sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Dia após dia

Os calendários marcaram o início de Outono, mas ele ainda não se apresentou em público. Deve andar a preparar uma entrada triunfal especialmente dedicada a mim. Ele sabe que o espero com entusiasmo e por isso está empenhado na preparação de uma precipitação bem grande. Enquanto isso, o calor tem-se prolongado para além dos limites de 22 de Setembro. Não é mau de todo, confesso. Não é demasiado tórrido, uma vez que vem acompanhado de uma brisa suave.

Há uns dias estive na varanda do quarto a banhar-me com os últimos raios de Sol de um dia supostamente outonal. Tirei a t-shirt e fechei os olhos. Sabia bem sentir a energia térmica a aquecer-me o peito e a aragem a envolver-me como se tivesse posto o Manto da Invisibilidade. As gaivotas grasnavam e havia um leve cheiro a maresia no ar. Algures dentro de casa chamaram-me para ir jantar e eu assim fui.

Há uns minutos, tentei passar um pente pelo cabelo. Os dentes do dito pente passavam, mas o meu cabelo prefere dedos e por isso fiz uma troca de utensílios. Aproximei-me da janela para me pratear com a Lua, mas não a encontrei. Estava antes uma estrela que brilhava muito. Assustei-me ao pensar que a luz que vejo dela conta-me o seu passado e que ela pode já nem existir.  A noite está calma, mas não tenho o tronco nu. Vesti um casaco de malha que tem daqueles botões que parecem pirâmides (eu acho que eles têm um nome característico, mas a palavra não se forma na minha cabeça). Brinco com eles, acho-lhes muita piada (se algum dia for um botão, quero ser como aqueles), e abraço-me a mim mesmo. Os botões abraçam as casas que lhes são feitas, eu abraço-me a mim mesmo, não me parece assim tão despropositado.

Mas continuo à espera do Outono. Chuva, vento, relâmpagos, folhas douradas que piso para ouvir o crack, castanhas assadas numa folha de jornal, lençóis polares,…. Hum, sim, gosto muito. Vem Outono.

sábado, 24 de setembro de 2011

Doraemon, el gato cosmico

Depois de regressar de uma noite fria que me deixou a garganta a doer, fiz um chá e liguei a TV. Nos canais habituais não estava a dar nada que me cativasse, pelo que fui mudando de canal até que parei no Panda Biggs, onde estava a dar o DoraemonNunca vejo tal canal, mas lembrei-me  de quando era mais pequeno e gostava de ver os desenhos animados do gato que tinha um bolso sem fundo de onde tirava invenções fantásticas que davam tanto jeito ao Nobita... Quantas vezes não quis eu os apetrechos dele!

No episódio de ontem o Nobita estava farto de ser chamado à atenção pelos pais e perguntou ao Doraemon se não tinha nada que o pudesse ajudar. (O que é que não há naquele bolso?) Foi-lhe dado um chapéu que fazia com que as pessoas não reparassem em quem o usasse. Lá foi então o Nobita fazer das suas com o chapéu. Tudo lhe estava a correr bem (ele chegou mesmo a fazer com que o Gigante caísse e batesse no Suneo) até que depois as coisas começaram a dar para o torto. Ele tentava tirar o chapéu porque ninguém reparava nele mas não conseguia. Tentou, tentou, mas só quando a mãe dele lhe atirou com um balde de água (porque não tinha reparado nele é claro [como se fosse costume a mãe ir para o portão da casa atirar baldes de água para a rua]) é que o chapéu saiu. E depois, mesmo quando os pais lhe ralharam por ele não estar a estudar, ele disse que preferia muito mais ser chamado à atenção do que não ser visto por ninguém.

Eu não sou como o Nobita. Os meus pais não me ralham para eu ir estudar e eu não posso recorrer ao Doraemon. Sim, acabo por não dar nas vistas, mas a culpa é minha. Mas mesmo sendo culpa minha, queixo-me dessa condição. Encho a cabeça com livros para evitar pensar em pessoas, mas quanto mais o faço, mais penso que me sinto isolado e que eu podia morrer esmagado por um livro que ninguém havia de reparar em mim. ("I try to live alone, but lonely is so lonely alone"). É um ciclo vicioso e eu cada vez menos gosto de ciclos porque não se têm revelado interessantes.

