
Soltaste uma gargalhada quando me viste a tremer com o contacto da água fria no meu corpo. Acordaste um pássaro que voou sobre ti, como se estivesse a investigar quem perturbava a frequência das partículas do ar.

O teu riso jamais poderá ser imitado por alguém. Conquistaste-o ao longo do tempo e agora fazes inveja aos melhores compositores, às melhores orquestras. Não há melodia como a tua.

Ao passar pelas árvores do quintal, os ramos batiam ao de leve no topo da minha cabeça. Por vezes tinha de me abaixar para que um não me atingisse a cara e a sujasse. Levavas-me às cavalitas porque dizias que eu era uma pena que tu, o índio, levavas na cabeça.
Lá mais para baixo, a relva húmida molhava-te os pés. Eu disse que devias calçar aqueles ténis que de vez em quanto tos escondo para eu usar, mas tu disseste que querias sentir o calor da terra, porque isso te fazia sentir vivo. Pouco depois disseste que a brisa matinal te fazia cócegas e pousaste-me no chão.

Fomos então para junto do poço. O interior estava escuro como a noite de ontem quando nos deitamos. Escuro como os teus olhos. Pusemo-nos a gritar lá para dentro e ouvimos o eco. Depois atirámos seixos lá para dentro e ficamos a imaginar os círculos que se desenhavam na água. 

"Se caíssemos lá para dentro, ficaria escuro, mesmo durante o dia. Juntos esperaríamos até que a Lua ficasse exactamente por cima da abertura do poço e então saberíamos que estávamos juntos ao luar. Os raios de luz brilhariam nos teus olhos e seríamos felizes assim".

Vi os teus olhos brilharem naquele momento, como se neles se desenrolasse o que acabara de proferir. O brilho foi-se quando uma nuvem tapou o Sol por cima de nós. Não fazia mal, continuavas a brilhar para mim.
Pus a minha mão sobre o teu peito nu. Estava quente (e moreno; juntos fazíamos um bonito contraste) e quando senti o teu coração a pulsar debaixo da minha mão, arrepiei-me. O meu coração principiava a sincronizar-se com o teu.

Depois fechei os olhos e a última coisa que recordo é de sentir as tuas mãos ásperas (que para mim são suaves) na minha cara. Passaste pela testa e penteaste-me o cabelo. Roçaste os olhos, a linha do nariz e depois paraste na minha boca. Senti o teu dedo pressionar o meu lábio superior e murmuraste

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."

 Depois...

Uma. Duas. Três. Quatro batidas do relógio. Acordei.

Créditos finais

Não sou nenhum actor de cinema. A minha vida não é um filme. Não há um enredo definido para o quotidiano. Não há um salário rechonchudo nem sessões de autógrafos (se bem que eu assino em todos os cadernos que me vêm parar às mãos).
O meu dia não começa com os logótipos das produtoras, seguido das palavras "starring K. in 'SER OUTRO QUE NÃO EU'". Não, começa logo com uma cara remelenta, cabelo despenteado, olhos semicerrados. Eventualmente durante o dia assumo uma postura melhor, mas também rapidamente me sento com os cotovelos apoiados no tampo da secretária e os punhos espetados nas bochechas.

Devo assumir uma cara muito estúpida com as bochechas esticadas.

E claro, não poderia haver letras grandes a combinar o meu nome com o blogue. Uma janela do Chrome sem registo está sempre à espera para ser aberta, o rato pronto a minimizar ou a fechar a janela sem registo e uma janela normal já está pronta para disfarçar tudo.

Olha, se calhar a minha vida podia ser um filme, simplesmente teria um duplo a maior parte do tempo. E desses duplos nunca ninguém sabe nada, às vezes nem nos apercebemos que eles existem...


Acho que se entrasse num filme, teria o papel de saco de pancada. As pessoas gostam de descarregar em mim. Se calhar é por ser magro e não lhes custar tanto. Se calhar é por saberem que sou parvo e que vou esquecer tudo. Se calhar é porque sou um saco tão bom, mas tão bom, que todos os realizadores me querem.

