quarta-feira, 31 de outubro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
da tuberculose à diabetes
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A avó torcia sempre o nariz e dizia que já nada era como dantes quando via os jovens extasiados a dançar. Dizia ela que aquilo era coisa do diabo e uma degradação de valores morais. E achou que o termos ficado tuberculosos era castigo divino (mas é claro que uns dias depois já rezava por todos os cantos que tínhamos aprendido a lição e que não valia a pena continuarmos a ser castigados).
Fomos mandados para o campo para respirar ar saudável e quando a tuberculose passou voltamos a dançar e a cantar. A avó havia de resmungar novamente se nos visse de um lado para o outro e pior seria se percebesse que era assim que trocávamos bilhetinhos apaixonados, mas nós éramos jovens e o sangue fervia dentro de nós, mesmo sem a febre e o calor do sol. Também ela tivera o seu tempo dos amores, por isso no fundo ela havia de nos compreender.
The way you dance and hold me tight
The way you kiss and say goodnight
Rave on it's a crazy feeling and
I know it's got me reeling
When you say I love you, rave on
Well! you're gonna miss me
Early in the morning, one of these days
The little things you say and do
Make me want to be with you
Rave on it's a crazy feeling and
I know it's got me reeling
When you say I love you, rave on
It`s so easy to fall in love.
People tell me love`s for fools.
So, here I go, breaking all the rules.
Take your time and take mine too
I have time to spend
take your time - go with me through
times 'til all time's end
Hey hey look at me and tell me
What's gonna happen to you
When you've spoken sweet words of love to me
And i want to marry you
Moondreams can be a sensation
Moondreams may be fascination
Love can be our destination
You and I can share this dream
E na altura das vindimas nós éramos peritos em esvaziar os baldes. Comíamos tantas uvas que as pessoas, vendo-nos sempre tão contentes, começaram a tecer teorias de que as uvas fermentavam em nós e que nós estávamos constantemente bêbados. E nós ríamos e comíamos mais uvas.
Agora estamos diabéticos.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
»Gosto de quando me olhas com cara séria, com uma sobrancelha erguida e um olhar desafiador, e depois abres a boca num grande sorriso e te ris. Por isso é que às vezes pisco muitos os olhos nessas alturas. É a minha maneira de te tirar muitas fotografias para criar uma animação gif mental. E quando depois estou sozinho e fecho os olhos, passas a ser o papel de parede dos meus olhos.«
lista de contactos
Às vezes sento-me, ou deito-me, ou fico de pé, a percorrer a lista de contactos do telemóvel. Ao ler o nome de cada uma das pessoas lá marcadas formam-se imagens e sons de como as conheci, da sua aparência, do que vivi com elas, do que entretanto deixei de viver com algumas delas e às vezes até aparecem imagens inventadas pelo meu cérebro do que elas estarão a fazer naquele preciso momento. Perante tudo isso sorrio. Um sorriso misto. Crescem saudades e imagino conversas com algumas pessoas [não sei se vos acontece, mas às vezes dou por mim a ter conversas pensadas com outras pessoas. Noutras tenho verdadeiros diálogos comigo] e sobre outras recordo o passado e mentalmente permaneço lá porque foi então que a existência de um nós foi mais presente. Esta última situação é sempre algo que me deixa perturbado. Ainda que tenha sido pelo movimento natural dos astros e não porque eles conspiraram contra nós, custa-me pensar que algumas pessoas outrora frequentemente presentes na minha vida deixaram de o ser. Quando principiei o hábito de usar a lista de contactos como bola de cristal custou entender que a ordem natural dos acontecimentos era que houvesse um ponto onde os caminhos se dividiam. Tentei então criar intersecções e cruzamentos mas nunca fui inteiramente bem sucedido. As circunstâncias de vida passaram a ser diferentes e o que aconteceu foi um ajuste da realidade.
Talvez agora, resignado, já tenha deixado de tentar fazer isso. Ou então percebi que a vida é cíclica e que na sucessão de etapas há diferentes pessoas a acompanhar-nos e cada uma tem a sua importância que permanece mesmo com a ausência... Não sei. Sei que às vezes actualizo a lista telefónica e apago contactos. Faço-o com pesar mas acho que é preferível à ideia de ficarem a ganhar pó...
Talvez agora, resignado, já tenha deixado de tentar fazer isso. Ou então percebi que a vida é cíclica e que na sucessão de etapas há diferentes pessoas a acompanhar-nos e cada uma tem a sua importância que permanece mesmo com a ausência... Não sei. Sei que às vezes actualizo a lista telefónica e apago contactos. Faço-o com pesar mas acho que é preferível à ideia de ficarem a ganhar pó...
sábado, 20 de outubro de 2012
a brincar aos médicos
Aprendi a auscultar em ti.
Não o podia fazer em mim porque desde que te conhecia o meu coração batia mais rápido e as arritmias eram matéria avançada para quem estava a começar. Lembro-me de pôr os dedos na tua incisura jugular e descê-los pelo teu peito para encontrar o ângulo de Louis. Uma vez encontrado estava também descoberto o segundo espaço intercostal, que marquei com um marcador para saber onde tinha de pousar o estetoscópio. Estremeceste com as cócegas que a ponta fria te provocava mas contiveste o riso. Fui pressionando as tuas costelas para encontrar o quinto espaço intercostal e voltei a marcar. E para me facilitar o estudo (isso disse-te eu - na verdade queria ter era um pretexto para sentir a tua pele) marquei-te à superfície todos os contornos do coração e dos pulmões. Escalei-te a coluna vertebral com as polpas dos dedos e beijei-te a espinha mais saliente, aquela que dava um aspecto frágil à nuca quando te sentavas e apoiavas a cabeça na perna flectida. Quando já tinha feito de ti um mapa do tesouro pousei o estetoscópio nos locais certos e ouvi. Depois pousei directamente o ouvido.
