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domingo, 17 de março de 2013

no Verão durmo com um pijama do Mickey

Lembro-me de rever os filmes do Toy Story há uns anos e de ficar a pensar nos meus bonecos de infância arrumados no sótão. Senti-me mal por uns minutos com a possibilidade deles se sentirem rejeitados mas pensando melhor no assunto concluí que essa situação não se aplicava. Embora o Crocodilo No Dentista já não esteja na prateleira, nem a caixa com os Legos debaixo da cama, não me esqueci dos momentos fantásticos que passei com eles nem deixo de brincar com eles quando vou ao sótão e tenho tempo para me sentar no chão e recriar brincadeiras de infância. Os brinquedos moldaram os meus sonhos e foram um marco importante na minha vida mas cresci e, inevitavelmente, algumas coisas mudaram. Mas mesmo mudando, as coisas não têm de deixar de ser aquilo que foram.
Agora sinto estar na altura de arrumar este blogue e ainda que ele vá deixar de existir, a amizade que desde sempre senti por ele manter-se-á. Eu e o Kevin(?) crescemos com este blogue mas já existíamos antes dele, sempre vivemos para além dele e havemos sempre de viver juntos, pelo que não faz sentido deixarmos este espaço a ganhar pó. Apagá-lo não será indigno. Já não tenho o tapete com estradas desenhadas sobre o qual brincava com os carrinhos (os contornos do tapete já estavam descosidos da idade e do uso) quando ainda era pequeno, mas não é por isso que ele perde a importância que teve. Recordaremos sempre este blogue como o tapete que nos apoiou quando andávamos demasiado confusos com a vida [ainda estamos, mas a confusão já é outra] e cujas estradas nos deram a conhecer outros amigos.

Até sempre!,
Protego maxima, Fianto Duri, Repello Inimicum,
K. (J) e Kevin (?)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

recordações e relógios

Hoje lembrei-me de quando era pequeno e a mãe me levava e aos irmãos ao mercado, aos Sábado de manhã. Era uma enchente de gente que ia dando encontrões para avançar pelos corredores e nós íamos de mãos dadas para que ninguém se perdesse. Nós eramos os anões ali no meio, se bem que eram algumas senhoras que vendiam legumes e peixe que tinham bigode, o que provocava o riso entre mim e os irmãos. Gostávamos de ir ver as galinhas e os patos e os coelhos mas o aproximarmo-nos era um desafio. É que tínhamos medo quando os animais se mexiam ou quando as aves começavam a grasnar e a esvoaçar, fazendo com que as penas se soltassem e sujassem o chão. Íamo-nos aproximando devagarinho para não as assustar mas regressávamos assustados e a correr pouco tempo depois. À saída do mercado havia uma senhora que vendia uns bolos que eram uns cones de massa folhada com creme de ovos no interior. Às vezes o creme vinha por inteiro na primeira lambidela pelo que comíamos primeiro o creme e só depois a massa, que costumava ser seca. Mas nós não nos importávamos. Eram bons! 

Quando era pequeno e ainda não sabia ver as horas, tinha um relógio de plástico em que no mostrador havia só alguns números e os ponteiros não andavam. Gostava de o usar porque, ainda que não fosse sério, dava-me ar de gente crescida. Às vezes tenho saudades de um relógio assim e do ser criança. Talvez não fosse um escravo do tempo. Quando hoje o despertador do telemóvel tocou, calei-o e vi na lista de alarmes as horas a que acordo: 6h, 6h05, 6h30, 6h35, 6h45, 6h50, 6h55, 7h, 7h20, 7h30, 7h45, 8h, 8h15, 8h30, 8h45, 9h, 9h15, 9h30. Activo-os conforme o Metro que tenho de apanhar no dia seguinte, conforme a preguiça que prevejo ter, se só terei de me levantar da cama e sentar na cadeira da secretária ou se tenho de fazer algo antes disso. Acordo sempre com um daqueles alarmes e quando me custa levantar conto até três e no último número atiro os cobertores para trás e salto da cama. Era assim que o pai fazia quando eu e os irmãos íamos para a cama dele e da mãe e era preciso um impulso para que nos levantássemos. 

