sábado, 31 de dezembro de 2011

That Year

O novo ano aproxima-se e começo a receber mensagens de telemóvel a desejar uma boa entrada em 2012. Muitas falam em pedir os desejos certos, outras falam-me em horóscopos, outras são simples e outras foram enviadas para a lista inteira de contactos pelo que leio palavras catitas de pessoas que o meu telemóvel já nem reconhece.

Não me recordo se no ano passado pedi desejos quando os foguetes rebentavam no ar e eu assistia a família a enfiar passas pelas goelas abaixo com a ajuda do champanhe (que eventualmente foi projectado pelo ar porque algum primo se riu no acto e não conseguiu conter a bebida na boca). Não devo ter pedido porque desde há algum tepo percebi que os desejos que pedia quando trincava as velas de aniversário eram fúteis ou não eram sobre mim ou então eram impossíveis de realizar na realidade ou nem chegavam a existir porque nunca me lembrava de nada quando sentia o sabor azedo da cera na boca. E também não comi as passas nem bebi champanhe, pelo que certamente me diriam que o quer que tivesse pedido não se realizou por não ter seguido a tradição à risca.

Eventualmente nalgum dos 365 dias que se seguiram estabeleci alguns objectivos que gostava de alcançar ou num diálogo comigo mesmo referi coisas que gostava que acontecessem.

Certamente nessas ocasiões pedi uma boa memória para conseguir decorar tudo aquilo que os professores exigem saber e assim passar a tudo na faculdade. A boa memória nitidamente não veio, mas ainda assim passei a tudo. Não tive a média daquela rapariga que costuma sentar-se na fila à frente da minha e que acho bastante simpática, mas dei o meu melhor e acho que isso é importante.

Andar a pedir saúde pelos familiares também o fiz. Isso faço todos os dias quando vejo a mãe a queixar-se dos problemas que tem. Ainda não lhe deu demasiado grave, mas já apanhamos alguns sustos cá por casa. Às vezes desejo também que ela fosse mais cuidadosa e que se preocupasse mais com ela mesma, porque assim haveria de ter mais saúde. Olha, às vezes também desejava que o pai e os irmãos fizessem mais exames de rotina para eu saber se me deveria preocupar exageradamente com eles, mas nem eu os faço… Ao menos parece que não é em 2011 que eu morro por não ter defesas que me salvem por ser tão magro.

Por falar em magro, lembro-me que no décimo ano andei a desejar engordar um bocadinho. Não o consegui proporcionalmente ao que cresci para cima, pelo que continuo igual. No entanto não vou voltar a pedir três quilos porque a camisola que recebi no Natal podia deixar de servir e eu gosto muito dela.

Em relação ao amor, acho que já passei por diversas fases. Já quis, já não quis, já estive no meio termo, deprimi, ri-me do espelho,… um monte de cenas tristes e contentes! Agora não sei e o horóscopo não ajuda. É que ele tanto me diz que o casamento está para breve, como no dia seguinte me diz que vou passar por tempos difíceis para a seguir me dizer que estou para encontrar a minha cara metade ou que devo aproveitar o facto de estar sozinho para pensar no que quero. É tudo muito complicado (houve um dia em que dizia que eu era muito complicado e que não sabia o que queria. Deve ter sido das poucas vezes em que acertou).

Coisas boas que aconteceram? Houve-as. Foi um ano de descoberta e crescimento. Apercebi-me que amizades como as do Harry, Ron e da Hermione não existem só nos livros. Tinha começado a escrever nomes, mas não sabia se as pessoas gostariam de ver os nomes publicados aqui. Acho (espero) que sabem quem são, independentemente de lerem isto ou não. Uma toma a cara da Diversão, outra inaugurou as chamadas transatlânticas, outra adquire cabelo ruivo encaracolado nos meus sonhos, outra diz treuze em vez de treze (nam pam sam xD), outra gosta de Virar Mesas e de ouvir passos na neve, outra perdeu-se nos meus dilemas mas diz-me que gosta muito de conversar comigo e por isso lá nos perdemos em conjunto,  outra costuma ter opinião contrária à minha mas entendemo-nos bem, outra não gostava de escrever mas eu já a fiz desbobinar muita coisa, outra fez duetos comigo e chorou ao ouvir-me cantar (não que cante assim tão mal. A música é que não era a indicada) e outra esteve sempre pronta a ajudar sem nunca pedir nada em troca.
(agora estou é a pensar se não me esqueci de alguém…)

Coisas más? Talvez aqui há uns tempos dissesse que muitas, mas algumas foram mudando de categoria quando constatei que só eram más porque eu queria que elas assim fossem para achar que tinha razão para me sentir de determinada maneira, pelo que agora não me ocorre nenhuma. Talvez tu estejas a ler isto. De certo modo até acho que te devo agradecer porque contribuíste para que eu fosse buscar algumas coisas ao caixote das coisas más e aprendesse a gostar delas.

2011 não foi mau, teve momentos menos bons que agora vejo que ajudaram a que outros fossem melhores.

Não vou criar expectativas para 2012. Não vou projectar em 12 frutos secos o que quer que seja. Enquanto a família estiver toda eufórica vou é aproveitar para fazer batota no Bingo.  

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Meet me here at dawn

Pensei que ia chover hoje e por isso pus-me a tomar o pequeno-almoço na varanda, a bater os pés no chão como que a tentar fazer uma dança para antecipar a queda de água. Ouvi alguns trovões pequeninos e pensei que estava a conseguir algum efeito, mas nada caiu do céu. Ainda esperei mais um pouco, desta vez calado como se esperasse por um veado, mas nada.
Um pouco desanimado, retornei ao quarto onde pus chuva a cair no computador e trovões a ecoarem. Liguei o mp3, pus os fones dentro da caneca onde guardo os lápis e as canetas e encostei o ouvido ao bordo superior como se ela fosse um búzio. Não ouvi o mar e a chuva passou a ser não mais do que uma música de fundo. Em vez disso, a Ursa tremeu na sua opinião e desapareceu. Achei por bem meter as canetas no sítio e deixar que a chuva fosse o único som audível no quarto. Assim fiz e agora ponho-me a procurá-la novamente no tecto...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Pois...

Ainda abundam os doces de Natal na sala e eu tenho medo de:

  1. que tudo vá para o lixo porque ninguém come, ou
  2. ficar com pena de que tudo vá para o lixo e por isso como eu e depois engordo e fico redondo.
Como tenho muito que estudar e quando estudo fico com fome, receio que a opção 2. se verifique, receio ainda maior pelo facto de ficar irritado a estudar centenas de páginas que não me interessam nada e que julgo um pouco (bastante) desnecessárias.

Fui até à cozinha ver que bolos havia e questionei-me se eles não se estranham por estarem todos misturados. Eu estranhei-me quando durante a ceia de Natal me vi rodeado de primos com os quais não era capaz de ter uma conversa porque nada tínhamos em comum ou pelo menos nada aparente e que fosse perceptível entre os monossílabos que trocámos. Eu tentei usar palavras com mais sílabas, mas a verdade é que o meu irmão sempre teve mais jeito para falar com os primos todos e as atenções foram desviadas para ele. Eu passei para a mesa dos crescidos e fiquei a ouvir as histórias de quando eles eram miúdos, algo que sempre gostei e que me faz sempre rir.

Agora penso que gostava de conhecer bem algum dos primos e que ele me conhecesse melhor, mas acho que isso não é possível. Sinto que há uma distância tão grande entre mim e eles, distância que a família e eles próprios ajudam a cria-la. Talvez eu também ajude a criar por não fazer  o que eles fazem ou por não gostar do que eles gostam. Acho que me vêem como um Eugeniozinho ou um papa-livros. Na verdade eu papei foram rabanadas...

domingo, 25 de dezembro de 2011

Christmas Lights

Não estava praticamente ninguém no parque da cidade durante a tarde de ontem. De vez em quando conseguia distinguir uma forma humana a caminhar, mas foram poucas as vezes, e também os patos não estavam à vista. Certamente estavam todos a preparar a ceia de Natal, pelo que não os vi a andarem de um lado para o outro.
Sentei-me num banco junto ao lago e como não tinha um livro como da última vez que lá estive ou um caderno, fiquei lá parado, sentindo o frio cortante nas mãos e na cara enquanto falava comigo mesmo e a imaginar coisas.  O Sol estava lá ao longe, entre dois prédios, e embora estivesse bastante laranja, não me consegui aquecer grande coisa. Dobrar os dedos custava e anestesiava todo o corpo.