Se tivesse uma abelha que me indicasse se os meus pensamentos se iam tornar realidade (o Doraemon deu uma ao Nobita no episódio seguinte), talvez fosse mais fácil. Mas não devemos tomar o caminho mais fácil porque a aprendizagem é mínima e não nos apercebemos que há muito mais para além do que aquilo que queremos. Muito melhor do que encontrar uma moeda no chão, é ver as folhas das árvores a mudarem de cor e adquirirem uma cor avermelhada.
Vermelho é a cor do amor dizem e eu não me importo que as folhas arranjem um par no meio da folhagem.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Nevoeiro

O Outono aproxima-se lentamente como que com medo de expulsar o Verão que veio fora do tempo (na verdade, não é medo. Ele não gosta é de se impor). O céu tingiu-se de preto e por todo o lado há nevoeiro. Era capaz de jurar que das traseiras de minha casa havia um prédio, mas agora estou confuso. Não o vejo. Aliás, só vejo, e mal, as luzes emitidas pelos candeeiros de rua, que provocam sombras estranhas na estrada.
Os meus pés estão molhados do orvalho que começou a formar-se na relva. Gosto de caminhar por jardins à noite. Não costuma haver mais ninguém para além de mim. Só eu assisto à dança dos ramos das árvores. Mas sozinho, torno-me presa fácil para os Dementors. O meu coração ainda não voltou à frequência normal. Quando não contamos com a sua presença, é tudo mais difícil. E doloroso. Magoou, mas não posso fazer mais nada porque ainda se repete tudo, com muita pena minha...

Que venham o nevoeiro e o orvalho e me façam companhia esta noite...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Valerie


"I know there’s no way I can convince you this is not one of their tricks. But I don’t care. I am me.

My name is Valerie. I don’t think I’ll live much longer, and I wanted to tell someone about my life. This is the only autobiography that I’ll ever write, and – God – I’m writing it on toilet paper.

I was born in Nottingham in 1985. I don’t remember much of those early years. But I do remember the rain. My grandmother owned a farm in Tottlebrook, and she used to tell me that God was in the rain.

I passed my eleven plus, and went to a girl’s grammar. It was at school that I met my first girlfriend. Her name was Sarah. It was her wrists – they were beautiful. I thought we would love each other forever. I remember our teacher telling us that it was an adolescent phase that people outgrew.

Sarah did.

I didn’t.

In 2002 I fell in love with a girl named Christina. That year I came out to my parents. I couldn’t have done it without Chris holding my hand.

My father wouldn’t look at me. He told me to go and never come back. My mother said nothing.

I’d only told them the truth. Was that so selfish? Our integrity sells for so little, but it is all we really have.

It is the very last inch of us.

And within that inch, we are free.

I’d always known what i’d wanted to do with my life, and in 2015 I started my first film: The Salt Flats.

It was the most important role of my life. Not because of my career, but because that was how I met Ruth. The first time we kissed, I knew I never wanted to kiss any other lips but hers again.

We moved to a small flat in London together. She grew scarlet carsons for me in our window box. And our place always smelt of roses.

Those were the best years of my life.

But America’s war grew worse and worse, and eventually came to London.

After that there were no roses anymore. Not for anyone.

I remember how the meaning of words began to change. How unfamiliar words like “collateral” and “rendition” became frightening. When things like norsefire and the articles of allegiance became powerful. I remember how different became dangerous.

I still don’t understand it: why they hate us so much.

They took Ruth while she was out buying food. I’ve never cried so hard in my life. It wasn’t long until they came for me.

It seems strange that my life should end in such a terrible place.

But for three years I had roses – and apologised to no-one.

I shall die here. Every inch of me shall perish. Every inch.

But one.

An inch.

It is small and it is fragile, and it is the only thing in the world worth having. We must never lose it or give it away. We must never let them take it from us.

I hope that - whoever you are - you escape this place. I hope that the world turns, and that things get better.

But what I hope most of all is that you understand what I mean when I tell you that even though I do not know you, and even though I may not meet you, laugh with you, cry with you, or kiss you: I love you.

With all my heart.

I love you.
Valerie."

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O barulho do silêncio é reconfortante por vezes

Estava quase a conseguir adormecer, já conseguia ver as coisas do outro lado e subitamente.... PUM! PUM! PUM! Não sei onde tinham a cabeça para lançarem foguetes àquela hora da noite. Parecia que estavam a fazer pipocas e que o milho batia com estrondo nas paredes do recipiente. (Já não como pipocas há muito tempo. Para a semana tenho de comer). Quando parecia que já todo o milho tinha sido convertido em pipoca, eis que se ouvia novamente PUM! PUM! PUM! Voltar a conseguir passagem para o lado do sonho foi difícil, fosse porque o barulho ainda ecoava nos ouvidos, fosse porque a simples visão de pipocas tivesse aumentado a concentração de glicose no meu sangue, que agora parecia fervilhar nos vasos sanguíneos.

