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domingo, 28 de outubro de 2012

da tuberculose à diabetes


A avó torcia sempre o nariz e dizia que já nada era como dantes quando via os jovens extasiados a dançar. Dizia ela que aquilo era coisa do diabo e uma degradação de valores morais. E achou que o termos ficado tuberculosos era castigo divino (mas é claro que uns dias depois já rezava por todos os cantos que tínhamos aprendido a lição e que não valia a pena continuarmos a ser castigados). 

Fomos mandados para o campo para respirar ar saudável e quando a tuberculose passou voltamos a dançar e a cantar. A avó havia de resmungar novamente se nos visse de um lado para o outro e pior seria se percebesse que era assim que trocávamos bilhetinhos apaixonados, mas nós éramos jovens e o sangue fervia dentro de nós, mesmo sem a febre e o calor do sol. Também ela tivera o seu tempo dos amores, por isso no fundo ela havia de nos compreender. 

The way you dance and hold me tight
The way you kiss and say goodnight
Rave on it's a crazy feeling and
I know it's got me reeling
When you say I love you, rave on

Well! you're gonna miss me
Early in the morning, one of these days 

The little things you say and do
Make me want to be with you
Rave on it's a crazy feeling and
I know it's got me reeling
When you say I love you, rave on

It`s so easy to fall in love.
People tell me love`s for fools.
So, here I go, breaking all the rules. 

Take your time and take mine too
I have time to spend
take your time - go with me through
times 'til all time's end

Hey hey look at me and tell me
What's gonna happen to you
When you've spoken sweet words of love to me
And i want to marry you 

Moondreams can be a sensation
Moondreams may be fascination
Love can be our destination
You and I can share this dream




E na altura das vindimas nós éramos peritos em esvaziar os baldes.  Comíamos tantas uvas que as pessoas, vendo-nos sempre tão contentes, começaram a tecer teorias de que as uvas fermentavam em nós e que nós estávamos constantemente bêbados. E nós ríamos e comíamos mais uvas.

Agora estamos diabéticos.

domingo, 30 de setembro de 2012

ao telefone

Ontem experimentei ligar para mim mesmo. Ao fazê-lo surgiram-me três hipóteses no ecrã: ignorar, desligar+atender e em espera+atender. Achei que era muito ridículo ignorar-me, pelo que exclui a primeira hipótese. Desligar e atender ia deixar-me a falar sozinho, o que não tinha lógica. Escolhi então a terceira opção mas a chamada desligou-se. Ainda assim falei: "Boa noite! Quem fala? Está? Está?! Está aí alguém?!". Depois ri-me sozinho e continuei a andar.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

atestado médico

«Alguns empregados e psicólogos acreditam que estar longe da rede social pode ser um sinal de perigo»

«O ´Facebook` tornou-se numa parte tão importante da vida das pessoas que, hoje em dia, há quem acredite que não ter conta na rede social pode significar que algo está mal. A revista alemã ´Der Taggspiegel` chegou mesmo a salientar que o norueguês Anders Breivik e o atirador James Holmes tinham uma coisa em comum: nenhum deles tinha conta no ´Facebook`.

Segundo a revista, Holmes, suspeito da morte de 12 pessoas, frequentava apenas o site de encontros ´Adult Friend Finder`. Já Breivik usava o ´MySpace`. Nenhum deles tinha conta na maior rede social do mundo. Em entrevista ao ´Der Taggspiegel`, o psicólogo Christopher Moeller afirmou que ter conta no ´Facebook` é sinal de que se é saudável. 

O ´Slashdot` resumiu a notícia do ´Der Taggspiegel`, e declarou mesmo que “não ter conta no ´Facebook` pode ser o primeiro sinal de que você é um assassino em série.” 

Numa perspectiva menos agressiva, a ´Forbes.com` concluiu que os departamentos de recursos humanos norte-americanos consideram o ´Facebook` essencial na admissão de novos empregados. Se o candidato não está inserido na rede, isso pode significar que tem algo a esconder.