Juro que não percebo porque ficaste chateada comigo. Eu sim, devia ficar chateado com o azedume das tuas palavras, mas acredito que não me querias dizer aquilo. Acredito que mais cedo ou mais tarde, elas vão voltar a saber a morango.

"Mais cedo ou mais tarde" é também uma outra incógnita da vida.
Mas neste caso, já restringi o conjunto solução. Está a tardar, mas eu espero.


domingo, 14 de agosto de 2011

"Porque é que quando estou calado, ouço vozes dentro de mim?"

Gostava de ler o pensamento das pessoas. Não porque quisesse saber os seus segredos íntimos, não porque não haja mais nada interessante para fazer, não porque gostasse de fazer disso a minha vida. Gostava somente de saber se quando estão caladas, sozinhas, fazem como eu.

Quando estou calado, não estou calado comigo mesmo. Estou sempre a fazer perguntas, algumas dirigidas a mim outras a alguém - a Deus -, critico o que fiz e o que não fiz, canto para mim mesmo, crio histórias ridículas na minha cabeça (algumas das quais gostaria que fossem realidade) e sei lá mais o quê.

Às vezes tenho medo de me ir deitar.

Não, não é por causa do bicho papão, nem por achar que tenho monstros debaixo da cama ou no guarda-roupa. A única vez que me lembro de ter medo que estivesse alguma coisa no quarto foi há muito tempo e eram tubarões. Achava que tinha um bando de tubarões a nadar à volta da minha cama.

Não, não é por causa de aranhas que desconheço existirem no quarto ou outros bichos quaisquer. Os cientistas dizem que comemos perto de uma dezena de aranhas numa vida enquanto dormimos e embora isso seja algo nojento, consigo dormir à noite.

Não. Tenho medo é de me deitar por causa do que vou ou não pensar. Há pensamentos que são assim coisinhas irritantes que vêm em momentos em que tudo o que queremos é topping de morango.

Ontem deitei-me e resolvi desligar o telemóvel. Ele costuma ficar ligado, silencioso (não penses que ainda o deixo com o som ligado), não me incomoda sequer, mas ontem uma parte de mim quis desligá-lo. 

Os lençóis estavam frios, a cama tinha sido feita de lavado. A almofada não era a minha. Alguém deve ter-se enganado a pôr a fronha. Estranhei a falta de recheio, mas não quis procurar a minha almofada. Sabia que ia custar a adormecer, com ou sem a almofada certa.

Nunca se deve ignorar um Gritador (o Neville descobriu-o da pior maneira), pelo que dali a nada alguns pensamentos começaram a destilar. Tentei não prestar-lhe atenção, mas era escusado. Analisei-os não um a um, mas vários ao mesmo tempo. Vinham aos pares, às vezes aos trios. Uma confusão. Às vezes nem tinham nada a ver uns com os outros. Foi uma destilação mal feita.

Vento, gaivotas, não as ouvi. Ouvi o camião do lixo a passar na rua lá em baixo e o barulho que as sacas faziam ao serem atiradas lá para dentro.


Mesmo antes de me ir deitar fui-me pesar. Quando acordei voltei a assentar os pés sobre aquela superfície fria. 900 gramas tinham ficado algures entre a noite. Mas os pensamentos continuavam cá.O ar ocupa espaço e pode ser pesado, mas os pensamentos não. Não seria nada se não os tivesse, por isso tenho [tenho?] de lidar com eles.

A Lua estava quase em lua cheia, não era? Acho que ontem à noite não a vi, mas vi-a anteontem. Mas existem outras luas, outras que não são constituídas por anortosito e feldspato. O Ursinho Pooh ia gostar delas. São de mel, ou pelo menos assim chamadas.

"A nossa lua de mel vai brilhar toda a vida. Os seus raios só se apagarão sobre o teu túmulo ou sobre o meu".
Charlotte Brontë ("Jane Eyre") 

Talvez um dia me vejas sentado de perninhas à chinês na Biblioteca, a ler as lombadas dos livros ou a folhear algum deles. Gosto do cheiro do papel.
Talvez um dia me pises a mão e depois me peças desculpa. Eu responderei com um "desculpa eu". É a força do hábito.
Talvez um dia sejas tu o meu pensamento. Ou talvez me ajudes a fazer a destilação. Nunca gostei de destilações. Então fraccionadas eram uma valente seca.