E agora, conseguem ouvir alguma coisa? Eu não, não ouço nada para além das teclas do computador a serem pressionadas. Nem mesmo as vozes da cabeça, essas estão tão surpreendidas quanto eu. Nem mesmo a esfera da caneta que comprei a semana passada, porque, embora ainda tenha quase a carga de tinta cheia, deixou de escrever há cinco minutos. Já tentei cantar, mas pareceu-me que estava a abafar o silêncio e por isso calei-me. Pus-me então a ouvir o silêncio e fechei os olhos para não me distrair com outras coisas. Pareceu-me demasiado confuso, quase um grito de desespero. Vou tentar mais tarde, pode ser que então consiga perceber o que o silêncio me diz. (E o que o vazio me traz.)

domingo, 18 de setembro de 2011

Podíamos ser felizes, mas podes sê-lo só tu


You could be happy and I won't know
But you weren't happy the day I watched you go
And all the things that I wished I had not said
Are played on loops 'till it's madness in my head

Is it too late to remind you how we were?
But not our last days of silence, screaming, blur
Most of what I remember makes me sure
I should have stopped you from walking out the door

You could be happy, I hope you are
You made me happier than I'd been by far
Somehow everything I own smells of you
And for the tiniest moment it's all not true

Do the things that you always wanted to
Without me there to hold you back, don't think, just do
More than anything I want to see you girl
Take a glorious bite out of the whole world




E eu julgo-me detentor do mesmo direito de ser feliz. Por isso posso ser feliz e tu (quem quer que seja a pessoa a quem ele se refere. "Tu" pode ser muita gente e não ser ninguém) também, sozinhos porque não nos conhecemos, ou juntos, um dia.

(eu costumo inventar um "tu" para dar um corpo a uma das vozes que tenho na cabeça. Assim as pessoas não pensam que sou louco)


(agora os meus dedos estão a dançar pelo teclado... 
odjg oodrj 9034w v0trh0 iy 45gr nkxcf bngfibgns o sgftpohij 0rs WOP VGDS9GH)

e eu estou feliz a fingir. Também estás? Espero que não. Ou então que pelo menos sejas um bom fingidor como eu. Não digas a ninguém, mas eu vou ganhar o Óscar de Melhor Fingidor (e nem sequer sou poeta). Vai ser a Maggie Smith a entregar-me a estatueta (e eu vou dar-lhe um abraço porque gosto muito dela) e no meu discurso a fingir, vou fingir que estou surpreendido por ter ganho aos outros concorrentes. E eles vão fingir que estão contentes por mim, mas como não são tão bons fingidores, eu vou perceber. Mas não me vou importar, porque vou fingir que estou contente.

Se algum dia nos conhecermos, vou mostrar-te o cavaleiro (não de bronze, mas de estanho com folha de ouro) e podemos deixar de fingir. Seremos felizes a sério!


Ontem à noite os foguetes riam-se às gargalhadas no céu. Infelizmente não eram daqueles que se riem até chorarem jactos de luz. Não… A luz saía era dos sabres de luz dos Jedis do filme da Sic que entusiasticamente aniquilavam os dróides. Menos entusiastas estavam os estudantes que esperavam os resultados de acesso ao ensino superior.

Eu não me ria, não chorava, não entrava numa explosão de cores (mas a minha t-shirt era vermelha) nem dava saltos no ar ou usava a Força para ultrapassar os obstáculos que me deixavam ansioso. Nem eu sei bem o que me deixava naquele estado de reviravolta na cama já que o sono, embora já se tivesse alojado nas pálpebras, não se tinha manifestado no pulsar do coração.

A culpa não era das castanhas pois se acabaram, foi porque eu assim decidi. Há que saber fazer o racionamento das provisões para tirar o melhor proveito. Definitivamente, não eram as castanhas nem o excesso de cloreto de sódio ingerido, mas o quê ao certo não sei. Acho que eram as formigas que sentia a passear ao longo do meu braço. Acendi a luz, mas não vi preto a mover-se no braço branco. Apaguei a luz, mas continuei a sentir algo no braço. Talvez alguém velasse por mim e não se tivesse apercebido que me dificultava a passagem para o lado de lá do sonho.

Ainda sinto um pouco do toque no braço. Às vezes estende-se até à cara e se fechar os olhos consigo visualizar os dedos que me tocam. São parecidos com os meus e as linhas na palma da mão encaixam nas minhas.

Não pode ser. Vejo coisas onde elas não existem, sinto coisas onde não há estimulação das inervações sensitivas da pele. Os meus livros não dizem, mas talvez o coração sinta o que a pele não sente e por isso ontem o sono não se manifestava nele.

sábado, 17 de setembro de 2011

Havia uma música que dizia "dois sóis, um só sentido", não era?

-Quando for grande quero ser astrónomo.
-Para quê?
-Para estudar estrelas, planetas, satélites naturais, cometas, meteoróides, fenómenos espaciais e especiais e mais outras coisas que ainda não sei.
-Mas para que é que queres limitar-te a estudar, se as podes ter?
-Ter?
-Sim. O que se passa lá em cima é um reflexo do que se passa cá em baixo em grandes proporções. Há pessoas que são brilhantes como as estrelas e quando crescem tornam-se gigantes vermelhas. Outras são como os meteoróides, deslumbram-nos e fazem-nos pedir desejos. Os satélites naturais são as pessoas apaixonadas, girando à volta de alguém. Infelizmente, há também cá na Terra buracos negros. Evita-os!
-Eu sou uma estrela?
-Para mim, és a estrela mais brilhante que existe. És aquela que os olhos meus olhos procuram incessantemente nas noites mais escuras porque és tu... Sim, tu, pára de te rir. És tu que brilhas mesmo quando a escuridão me envolve e me aquece. Na verdade, eu costumo pôr-te no bolso do pijama. (e às vezes, manténs-me acordado porque brilhas demasiado e és muito grande para o meu bolso)
-Então pronto. Quero desde já coleccionar estrelas. Queres ser a minha primeira aquisição?