Num artigo de opinião, o jornalista Farhad Manjoo do ´Slate.com` aconselhou os jovens a não se envolverem com ninguém que não tenha conta no ´Facebook`. “Se tu tens uma certa idade, conheceste alguém com quem estás prestes a ir para a cama, e essa pessoa não tem página no ´Facebook`, tu podes estar a receber um nome falso. Pode ser uma espécie de alerta”, afirmou.»
(tirado daqui)




Não tenho Facebook. Não é preciso dizer mais nada. bang!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

eles

Não sei se também vos acontece, mas tenho dado por mim a falar para o espelho.

Olá. Estás bom?Sim, estou. E tu?
Também. Olha, tens coragem de fazer isto?Tenho.
Não, não tens.Tenho sim. Vai uma aposta?

E aposto e faço as coisas. Poder-se-ia pensar que sou corajoso, mas estou mais perto é do idiota. Faço apostas absurdas que nunca deveriam passar de uma ideia. E depois como é que explico às pessoas?
Era uma aposta.
Com quem?.... Com eles.

E o eles é vago e nunca ninguém chega a saber quem são. Mas às vezes eu começo a achar que eles existiam mesmo. Essa é a hora da estalada a mim mesmo.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Os meus olhos gostam de comida.


No supermercado, a caminho do corredor das bolachas, os meus olhos viram uma coisa colorida que tinha bom aspecto. Obrigaram as pernas a recuar para ver o que era. Comida para cão.
Há alturas em que o meu núcleo da fome no hipotálamo recebe visitas de seres estranhos.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

nitro

Quando a mãe ameaçava que nos lavaria a boca com o sabonete se não nos portássemos bem nós temíamos seriamente pela nossa vida.

Será que a mãe não via que o sabonete era de glicerina?

Se se juntasse nitro, o que quer que aquilo fosse (e a mãe tinha de tudo no armário da cozinha), fazia-se uma bomba. A mãe podia criar uma bomba! 

Mas ela não nos faria isso, pois não? Mas o avô também não nos mentiria, pois não?

Quando ele regressou do hospital contou-nos que os homens da bata branca lhe tinham posto nitroglicerina no sangue e que aquilo era o componente das caixas verdes do jogo do Crash Bandicoot, que nós tínhamos aprendido à custa de muitos game over que aquilo matava. Nem mesmo a máscara Aku Aku nos salvava! O avô ainda disse que por causa disso já não podia brincar tanto connosco porque podia explodir. Naquele momento sustivemos a respiração e abandonámos o quarto em bicos de pé, não fosse a oscilação do chão desencadear uma tragédia. 

E a partir de então, sempre que víamos a mãe a ficar zangada com algumas brincadeiras, tratávamos logo de nos acalmar. E sempre que podíamos, não nos lavávamos com aquele sabonete. Mais valia viver sem cheiro a morango do que espalhar o nosso corpo cheiroso pelas paredes do quarto-de-banho.


E também a partir dessa altura comecei a não gostar de médicos. Gente difícil.


quinta-feira, 31 de maio de 2012

neurónios queimados

Se dantes acreditava que se podia comer wi-fi no ar e assim não se passar fome, agora é também possível beber chá e já não se morre à sede. Basta circular pelo jardins do Palácio de Cristal que há chá de tília de graça lá no fundo. Mas aviso já que está bastante quente, não é ice tea.