E o "tu" é tão incógnito [da próxima vez que resolver uma equação, uma das incógnitas será "tu"]. Quer dizer, só o "eu" é exacto e conhecido. "Tu" não. Quem é o "tu"? Não sei. Por vezes, as equações não têm uma solução. Ainda não estou certo se esta tem ou não.


"Fica sempre à minha espera e então, alguma noite hás-de ouvir-me grasnar"




Ando à procura de uma coruja

sábado, 13 de agosto de 2011

Férias

Se quiserem saber quem está de férias cá em casa, o mais fácil é irem contar as escovas de dente que estão no copo no quarto de banho. Se a escova dos dentes não estiver lá, o respectivo dono tirou férias da casa. A escova pode tê-lo acompanhado ou não: o dono pode ter decidido levá-la com ele ou então substituiu-a por uma nova.

Há uns dias estavam pouquinhas escovas. E quem não tirou férias, estava a trabalhar, por isso eu fiquei por casa sozinho o dia quase todo. É raro isso acontecer, tão raro que eu nem sabia o que fazer. Tive direito a um concerto privado dos meus cantores preferidos (sem ninguém para criticar os meus gostos (:), comi quando realmente a minha barriguinha dizia que era hora de comer [era assim que o Ursinho Pooh dizia, não era?] e deitei-me à hora que quis e não porque já estava toda a gente deitada.

(devo dizer que basicamente o dia foi praticamente igual a outro qualquer)

Mas se quiserem saber se eu fui de férias, não contem em não ver a minha escova. Tenho uma especial para a ocasião e quando chego é que substituo a escova do resto dos dias.


Lá em cima via muitas nuvens. Estive para chamar a comissária de bordo para lhe pedir para limpar os vidros. É que de lá de cima o algodão doce que vejo cá de baixo era mais parecido com algodão em rama. Gostava que algum do algodão transpusesse o vidro para eu guardar numa lata. Não consegui. Não houve lata para ninguém.

Dizem que somos pó de estrela. Não podemos ser também uma forma peculiar de nuvens? Quando morrer quero ser uma estrela que se possa transformar em nuvem quando quiser. Está decidido.

Por falar em estrelas, para onde fui não se viam muitas estrelas.

Durante o dia, a única que se via era o Sol. Abrasador, não estava a meu gosto. Não fui feito para climas quentes e senti falta do meu vento.

Durante a noite não havia estrelas que quisessem sair comigo nem que me sorrissem quando ganhava nos jogos de cartas. Só no último dia é que vi algumas. Tímidas. Não se aproximavam muito umas das outras, não falavam entre si. Talvez fosse por causa do sítio. Talvez também elas não gostassem especialmente do sítio.

Não sei. Felizmente tinha levado um espelho :)


É raro conhecer alguma música na rádio que mais ninguém presente conheça. Mas aconteceu!

sábado, 6 de agosto de 2011

O amanhã é incerto

Ontem à noite fui até à praia. Quando lá cheguei, lembrei-me da última vez que lá estive àquela hora. Mas o que lá me levava era uma razão completamente diferente. Tão diferente, que todo o cenário era igualmente diferente.

Desta vez optei por tirar os ténis e levá-los na mão. Às vezes ainda consigo sentir a areia nos ténis que levei da outra vez; entranharam-se de tal maneira que ainda me fazem cócegas.
Na areia via-se as marcas das patas das minhas amigas gaivotas. Deixei as minhas pegadas à beira das delas. Espero que elas percebam que eu estive lá...

Estava mais escuro e mar e céu eram dois amantes naquela noite - estavam fundidos num só. Era impossível dizer onde começava um e acabava o outro, era tudo escuro. Às minhas doze horas (pela hora seria mais às minhas 0h), no que durante o dia eu diria que era a linha onde se fundiam os amantes, estava uma estrela. Por sinal, a única estrela de que me lembro de ontem.