Foi assim que começámos a coleccionar estrelas, satélites naturais, cometas, meteoróides, fenómenos espaciais e especiais. Às vezes experimentávamos outros papéis. Fui Lua, fui cometa, fui meteoróide, mas evitei sempre ser buraco negro.

Agora, agora fomos separados. Terá sido o vento que nos empurrou para lados opostos? Será que o hélio se acabou a algum de nós e agora não somos capazes de nos ver um ao outro nas noites pintadas de preto?
Li uma notícia que ias gostar. Foi descoberto um planeta com dois sóis. Já imaginaste ver dois pores-do-sol? Já pensaste que não íamos ter de esperar tanto tempo para ver eclipses? Já pensaste que não íamos ter de competir com quem ficava com o sol na caderneta, porque havia um para cada um de nós?

Queria ser capaz de te mostrar a minha caderneta de estrelas. Se o conseguisse, a primeira página (e a segunda e a terceira) voltaria a ter o brilho de outrora e eu não me sentiria sozinho. Não te tenho comigo e em desespero, insultei aquele planeta. Disse que ele era poligâmico e que não gostava disso e que por isso ele nunca havia de entrar na minha colecção. Espero que ele tenha percebido que o amor faz-nos ser estúpidos e que na verdade eu tinha era ciúmes de ele ter alguém presente...

Sinto a tua falta. Estou à tua espera e todas as noites procuro-te da minha varanda. Tenho deixado a janela aberta para que possas entrar e alojar-te de novo no pijama. Enquanto te procuro, rio-me. Pode ser que o meu riso te atraia até mim.  Pode ser que a vibração das partículas do ar sejam detectadas pelas tuas máquinas e que o teu telescópio consiga ver a ténue luz que ainda emito (na verdade, o que fiz foi passar o teu pó de estrela no meu corpo...).

Sinto a tua falta...




-As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para os viajantes, as estrelas são guias. Para outros, não passam de luzinhas. Para outros, os cientistas são problemas. Para o meu homem de negócios, eram ouro. Mas todas essas estrelas estão caladas. Tu, tu vais ter estrelas como mais ninguém…
-O que é que isso quer dizer?
-À noite, pões-te a olhar para o céu e, como eu moro numa delas, como eu me estou a rir numa delas, para ti, é como se todas as estrelas se rissem! Vais ser a única pessoa do mundo que tem estrelas capazes de rir!
E voltou a rir.
-E quando te tiveres consolado (porque acabamos sempre por nos consolar), hás-de sentir-te muito contente por me teres conhecido. Hás-de ser sempre meu amigo. Vai-te apetecer rir comigo. E, às vezes, sem mais nem menos, vai-te dar para abrir a janela, só porque é bom… E os teus amigos hão-de ficar de boca aberta quando te ouvirem rir a olhar para o céu. Mas tu dizes-lhes: “Pois é! As estrelas sempre me deram vontade de rir!” E eles ficam a pensar que tu estás maluco. Rica partida que eu te vou pregar, não é?
E voltou a rir.
-É como se, em vez de estrelas, eu te desse quinhentos milhões de guizinhos capazes de rir!
E voltou a rir. Depois, fez-se sério e disse:
-Esta noite… Vê lá se percebes… Não venhas comigo.
-Vou! Vou! Não te quero abandonar!
-Mas há-de parecer que me dói muito… Há-de parecer que eu estou a morrer. Tem de ser assim. Não venhas ver uma coisa dessas que não vale a pena.
Antoine de Saint-Exupéry - O Principezinho

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Já cheguei a ter mais de 50 vidas no Crash Bandicoot


"Mas tudo acabará bem. Ando sempre com um caderno e uma lapiseira na mochila."

Isso pensava eu, mas quando estudo em casa é frequente esquecer-me do porta-lápis na secretária. O resultado é que quando não estou em casa e preciso de algo que esteja lá dentro, não tenho. Ontem foi um desses dias. O caderno acompanhou-me na viagem de Metro, mas não tinha nada com que escrever. Aliás, não tinha nada com que me entreter. Em cinco minutos acabei o livro que levava comigo e o mp3 tinha também ficado em casa. Como não tinha estátuas que pudessem falar comigo, falei com a minha cabeça.

O dia não estava a começar muito bem e ainda por cima morrinhava (oh, porque é que não chovia torrencialmente?). Não há meio de eu gostar das gotículas que parecem colar-se ao cabelo e à roupa sem no entanto molharem realmente. Fico antes com comichão e com calor. Costumam chamar-lhe chuva molha-parvos, mas eu só queria ser capaz de proclamar-me não-parvo para ver se conseguia escapar dela. Não consegui e fiquei mal humorado.