Um dia hei-de escapulir-me e fazer a ceia de Natal no jardim. Vou enfeitar as árvores com bolas e luzes coloridas como as que vi perto da Galeria de Paris, estender toalhas sobre a relva húmida e usar o fogãozinho de campismo para preparar a comida. Não precisa nada de especial porque vou estar entretido a procurar os gnomos escondidos entre os galhos caídos, atraídos pelo barulho que faço quando tento cantar. Depois de os afastar, abanarei freneticamente os braços numa dança para atrair os pirilampos e as fadas porque entretanto aperceber-me-ei de que me esqueci de um gerador para poder ligar as luzes que trouxe para os pinheiros. Assim será mais divertido e se conseguir fazer desaparecer a compota de framboesa do frasco tentarei preservar algumas luzinhas no seu interior para me iluminar mais tarde (nunca consegui fazer aquele feitiço da Hermione). Se o lago estiver congelado, farei dele a pista das quedas (na verdade, eu queria que fosse a pista de patinagem no gelo, mas o meu equilíbrio não é lá muito bom); se não estiver, dou um mergulho, assusto uns quantos peixes e depois deito-me enrolado numa manta a ver as estrelas.

As estrelas há-as no céu, no copo de leite do pequeno almoço e algumas pessoas são também estrelas que me fascinam e cujo brilho guardo na minha caixa. Ontem, antes de me deitar, pensei nessas últimas e sorri.


sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal

Ainda me faltam abrir duas janelinhas do calendário do Natal, a de ontem e a de hoje, e ver o que lá tem. Deveria ser um chocolatinho, mas deixei cair o calendário no outro dia e alguns chocolates saíram do sítio. Fui comendo os muitos que me apareciam de vez em quando num quadradinho (não podem dizer que é batota) e em muitos outros dias fui surpreendido com uma janela vazia. Verei o que agora me espera.



Tinha os dois chocolates!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Tanta coisa que se fica pelo "talvez..."...

Cheguei ao meio do caderno. Não fiz uma festa como fazia no básico, mas ainda assim sorri. Já não sorrio é quando as canetas, azuis, deixam de escrever. Nunca encontro uma que consiga igualar a anterior. Por isso agora uso os lápis, mas tenho medo que o bico se parta e eu não consiga dizer tudo o que gostaria.

A folha do meio estava preenchida com um pequeno texto, talvez uma tentativa de consolidar melhor a matéria, talvez uma tentativa de me entreter numa aula exaustiva, talvez uma tentativa de me entreter com os meus pensamentos.

A mão direita está fria e doem-me os dedos quando carrego nas teclas do computador. É o lembrete para "vai dormir".

Deito-me e ouço os relógios a tocar. Tictac toctac (são muitos os relógios, de modo que se torna difícil separar os diferentes sons). Será o lembrete para "o Capitão Gancho anda aí" ou "o crocodilo anda aí"? (qual dos dois o pior para mim?)

Encontro a segunda estrela à direita e depois sigo sempre em frente até de manhã.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Sim, prometo.

Eles deram um tempo e agora ela diz que não sabe fazer nada sem ele.

Ela chora quando ouve a Someone Like You porque na cabeça dela forma-se involuntariamente uma cena na qual ela canta "never mind I'll find someone like you" ao namorado (ou ele a ela, não sei qual dos dois canta melhor).

Promete-me que aconteça o que acontecer nunca me deixarás! Mesmo que o mundo acabe, promete-me que continuaremos a jogar berlindes com o Sol, Mercúrio, Vénus, Terra, Lua, Marte, Fobos e Deimos (uma vez tentamos jogar com Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno, mas magoamos os dedos nos anéis, ou pelo menos assim pensamos na altura, e perdemos alguns satélites naturais que rolaram para baixo dos armários). Promete-me que te posso encontrar sempre que olhar para o tecto à procura da Ursa. Promete-me que te sentirei em cada gota de chuva.


E não preciso de me meter na banheira

Tenho de começar a treinar para receber os vizinhos. Os joelhos não podem continuar a tremer tanto e o coração terá de arranjar uma frequência mais calma, já para não falar que tenho de entrar menos em pânico porque às tantas não chego a tempo de lhes abrir a porta.

O pai natal não precisa de vir para estes lados. Bem que pode continuar a desfilar juntamente com as centenas das suas réplicas (como é que as crianças ainda acreditam que ele existe se agora neste tempo encontramos centenas de pais natais?) que eu já recebi prendas tão boas que não ouso pedir mais nada.

Obrigado!...

E os bicos de pato? Compramos na padaria

Se me quisesses abandonar, podias tê-lo feito numa das muitas que espirrei ou assoei o nariz ao longo do dia. Não o fizeste, continuo a sentir-te e já te ouvi ralhares-me por ter andado ao frio ontem à noite. Se o quisesses fazer, já o poderias ter feito à muito tempo e de maneira muito mais higiénica.

Sim, se não te senti junto a mim não devia ter ido para o quintal desagasalhado, mas queria sentir alguma coisa, sabes? Queria sentir-me frágil ou ter a certeza de que tinha razões para me sentir assim, queria sentir o relevo que a pele adquire para tentar preservar calor, queria sentir-me a mim para saber que estava vivo. Prometo-te que tentarei não voltar a repetir.

Tenho os lábios secos e em ferida. Já lhes passei mel e fiz cara feia quando a língua, intrometida, quis provar. Argh, não consigo apreciar muito aquilo. Para disfarçar, deixei-a provar as compotas todas que havia e comer as bolachas. Agora ela já está melhor.

Agora eu já estou melhor...

...até ao próximo espirro.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ainda não bocejei


Hand in hand we spend the night
Love comes easy by candlelight

We lie about our past to make each other believe
That this is the love that will last eternity

If only, if only
If only, if only
If only i could believe that tomorrow
When i wake from my sleep
That you'll still be with me
Oh my love
My love will always be



Estive de novo naquele jardim, mas desta vez estava sozinho e já era noite. Mesmo não vendo muito à minha frente, eu sabia onde ficavam as cordas do estendal porque lembrava-me das gotas de água que limpei com a polpa do dedo das últimas vezes que lá estive. Curvei-me para passar sob elas e sentei-me num banco para que as memórias encontrassem algum apoio.
As árvores estavam desprovidas de folhagem e pareciam tristes quando os seus galhos nus se abanavam. Afinal eu não era o único ser sozinho por ali. Talvez seja só da mudança de estação de ano... Por entre os ramos finos que lembravam dedos muito compridos via-se o céu e as estrelas. Havia uma mesmo por cima do poço, meia encoberta por uma nuvem. Brilhava à mesma e eu senti algum conforto nisso. Coleccionei a estrela e pedi-lhe que te iluminasse, onde quer que estejas.
A Lua estava ausente; uma lâmpada ao fundo do jardim susbtituía-a de forma muito imperfeita. Apenas iluminava uma pequena parte, por sinal aquela desinteressante onde se acumulam vasos vazios. Só gosto daquela zona quando chove porque gosto de ver os vasos a encher e depois transbordar. Mas hoje, em vez de uma chuva que me pudesse fazer sentir menos sozinho, estava antes instalado um frio que se fazia sentir em todo o corpo. Ao expirar, o vapor de água condensava-se e parecia fumo. Se estivesses comigo, podíamos fazer uma fogueira com aquele fumo e aquecer as mãos enquanto procurávamos mais estrelas para coleccionarmos.

Abandonei o jardim e dei por mim a usar os meus passos maiores. Só o faço quando estou atormentado nos pensamentos que é para chegar rápido a casa e ver se eles ficam barrados à porta de entrada. Não ficaram, acho que nunca ficam, mas nunca se sabe se um dia não descubro que eles não conseguem acompanhar o meu ritmo.

Que me resta agora? Há qualquer diferença de pressões entre os meus ouvidos, nariz e o ar atmosférico. Embora isso seja incomodativo, tenho medo de que ao bocejar essa diferença passe. Tenho medo que sejas sugado e me abandones.

Não dormirei esta noite. Espero por ti...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A Duquesa


«Sê o que quererias parecer ser, ou, se quiseres que eu te explique melhor, nunca imagines ser diferente daquilo que possa parecer aos outros que foste ou pudesses ter sido, que não era diferente do que foste e que teria parecido diferente aos outros»

Lewis Carrol - Alice no País das Maravilhas

É-me estranho ouvir os outros falarem de mim. Se acaso estiverem a dizer mal, custa ouvir e costumo ignorar se vejo que a causa está perdida ou então vou em minha defesa; mais tarde fico a remoer se realmente sou assim e desenvolvem-se sentimentos de culpa. Se falarem bem de mim, tenho dificuldades em rever-me na maioria das palavras que me são atribuídas. Não, não sou assim. Não quero ser assim.

Depois perguntam-me porque não haveria de gostar de ser assim. Perguntam-me se tenho medo de desapontar alguém.