Há pouco estava a arrumar umas canetas e resolvi pegar numa e desenhar um relógio no pulso. Em vez de números e ponteiros fiz uns olhos e uma boca, de modo que agora olho para o pulso e tenho algo a sorrir para mim.
E eu sorrio de volta.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

o cabelo está assim assim

Por enquanto os bichinhos estão arrumados e acabaram-se os vómitos e as diarreias. Mas amanhã terei de voltar aos anti-depressivos.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

factos

(acho que fiquei assim. E a parva da faculdade leva sempre o melhor de mim)


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2012

Parece que chegamos ao fim do ano que alguns diziam ser o nosso fim. Algumas canetas e chocolates chegaram de facto ao fim mas não desapareceram por inteiro, seja porque as folhas brancas ficaram coloridas a azul e com relevo que agora me delicio a sentir com as polpas dos dedos, seja porque há memória de ter deixado o chocolate amolecer na boca e depois ter serpenteado a língua por entre os dentes para que não houvesse desperdícios. Os calendários já marcam 2013 mas 2012 continuará por aí, nem que por engano ao escrever as datas nos cantos das primeiras folhas, e não há um verdadeiro recomeço mas antes uma continuação porque no balanço dos 365 dias que passaram, pensando neles na medida em que os vivi ou existi e não de um ponto de vista muito factual e objectivo que há-de estar muito bem clarificado num livro de História, o que conta é a percepção que tivemos deles, o que reflecte aquilo que nós somos. E eu continuo aqui, mudado em relação ao que fui porque não consigo jogar às escondidas com o poder do crescimento, evolução, involução, adaptação e outras forças modeladoras mas não tão mudado quanto isso, pelo que os dias que ainda estão para vir, ainda que pertencentes a um novo ano civil, não se assemelham para já muito diferentes daqueles cuja meia-noite já tocou.

Houve dias bons e houve dias menos bons em 2012. Houve momentos que de bom grado repetiria e outros que faço figas para que não voltem a acontecer, e como «os nossos momentos pertencem à matilha e lembramo-nos de nós através dos outros» há que pensar nas pessoas com quem partilhei os dias. Houve pessoas que entraram na minha vida, tanto pela blogosfera como por fora (Al, não hás-de ler isto mas ficas aqui), e às quais me afeiçoei e a quem agradeço sinceramente por estarem ou terem estado presentes (não conheço pessoalmente metade das pessoas que me acompanham por aqui mas isso não faz de nós desconhecidos nem me impede de gostar de vós. Tinha começado a escrever nomes mas resolvi apagar para não me esquecer de ninguém ao escrever este post. Com os comentários, corujas, emails, sms, …, que fui enviando ao longo do tempo a probabilidade disso acontecer é menor), reforçaram-se os laços já existentes com outras (Weasley e driftin', obrigado por tudo. São das minhas pessoas favoritas e trago-vos sempre comigo) e afastei-me de algumas não porque tivessem sido más comigo mas porque as deixei de sentir em mim como dantes as sentia (e acho que mais vale preservar boas recordações do que ficar a assistir ao estancamento de uma relação…). 

Não aprendi a falar francês nem a tocar cavaquinho nem a andar de skate, mas qualifiquei-me para conduzir o Ford Anglia Voador, aprendi algumas coisas sobre como andar de caiaque e novos palavrões na faculdade, deixei uma carta sentada no banco do Metro e descobri que não gosto de sushi.