Está imenso calor e eu fico letárgico. Mas os meus electrões não deviam estar excitados com o aumento da entropia provocado pela entropia? Já não sei. Já nada sei.

domingo, 22 de abril de 2012

Dinosaur


Às vezes sou atacado por qualquer vírus que me deixa num estado completamente aparvalhado. Não sei o que se passa comigo. Tenho de estudar, não ver vídeos e rir-me sozinho! :D

sábado, 10 de março de 2012

Insolação

Em dias como os de hoje, em que posso usar os meus ténis preferidos sem que me digam que vou ter frio com eles, apetece-me atravessar a casa até à varanda a dançar charleston, saltar em mortal seguido de umas quantas piruetas para mergulhar numa piscina. Sou capaz de imaginar um júri a avaliar o meu mergulho para a piscina em 10.0 e um sundae de morango à minha espera no balneário.
O que acontece na realidade é que me ponho a tentar dançar algo parecido com charleston no quarto, de porta fechada para ninguém saber que não tenho jeito ou chamar-me louco, entre os intervalos do estudo porque não há piscina nenhuma nem sequer um gelado no congelador que me faça ir até à cozinha.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Guerras

Lembras-te do dia em que acordámos com o Buddy Holly a cantar Everyday na rádio?

Não foi preciso contares até três para combatermos a preguiça porque levaste logo com a almofada na cara e como eu não queria esperar pela resposta já tinha saído do quarto quando te levantaste. O cão assustou-se com as nossas gargalhadas e veio até ao quarto espreitar e ladrar como que a dizer “mas vocês não crescem?!”, mas eu encurralei-o, e ele a mim, no corredor. Enquanto o meu cérebro pensava no que deveria fazer, já tu vinhas atrás de mim para te vingares. Por engano entrei no quarto-de-banho e para me proteger dos teus ataques peguei no chuveiro. Estava completamente louco para ligar a água fria e apontá-la para ti! Havias de ver a tua cara quando levaste com um jacto na cara! Aquilo até as remelas te limpou! Esticaste o braço e fizeste com que eu me molhasse um pouco, porque já eu passava por ti e entrava na cozinha. 

Não me parecia que íamos tomar um pequeno-almoço relaxadamente. Perseguias-me à volta da mesa e, enquanto isso, íamos preparando o pão. As migalhas espalhavam-se por todo o lado e deixámos cair compota. Pedi-te que me passasses uma tosta e tu deste-lhe uma trinca antes de ma passares. Que truque baixo! Quando me pediste a compota fiz questão de comer os pedaços inteiros de morango. Olho por olho, dente por dente. Foi um pequeno-almoço relâmpago, interrompido por muita tosse porque nos engasgámos frequentemente a comer. As regras do jogo obrigam-nos a comer, andar, sorrir e fazer cara má ao mesmo tempo. Foi complicado quando começámos a jogar. Lembras-te daquela vez que eu tropecei na cadeira e puxei a toalha da mesa e parti tudo? Ou quando tu te riste enquanto bebias o leite e sujaste tudo? Sorrio ao pensar nisso.

Depois de não sei quantas voltas pela cozinha, saí disparado pelo corredor contigo no meu encalço. Cheguei à sala, saltei por cima dos sofás (lembro-me de te ouvir dizer: “o quê, agora andas a treinar para os Jogos Olímpicos?”), abri a janela e fui para o quintal. Pensavas que me ias ganhar porque fechando a janela eu não tinha por onde escapar, mas enganaste-te. E eu também me enganei se pensava que era o justo vencedor por ter conseguido atravessar a casa de uma ponta à outra sem encontrar resistência a sério. Os aspersores da rega ligaram-se e fomos os dois atingidos. Rimo-nos e o cão ladrava. Ele tentava escapar da água, mas nós, completamente encharcados, decidimos aproveitar.

Deitámo-nos na relva e rebolámos. Quando estávamos zonzos ficámos a ver a difracção da luz nas gotas de água através da qual se formavam inúmeros arco-íris. Dizem que na ponta do arco-íris há um tesouro, mas o meu tesouro estava ao meu lado e assim continuou mesmo quando a rega parou. Olhei para ti para o confirmar e levei com água na cara. Devia ter-me lembrado que gostavas de imitar o Squirtle e fazer a pistola de água. Rimo-nos disso e ficámos estendidos a secar ao Sol. Sentir a terra a ficar dura nos pés e as pernas a aquecerem era agradável. Até a comichão provocada pelas formigas a caminharem pelos braços era boa. Estendi-te a mão e tu amarraste-a. Que erro tão grande o meu! Saltaste para cima de mim e começaste a fazer-me cócegas. 