Acho que o meu maior medo é desapontar-me a mim mesmo. Tal como a Alice, que gostava muito de fingir ser duas pessoas, às vezes parece que para além da pessoa que toma conta do corpo, há mais alguém dentro dele com uma maneira diferente de ver as várias realidades. Por vezes apercebo-me de que me desapontei...
Mas acho que mais do que o medo de desapontar as outras pessoas, tenho é medo de me aperceber que me amam não por quem sou, mas por alguém que pensam que sou...

Happy Ending?

«This is the way you left me, I'm not pretending, no hope, no love, no glory, no happy ending»
Mika - Happy Ending

«O corpo humano é concebido para compensar as perdas. Adapta-se, para não precisar do que já não pode ter.»
Anatomia de Grey, ep05 t08


Por vezes definir perdas é complicado. Quando somos nós próprios os juízes avaliadores de potenciais alterações na nossa vida, podemos tirar conclusões erradas para encontrarmos algo que apoie as nossas decisões e ideais, algo parecido como arranjarmos uma desculpa que justifique sermos de determinada maneira.
Quando é difícil definir perdas, acredito que haja situações que nos colocam em modo de alerta, que nos desagradam ao mínimo contacto, que  se revelam desinteressantes face àquilo que procuramos, ..., e por isso adaptamo-nos, alteramos o nosso modo de pensar e criamos barreiras de modo a evitar certas realidades e a protegermo-nos de estímulos externos potencialmente nefastos. Tal atitude da nossa parte pode ser vista como um acto cobarde e pode privar-nos de sensações e sentimentos agradáveis, mas acredito que haverá um momento oportuno para a pessoa abandonar o fato hermético no qual se encerrou. Tudo requer tempo para acontecer. Deixemos as coisas seguirem o seu rumo.



Eu revejo-me na pessoa que se encerrou no fato completamente esterilizado e encerrado e talvez tenha dito aquilo só para arranjar uma desculpa para me sentir bem com a minha maneira de ser. É provável. Se o valor da probabilidade é superior ou inferior a 0,5 para poder dizer para que lado estou mais tentado a responder eu não sei e acho que ninguém saberá. Dizer que sou complicado é fácil, até eu o posso dizer a mim mesmo,

 [K., és complicado, ou pelo menos é o que dizem]

mas não somos obrigados a pensar todos da mesma maneira. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Urso apolar

Quando estava a dançar feito imbecil na cozinha ao som da música do anúncio televisivo dei um salto quando a tampa da panela caiu, um salto provavelmente igual ao que daria se me tivesse apercebido de que estava a ser observado (se bem que neste caso teria fingido que tinha queimado o dedo ao cozinhar). Sorri e continuei a dança enquanto o anúncio não acabava, contente por ver que tinha bolachas de chocolate para mais uma noite!

Depois de me saciar, regressei ao quarto e deitei-me sobre a cama a ver as constelações no tecto. A chuva caia e encontrei perdida uma Ursa Apolar. (Pelo menos a encontrar constelações nunca falho, embora não consiga encontrá-las novamente depois de desviar o olhar.) Falei-lhe e disse-lhe que se quisesse lhe encontrava um urso polar para lhe fazer companhia. Ela disse-me que não era preciso, que estava bem, sozinha e a refrescar-se à chuva. Piscou-me o olho e desapareceu.


Eu estou provavelmente a dar em doido. Suspeito que alguma da chuva que cai há horas tenha entrado pelos ouvidos e que agora o meu cérebro esteja a afogar-se. Já não faço sentido nenhum...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Encontramo-nos?

De manhã caiu chuva lá de cima em cima de mim. Caminhava na rua e nas lentes dos óculos acumulavam-se várias gotas que quase me proporcionavam uma visão de mosca. Tirei-os porque receei cair (na verdade, apenas pensei que as pessoas podiam ficar assustadas por verem um homem-mosca) e então vi tudo muito melhor. O cinzento do céu que dava uma maior profundidade a tudo o que os meus olhos viam, os rasgos de chuva que iam descendendo e cortavam o ar, o rapaz à minha frente que me fez lembrar um outro rapaz, os ténis que estavam escuros devidos à água que neles embatia, as montras das lojas que brilhavam assinalando o Natal…  Passei a mão pelo cabelo e apercebi-me de que estava bastante molhado.
Segui caminho a procurar padrões nas folhas do chão que me indicassem como correria o dia. Conclui que estaria molhado durante parte do dia e achei que estava correcto, pelo que me congratulei pelo meu bom desempenho em Adivinhação. O guarda-chuva jazia no quarto devido a esquecimento meu, mas se o tivesse carregado na mochila certamente que o meu estado seria o mesmo. A chuva aviva-me demasiado para que me proteja dela.
Juntando a água que transportava no corpo à que ando a trazer aos poucos para casa comecei a fazer uma piscina. Ainda não estou inteiramente certo se me aproveitarei dela para fazer uma tempestade ou uma zona de lazer. Ainda aguardo que as folhas me digam isso ou que eu aprenda a desvendar e a avaliar correctamente os sinais que me são dados. Ou talvez não. Tento convencer-me de que mesmo tendo razões para congelar a água e fazer bolas de neve, vou optar antes por fazer pocinhas onde procurarei o meu reflexo nos dias em que não chove lá fora. Talvez isso me ajude numa próxima.

Comi um Bollycao enquanto pensava, numa tentativa de me sentir mais seguro e calmo. Comecei por uma ponta e cada trinca era intercalada com uma outra trinca na outra ponta. Quando achei que estava com o comprimento ideal, apertei o meio para o chocolate sair. Lambuzei-me com ele e rapidamente tudo o resto desapareceu. Segurei o cromo durantes uns segundos, mas não lhe achei piada como achei aos dos Digimons aqui há uns anos. Ainda tenho um Bollycao na mochila. Talvez o coma agora antes de me deitar... afinal seria só mais uma coisa a repetir-se. Já estou habituado a rotinas, por isso…

domingo, 11 de dezembro de 2011

Neva aí?


Às vezes casa é apenas o sítio onde comemos e dormimos, onde estudamos e ficamos deitados no sofá a procurar humidade no tecto, onde ficamos a gastar o tapete do corredor enquanto andamos de um lado para outro, onde implicamos por não ser igual à casa dos nossos sonhos, onde gritamos em frente ao espelho e onde nos atrevemos a cantar. 

Às vezes casa é o lugar onde encontramos familiares que nos dizem palermices, nos fazem rir e chorar, nos mandam calar quando gritamos em frente ao espelho, que perguntam se estamos bem quando procuramos humidade nos tectos (e que depois nos pedem para limpá-los caso lhes digamos o que andamos a fazer) e que nos fazem sentir especiais por sermos nós ou especiais por sermos um nós-fingido.

Às vezes casa é o lugar rodeado por vizinhos que usam o cabelo à frente dos olhos, que ouvem as conversas que não deviam ouvir e às quais inventam palavras para substituir as que ficaram perdidas no ar, que nos dizem que estamos cada vez maiores e que reclamam connosco porque enquanto limpávamos os tectos a cantar fazíamos muito barulho

Às vezes casa é o lugar onde comemos à mesa com familiares que nos fazem rir e depois nos dão vontade de gritar em frente ao espelho, onde dormimos e onde encontramos familiares com quem partilhamos a casa dos nossos sonhos enquanto tomamos o pequeno almoço no sofá e vamos sujando o tapete. Às vezes casa é o lugar onde encontramos vizinhos incríveis que vivem a quilómetros de nós mas que partilham a varanda connosco, palavras, sonhos, sorrisos e lágrimas


Acho que casa é isto tudo. E como diria provavelmente numa composição do 2º ano,

eu gosto muito da minha casa.

Mais logo escrevo um título

A chover, a pingar,
A raposa no quintal
A fazer a comidinha
Para o dia de Natal

Chove. Lá fora, não em mim. Em mim só cai a água vinda lá de cima. Dias de chuva fazem-me pensar. Bem, reformulo a frase: dias de chuva fazem-me pensar mais do que o normal. Não sei se é comigo que tal acontece, mas o meu olhar perde-se a ver o cinzento no céu durante o dia (chego mesmo a achar que é quando o céu fica mais bonito) e sou capaz de ficar horas a contemplar o padrão da água nos vidros.

Estive a boiar nas múltiplas gotas que deslizavam pelo vidro do carro. Eram bem redondas e aparentavam serem mais finas no centro. Comecei a contá-las, mas o pára-brisas apagava tudo quando eu ainda estava a começar, o que me obrigava a retomar a contagem inúmeras vezes. Deixei de o fazer porque entretanto pus-me a ver os carros a passar. Quando chove, todos os sons que se ouvem nas estradas tornam-se mais agradáveis por causa das pingas de água que saltam de um lado para o outro para caírem em breve. E a luz que nelas incide proveniente dos faróis dilui-se e todo o chão parece brilhar.