Para 2013 peço um sistema imunitário competente para mim, para os meus familiares e amigos e para os familiares e amigos deles (porque estamos todos ligados e a tristeza e felicidade são partilhadas), nada de acidentes (a não ser aqueles que nos fazem rir muito depois de acontecerem), a capacidade de domar a ansiedade que em mim se tem instalado, de controlar-me quando tiver vontade de avançar os ponteiros do relógio e de saber avaliar a direcção do vento para saber orientar o guarda-chuva quando o uso e uma memória melhor porque acho que tinha mais coisas para contar quando comecei a escrever este texto mas já não me lembro do que era.

Espero que tenham entrado no novo ano com os dois pés (reconheçamos que a falta de alguns dos membros acarreta sempre algumas limitações) e se precisarem de estar em dois sítios ao mesmo tempo ou reparar algo que já aconteceu, tenho um Vira-Tempo, pode ser que ajude.

:)

domingo, 30 de dezembro de 2012

circo

No outro dia vesti o meu fato de criança e fui ao circo. Não consegui esconder o meu 1,86m (espero não ter tapado a vista aos miudinhos porque eles eram muitos e pequenitos) mas até bater palmas para acompanhar o ritmo dos malabaristas eu fiz. Só não achei piada aos palhaços porque eles eram irritantes valiam-se disso para terem piada. E retiro o que disse acerca dos ilusionistas: eles são fantásticos,  deixaram-me de boca aberta várias vezes e destruíram o meu sorriso da vez que pensei "oh, eu sei como eles fizeram aquilo".

Um dia fujo e junto-me a uma trupe de circo nem que seja como varredor do recinto. No fim meto-me no trampolim e fico aos saltos até não poder mais. Ou até chegar à Lua, fazer dela um escorregão e voltar à Terra.

Monumental Circo, no Coliseu do Porto, até dia 1 de Janeiro de 2013

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

afinal

parece que o mundo não acabou. Oh, vou ter de continuar a estudar!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

hiperventilação

Acabada a noite e estando sozinho, deitado numa casa de uma amiga, o cheiro a tabaco dos cigarros que não fumei faziam sentir-se mais na minha roupa e cabelo. O pum pum alto da música já não se ouvia mas os ouvidos ainda não estavam habituados de novo ao silêncio e zumbiam. Não tão alto como os meus pensamentos porque esses ouço mesmo quando surdo. Ser capaz de domá-los eficazmente é algo que gostava de fazer. De facto, conseguir deitar-me tranquilamente à noite, sem ficar a ouvir um relato da minha consciência e dos meus medos e anseios, é das coisas que mais gostava de experimentar. Os meus medos assemelham-se-me a monstros gigantes que comem não só bolachas como também ar e pedaços de coração. Acho que é por isso que tenho sentido palpitações. E eu sei que, mais uma vez, o que sinto é exagerado e que devia controlar-me mas, mais uma vez, não consigo.
Acabada a festa da faculdade, começou o estudo para os exames. Sou um escravo da faculdade. E essa constatação não me agrada.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

podíamos ser sempre crianças


como aquela do Metro no outro dia. Tinha uns 2, 3 anos, era loira e uma cara rechonchuda. Olhava para o meu reflexo no vidro e perante a minha língua de fora olhou para o lado, para me procurar e possivelmente ralhar, dizendo que aquilo não se fazia! Mas ao lado dele seguia a Mãe, e ao lado da mãe uma senhora. Onde estaria eu? Voltou a olhar para o vidro e imitou-me, pondo a língua de fora. Um movimento meu para o lado para me desviar do senhor que seguia entre mim e a criança foi o suficiente para ela perceber que a imagem do vidro não era mais do que uma representação minha, que estava não do lado dele mas à frente. E por isso seguiu o resto da viagem a meter-me a língua de fora pelo espaço entre a janela e os bancos. E a abrir a boca para se rir. Talvez a mãe tivesse pensado que ela sorria para o banco de plástico qual patetinha mas depois deu por mim e sorriu também. No final da viagem, já ao colo da mãe, riu-se e acenou-me. E eu segui viagem a olhar para o vidro, a desejar ser criança de novo e achar o mundo uma eterna novidade agradável.