-Rende-te! 
-Nunca! 
-Rende-te! Quem é o vencedor? Eu ou tu? 
-Eu! 
-Quem? 
-TU! 

Não suporto cócegas. Que tortura! 

-Ah, eu bem sabia! 

Ainda recuperava das cócegas, pelo que só consegui deitar-te a língua de fora. Fizeste-me o mesmo e depois deitaste-te com a cabeça apoiada na minha barriga.

A guerra tinha acabado. Venceste-a. Eu não me importava, desde que estivesses comigo.

Contigo eu não me importava que os dias fossem todos iguais. 

Contigo viver 80 anos parecer-me-ia pouco. 

Contigo cada dia seria uma festa.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

tu...

-Um, dois, três! 

Saltavas da cama e arrastavas-me contigo. Dizeres os números era o feitiço contra a preguiça que nos deixava entorpecidos. Só assim nos conseguíamos levantar e deixar os lençóis que pareciam insistir em ser a nossa roupa do dia. Em seguida, dançavas sempre qualquer coisa para despertares completamente. Eu demorava a completar essa parte porque assim dava-te tempo para ires até cozinha e dares pela falta do pão. 

-Se não há vai comprar! – dizia eu. 
-Vai tu! – respondias. 
-Eu disse primeiro! E despacha-te que eu tenho fome. –  respondia de volta. 

Dizia aquilo para te provocar. Queria saber se te atrevias a sair de roupão e chinelos de quarto até à padaria da frente. Tu nunca viste isso como um desafio. Saías descontraidamente e se alguma criança a caminho da escola te estranhasse (“já é Carnaval?”) ou fizesse troça, punhas-lhe a língua de fora e adoptavas um passo galante que deixava sempre os miúdos embasbacados. Nunca fraquejaste, mas é claro que depois me testavas a mim. Comias os melhores pães (fofos e quentes, barrados com muita manteiga) e eu ficava com os demasiado estaladiços ou mais queimados (que enchia de compota). Também eu nunca me queixei. Era o preço a pagar pelo espectáculo que tu me proporcionavas. Observava sempre aquele teu desfile em roupas pouco típicas na rua da janela com entusiasmo e quando te ia abrir a porta de casa deixava-me ficar encostado à porta a ouvir-te a assobiar. Os pássaros que se abrigavam no parapeito da janela pareciam escutar-te, mas na verdade era eu e só eu que ficava deslumbrado contigo. Descobriste a clave, o compasso, a tonalidade, o andamento e o timbre com que eu vivia e sentia as coisas, pelo que ao ouvir-te eu ouvia o mundo. 

Por vezes não cantavas. Algo na rua silenciava a tua boa disposição. Eu sentia-o também porque o eco dos teus passos soava diferente, mais pesado. Sentavas-te num degrau das escadas e respiravas profundamente. Eu ia buscar-te. Sentava-me ao teu lado e abraçava-te. Ficávamos assim durante algum tempo que eu contava pelas batidas do teu coração. 9. Depois das 9 tu soltavas-te do abraço e lançavas um desafio: 

-O primeiro a chegar lá acima fica com o croissant de chocolate! 

Havia sempre mais do que um croissant, por isso não era preciso correr. Subíamos a pé coxinho e ríamo-nos quando algum inquilino do prédio nos via e fazia uma cara de desagrado. 

Nas vezes em que eu sonhava que tinha sido levado por um buraco negro tu nunca me deixavas sair de casa sem um sorriso na cara. Dizias tu que enquanto os meus lábios não se afastassem e os meus olhos não brilhassem da maneira como tu gostavas eu estava nu e, por isso, não podia sair à rua porque poderia ferir a susceptibilidade das pessoas. Punhas-te entre mim e a porta e começavas a fazer caretas. Isso era o suficiente para eu sorrir, mas às vezes ficávamos a jogar ao jogo do sério. Nunca resisti muito tempo. Em poucos segundos estava a rir-me. Abrias então a porta e desejavas-me um bom dia. 