Era tranquilizador ouvir-te e sentir-te comigo.
Agora que não estás deito-me com o relógio no pulso e ponho as mãos debaixo da cabeça porque o tic tac ritmado dos ponteiros fazem-me lembrar o teu coração. E ao sentir a minha carótida interna a pulsar na mão, perto do relógio, deixo-me enganar até adormecer ao pensar que existe um nós.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
dias e dias
Nunca fiz Primaveras. É sempre Outonos que celebro. E sabe bem ter chuva, vento a acompanhar-me o assobio e folhas estaladiças a fazerem de pandeireita.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
enganos
Recebi esta sms e fiquei com pena do remetente: «oi sou o diogo eu nao tenho sms er so para te dizer que es muito bonita». É que não só gastou dinheiro desnecessariamente (ou então gastou a última mensagem grátis comigo) como pode ter também perdido a oportunidade de conquistar a rapariga. Espero que não porque caso contrário recai alguma culpa sobre mim por ele ter estado na hora e momento errados e não me agrada essa posição. Respondi-lhe que se te tinha enganado no destinatário e desejei que as coisas corressem melhor na próxima tentativa. Vamos torcer para que sim!
domingo, 14 de outubro de 2012
»autodidacta
Aprendi sozinho a estar só
E sei fazê-lo tão bem
Que acho um desperdício
Não poder ensinar a ninguém.«
Lido numa parede de rua, num daqueles momentos em que vou a cantarolar sozinho.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
vidas...
Que o mundo não girava à minha volta já eu sabia porque ele não parece ficar enjoado mas já eu estive assim na segunda-feira. Mas às vezes parece que me esqueço de que há mais pessoas para além de mim e das pessoas que vivem e convivem comigo e que essas pessoas são muito mais do que figurantes dos meus sonhos e espectadores que nos vêem passar pela rua.
A senhora H paga a uma senhora, mesmo tendo sobrinhos e netos, para a levar ao médico, lhe preparar as refeições e ajudar a tomar banho... É cega do olho direito mas acho que depois de me ter contado da morte do marido e da filha ela os via encostados à janela. Quando saí ela lá ficou a olhar naquela direcção com os seus olhos azuis... A senhora D depende completamente do marido e do filho porque tem mobilidade muito reduzida mas quando falou deles sorriu muito e a voz tornou-se meiga. «Se me ajudam... Fazem tudo por mim!». A senhora A disse que estava preparada para morrer porque tinha gozado muito da vida mas que sabia que não podia morrer porque não tinha ninguém que tomasse conta do filho que dependia dela. No Metro entrou um casal de velhinhos e o senhor só se sentou depois da mulher se ter sentado. Ela fê-lo sem problemas, ele tinha problemas em curvar-se. Ela ficou a olhar pela janela com a sua cara encorrilhada pela idade e ele tirou uma revista que sublinhava à medida que lia.
Fico sem saber o que ando por aqui a fazer. Confuso com a vida. E vou sentindo-me pequenino...
terça-feira, 9 de outubro de 2012
diz-me o Álvaro
Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.
Outrora.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...
Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Álvaro de Campos
«nesta morremos, que é o que viver quer dizer»... nestes últimos dias parece-me que é mesmo assim...
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
no campo
As linhas do arado perpendiculares à sombra das árvores desenhavam uma folha quadriculada na terra. Ainda pensei em chamar os primos para que jogássemos xadrez mas em vez disso pusemo-nos a comer uvas. Atirávamo-las ao ar e tentávamos que caíssem direitinhas na boca. Muitas bateram nos óculos ou na testa ou nos dentes mas não magoavam nem deixavam a gengiva a sangrar como quando uma vez resolvi comer M&M's desta forma. Rimo-nos e para que não dissessem que estávamos a estorvar ainda colhemos alguns cachos para a caixa mas guardámos alguns nos bolsos para comer no caminho de regresso a casa. Deixámos que o Sol nos aquecesse as costas e nas descidas da estrada aproveitava-mos o impulso para correr e abrir os braços para sentir a deslocação do ar a roçar-nos na pele. Depois sentámo-nos no muro de casa e ficamos à espera que o resto da família chegasse.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
hands, touching hands
Alertam-nos
para a importância de lavar as mãos e até nos mostram vídeos de como o fazer. E
eu fico a pensar que toco num monte de objectos mas em pessoas é relativamente
raro. Um aperto de mão ou nem isso.
Convivemos diariamente com pessoas e
conhecemo-las de várias maneiras, mas o tacto da cara não costuma ser uma delas…
Que
parvoíce a minha. O álcool desinfectante deve ter-me atingido o cérebro!
salta
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Outono=Outubro
Na minha cabeça Outubro e Outono são a mesma coisa, tanto é que andei a pensar que hoje era o começo do Outono e não de Outubro. E se me perguntarem quando é que faço anos talvez vos diga que é no Outono e não em Outubro [e talvez diga que tenho 18 anos quando na verdade já tenho 19. Passou já quase um ano e ainda não me habituei ao novo número].
Chegou o Outono. Vamos viver. Vamos passear à chuva. Comer castanhas em casa com manteiga [ou com batata doce] ou na rua embrulhadas em papel de jornal. Vamos usar camisolas de malha e casacos com botões de pipos. Vamos à praia correr de um lado para o outro porque ela é toda nossa. Vamos para a janela fazer apostas nas gotas de chuva para ver qual é a primeira a chegar lá baixo. Vamos ver os espectáculos de luzes dos semáforos e dos carros reflectidas nas poças de água. Vamos!
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