I'm sorry to say that this is not the movie you will be watching. The movie you are about to see is extremely unpleasant. If you wish to see a film about a happy little elf, I'm sure there is still plenty of seating in theatre number two. However, if you like stories about clever and reasonably attractive orphans, suspicious fires, carnivorous leeches, Italian food and secret organizations, then stay, as I retrace each and every one of the Baudelaire children's woeful steps. My name is Lemony Snicket, and it is my sad duty to document this tale. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

lista de contactos

Às vezes sento-me, ou deito-me, ou fico de pé, a percorrer a lista de contactos do telemóvel. Ao ler o nome de cada uma das pessoas lá marcadas formam-se imagens e sons de como as conheci, da sua aparência, do que vivi com elas, do que entretanto deixei de viver com algumas delas e às vezes até aparecem imagens inventadas pelo meu cérebro do que elas estarão a fazer naquele preciso momento. Perante tudo isso sorrio. Um sorriso misto. Crescem saudades e imagino conversas com algumas pessoas [não sei se vos acontece, mas às vezes dou por mim a ter conversas pensadas com outras pessoas. Noutras tenho verdadeiros diálogos comigo] e sobre outras recordo o passado e mentalmente permaneço lá porque foi então que a existência de um nós foi mais presente. Esta última situação é sempre algo que me deixa perturbado. Ainda que tenha sido pelo movimento natural dos astros e não porque eles conspiraram contra nós, custa-me pensar que algumas pessoas outrora frequentemente presentes na minha vida deixaram de o ser. Quando principiei o hábito de usar a lista de contactos como bola de cristal custou entender que a ordem natural dos acontecimentos era que houvesse um ponto onde os caminhos se dividiam. Tentei então criar intersecções e cruzamentos mas nunca fui inteiramente bem sucedido. As circunstâncias de vida passaram a ser diferentes e  o que aconteceu foi um ajuste da realidade.
Talvez agora, resignado, já tenha deixado de tentar fazer isso. Ou então percebi que a vida é cíclica e que na sucessão de etapas há diferentes pessoas a acompanhar-nos e cada uma tem a sua importância que permanece mesmo com a ausência... Não sei. Sei que às vezes actualizo a lista telefónica e apago contactos. Faço-o com pesar mas acho que é preferível à ideia de ficarem a ganhar pó... 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

dias e dias

Nunca fiz Primaveras. É sempre Outonos que celebro. E sabe bem ter chuva, vento a acompanhar-me o assobio e folhas estaladiças a fazerem de pandeireita.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

enganos

Recebi esta sms e fiquei com pena do remetente: «oi sou o diogo eu nao tenho sms er so para te dizer que es muito bonita». É que não só gastou dinheiro desnecessariamente (ou então gastou a última mensagem grátis comigo) como pode ter também perdido a oportunidade de conquistar a rapariga. Espero que não porque caso contrário recai alguma culpa sobre mim por ele ter estado na hora e momento errados e não me agrada essa posição. Respondi-lhe que se te tinha enganado no destinatário e desejei que as coisas corressem melhor na próxima tentativa. Vamos torcer para que sim!

domingo, 14 de outubro de 2012

»autodidacta

Aprendi sozinho a estar só
E sei fazê-lo tão bem
Que acho um desperdício
Não poder ensinar a ninguém.«

Lido numa parede de rua, num daqueles momentos em que vou a cantarolar sozinho.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

vidas...