Há de facto coisas que se repetem  (o já ter dado a glicólise não sei quantas vezes em não sei quantos anos é a prova disso), mas na minha cabeça disseram-me que podemos aprender todos os dias um pouco mais e assim tornar ligeiramente diferente a repetição. Eventualmente ela será tão diferente que é como se passássemos para um nível seguinte, algo novo e que parecerá confuso ao início. Mas o conhecimento é contínuo e, por isso, podemos e devemos utilizar os conhecimentos prévios para não perdermos no novo nível, chegarmos a game over e voltarmos ao início de tudo porque nos esquecemos de gravar.

De facto, no jogo do Crash Bandicoot eu aprendi que devia matar sempre todos os bichinhos, porque se quisesse voltar atrás para destruir todas as caixas, seria mais fácil. Só tinha de estar atento aos buracos.

Infelizmente, às vezes cometo erros. Quando se tratava de ver a intersecção de duas rectas, basta enganar-me num sinal da equação que chegava a um resultado errado. Nas aulas de matemática nunca me enganei nesses exercícios, tinha sempre o cuidado de confirmar a resposta final. Mas agora perdi o método, deixei de ser tão racional e eu bem dizia que quando pensava com sentimentos, tudo se afundava como uma bacia de sedimentação.
Não sei se agora cometo um erro, não sei se é a racionalidade ou o sentimento que me guiam, mas a nossa intersecção parece-me um grande conjunto vazio. Dizer que assim é o melhor parece-me errado, uma vez que desconheço o que existe do outro lado, por isso vou apenas dizer que estava bem antes de tu apareceres.



Quando cheguei a casa pude então ouvir
touch me
not with your hands
but the way I can feel you
touch me
not with your hands
but within your soul

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Se há coisa que não merecia ter um fim, é o chocolate...

Há coisas às quais podemos atribuir um princípio, um meio e um fim. A outras apenas podemos estipular o início e como o fim é desconhecido, o meio também o é. E sobre outras coisas simplesmente não podemos dizer nada de especial, apenas que existem.

Há coisas que se repetem sucessivamente no tempo e no espaço e se forem boas, de bom grado esperamos pela repetição. Somos até capazes de ainda estar a meio do caminho e já desejar que tudo volte ao início. Mas quando são más, queremos acreditar que tudo irá acabar mais cedo ou mais tarde.

Sinto que volto a um início, não sei ao certo que início, e sinto-me apático, pelo que não é um início com pipocas (embora eu não coma pipocas quando vou ao cinema, apenas em casa). Deve ser mais um daqueles em que se poderá falar do modelo de Kubler-Ross (não que seja um doente terminal, mas na minha opinião, o modelo pode ser aplicado a várias situações): negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. A ordem varia e alguns ainda não foram totalmente atingidos, mas para lá caminho.

E talvez seja fraco ou outra coisa qualquer, mas não corro para a fila de espera (como fazia para as montanhas-russas) para que alguns acontecimentos se repitam. Sendo assim, acho que este blogue será mais uma coisa que não levo até a um verdadeiro fim, mas sim a um término antecipado e apressado. Mas é que as intersecções entre dois segmentos de recta nem sempre são boas.

Talvez o problema seja mesmo das pipocas.

Mas tudo acabará bem. Ando sempre com um caderno e uma lapiseira na mochila.

Talvez ainda não definitivamente, mas para breve...

Pessoas ligadas em rede

Já me cruzei com várias pessoas que, umas (muito) mais outras (muito) menos, me influenciaram bastante. De algumas conheço a cara e a voz, de outras só conheço as palavras. Umas fizeram-me chorar, outras rir, outras pensar, outras uma combinação ou arranjos (com ou sem repetição) de chorar, rir e pensar. Umas ainda estão presentes, outras já não. Umas fizeram-me sentir bem com os curtos-circuitos, outras nem por isso. Desejei ser outro que não eu por causa de algumas, mas por outras, sinto-me bem em ser como sou.

Esta música não despertou a minha atenção quando a ouvi pela primeira vez. Por causa disso, passou despercebida no computador. Até hoje. Hoje voltou a cruzar-se comigo, assim como rectas concorrentes se cruzam, e dei por mim a cantar


I found a wallet

and like a holy relic
or a mystery novel
I thumbed them in the dim light
searching for a clue
a blockbuster card
an old stick of juicy fruit
a crumpled receipt
for a pair of leather boots

I'll take your wallet
to my local blockbuster
they'll find your number
in their computer
you'll never know me
I'll never know you
but you'll be so happy
when they call you up

sábado, 10 de setembro de 2011

Daqui a uns anos, todos os meus dias serão assim


Não sendo eu um insecto, há algo nas luzes que me fascina. Adoro viajar de carro à noite, com a cara colada ao vidro para ver as luzes das cidades, das aldeias, das fábricas e até mesmo dos candeeiros ao longo da auto-estrada. E quando as deixo de ver, rodo a cabeça o máximo que consigo para que possa continuar a ver as pintas luminosas, ainda que fique com dores de pescoço. Às vezes, a Lua dá-me o prazer de a poder ver também. Não há mais nada que se iguale a ela no escuro da noite, é ela a senhora da noite.