Passeei à chuva, marcando os segundos que passavam com cada passada e a borracha dos ténis deslizava nas tampas de saneamento. Também o meu casaco parecia brilhar. Pelas mangas e pelos botões juntaram-se pequenas gotas que explodiram quando sacudi o casaco ao passar a porta. E o silêncio que reinava nas escadas foi violentamente quebrado quando o fiz.

Na minha cabeça as coisas acontecem lentamente como se tivessem medo de existir. Eu estou com medo e não sei se tenho razões para isso. Pode ser que esteja a fazer uma tempestade com as gotas que trouxe na roupa, no cabelo, nos óculos, nos ténis e na pele, mas também pode ser que não esteja. E seja qual for a resposta, não gosto da situação em que isso me deixa.


Já não chove. Pelo menos não ouço aquele som que me costuma acalmar. Ouço o relógio aqui ao lado e parece querer dizer-me que não me vai deixar dormir. Não sei se assim será. Hoje tenho o cansaço a meu favor, por isso talvez consiga silenciar os segundos...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Verão

Pavões, patos, pombas e outros pássaros que desconheço o nome, apenas conheço a forma e a cor (ou talvez nem isso. Talvez seja já tudo uma memória que existe na minha cabeça) - ouvia-os a piar algures no céu ou nas árvores. Ouvia também a água a correr pela fonte e via o orvalho nas folhas das árvores. Sobre essas sei pouco. A espécie é-me desconhecida e o mesmo posso dizer do filo, classe, ordem, família, género e sei lá mais quanto taxa. O reino conheço, bem como a rugosidade da casca. Passei-lhes a mão ao de leve enquanto caminhava à procura de um lugar para me sentar. Sentei-me num banco de pedra e à minha frente via o rio, acima de mim ouvia os pássaros a grasnar, confundindo-se com os galhos das árvores que se projectavam no ar. Era capaz de ficar ali um dia inteiro. É certo que às tantas tanto azul faria comichão aos meus olhos, verdes, e por isso tinha já colocado um livro na mochila para me entreter quando isso acontecesse. Não cheguei a esse ponto. Quando os ponteiros do relógio fizeram entre si um determinado ângulo obtuso, tive de me levantar porque a minha presença era necessária noutro lugar. Ou pelo menos convenci-me disso.

Estava mais bonita hoje, vestida
um pouco à Outono
Fiz o caminho  inverso àquele que tinha percorrido, passei pela estátua Verão (foi a única que os meus olhos identificaram) e vi que pessoas começavam a chegar e a sentar-se nos bancos da entrada (se se aventurassem, veriam que a vista é mais bonita mais no interior).Procurei uma pena de um pavão, mas o chão estava antes incrustado de folhas que o vento atirara ao chão. Talvez um dia encontre uma e a dê a alguém. Talvez à Sara. Depois levava-a a provar o "melhor bolo de chocolate do mundo". Ela gosta de chocolate e eu também. Não acho que seja o melhor do mundo, mas deixava-a ter uma opinião, nem que fosse gritar com a boca cheia de uma maneira imperceptível.

São agora 02:18. O frio entra pelas frinchas da janela e arrefecem-me os pés. Em resposta, há erecção dos pêlos para tentar manter a temperatura corporal. É um fenómeno engraçado de assistir e gosto de sentir o relevo da pele com a mão. Vou no entanto deslizar para dentro da cama, fechar os olhos e esperar que o sono me venha visitar.

domingo, 4 de dezembro de 2011


A Lua parece-me mais sensual hoje do que quando fui ver as estrelas ontem. Ontem as nuvens pareciam aconchegá-la no berço, formando um C que a abraçava. Hoje pareceu-me que eram uma camisa quase transparente que a envolvia e lhe conferia uma certa misticidade. Fiquei a beber o leite com chocolate na varanda (podia ser que ela hoje revelasse o seu outro lado) sozinho, já que há sempre uma distância, seja medida em quilómetros, milhas ou porque o tempo não permite

(Weasley, vê se passas no teste de Aparição [cuidado com as meias sobrancelhas que ficam para trás] ou se aprendes a fazer um Portus forte. Quanto aos outros, podiam ter aparecido que havia bolo e conversa para todos)

Hoje abri a caixa que vive debaixo da secretária onde guardo tudo aquilo que me é especial e que lá pode ser colocado. Adicionei-lhe o guia Don't Panic, o que encheu praticamente o espaço, mas é ali o verdadeiro lugar dele, junto daquelas coisas todas que me fazem sorrir. Como a caixa desempenha também funções de Pensatório, adicionei-lhe recordações do resto dos meus vizinhos. Eu estou por ali, em todos aqueles papéis, objectos e memórias, desde o miúdo que era há anos atrás até ao miúdo que agora sou. Cresci, claro que sim, mas ali não se medem os centímetros a mais que os meus ossos ganharam. Crescer é muito mais do que um crescimento de epífises e diáfises segundo uma proporção matemática qualquer e uma evolução da nossa personalidade. Crescer é viver e eu vivi (e existi apenas também).
Ao ver aquele conteúdo precioso vejo que algumas coisas ficaram para trás. Por vezes é necessário que isso aconteça para que novas explosões se dêem. Quando o combustível se acaba às estrelas, elas explodem, mas o nada não se formou (é certo que se podem formar buracos negros, mas até isso é alguma coisa).  Para que haja estimulação do que quer que seja, tem de haver inibição dos fenómenos antagonistas. Assim, houve quem se esbatesse ao longo dos anos que passaram na caixa, mas há novos inquilinos que são a base de tudo aquilo e que permitiram que a explosão não se desse só na caixa, mas na pessoa que agora se delicia a ver o seu interior.

Escrevo isto e estou a chorar e a rir ao mesmo tempo, o que me deixa com uma cara muito estúpida (e só por tentar imaginar essa cara choro e rio mais).

sábado, 3 de dezembro de 2011

O meu vizinho é quase cego porque usa o cabelo grande à frente dos olhos

Na rua, os artistas projectavam o lápis no ar, semicerravam os olhos e tiravam proporções dos edifícios e da ponte. Seria, talvez, mais fácil se pudessem não dar importância às proporções das construções que a vista alcançava mas antes pintar com todas as cores e tamanhos o que lhes ocupa o coração. Poderiam inventar, afinal de contas imaginar é essencial. Imaginar permite-nos ir mais longe, ainda que tudo se forme apenas na nossa cabeça. 

Na aula, também o rapaz ao meu lado desenhava em vez de tirar apontamentos. Talvez seja daqueles alunos a quem basta ouvir para assimilar aqueles palavrões ou então não estava com vontade de ouvir o professor a dizer piadas para tentar chamar a atenção. Ficava engraçado com a cara apoiada na mão esquerda apoiada no tampo da mesa enquanto usava a mão direita para fazer os traços no caderno. Tem uma cara bonita, uns olhos profundos e um cabelo que denuncia o gosto pela praia e pelo Sol. Quando se ri, admito que me perco um pouco a ver se nascem fadas. Sorrio-lhe quando ele olha para mim e em seguida desvio o olhar para o caderno. Desenha cães e claves de sol. Se calhar há algum significado naquilo ou então é apenas aquilo que sabe desenhar. Eu nunca desenho porque não o sei fazer, por isso uso o meio do caderno ou a capa para escrever coisas patetas.

Se nunca tivesse escrito, algumas coisas nunca teriam acontecido. Se nunca ninguém tivesse imaginado, nunca teria havido a comunicação transatlântica por rádio que viria revolucionar os meios de comunicação. Ainda bem que isso aconteceu! Que seria de mim?!

Se um dia pudesse, pintava a minha rua, mas não ligava muito às proporções das casas. Mudava antes as pessoas que habitam nas redondezas. Mudava os vizinhos, mudava as frases que lhes dirijo, mudava o sorriso que tenho na cara. Sorrio ao pensar nisso, sorrio ao pensar nos novos inquilinos.

Olá, o meu nome é K. É um prazer ver-vos por aqui!