Que o mundo não girava à minha volta já eu sabia porque ele não parece ficar enjoado mas já eu estive assim na segunda-feira. Mas às vezes parece que me esqueço de que há mais pessoas para além de mim e das pessoas que vivem e convivem comigo e que essas pessoas são muito mais do que figurantes dos meus sonhos e espectadores que nos vêem passar pela rua.
A senhora H paga a uma senhora, mesmo tendo sobrinhos e netos, para a levar ao médico, lhe preparar as refeições e ajudar a tomar banho... É cega do olho direito mas acho que depois de me ter contado da morte do marido e da filha ela os via encostados à janela. Quando saí ela lá ficou a olhar naquela direcção com os seus olhos azuis... A senhora D depende completamente do marido e do filho porque tem mobilidade muito reduzida mas quando falou deles sorriu muito e a voz tornou-se meiga. «Se me ajudam... Fazem tudo por mim!». A senhora A disse que estava preparada para morrer porque tinha gozado muito da vida mas que sabia que não podia morrer porque não tinha ninguém que tomasse conta do filho que dependia dela. No Metro entrou um casal de velhinhos e o senhor só se sentou depois da mulher se ter sentado. Ela fê-lo sem problemas, ele tinha problemas em curvar-se. Ela ficou a olhar pela janela com a sua cara encorrilhada pela idade e ele tirou uma revista que sublinhava à medida que lia.
Fico sem saber o que ando por aqui a fazer. Confuso com a vida. E vou sentindo-me pequenino...

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

no campo

As linhas do arado perpendiculares à sombra das árvores desenhavam uma folha quadriculada na terra. Ainda pensei em chamar os primos para que jogássemos xadrez mas em vez disso pusemo-nos a comer uvas. Atirávamo-las ao ar e tentávamos que caíssem direitinhas na boca. Muitas bateram nos óculos ou na testa ou nos dentes mas não magoavam nem deixavam a gengiva a sangrar como quando uma vez resolvi comer M&M's desta forma. Rimo-nos e para que não dissessem que estávamos a estorvar ainda colhemos alguns cachos para a caixa mas guardámos alguns nos bolsos para comer no caminho de regresso a casa.  Deixámos que o Sol nos aquecesse as costas e nas descidas da estrada aproveitava-mos o impulso para correr e abrir os braços para sentir a deslocação do ar a roçar-nos na pele. Depois sentámo-nos no muro de casa e ficamos à espera que o resto da família chegasse.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Outono=Outubro

Na minha cabeça Outubro e Outono são a mesma coisa, tanto é que andei a pensar que hoje era o começo do Outono e não de Outubro. E se me perguntarem quando é que faço anos talvez vos diga que é no Outono e não em Outubro [e talvez diga que tenho 18 anos quando na verdade já tenho 19. Passou já quase um ano e ainda não me habituei ao novo número].
Chegou o Outono. Vamos viver. Vamos passear à chuva. Comer castanhas em casa com manteiga [ou com batata doce] ou na rua embrulhadas em papel de jornal. Vamos usar camisolas de malha e casacos com botões de pipos. Vamos à praia correr de um lado para o outro porque ela é toda nossa. Vamos para a janela fazer apostas nas gotas de chuva para ver qual é a primeira a chegar lá baixo. Vamos ver os espectáculos de luzes dos semáforos e dos carros reflectidas nas poças de água. Vamos!






terça-feira, 25 de setembro de 2012

encontros no metro

Acho sempre imensa piada quanto vou a olhar pela janela no Metro e numa paragem está um veículo na outra linha também parado e o meu olhar se cruza com o da pessoa do outro lado do vidro.
Hoje foi engraçado quando esperava na estação para vir para casa e no veículo do lado oposto estava um amigo que ficou a olhar pelo vidro para mim enquanto eu acenava.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

bolo de noz

Ingredientes:
   .6 ovos
   .250g de nozes moídas
   250g de açúcar
   30g de farinha

Modo de preparação: bata as gemas com o açúcar até obter um creme esbranquiçado, misture a farinha com as nozes moídas. Acrescente a mistura de farinha e das nozes ao batido de gemas e açúcar. Envolva tudo muito bem e, por fim, junte as claras batidas em castelo. Leve ao forno 50 minutos a 160ºC em forma untada de manteiga e farinha. 