Quantos nus via eu na rua. Era triste (acho que era isso que te desanimava quando vinhas da padaria) e eu cumprimentava-as na esperança de que elas saíssem dos seus próprios buracos negros. Acho que nunca fui capaz de sorrir como tu. 

E agora sinto eu falta do teu sorriso e por isso faço o que me ensinaste. Ligo a torneira quente da banheira, espero que o quarto de banho fique cheio de vapor, ponho-me em frente ao espelho embaciado e contorno os meus olhos e boca no reflexo. Imagino que estás ali comigo e conto-te as peripécias do dia. Enquanto o vapor se mantém esqueço um pouco a solidão, mas quando ele se esfuma constato que os meus pensamentos existem, mas não são reais.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Aquecimento global

Um dia hei-de ir à biblioteca requisitar um livro de astronomia que me ensine a reconhecer as constelações para que em noites como as de hoje, em que me fui deitar na praia, saiba ler as histórias que o céu conta.

Ou talvez não.

Continuarei a inventar as minhas constelações e é certo que posso não saber para que lado fica o Norte, mas desde que encontre a minha Ursa Apolar encontro-me a mim.

Pelo menos quase sempre.

A Ursa Apolar nem sempre é fiel ao que me disse aqui há uns tempos. Às vezes não está muito bem sozinha a refrescar-se à chuva e pergunta-me pelo urso que eu tinha dito que podia tentar encontrar. Outras vezes diz que preferia ser uma foca porque essas são mais despreocupadas. Às tantas perco-me com aquelas conversas com ela, mas acho que já estava antes perdido com as conversas com pessoas. De vez em quando aquilo que ouço aloja-se na cabeça e faz com que pense de forma diferente do habitual.

Ver romances à noite provoca-me isso.

Acho que a Ursa às vezes se regozija com o automóvel que bate nas personagens. Deve ser a maneira dela encarar o degelo constante da vida dela.

Felizmente há chuva para ela se refrescar e ficar bem.

Um dia hei-de ir à biblioteca requisitar um livro de artes que me ensine a dança da chuva.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Seremos índios para a próxima


Quando não nos deixaram ir acampar para o jardim, acampar no céu pareceu a alternativa perfeita.

Levámos as coisas lá para cima e pousámo-las em cima de uma nuvem. Com o peso, elas atravessaram as nuvens como se estas não passassem de algodão doce. Apressámo-nos a juntar várias nuvens para dar mais consistência e assim suportar melhor os nossos apetrechos. Ainda demorámos um bom bocado porque tu quiseste provar nuvens e não te ficaste com uma só dentada. Encheste as mãos e levaste tudo à boca. Depois disseste:
“Um pouco de canela e ficava perfeito”

A seguir fomos montar a tenda e tivemos de subir bastante porque, uma vez aberta, a tenda ia funcionar como um pára-quedas. Atirei-a como se ela fosse um boomerang e voltámos a recorrer às meadas de nuvens para sustentar as estacas e os ferros. Conseguimos montar à 13ª tentativa, depois de acertarmos com a quantidade de nuvens a usar e com o tempo que demorávamos a coloca-las no sítio certo.

A fome veio pouco depois. Tive a ideia de usarmos a antena de casa como grelha para cozinharmos. Não tínhamos carvão nem fósforos, pelo que tivemos de improvisar. Deitámo-nos numa nuvem a pensar e chegamos à conclusão que em vez de carvão podíamos usar penas de pássaros.

