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terça-feira, 9 de outubro de 2012

diz-me o Álvaro

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano, 
Firmo o projeto, aqui isolado, 
Remoto até de quem eu sou. 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 
O tique-taque estalado das máquinas de escrever. 
Que náusea da vida! 
Que abjeção esta regularidade! 
Que sono este ser assim! 

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros 
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância), 
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho, 
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve, 
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes. 

Outrora. 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 
O tique-taque estalado das máquinas de escrever. 

Temos todos duas vidas: 
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância, 
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa; 
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros, 
Que é a prática, a útil, 
Aquela em que acabam por nos meter num caixão. 

Na outra não há caixões, nem mortes, 
Há só ilustrações de infância: 
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler; 
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde. 
Na outra somos nós, 
Na outra vivemos; 
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer; 
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ... 

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Álvaro de Campos



«nesta morremos, que é o que viver quer dizer»... nestes últimos dias parece-me que é mesmo assim...

quarta-feira, 18 de julho de 2012

praia

«Só lenta e imperceptivelmente, com o passar das estações das colheitas e das estações da chuva, a sua ironia decresceu, a sua superioridade acalmou-se. Lentamente, por entre a sua riqueza crescente, o próprio Siddhartha adquiriu alguns traços das pessoas vulgares, algo da sua ingenuidade e da sua ansiedade. E no entanto invejava-as, invejava-as tanto mais quanto mais se parecia com elas. Invejava a única coisa que lhe faltava e que elas tinham, a importância que atribuíam às suas vidas, a intensidade das suas alegrias e medos, a angustiada mas doce ventura da sua eterna capacidade para amar.»


«Olhou satisfeito para o rio. Nunca a água lhe agradara tanto como esta, nunca compreendera tão clara e profundamente a voz e o significado alegórico da água que corre. Parecia-lhe que o rio tinha algo especial para lhe dizer, algo que ele ainda não sabia, que ainda o aguardava.»



Ele foi para o rio, escutou-o e aprendeu muito. Eu tenho o oceano, que para caber no bolso dos calções de praia digo que é mar. E que aprendi com ele? Apenas ouço o chapinhar das pessoas ao meu lado ou das crianças que gritam no areal e constato mais uma vez que não sei boiar. Bem tento mas a cabeça é a única parte do corpo que consegue ficar à deriva. Eventualmente vem uma onda e sou obrigado a erguer-me para respirar. Às vezes grito dentro de água, o que é uma sensação assustadora. Falta o ar e a água parece esmagar-me. É desconfortável. Venho à tona e tento boiar novamente.




«Quando alguém procura pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. Tu, Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objectivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos.»

Hermann Hesse - Siddhartha

quinta-feira, 28 de junho de 2012

como nos sonhos

apago a luz e por uns momentos tudo é demasiado imperceptível. depois os meus olhos vão-se habituando à luz que entra pela janela vinda da Lua e dos candeeiros e fico a olhar para o tecto que durante o dia é branco e que à noite fica castanho. não sei por quanto tempo fico assim porque eventualmente adormeço e já não tenho percepção do tempo, apenas dos sonhos. e quando acordo tenho percepção de que a minha vida é diferente daquele sonho que tive.



A esperança é uma coisa terrível, disse ela.
Ai é?
Sim, mantém-nos a viver noutro lugar, num lugar que não existe.
Para algumas pessoas é melhor do que o sítio onde estão. Para muitos é um consolo.
Na vida, disse ela. Um consolo na vida? Será que isso é algum viver?
Há pessoas que não têm outra escolha.
Não e isso é terrível.
A esperança é melhor que a infelicidade, disse ele. Ou o desespero.
A esperança não é tão má, contrapôs ele.
Ao menos o desespero tem algo de verdadeiro.
Hoje estás num estado de espírito muito negro.
Ela tentou um sorriso. É deste tempo todo que passo com os olhos fechados. Fechou os olhos.


terça-feira, 26 de junho de 2012

com os livros

Tinhas ar de quem não precisava de ninguém, disse ela.
Mas são esses os que mais precisam, retorquiu ele. Então não sabes disso?
Agora já sei, disse ela. Tarde de mais.
O saber nunca vem tarde de mais!, exclamou ele.
Talvez não, respondeu ela. Mas pode vir tarde de mais para nos servir para alguma coisa.


Não desperdices a tua vida à procura de boas razões. Vais-te fartar de esperar.




É costume fazer amigos enquanto leio. Afeiçoo-me às personagens, invejo a vida de algumas, troço de outras e depois apercebo-me de que afinal não sou lá muito diferente e às vezes chego mesmo a ter conversas com elas. Ou encontro a resposta ou algo que me ajuda a perceber melhor coisas que me vão passando pela cabeça. Um livro é uma boa companhia. Cá em casa perguntam-me sempre "mas foste para lá sozinho? Não tens ninguém que possa ir contigo?". Às vezes chegam ao ponto de me impingirem companhia que não preciso ou que não faz falta para aquela situação. Costumo andar acompanhado e ir para a praia sozinho não é assim tão mau. 

sábado, 9 de junho de 2012

Pessoa

Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 5 de abril de 2012

IBDB?