Separar a gema e a clara é sempre uma trabalheira! Bater o ovo na esquina da banca, parti-lo em dois com os dedos e embalar as metades para a clara escorrer. Os dedos vão ficando pegajosos e besuntados mas com cuidado não há misturas indevidas dos constituintes do ovo.
Na altura de juntar o açúcar, esqueço-me de que sei ler e ignoro todos os avisos de segurança da professora de Química porque para me certificar de que pego no pacote certo mergulho os dedos na embalagem e levo-os à boca [nunca devem cheirar ou provar o conteúdo dos frascos. Devem sempre ler os rótulos e estar atentos aos sinais de perigo, dizia ela]. É só lá que sei que peguei no ingrediente certo. [às vezes repito o procedimento. Não faz mal nenhum jogar pelo seguro (e até é bom!].
Por muito que desse à manivela com a colher de pau, os ovos caseiros impossibilitaram que o creme ficasse esbranquiçado. Ainda assim segui em frente. 
As nozes ainda tinham de ser partidas porque a razão de fazer o bolo era gastar as nozes que tinham dado aos meus pais. Foram 30 minutos de crack crack. A mão tremia do esforço continuado dos músculos. Enquanto isso tentava procurar uma noz que fosse o mais parecida com um cérebro humano. Algumas tinham o giro central mas não tinham o parieto-occipital, outras tinham o giro frontal mas não tinham o calcarino. Algumas que não passavam na selecção eram comidas e dadas como sacrifício aos sucos digestivos que se começavam a formar com a mera visualização de comida. 
A farinha não foi adicionada sem primeiro passar pela minha cara. Assim como gosto de fazer de conta que sou estrangeiro quando vou passear com a minha irmã e falamos em inglês, gosto de às vezes passar por outras pessoas. Com a farinha na cara era como o palhaço do circo. Ou como as senhoras que metem pó na cara antes de saírem de casa para um encontro romântico. 
Por fim, juntar as claras em castelo. São, a seguir ao acto de comer, a minha parte preferida. Bater tudo, inverter a bacia sobre a cabeça e certificar-me de que não cai. É sempre a medo que o faço ainda que possam estar bem presas. Se pudesse voltar atrás no tempo ensinava aos construtores a maneira de edificarem castelos e fortalezas sem risco de derrubamento por forças inimigas. O segredo estaria no uso das claras na argamassa. Acho que seria infalível.
Enquanto o bolo ganhava consistência no forno, guardava e lavava o material todo. Guardei uma casca de noz que mascarei de barco. Usei um palito para fazer de mastro, enchi o interior com açúcar para fazer de mercadoria e a farinha foi usada para fazer de espuma do mar que era as claras que tinham ficado nas cascas dos ovos.

E o bolo ficou bom. Para a próxima vou ver se faço este.

domingo, 26 de agosto de 2012

tatuagem


A menina no penúltimo banco da igreja, de vestido com flores estampadas e cabelo loiro apanhado numa trança caída no ombro esquerdo, ficou encantada quando descobriu a tatuagem feita pelos raios de Sol assim que atravessavam o vidro e se dividiam nas suas muitas cores. Quando viu o arco-íris mexer-se quando moveu o braço os olhos abriram-se ainda mais e começou a rir-se. 

É bom ser-se criança e o mundo caber-nos nas mãos. E as coisas acontecerem-nos a nós porque somos maiores do que nós mesmos. Somos o Robin Hood, o Power Ranger vermelho, as Tartarugas Ninjas, o Batman, o Action Man, o San Goku e o Inspector Gadget e quem nos apetecer. 

Aprendi algures que a jarra de vidro cortava a mão mas ainda assim o Game Boy só existia verdadeiramente quando o tinha na mão. Quando me esquecia dele em casa conseguia-o imaginar no sofá mas era como se ele não existisse porque ninguém estava a olhar para ele. Mas agora o mundo é demasiado grande e as minhas mãos só fazem nonas no piano e o meu metro e oitenta e cinco só me permite chegar facilmente às prateleiras de cima, onde às vezes escondo as bolachas.