Ao entrar na aldeia, o céu é perfurado pelos pinheiros. Não jorra sangue, apenas uma ténue luz que salta de agulha em agulha, projectando sombras esquisitas no chão de terra batida - algumas chegam mesmo a ser parecidas com monstros que flutuam ao sabor do vento e o estrilar dos grilos é o som que eles fazem para assustar as crianças que já deviam estar a dormir.

O ar cheira a madeira humedecida e a todo o tipo de chás. Junto a mim, o chocolate quente acabado de fazer arrefece e o vapor sobe em espiral, para logo se deixar de ver. Tentei fazer com ele uma nuvem, mas ela desfazia-se mal entrava em contacto com a pele. O pau de canela não é só a colher que dança nos meus dedos, mas é também a palhinha por onde vou bebendo. O bolo com creme já desapareceu há muito do prato. Disse à minha mãe que os espíritos do campo tinham entrado na casa. A mãe riu-se e disse que eu tinha de deixar de ser tão guloso.

Se calhar tenho, mas ainda vou procurar o Totoro e o Cabeça de Nabo. O Totoro vai ser a minha almofada esta noite. Quanto ao Cabeça de Nabo, ele não há-de querer um beijo meu para se transformar no Príncipe que é, pelo que vou deixá-lo a passear. Se amanhã estiver por perto, vou pedir-lhe que me leve até ao lago.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

All Love

«É mas é a melhor razão de todas! As outras eram só para satisfazer os meus caprichos, e também os do Edgar… para ele ficar contente. E esta é por uma pessoa que congrega em si tanto os meus sentimentos pelo Edgar como os que nutro por mim mesma. Não sei como explica-lo, mas certamente que tu e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, um outro eu para além de nós próprios. Para que serviria eu ter sido criada, se apenas me resumisse a isto? Os meus grandes desgostos neste mundo foram os desgostos do Heathcliff, e eu acompanhei e senti cada um deles desde o início; é ele que me mantém viva. Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim numa vastidão desconhecida, a que eu não teria a sensação de pertencer. O meu amor pelo Linton é como a folhagem dos bosques: transformar-se-á com o tempo, sei-o bem, como as árvores se transformam com o Inverno. Mas o meu amor por Heathcliff é como as penedias que nos sustentam: podem não ser um deleite aos olhos, mas são imprescindíveis. Nelly, eu sou o Heathcliff. Ele está sempre, sempre, no meu pensamento. Não por prazer, tal como eu não sou um prazer para mim própria, mas como parte de mim mesma, como eu própria.»

«Catherine Earnshaw, enquanto eu viver não descansarás em paz! Disseste que te matei. Pois então assombra-me a existência! Os assassinados costumam assombrar a vida dos seus assassinos, e eu tenho a certeza de que os espíritos andam pela terra. Toma a forma que quiseres, mas vem para junto de mim e enlouquece-me! Não me deixes só, neste abismo onde não te encontro! Oh! Meu Deus! É indescritível a dor que sinto! Como posso eu viver sem a minha vida?! Como posso eu viver sem a minha alma?!»
Emily Brontë - O Monte dos Vendavais


A pergunta aqui deverá ser: é isto o amor? Se assim for, é uma coisa bastante poderosa. O eu ser um poderoso nós e o nós ser uma só identidade ainda mais forte. Os actos de loucura estão explicados. O amor é a nossa identidade, por isso é que nos sentimos incompletos grande parte da vida. E quando nos sentimos completos, tememos a fragmentação, pois perdemos muito mais do que nós próprios.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Colin Creevey


“All right, Harry? I’m — I’m Colin Creevey,” he said breathlessly, taking a tentative step forward. “I’m in Gryffindor, too. D’you think — would it be all right if — can I have a picture?” he said, raising the camera hopefully.
“A picture?” Harry repeated blankly.
“So I can prove I’ve met you,” said Colin Creevey eagerly, edging further forward.  (…) “And it’d be really good if I had one of you” — he looked imploringly at Harry — “maybe your friend could take it and I could stand next to you? And then, could you sign it?”

Harder to avoid was Colin Creevey, who seemed to have memorized Harry’s schedule. Nothing seemed to give Colin a bigger thrill than to say, “All right, Harry?” six or seven times a day and hear, “Hello, Colin” back, however exasperated Harry sounded when he said it.
Harry Potter and The Chamber of Secrets


O Colin não era má pessoa. Afinal, ele era dos Gryffindor (e sobre eles o Chápeu Seleccionador dizia ... You might belong in Gryffindor, Where dwell the brave at heart, Their daring, nerve and chivalry Set Gryffindors apart). Na minha opinião ele procurava simplesmente integrar-se no novo meio, e através disso, conhecer-se a si mesmo. Procurava o apoio daqueles que sabia que não o deixariam mal quando mais ele precisasse. As fotografias eram o meio que ele arranjava para iniciar contacto humano e uma tentativa rebuscada de se identificar com alguém.