Alguém conhece um site semelhante ao IMDB mas que seja para livros? É que eu já não me lembro que livros li da Jane Austen (que vergonha!) e assim poderia ir registando os livros que vou lendo e saber a opinião de outros leitores.

Eu gostava de um quarto assim e até com mais livros. Tenho de começar a trabalhar para ir compondo as minhas paredes (que até já têm um número razoável de livros). Troco os meus cartões das bibliotecas por dinheiro para poder ter os exemplares em casa. Quem troca comigo?

sábado, 24 de março de 2012

(Em)Préstimos

«Ele disse uma vez que tinha ido para o mato, à procura da própria alma e que, por fim, descobrira que não tinha uma alma que fosse só dele. Disse que tinha unicamente uma pequena parte de uma alma enorme. E ele achava que não servia de nada andar em sítios desertos porque aí a tal pequena alma que ele tinha não servia para nada. Só tinha utilidade quando estava junto das outras com que formava um todo. É engraçado como eu me lembro de tudo isso! E no entanto tinha nessa altura a impressão de que mal o ouvia... Mas agora sei que um indivíduo solitário não tem préstimo nenhum»
John Steinbeck, "As Vinhas da Ira"

terça-feira, 13 de março de 2012

Escolhas

«Há mil vidas que poderíamos viver, quando chega o momento de escolhermos uma, apenas. Se eu me puser a pensar em tudo o que poderá acontecer, não aguento. Tu podes viver do futuro porque és muito novo ainda, mas para mim o futuro resume-se na estrada que corre a meus pés.»
John Steinbeck, "As Vinhas da Ira"

Há dias em que fico a cogitar sobre os caminhos que deixei para trás para hoje estar onde estou. Por vezes, não há qualquer dúvida de que não me enganei no percurso, mas dá-se também o caso de por vezes matutar se não me terei enganado na latitude, longitude, altitude ou mundo. Para variar [pois sim], perco-me nesses pensamentos, idealizo-os, pinto-os à minha maneira de modo que a cadeira onde agora poderia estar sentado me parece mais confortável, com sistema de massagens e suporte para gelados (nota: gelados incluídos).
Já fechei algumas portas, de modo que o meu futuro já vai meio traçado. Não me posso dar ao luxo de viver de vários hipotéticos futuros. Escolhi uma estrada: há que apreciar as vistas, limpar os vidros e a própria via para que a jornada se torne mais agradável. A minha vida resume-se basicamente a essa estrada - há, então, que tornar o resumo grande e proveitoso!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"Por minha parte, no meio de tantos fervores pela inteireza de tudo, sentia-me cada vez mais triste e só. Mas, por vezes, uma pessoa sente-se incompleta e, afinal, é apenas a juventude"
Italo Calvino

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

All Love

«É mas é a melhor razão de todas! As outras eram só para satisfazer os meus caprichos, e também os do Edgar… para ele ficar contente. E esta é por uma pessoa que congrega em si tanto os meus sentimentos pelo Edgar como os que nutro por mim mesma. Não sei como explica-lo, mas certamente que tu e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, um outro eu para além de nós próprios. Para que serviria eu ter sido criada, se apenas me resumisse a isto? Os meus grandes desgostos neste mundo foram os desgostos do Heathcliff, e eu acompanhei e senti cada um deles desde o início; é ele que me mantém viva. Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim numa vastidão desconhecida, a que eu não teria a sensação de pertencer. O meu amor pelo Linton é como a folhagem dos bosques: transformar-se-á com o tempo, sei-o bem, como as árvores se transformam com o Inverno. Mas o meu amor por Heathcliff é como as penedias que nos sustentam: podem não ser um deleite aos olhos, mas são imprescindíveis. Nelly, eu sou o Heathcliff. Ele está sempre, sempre, no meu pensamento. Não por prazer, tal como eu não sou um prazer para mim própria, mas como parte de mim mesma, como eu própria.»

«Catherine Earnshaw, enquanto eu viver não descansarás em paz! Disseste que te matei. Pois então assombra-me a existência! Os assassinados costumam assombrar a vida dos seus assassinos, e eu tenho a certeza de que os espíritos andam pela terra. Toma a forma que quiseres, mas vem para junto de mim e enlouquece-me! Não me deixes só, neste abismo onde não te encontro! Oh! Meu Deus! É indescritível a dor que sinto! Como posso eu viver sem a minha vida?! Como posso eu viver sem a minha alma?!»
Emily Brontë - O Monte dos Vendavais


A pergunta aqui deverá ser: é isto o amor? Se assim for, é uma coisa bastante poderosa. O eu ser um poderoso nós e o nós ser uma só identidade ainda mais forte. Os actos de loucura estão explicados. O amor é a nossa identidade, por isso é que nos sentimos incompletos grande parte da vida. E quando nos sentimos completos, tememos a fragmentação, pois perdemos muito mais do que nós próprios.