Agora imagino eu e vou mais longe. To infinity and beyond dizia o Woody. Já o disse mentalmente vezes sem conta. A minha serotonina está elevada, há-que aproveitar!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

No porta-lápis

Depois de tanto escrever, poder-se-ia pensar que a mão estava quente. Não, não estava. Era, aliás, a única parte de mim que estava fria. Talvez fosse pelo contacto com a superfície metálica que também deixou a polpa do dedo dorida. Estranhei a caneta quando lhe peguei, mas era escusada aquela sensação de desconforto.
No final folheei as páginas para lhes ver as palavras azuis e vermelhas que com algum cuidado tinha escrito. Minto. Não fico a admirar a minha letra como dizem que faço. Folhei o caderno para ouvir as folhas a estalarem e para sentir o relevo que a ponta da caneta deixou. Lá fora chove e também ouço o barulho das gotas de água a baterem no vidro da janela. Gostava de estar ali a falar com vento.
Fui aquecer leite e misturei-lhe chocolate e canela. Parece que só assim o frasco da canela vai ficando mais vazio. Toda a combinação estava boa, mas fiquei baralhado. O que deveria acabar primeiro, o leite ou as bolachas? Qual dos dois o melhor para ganhar o prémio de perdurar mais tempo?

Foram as bolachas. O sabor a limão cativou-me.

As mãos aqueceram, ficaram os pés frios. Tirei o pé esquerdo da pantufa e meti-o na outra pantufa junto com o outro pé. Serão siameses até ficaram à mesma temperatura. Parece-me justo. Um transferirá energia para o outro segundo as Leis da Termodinâmica. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

E agora nada mais me cativa e fiquei irritado.

Relembrando um certo dia, quis transformar a falta de contacto que havia entre nós em palavras que voam não no bico de uma coruja das torres, mas pelo telemóvel. Fi-lo, mas não vou prolongar isso a falar do tempo, mesmo que depois me digam que estou diferente. Enquanto o sabor de limão permanecer nas papilas, regressarei ao mato.

Não gosto que digam que estou diferente. Em parte porque não concordo, em parte porque receio que isso pode ter acontecido e eu não me apercebi...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

You can't do that. You can't live trying to avoid pain...

«I'm really happy only when I'm on my own. Even being alone, it's better than sitting next to a lover and feeling lonely. It's not so easy for me to be a romantic. You start off that way, and after you've been screwed over a few times... you forget about your delusional ideas and you take what comes into your life.
I was fine until I read your fucking book. It stirred shit up, you know? It reminded me how genuinely romantic I was... How I had so much hope in things... and now it's like I don't believe in anything that relates to love. I don't feel things for people anymore. In a way, I put all my romanticism into that one night... and I was never able to feel all this again. Like, somehow this night took things away from me... and I expressed them to you, and you took them with you. It made me feel cold, like love wasn't for me. I guess I've been heartbroken too many times and then I recovered. So now, you know, from the starts, I make no effort. I know it's not gonna work out.»



«Mas misturada com aquela sua mania havia qualquer coisa mais, uma insatisfação mais profunda, uma espécie de carência que se revelava naquela sua ânsia de procurar pessoas que o escutassem. Porque atrás dessa procura ocultava-se uma outra, diferente. Cosimo não conhecia ainda o amor, e sem o amor de que se pode dizer afinal que valha qualquer experiência? De que vale ter arriscado a vida quando não se conhece ainda o verdadeiro e profundo sabor dessa mesma vida?»




Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my thoughts
Let me sing you a waltz
About this one night stand
You were, for me, that night
Everything I always dreamt of in life
But now you're gone
You are far gone
All the way to your island of rain
It was for you just a one night thing
But you were much more to me, just so you know
I don't care what they say
I know what you meant for me that day
I just want another try, I just want another night
Even if it doesn't seem quite right
You meant for me much more than anyone I've met before
One single night with you, little Jesse, is worth a thousand with anybody
I have no bitterness, my sweet
I'll never forget this one night thing
Even tomorrow in other arms, my heart will stay yours until I die
Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my blues
Let me sing you a waltz
About this lovely one night stand 


E sorrimos todos no fim. Ele perdeu o avião, mas eu não. Ele ficou pelas árvores, mas eu não. Com as mãos nos bolsos do casaco e olhos nos cordões dos ténis fiz o meu caminho no horário normal. Sozinho, a pensar em mim, neles, em pessoas. Juntaram-se palavras, imagens e sons. Depois adormeci.

As primeiras gotas

Depois de um aviso que o dia de hoje seria mais frio, ao preparar a mochila de manhã atirei lá para dentro luvas, gorro e cachecol. O guarda-chuva já andava por lá, uma vez que nunca chegou a ser retirado depois das últimas chuvas. Nada foi preciso. Ou a temperatura não desceu ou então o meu corpo realizou mais beta-oxidação e a termogenina teve um trabalho reforçado e o frio não me incomodou. Nem mesmo quando começaram a cair as gotas de chuva. Era já noite quando elas começaram a cair. Esperei-as desde manhã, quando o céu estava azulado, mas só quando regressava a casa sob as luzes dos candeeiros acesas é que as senti. Não me dei ao trabalho de abrir a mochila e retirar algo me proteger. Nem choveu assim tanto, apenas o suficiente para me animar.
Estava a subir a rua e os semáforos seguiam-se até onde os meus olhos conseguiam ver. Mudavam todos de cor ao mesmo tempo, vermelho-verde, verde-vermelho. Podia ser uma árvore de Natal, com os carros a servir de estrelas cadentes, com os seus faróis a prolongarem-se pelo espaço. Às vezes juntavam-se outras luzes com forma de homenzinhos vermelhos ou verdes. Seriam os ajudantes do Pai Natal ou algum gnomo que ficou escondido entre as folhas do pinheiro? Nunca cheguei a saber.
Agora tenho frio. Senti-lo não é bom. Era-o há uns dias, agora não. Vou calçar as luvas e o cachecol e o gorro.

sábado, 26 de novembro de 2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"Por minha parte, no meio de tantos fervores pela inteireza de tudo, sentia-me cada vez mais triste e só. Mas, por vezes, uma pessoa sente-se incompleta e, afinal, é apenas a juventude"
Italo Calvino

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Pixel | Good friends are hard to find

Eu. Tu. Nós?

Que será feito de nós?

Daremos as mãos algum dia, não no habitual cumprimento, tímido, mas num gesto em que te puxo para mim para sussurrar “amo-te” ao ouvido?

Os nossos lábios alguma vez provar-se-ão ou ficaremos a roer as unhas para que eles não cheguem a saber aquilo que perdem?

Atiraremos as t-shirts para o chão e passaremos o embaraço da primeira vez ou vamos fingir que apenas gostamos da roupa um do outro?


Que será feito de nós?

Sorriremos apaixonadamente um para o outro daqui a anos ou vamos fingir que nunca nos conhecemos?

Partilharemos o pequeno-almoço ainda em pijama e depois sairemos juntos para o trabalho ou vamos virar as costas quando nos cruzarmos no corredor das bolachas no supermercado?

Rir-nos-emos da maneira peculiar como nos conhecemos ou vamos dizer que tudo não passou de um erro?

Sim, que será feito de nós? Eu vou ser eu e tu vais ser tu, mas alguma vez chegará a haver um nós diferente daquele que já existe? Debato-me frequentemente com a pergunta, mas tenho medo de ta fazer. Bons amigos são difíceis de encontrar, talvez não deva querer mais do que isso. O medo de te poder perder é talvez maior do que a vontade de pousar a mão no teu peito para sentir o teu coração enquanto te vejo dormir a meu lado.


Talvez…




(Participei no 1º concurso de Pequenas Histórias LGBT promovido pelo sad eyes. Aqui estou eu, depois de um provável delírio mental...)

domingo, 20 de novembro de 2011

Podia nevar (...ou chover...)


Aqueci o leite e parti o pão numa fatia com a forma e tamanho que queria; só depois é que me apercebi que faltava a manteiga. Como não vi compotas, peguei na caneca e no pão e sentei-me na varanda. Tentei pintar o céu de  branco, mas nada aconteceu. Nem sequer consegui que nevasse e eu gostava muito que isso acontecesse. Algumas estrelas brilhavam no silêncio da noite e cintilavam, pelo que lhes pisquei o olho. Não tenho visto a Lua, mas sei que ela está algures lá em cima, sempre tímida, sem querer dar a revelar a sua outra metade. Estava frio e o vapor que subia da caneca confundia-se com o vapor que saia da minha boca quando expirava. Sentir frio é sentir algo, por isso terei de lhe dizer que sinto alguma coisa, que não sou assim tão insensível. Se para além do frio sinto mais alguma coisa? Às vezes, não sentir é sentir alguma coisa, mas outras é já mais complicado dizer. Quando sentimos alguma coisa, dá jeito certificar-mo-nos que o sentimento existe mesmo e que não passa de uma ilusão gerada apenas nalguma parte do nosso cérebro.
Se só conhecesse os meus botões de pipos, talvez soubesse exactamente aquilo que sinto e que sou capaz de sentir. Mas conheço outros botões e outras pessoas e às vezes as coisas misturam-se


My Worried Shoes

O meu cérebro está cansado (acho que não tem falta de glucose, tendo em conta que comi chocolate há poucos dias) e por isso algumas sinapses são mais inibitórias do que excitatórias ou nem sequer conseguem passar o limiar de excitabilidade. Falar e mexer tornam-se processos complicados ou então eu é que sou complicado. Não sei. Hoje torna-se complicado reflectir nisso. Amanhã talvez pense...