Mas uma foto não lhe chegava - ele queria fazer um álbum inteiro - de modo que o Harry ficou saturado. O Harry devia ter percebido isso ao deixar tirar a primeira foto. Pessoas confusas podem requerer muita atenção. Quando ficou petrificado, não foi assim tão mau quanto isso. Teve mais que tempo para pensar em quem era (se é que se continua a pensar quando se está petrificado) e no que andava a fazer com tanta fotografia.

Mas nem sempre há um basilisco a circular pelos canos para ajudar na busca de identidade e ser-se simpático como o Harry ou o Dobby pode não ajudar em nada. Ou fazemos nós próprios de serpentes verde-brilhantes (sem no entanto chegarmos perto dos 15 metros) ou então podemos ser Kreachers.
Se dominássemos a Transfiguração podia ser bem simples (mais simples ainda seria sabermos Confundir muito bem), mas termos de encarnar por nós próprios diferentes personalidades pode ser difícil. Especialmente quando passamos rapidamente de um Kreacher para um Dobby.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

"A amizade é um bem demasiado precioso para confiar a um ser humano"

Talvez não tenha sido bom terem mudado o tema de conversa na praia. É verdade que não participava muito nos outros dias, mas assim hoje ter-se-ia evitado o comentário dirigido a mim "estou admirado com a tua insensibilidade". Hum, nada disse na altura - poderia parecer orgulhoso da minha parte e convencido o achar tão terminantemente que não enquadrava em tal papel -, pelo que vim para casa pensar no assunto.

Há quem veja a amizade como uma competição (melhor dizendo, há pessoas que partem do princípio que são melhores amigos do que outras pessoas) ou como uma relação recíproca idêntica entre os indivíduos em causa. Não sei se serei o único, mas não concordo minimamente com tais ideias.

Aqui há uns tempos, uma grande amiga chateou-se comigo pelo facto de eu ter uma outra grande amizade. Disse-me ela que o conjunto de melhores amigos deveria ser um conjunto unitário. Não concordei com isso na altura nem concordo agora (a pessoa também já não). Assim como no seio da família há um grupo de pessoas que se destaca, com as amizades também o há. E assim como procuramos o pai para falar de A e a mãe para discutir B (...), também com os vários amigos nos relacionamos de modo diferente, mesmo com os melhores amigos. 
[espero não estar a cometer nenhuma barbaridade por não usar a primeira pessoa do singular]
Dizem que os amigos são para as ocasiões. Sim, é certo,  mas parece-me igualmente correcto dizer há diferentes amigos para as várias ocasiões.

Exigir uma relação recíproca idêntica também não me parece certo. Seria quase como exigir que a pessoa de quem gostamos também gostasse de nós. Cada pessoa tem percepções diferentes do que se passa à sua volta, pelo que para mim é compreensível que a relação possa ser vista de forma diferente pelas várias pessoas envolvidas. 

O que se passou hoje foi mesmo isso. Alguém que me considera um melhor amigo não o é para mim e ficou magoado com isso (até compreendo que possa sentir-se assim, mas não pode fazer exigências). Podia preferir que eu tivesse mentido, mas amizade fundada em mentira não é amizade. Não para mim. Tenho no entanto noção que também não sou o amigo perfeito.


O valor que atribuía ao contacto humano tem vindo a enfraquecer desde há uns tempos ("se me dessem a possibilidade de deixar quase tudo para trás e viver sozinho, eu aceitava. Iria sentir muitas saudades de algumas pessoas, mas acho que me ia fazer bem"), em grande parte porque não consigo extrair dele o que vejo nitidamente na minha cabeça. Posso ser difícil, mas não sou incompreensível.

domingo, 4 de setembro de 2011

Vermelho

Uma mão segurava a embalagem de Chocapic, a outra levava os passageiros de chocolate à boca. Não era um acto mecânico como o Metro. Procurava conhecê-los melhor através do toque, tentar descobrir como havia sido a mistura do castanho do cacau com o branco do açúcar, a impregnação com os aromas de vanilina e canela e o enriquecimento com vitaminas e ferro.

(ferro para seres forte quando cresceres e vitaminas para seres saudável, dizia a mãe há muitos anos)

A forma deles lembrava-me a Lua e por isso atravessei a casa para ir para a outra janela. Lá, ela era visível, mas estava ligeiramente diferente dos cereais. Lembrava antes um círculo, ao qual alguém resolveu pintar metade da cor do céu e deixou a outra metade intacta. É, talvez, um pouco injusto para ela não poder ser una o tempo inteiro. Acho que quando está lua cheia, há dois amores fundidos numa só Lua, feliz. Quando está em fase crescente (como hoje) ou decrescente, houve um desencontro entre eles. E quando está lua nova, resolveram fugir da nossa vista porque também têm direito à sua privacidade!