O mar estava agitado e o vento empurrava as ondas para a minha direita. Umas rebentavam nas rochas, mas outras vinham languidamente até ao areal. Uma das rochas assemelhava-se a um vulcão: tinha forma afunilada, topo aplanado típico de erupções efusivas (não estou errado, pois não?), declive pouco acentuado. A parte superior era mais clara, mas a inferior, onde as águas salpicavam, estava preta. Se uma sereia ali estivesse, acho que a conseguiria ter visto.

Entretanto começou a cair chuva molha-parvos. Eu sou parvo e por isso ela molhou-me. Foi então que me vim embora. Não tinha roupa adequada para o momento. Não me importava de lá ter ficado, mas já sentia a garganta a doer.

Para a próxima levo uma garrafa termos com chocolate quente. Ou então a embalagem do Nesquick cereais. Mas não sei.

O amanhã é incerto.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os blogues dão fome

Fiz pipocas. E não sei se é pelo que aconteceu das últimas vezes que fiz ou pensei em fazer pipocas, não soube medir as proporções certas e fiz pouquinhas. Duraram apenas uns minutos. Além disso saíram brancas e agora que já estou um pouco moreno, não combinamos.

Mas o cúmulo foi que quando as estava a comer em frente ao computador, a música estava na parte do:

I am missing someone but I don't know who
Now I'm standing alone and I'm trying to remember
Sometimes I wonder how I ever started loving you

Só tenho de fazer uma pequena alteração:

Sometimes I wonder how I ever started caring about you


Mas estavam boas, por isso não quero saber!

Desencontros

Para não ouvir os relógios ou a mim mesmo, ontem à noite deitei-me a ouvir música. À medida que todo o meu corpo começava a virar as atenções para a música, fui diminuindo o volume. Um pauzinho de cada vez.
Foi engraçado - não achei que a música estivesse demasiado baixa, ainda era bem capaz de ouvir as palavras do cantor (que por sinal também dançavam na minha cabeça) mas quando carreguei mais uma vez na tecla,  fez-se silêncio, tinha chegado ao fim da barra do volume.

E naquele silêncio eu percebi que por vezes dou demasiada importância a certas coisas que me arrastam para um estado depressivo, mas que não é preciso fazer delas volume máximo. Sou (sou?) capaz de lidar com eles quase em silêncio.

E assim, hoje acordei disposto a tolerar o vento, a conhecer-lhe os sustenidos, os bemóis e as tercinas, mas ele não veio. Esperei por ele até às 17h, altura em que me sentei na varanda da cozinha a beber leite e a comer bolachas. Mas nada.

Nem o Sol.

O céu estava cinzento, as árvores do rés-do-chão não se mexiam, não havia roupa a secar, não havia vizinhos a pendurá-la, não se ouvia as molas a caírem no chão ou a serem atiradas para a bacia nem não as gaivotas.

Era só eu, num dia de Agosto abafado, a querer sorrir para alguma coisa, mas não havia nada para tal. 

Mais tarde, veio aquela chuva que eu detesto. Pensei em descarregar nela a ausência do vento, mas fui simpático e deixei-me estar. Sozinho.

Quando saí à rua vi a professora McGonagall. Estava transfigurada claro. Mas era ela. Quando passei por ela cumprimentei-a com um "Curioso vê-la aqui, professora McGonagall" e ela respondeu com um mio.

Um mio, acham normal? Isso eu não ia desculpar, por isso não lhe perguntei se queria tomar uma limonada comigo!


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Hate me!

Os sorrisos vão e vêm. Os amigos vão e vêm. As lágrimas vão e vêm. Os chocolates vão, mas não voltam.

O chocolate de ontem acabou. Era bom. Não, era muito bom. Tinha a forma de um triângulo e no interior do chocolate de fora, havia uma mousse de avelã. Vou ter saudades.

O meu cérebro não terá. Hoje percebeu que não está afectado por causa do chocolate. Não. O diagnóstico actual: mutações espontâneas com repercussões em todo o corpo e personalidade.


Algures entre uma inspiração e uma expiração, um pestanejar de olhos, uma batida do coração e do diafragma, algo em mim sofre uma mutação catastrófica. Desta inconstância periódica, apercebo-me das contradições da minha vida.