Ontem entrei na banheira a cogitar num pensamento que tem andado a nadar pelo meu sangue, plasma e líquido cefalorraquidiano nos últimos dias. Senti a água quente na pele, o que aumentou a agitação do pensamento. Todo ele se avivou com o calor e tomou conta dos córtex todos. Todas as vias necessárias para que eu pegasse no champô e no gel de banho foram inibidas. Só quando saí da banheira é que percebi que só me tinha molhado... O pensamento não se molhou nem foi lavado. Continua aqui. Mais tarde pensarei nele.

Molhar-me também o posso fazer quando chove, mas a minha disponibilidade para um passeio à chuva não tem coincidido com os momentos em que se reúnem as condições atmosféricas para tal acontecimento. No entanto, torna-se engraçado fazer uma viagem de Metro a escavar todos os tesouros que o Sol revela no asfalto. São na verdade pequenos minerais de quartzo que brilham, mas era capaz de jurar que vi gnomos a picarem o chão para se apoderarem dos meus tesouros.

Olho para os meus ténis preferidos e penso em tudo aquilo que fiz e que lhes reduziu a esperança média de vida. Com  o estado lastimável da minha cabeça, custou-me perceber que estava a tentar calçar o ténis direito no pé esquerdo. Ao que eu cheguei... Eles continuam bons para mim, embora a mãe diga que deixam entrar o frio e que me molham os pés. Eu gosto deles. Quem mais gostará deles quando eu cá não estiver?

Às vezes sinto necessidade de me apegar às coisas que já tenho. É assim que me defendo de qualquer estímulo que possa abalar-me. Isso acontece com os ténis. E com pessoas...


Talvez o problema não seja apenas do cansaço. Se calhar saturei o cérebro com glucose...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Tudo faz barulho. Até a chuva

Ao caminhar para a estação vejo as pessoas a correrem para se abrigarem da chuva. Os carros são implacáveis e não abrandam quando passam nas passadeiras e a água salta por tudo quanto é lado para depois voltar a cair. Olhando para as poças que se acumulam no pavimento não vejo o meu reflexo, vejo antes as luzes dos painéis luminosos dos edifícios circundantes. Continuo a andar e chego lá dentro. Desço pelas escadas normais, vazias como sempre, para depois subir do outro lado. Vejo caras conhecidas, dou o típico “olá” e vou para um canto esperar que chegue o veículo. Foi ali que conheci a Sara. Não a voltei a ver desde então e tenho-a procurado sempre que lá estou. Ela já deve ter ido várias vezes à Terra do Nunca e talvez já não se lembre de mim. O Peter também se esquecia da Wendy…

As viagens de metro tornam-se bastante agradáveis assim que o céu se torna negro e as nuvens aliviam as mágoas. Encosto a cabeça ao vidro e tento perscrutar a noite. No vidro vão várias gotas de água que deslizam desde lá de cima até cá baixo e olhando para os candeeiros de lá de fora vejo pequenos risquinhos que vão desaparecendo para darem lugar aos primos. Sinto por vezes o sono a querer apoderar-se. A semana tem sido cansativa. Tenho o caderno aberto entre as pernas e os olhos lêem sempre o mesmo. Naquele estado sonolento as coisas parecem fazer sentido e eu dou um salto e penso “isto é óbvio”, mas quando tento recordar-me do pensamento que tinha estado há momentos na minha cabeça tudo parece uma mancha. E é claro que nada daquilo fazia sentido porque devia era estar a misturar duas realidades, a que fica posterior às pálpebras e a que lhe fica imediatamente adiante.

Quando a gravação anuncia a última paragem, há já um rapaz que está pé, com o casaco vestido, o carapuço sobre a cabeça com os cordões completamente puxados. Fica bastante engraçado com a cabeça praticamente tapada. Há também o senhor que ainda dorme encostado à janela e que eu vou acordar antes de sair.

Caminho em direcção a casa. Os ténis embatem no chão e ouve-se o repinchar da água. Ouço também os pensamentos na cabeça com os quais me debato. Alguns guardo em gavetas, outros exigem que reflicta neles mais alguns momentos. Pensar pode evitar erros. Pensar pode conduzir a erros. Mas não será essa uma maneira de tirar um certo peso ao erro? Penso que voltei a ser Harry ou Dobby, mas por algum motivo acho que as pessoas ficam demasiado ligadas e eu demasiado afeiçoado de modo que depois ficamos todos com a mente toldada. Urgh, odeio esta sensação.

Já perto de casa, cai-me uma gota na cara. Apenas uma que se dividiu em muitas assim que passou por entre a lente dos óculos e o olho para embater na bochecha. Sorri.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Growing then giving up

Chove do lado de lá da janela. O vento uiva e leva tudo pelo ar. Não me leva a mim porque estou no quarto iluminado pelo candeeiro. A secretária está demasiado arrumada, ou pelo menos mais do que o normal, e eu tenho frio. Tirei há pouco o casaco e não me apetece vesti-lo. Enquanto sentir tremores, sei que sinto alguma coisa. Ela disse que eu estava incapacitado de falar e sentir. Estarei? Não sei, o espelho não me revela isso.

Os dias têm passado a uma velocidade rapidamente lenta. Lembro-me do Agosto, do Setembro, do Outubro (que ainda me está tão presente porque acho que todos os meses deveriam ser Outubro) e agora olho para o canto inferior direito do monitor e cumprimento Novembro [Olá Novembro]. E no entanto, que mudou? Tudo e nada. Big bangs e big crunchs. Buracos negros e super novas. E eu, terei mudado? É certo que a cada dia que passa as minhas células ficam mais velhas e eventualmente perfazem anos exactos de existência. Mas tirando todos os processos biológicos que vão desde a mitose, ao crescimento e à apoptose, passando por muitos outros, algo mudou? Penso que não. Continuo eu, apenas mais envelhecido um pouco.

Haverá algo mais que nos faça crescer sem ser a sucessão dos segundos? Pessoas fazem-nos crescer? Eu diria que sim. Se tenho crescido assim? Não sei não, só espero é não fazer ninguém mingar.


“Que grande parvalhão que me saíste, é assim que se trata as pessoas?”


Peço desculpa, eu cresci com pessoas, é verdade! Cresci bastante. Não se reflecte em centímetros (vá, não quero crescer mais em altura, estou bem assim), mas cresci, embora saiba que ainda tenho uma criança dentro de mim que gosta de saltar nas poças de água. O crescimento é positivo, mas assim como nos ossos temos deposição e reabsorção simultâneas de cálcio, também já me deitaram abaixo, também já verguei o olhar. Sim, já o fiz, tenho ainda talvez algumas sequelas, mas isso também me ajudou a crescer ou eu pelo menos acredito que sim. Há, contudo, quem se queixe desse meu crescimento. Talvez me tenha tornado ligeiramente insuportável de vez em quando, mas de momento nada farei no sentido de alterar isso. (Também os acho ligeiramente insuportáveis, por isso há um equilíbrio dos dois lados).

Tudo acontece por uma razão, até a morte,

You do not die from being born, nor from having lived, nor from old age. You die from something... There is no such thing as a natural death: Nothing that happens to a man is ever natural, since his presence calls the world into question. All men must die: but for every man his death is an accident and, even if he knows it and consents to it, an unjustifiable violation

por isso terei de pedir novamente desculpa por um certo comentário que fiz.

Apaixonem-se. Amem. Isso acontecerá por algum motivo. A felicidade passa por fazer os outros felizes. Ao amarem, haverá felicidade dos dois lados. E dizem que também faz crescer.

Eu vou comer agora um Suissinho para ver se cresço também.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Desidratação

Às vezes não consigo controlar a água que escorre pelos meus olhos. Assim que permito que uma gota caia, vem mais uma a seguir e depois outra e mais outra. Um pouco como a chuva. Às tantas podia construir uma piscina onde os bonequinhos da Lego podiam passar uma tarde agradável de Verão. Mas o Verão já era, o Outono chegou. A piscina tornar-se-ia uma verdadeira catástrofe natural para os homenzinhos amarelos. Penso neles [será?] e tento conter a perda de água.

Enquanto cortava a cebola, pingava líquido da face. Era inevitável, uma vez que só me ensinaram o truque para isso não acontecer depois de tudo à minha frente ser névoa. Não conseguia ver nada por causa dos olhos húmidos e inchados, mas respondia a cada gota que caía com um novo corte, mais violento que o anterior, no resto da planta que ainda tinha na mão. Talvez tenha aproveitado para chorar por algo maior que o jantar que preparava, talvez não. Ardiam-me os olhos, a pele estava molhada e quando secou, fiquei com comichão.