Depois dos cereais, depois da Lua, depois do jantar, vieram as castanhas assadas barradas em manteiga. Primeiro delicio-me a ouvir os estalidos da casca, depois com o calor que se sente ao partir a castanha em duas, segue-se a manteiga a derreter e depois... hum. As papilas gustativas regozijam-se, a amílase salivar começa a decomposição do amido e eu encontro felicidade momentânea. Fecho os olhos e vou preparando o próximo passageiro, mas sinto uma picada no dedo. Abro os olhos e apercebo-me que uma casca me cortou  a polpa do dedo. Sai o líquido vermelho que me corre nos vasos sanguíneos.

Vermelho, a cor do amor segundo dizem. Levei o dedo à boca, na esperança que o vermelho deixasse de ser apenas cor e que o líquido deixasse de ser apenas um estado físico e que amor deixasse de ser apenas uma palavra.

Nada de diferente senti.
Mas não comi mais castanhas.

sábado, 3 de setembro de 2011

Pirilampos


Here come real stars to fill the upper skies,
And here on earth come emulating flies,
That though they never equal stars in size,
(And they were never really stars at heart)
Achieve at times a very star-like start.
Only, of course, they can't sustain the part. 
Robert Frost

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

"To die will be an awfully big adventure"

J. Barrie



- Sure... 
- Look at the cup, tell me what you see! 
- Oh yeah... well, Harry's got a sort of wonky cross... that's trials and suffering. And, uh, that there could be the sun, and that's happiness, so... you're gonna suffer... but you're gonna be happy about it... 
- Give me the cup. Oh, my dear boy. My dear... you have the Grim.
- The Grin? What's the Grin?
- Not the Grin, you idiot. The Grim. "Taking form of a giant spectral dog. It's among the darkest omens in our world. It's an omen... of death."»


A minha caneca do leite ficou como naquela imagem depois de comer Oreo, se bem que eu não pensasse num cão, mas em formigas. De vez em quando elas passeiam pela minha secretária, mesmo sem haver nada que as atraia (para além da minha companhia é claro). Depois somem sem que as circunstâncias mudem (para além do meu humor). Talvez eu seja o meu próprio Sinistro. Provações, sofrimento e felicidade fazem parte do passado e do presente. A morte virá num futuro, próximo ou longe e as bolachas que comi podem ter já desencadeado todo esse processo. Se assim for, que seja. Apenas espero que as bolachas não tenham tornado os meus órgãos pouco viáveis para transplantação. Ao menos que o meu maior acto seja depois de morto...

Setembro


Vejo na rua os carros estrangeiros a serem enchidos com malas e mais malas. Enquanto uns facilmente empilham facilmente as coisas na bagagem do carro, outros têm mais um problema a resolver ainda antes da partida. Certamente perguntam-se que se tudo coube na vinda, tudo deverá caber para a ida. A verdade é que assim não é. A vontade de querer ficar mais uns dias também ocupa espaço e por outro lado, a saudade dos que ficaram na partida ocupa o mesmo ou ainda maior espaço.

A praia está deserta. Já não há matilhas a aquecerem-se ao Sol, mas sim lobos solitários (a maioria nativos) no meio das barracas despidas. Não se ouvem gritos de crianças nem a senhora que vende língua da sogra e pipocas, apenas o lamento do mar que continuamente vai e vem. Já não se vêem os arcos íris que as diversas toalhas formavam. Vê-se antes o branco das gaivotas, que agora podem andar mais calmamente pela areia à procura de comida (embora não esteja certo que a encontrem). Acho que gosto mais da praia assim. Já não me importo de ser um lobo solitário ou uma formiga. A minha cor branca combina melhor com o vazio daquele cenário, mas o meu espírito (se é que existe) pode brincar livremente nas pocinhas de água que se formam no meio dos rochedos.

O céu também mudou. Ora está completamente cinzento, ora está azul com nuvens cinzentas. Às vezes chora, pois também ele sente saudades de algum amor perdido. Não são namoricos de Verão. Se assim fosse, ele não choraria intensamente nos meses que aí vêm. Amem como o céu, brilhem como o Sol ou a Lua, chorem como a chuva, gritem como trovões.


O que em mim mudou? Não sei bem. A vontade de me querer prolongar pelo Verão não existe, por isso apenas tenho de compensar as saudades que sinto por quem ficou na partida. Contudo, acho que elas não existem ou então não são assim tão grandes. Uma partida requer a existência de uma meta e talvez seja nisso que penso, com medo. O troféu que possa existir por lá não é nítido e isso assusta sempre um pouco. E como não sei a distância que tenho de percorrer, receio não ser capaz de chegar ao final ou então que não me aperceba que  já percorri tudo que havia a percorrer. Qual dos dois o pior?