O sorriso que existia murcha, a maior parte dos amigos vai dar um mergulho, as lágrimas... 

.:Olha, pensava que o destino das lágrimas seria o mais fácil de dizer, mas não é. Às vezes são sugadas para:. .:dentro, mas noutras situações vão descendo e pintam-me a cara:.

Os chocolates são erroneamente e maldosamente culpados de tudo.

Da maior parte dos episódios da Oprah, a lição a tirar era: "se acreditares, consegues". Grande treta (consegui imaginar a T. a dizer isto)! É bonito de dizer - eu próprio digo às pessoas de vez em quando - mas não acredito. Não totalmente.

Nem tudo depende de nós e às vezes é difícil saber em que acreditamos, porque a cabeça anda tanto às voltas que só nos apetece dar um grito e fazer uma pausa (com ou sem kit-kat).


Períodos de seca prolongados não dão apenas cabo das plantações. Dão cabo de mim. Deixam-me revoltado. Alguém pegue na arma e me dispare tranquilizadores!



As lágrimas não sabem a chocolate

Estive 20 a minutos com a página do blogger aberta. E nesses 20 minutos, a minha língua andou a tentar encontrar todos os bocadinhos de chocolate que tivessem ficado na boca.



Penso que isto seria o que escreveria num daqueles diários de quando tinha uns 12 anos. Se calhar naquela altura era capaz de escrever de forma mais idiota, mas agora escrevo assim. 


Depois de escrever aquilo ali em cima, fiquei 10 minutos a pensar se apagava ou se escrevia alguma coisa, algo que fizesse mais sentido. A verdade é que não sei o que escrever, mas não queria estar a apagar. Às vezes não é bom querer apagar as coisas. Por vezes, o melhor é deixá-las escritas, para que um dia, ao lê-las, talvez perceba que não quis dizer que comi um chocolate delicioso e que isso me afectou o cérebro, mas que viver sempre também cansa.

Interrompo agora o vómito de cima para dizer que estou contente por não ter puxado o autoclismo. Tudo porque ao escrever "viver sempre também cansa", consegui lembrar-me de um poema que li uma vez:

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
José Gomes Ferreira
Sim. Eu cá não me importava de morrer por 6 meses ou mais tempo...


Gostava de ter um pensatório como o Dumbledore tinha. Se calhar conseguiria perceber-me menos dificilmente. Só me questiono se as memórias seriam recolhidas como lágrimas ou como coisas a sair dos cabelos ou da testa. Há dias em que seriam lágrimas, sem dúvida. E talvez, quem sabe, fossem todas a mesma memória.

A memória da minha vida.

Da vida do rapaz que acorda todos os dias ao som do despertador e que caminha por caminhos trémulos entre a realidade e o sonho. Um dia talvez seja real no sonho ou um sonho na realidade. Talvez não seja nada, nem exista sequer.
Não, ele sabe que existe, por isso é que às vezes gosta de ver sangue a sair dele e sentir aquela dor no lado direito onde ele julga estar um pulmão.
Mas ainda assim, há uma diferença entre existir e viver e talvez isso é que ele já não sabe bem. Não há um manual de instruções (e ele sempre leu os manuais de instruções que vinham com as coisas que eventualmente lhe passavam pelas mãos) da vida e agora ele está a pensar se gostava que houvesse um.
Ele nada sabe, é apenas um pateta, mas não o Pateta, pois esse sabia que era um desenho animado e que era pateta.


Bem, talvez esteja errado. Talvez o que eu queria mesmo dizer era que o meu cérebro foi afectado pelo chocolate. Ou pela música. Talvez a culpa seja toda da música, porque deixa palavras na minha cabeça que se enraízam em locais estratégicos e vão crescendo, manifestando-se em sentimentos, olhares, ideias, em desejos de comer chocolate ou em coisas indescritíveis.


Gostava que amanhã chovesse muito. Se também trovejasse, seria óptimo. A chuva é como um disfarce por vezes. Ninguém se aperceberia das memórias que de mim saem....