E agora, que resta? O jantar foi devorado e o vermelhão dos olhos passou. Jaz o livro de estudo aberto na página 226. Olhei agora com mais atenção para o seu conteúdo e apercebi-me que já a li e que a tenho de virar.

Já o fiz.

Mas e agora? Agora resta-me ler e tentar assimilar o máximo que conseguir. Saber o número da página já conta como alguma coisa? “If you can measure that of which you speak, and can express it by a number, you know something of your subject, but if you cannot measure it, your knowledge is meagre and unsatisfactory” (Lord Kelvin). Bem, talvez seja. Senão for, amarrar-me-ei a essa ideia caso me sinta mal com o rendimento do estudo.

Os livros aturam-me e eu aturo-os a eles. Já passei a mão pela lombada e senti-lhes o relevo, peguei-os com uma mão e avaliei-lhe o peso, abri-os numa página à sorte e li as palavras formadas por conjuntos de letras e já lhes ouvi o barulho quando o vento sopra neles. Eu também sopro para eles e sussurro-lhes coisas. Acho que às vezes nos conseguimos entender, eu e eles. E se estes à minha frente não me satisfazerem, há sempre outros.

Livros não são tão complicados como as pessoas. Complicados são as pessoas que os escrevem. E as que os lêem.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Encontros

Vi no outro dia um rapaz que andou comigo do 5º ao 9º ano. Foi ele o meu primeiro verdadeiro amigo e o melhor até ao 7º ano. Eramos parceiros de mesa e lembro-me de passarmos as aulas na conversa, dos intervalos em que íamos comprar chocolates e depois ficávamos a jogar à bola atrás do pavilhão, das inúmeras mensagens que trocávamos quando estávamos em casa sozinhos. Lembro-me até de lhe estar a dizer as respostas do teste de Inglês e a professora nos apanhar. Eu prontamente neguei que o deixava copiar e o idiota confessou o crime. Fiquei chateado com ele, mas passou depressa. Coisas de putos evidentemente, mas naquela altura eu gostava mesmo muito daquele contacto.

A partir do 8º ano começamos a distanciar-nos. Eu apercebi-me disso e tentei que as coisas não seguissem aquele rumo, mas não via o mesmo esforço da parte dele. Talvez ele nunca tivesse visto a nossa amizade como algo bom. Talvez fossemos apenas uns pequenos seres humanos que não tinham noção das coisas. Talvez.
O tempo tratou de tudo. Distanciamo-nos cada vez mais e eu não tardei a ser a pessoa que fazia os resumos para os testes por quem toda a gente tirava fotocópias. Naquele período de tempo não tive mais nenhum verdadeiro amigo, apenas um grupo pequeno de pessoas com quem me dava bem.

No aniversário dele no último ano em que fomos colegas de turma, já eu tinha consciência que eramos apenas “colegas de turma e que por isso é melhor convidar para a festa de aniversário” e não amigos. Era no final do ano lectivo e em breve seguiríamos para escolas diferentes. Já não me recordo porquê, mas resolvi escrever-lhe uma carta que lhe ofereci em conjunto com o resto da prenda. Não me lembro de tudo o que escrevi, mas sei que lhe disse que ele tinha sido o meu melhor amigo e que, infelizmente, tinha vindo a perder ao longo dos anos mas que jamais esqueceria, “porque as coisas boas da vida nunca se esquecem” [acho que foi mesmo isto que eu escrevi]. Ele abriu-a durante o jantar, leu, agradeceu, ficou indiferente, virou a cara e continuou a conversa com os rapazes ao lado. Não sei se a leu mesmo ou se apenas deu uma vista de olhos. Não sei se mais tarde releu ou pôs simplesmente ao lixo. Sei que naquele dia não liguei, mas no Sábado passado, quando o vi depois de mais de 5 anos, senti uma certa tristeza.

Lembrei-me de várias coisas que passamos juntos e pensei no que nunca chegamos a fazer. Talvez nunca estivessem destinadas a acontecer, mas ainda assim. Talvez não tenha feito o suficiente, talvez o devesse ter cumprimentado quando o vi a uns metros. Mas não, não me mexi e ele não me viu, ou pelo menos também não veio ter comigo.

Nas poucas vezes que passei por ele na rua quando já andávamos no Secundário apenas nos cumprimentamos com o banal “Então, tudo bem?”. Já só eramos conhecidos. Agora somos o equivalente aos conhecidos somente pelo Facebook.


Vieram outros amigos, partiram outros. Eu continuo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

qualquer coisa

Não sei que dia é hoje. Até podia fazer as contas baseando-me nas refeições que fiz, mas a verdade é que nem sei o que comi ao almoço (minto, lembrei-me agora que foi quiche de frango). Contando as pessoas sentadas no anfiteatro da faculdade, poderia fazer uma aproximação e dizer que estamos perto de frequências porque mesmo as caras habituais já começam a desaparecer da sala. Penso no último feriado que houve e nos aniversários recentes, faço contas, umas mentalmente mas depois passo para os dedos que o cansaço faz-me escrever aniversários com um h no início da palavra, e chego à conclusão que hoje é dia 28. 

Nothing unusual, nothing strange. Close to nothing at all.
Os dias parecem-me todos iguais, a escuridão da noite sempre a mesma e embora tenham descoberto uma estrela rodeada por gelo, não gostei lá muito da imagem que vi e continuo a gostar mais do planeta com duas estrelas como o Sol. Nada se passa de novo, sempre a mesma monotonia, sempre as mesmas horas dadas pelos ponteiros que se arrastam sempre à mesma velocidade (e podem dizer-me que a hora já muda este fim-de-semana, mas tudo vai continuar na mesma).

The same old scenario, the same old rain.
O Outono confundiu-me um bocado. Pensei que tinha chegado há uma semana, mas parece que ainda não trouxe a bagagem toda de uma vez e ainda está a fazer as mudanças. No entanto não deixei de gostar daquele dia de chuva. Quando saí de casa de manhã cedo, a chuva caía nos tejadilhos dos carros e fazia aquele barulho que eu tanto gosto. Abri o guarda-chuva e fui caminhando, ouvindo a água a chapinhar debaixo dos ténis. No chão, as novas gotas que caíam desenhavam círculos nas poças que reflectiam as luzes dos semáforos e dos carros que circulavam. Vermelho, verde e laranja. Parecia o Natal e eu gosto do Natal. No Metro, colei a palma da mão no vidro e fiz assim parte da viagem. O céu cinzento abria-se de quando a quando e deixava-se atravessar por alguns raios de luz, que faziam brilhar os campos verdejantes salpicados de moléculas de água. Foi bonito, mas já parou. (espero pela próxima descarga de água. Embora parte da água que precipitou já tenha evaporado e vá cair novamente, eu gosto dela)

And there’s no explosions here.
Não, não há. Tirando os estragos que a chuva fez, não há explosões. Mesmo dentro de mim não sinto grande coisa. Se puser a mão no peito, sinto o coração a bater. Se for na rua, vejo a minha sombra projectada no chão (e eu gosto mesmo é quando a sombra está esticada e fico com braços tão grandes que basta um para me abraçar completamente).

Can’t stand the state that I’m in, sometimes it feels like the walls closing in
Espero que se se fecharem, que pelo menos não caiam como deu nos noticiários edifícios a cair. Com elas fechadas, não hei-de ter grande visão das coisas em meu redor, mas se se fecha, há-de se abrir, mais cedo ou mais tarde.

Try and bury my troubles away, drown my sorrows the same way. It seems no matter how hard I try, it feels like there’s something just missing inside
Havemos de dizer que falta sempre alguma coisa. Falta-me vontade de estudar. Faltam bolachas de chocolate no armário. Faltam os lençóis na cama. Gostava de ser capaz de deixar problemas [será que são mesmo problemas ou apenas eu é que me faço de coitado?] de lado, mas não. Por isso daqui a pouco vou ter uma conversa com eles e vamos fazer um acordo onde eu me declaro rei.


Can't be something you are not
Life is not a looking glass. 

Let's take a better look
beyond a story book
and learn our souls are all we own
before we turn to stone.
Let's go to sleep with clearer heads
and hearts too big to fit out beds.
And maybe we won't feel so alone
before we turn to stone.

And if you wait for someone else's hand
you will surely fall down.

Oh dear out here
Everybody stumbles on fear
Who cares if we're scared
Everyone is on their own

All that I know is I'm breathing.
All I can do is keep breathing.

Progress, changing 
Growing then giving up 
Somehow we're never quite prepared 
But I understand it

domingo, 23 de outubro de 2011

Take my hand, take my whole life too

Tenho procurado a Sara, mas não a voltei a ver. Pergunto-me se ela ainda se lembra de mim, se ainda sabe o meu nome e a minha idade. Talvez ela tenha uma ideia sobre mim, mas debate-se com o meu nome, tal como se debateu com o nome da Kikinha (será que a Kikinha já mudou de nome?). Sem ela, a estação parece cheia de gente desinteressante. Espero juntamente com uma dezena de pessoas, o Metro é o elo que nos liga umas às outras. Nada sei sobre elas e elas nada sabem sobre mim, nem mesmo que falei com uma menina muito encantadora há uns dias.
Olho para elas e vejo sorrisos, alguns bonitos e outros que me parecem falsos, vejo preocupações estampadas, indiferença, simplicidade e presunção. Ninguém chora, mas há-de haver quem abra as represas interiormente. A senhora ao meu lado lê um livro e à minha frente uma outra senhora segura uma saca de uma padaria. De vez em quando chega-me um cheiro a bolos quentinhos. Ao lado dessa senhora estão uma rapariga e um rapaz. São namorados e beijam-se. Não sou o único a olhar para eles. Esse par devia pensar nos solitários da carruagem pois o seu acto activa sinapses e forma miragens algures no sistema nervoso. 
Talvez eu os inveje e seja por isso que digo tal coisa. Pois, quem sabe, será que o sabor do beijo é diferente do do chocolate que seguro numa mão? A dúvida se o sabor é a morango ou framboesa ou côco ou menta ou simplesmente sem sabor é demasiado... intrigante.
Vai um rapaz no Metro com um ar sério. Não carrancudo, apenas cansado e talvez pensativo. Não lhe consigo ver a cor dos olhos porque usa óculos. (Esses olhos brilham, mas brilham por si mesmos ou é só a iluminação da carruagem?). De vez em quando espreita pela janela e parece inalar o cheiro dos pinheiros e das bétulas e das outras árvores que não sabe o nome. Talvez no interior dele estejam a ocorrer explosões de cores, sons, cheiros e ideias. Talvez lhe falte uma tela para registar isso e por isso recorre a um bloco onde escreve. Talvez hoje seja tudo à base do branco e preto. Ele nem sempre consegue manter-se optimista nem resistir ao peso das ideias que o fazem ter birras de criança.
Agora seria uma boa altura para chover. O rapaz gosta de ver as gotas de água a escorrerem pelo vidro. Diz ele que são como pessoas. Gosta também de ouvir o barulho da chuva a bater nos objectos; se ele estiver concentrado, consegue ouvir uma melodia escondida por entre as semínimas que o vento canta. Mas ele gosta mesmo é de sentir a água na cara. A água pode misturar-se e camuflar as lágrimas da cara, mas pode também ser simplesmente um contacto agradável na cara. Às vezes ele abraça-se sozinho, outras deixa-se ser abraçado pela água que os deuses lhe enviam.
Pois...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sara

Eu gostava de me sentar.

Desviei o olhar do bloco que tinha entre as pernas. À minha frente estava uma menina, de cabelos encaracolados e pretos, pele branca, boneca na mão e um sorriso nos lábios. Não precisou de dizer uma segunda vez: juntei as minhas coisas e sentei-me no chão. Ela prontamente se sentou no meu lugar e a mãe dela agradeceu-me. Tentei continuar a escrever, mas faltavam-me palavras.

A minha boneca vai passear - trauteou a menina. Eu olhei para ela e ela para mim olhou. Sabes como se chama a minha boneca?

Não, porque tu não me disseste.

Chama-se... Kikita. Ainda demorou uns segundos a dizer o nome. Na cabeça dela deviam estar a passar os vários nomes que a boneca foi adquirindo ao longo do tempo.

Kikinha, corrigiu a mãe.

Kikinha. E sabes como é que eu me chamo? Chamo-me Sara. E tu?

Chamo-me K.

Eu tenho dois K. Um é o K. dos pequeninos e o outro é o K. dos grandes. Eu também sou dos grandes, sabias?

Eu também já fui dos grandes quando andava no infantário.

Em que infantário andaste? Eu ando no Infantário do Sol.

Não sei onde fica o teu infantário.

Não sabes? No Porto há o Infantário do Sol. É porque eu acho que o Porto também já usa amarelo e preto.

Azuldisse a mãe. Nesta altura eu estava muito confuso com a conversa porque não estava a perceber se ela se estava a referir à cor da bata do infantário se outra coisa qualquer.

E agora o Porto está em primeiro e o Benfica em segundo. Depois está o Sporting. Aí comecei a perceber que afinal era futebol.

Estou a ver que percebes de futebol. Eu não gosto de futebol.

Não é que eu também goste mesmo muito, mas sei.

Ah. Muito bem. Olha, eu não tenho uma boneca como tu, mas tenho este Mickey aqui. Gosto do Mickey.

E sabes como se chama a namorado do Mickey?

Sei, é a Minnie.

Como é que sabes?

Porque eu conheço as histórias do Mickey. E sabes como é que se chama a namorada do Pato Donald?

Sei. É a Margarida. Como é que sabes?

Porque também conheço o Pato Donald.

Ela levantou-se e começou a contar-me que tinha um jogo do Pato Donald e que ele fazia isto e aquilo, que caía ao chão e que ela o apanhava e tinha de arrumar a casa e fazer as coisas todas e blá blá blá.

Blá blá blá
Blá blá blá
repetimos simultaneamente eu e a mãe dela.

Olha, já foste ao castelo da Disney?

Não.

Tens de ir. Ela já estava bastante entusiasmada a falar comigo. Tens de ir porque tem lá princesas e o Peter Pan. Conheces o Peter Pan?

Conheço.

Como é que conheces? Penso que ela não acreditava que eu conhecia mesmo aquelas personagens

Porque já li o livro e vi o filme que tu provavelmente também viste.

Sabes, quando for grande quero ser cantora.

E já treinas muito?

Eu sei muitas músicas. Mas só quando souber as músicas todas do mundo é que posso ser cantora. E para isso preciso de ser grande para saber as músicas todas. As crianças são deveras engraçadas.

Depois ela testou os meus conhecimentos de inglês. Eu respondia, mas ela dizia sempre que eu estava errado. Eu perguntava-lhe então como era e ela ficava a pensar.... e depois perguntava-me como é que se dizia outra palavra em inglês. Aprendi que porta é door e mesa table. Pelos vistos música não é music (eu jurava que era, mas ela disse que não).

Toma lá um chocolate para ver se deixas o jovem em paz.

Kinder Kinder Kinder!

És muito gulosa.

..... (não percebi o que ela disse porque falou com a boca cheia de barrita Kinder)

Levanta-te que está aí o Metro.

Olha, amanhã vais estar aqui?

Não, porque tenho aulas.

E à noite, quando eu estiver a ir embora?

Não sei.

(a mãe dela fez-me sinal para responder negativamente porque caso contrário ela não se calava)

Assim amanhã eu podia falar mais contigo e dizer-te quantos anos tenho. Sabes quantos anos tenho? Tenho cinco.

Eu tenho 19. 

19 é muito. Nem sei contar até isso (pelo menos foi isso que percebi)

Diz adeus ao jovem.

K.!

K.?

Sim, é o meu nome. Ela perguntou-me.

(cara de admirada da mãe)

Diz ao K. que foi um prazer conhecê-lo.

Xau K.!

Riu-se, seguiu a mãe para dentro da carruagem e começou a acenar-me. Eu acenei também e depois ela pegou no braço da Kikinha que começou também a acenar. Enquanto isso, a Sara sorria muito.


E eu fiquei a sorrir também e a pensar se a Sara se vai lembrar de mim daqui a uns anos. Eu vou. E quando estiver na estação àquela hora vou ver se encontro a Sara e a Kikinha. Elas foram as primeiras pessoas que conheci no Metro depois de tantas viagens que já lá fiz. Foram só 15 minutos que estive com elas as duas, mas esse tempo e a simpatia delas fizeram com que o eu ter perdido o meu Metro tivesse valido a pena.
Conhecer pessoas é uma experiência fantástica, mas às vezes não há tempo para conhecermos tudo aquilo que gostaríamos ou que devido à inibição provocada pela falta de competências sociais não abordamos. Eu gostava de ser como a Sara-boa faladora-simpática-e-despachadinha, mas não sou. (Não sou muitas coisas, mas sou muitas outras). Hei-de no entanto lembrar-me sempre dela e tentar preservar ao máximo a recordação que teci dela (e da Kikinha) e tentar ser mais parecido com ela.

Não sei quando a voltarei a ver.