Fomos então procurar um bando de gaivotas e assim que o encontrámos, tu gritaste que nem um louco por entre elas para as assustar e eu fiquei por baixo delas a apanhar as penas que lhes caíam com o susto. Repetimos isso várias vezes até termos uma quantidade considerável, depois ficamos na dúvida. Sempre quisemos um cocar de índios e nunca até então tínhamos reunido tantas penas – só faltava pintá-las, já que nenhuma apresentava as cores exuberantes que queríamos. Acabámos por decidir que arranjávamos mais penas numa próxima vez, naquele momento tínhamos era de comer porque estávamos cansados.

Quanto aos fósforos não foi muito difícil. Tínhamos os pauzinhos do Mikado e o Sol por perto. Caminhámos para ele com os braços estendidos. Não sabíamos a que distância os raios solares seriam suficientemente quentes para incendiar a ponta do pauzinho e assim, com os braços esticados, não corríamos o risco de queimarmos os pés. Mal víssemos fumo, corríamos para trás. Foi assim que tudo correu mal.

Incendiámos por acidente uma nuvem e o fogo rapidamente se alastrou à volta. Assustámo-nos, mas sabíamos que tínhamos de salvar a Lua que começava a aparecer. Corremos para ela e começámos a comer as nuvens à volta (engraçado, comer nuvens não enche) para criar uma área de segurança e assim que achámos que ela já estava safa, descemos para o telhado de casa.

Sentados numa telha, ficámos a ver o pôr-do-sol enquanto comíamos batatas fritas. Foram a única coisa que conseguimos resgatar das mochilas que ardiam lá em cima e entretiveram-nos até nos chamarem para jantar.

Combinámos que para a próxima não nos atrevemos a cozinhar. Levaremos já tudo preparado. E o frasco da canela.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Estudar faz mal

A compota acabou. Desta vez era de morango e tina pedacinhos inteiros da fruta. Fazia lembrar-me Sundae, mas faltava-lhe o gelado. Usei o dedo para rapar o frasco, que agora uso para suportar os lápis e as canetas na secretária. A visualização de comida provoca a libertação de enzimas do aparelho digestivo, criando a falsa sensação de que estamos a comer. Talvez assim consiga enganar-me a mim próprio e resista à tentação de devorar a compota, as bolachas, os cereais e a manteiga de amendoim. Para além disso, sempre que precisar de um lápis para escrever algo num caderno (ou riscar a parede), como ao mesmo tempo e assim  poderei dizer que sou capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo.

Como já tinha estimulado as papilas, achei por bem comer mais alguma coisa. Usei iogurte de frutos silvestres como recheio das tostas. Quando as trincava, o iogurte saía pelos lados e eu via-me obrigado a usar os dedos para impedir que o caderno que deveria estar a estudar ficasse sujo. Consegui fazê-lo, mas ainda assim não me apetecia estudar.

Lembrei-me de que tinha sonhado com o Tocha Humana e por isso fui buscar um fósforo à cozinha. Sentei-me no chão e friccionei-o contra a lixa da caixa. Do atrito entre o clorato de potássio do palito com o fósforo da caixa surgiu uma chama logo a seguir àquele crrrrrr. Fiquei a ver as cores e o dançar das chamas. Azul, amarelo, laranja, vermelho e depois preto. Ainda pensei em acender mais fósforos, mas lembrei-me do caderno pousado. Regressei ao quarto e pus-me a estudar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Sim, prometo.

Eles deram um tempo e agora ela diz que não sabe fazer nada sem ele.

Ela chora quando ouve a Someone Like You porque na cabeça dela forma-se involuntariamente uma cena na qual ela canta "never mind I'll find someone like you" ao namorado (ou ele a ela, não sei qual dos dois canta melhor).

Promete-me que aconteça o que acontecer nunca me deixarás! Mesmo que o mundo acabe, promete-me que continuaremos a jogar berlindes com o Sol, Mercúrio, Vénus, Terra, Lua, Marte, Fobos e Deimos (uma vez tentamos jogar com Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno, mas magoamos os dedos nos anéis, ou pelo menos assim pensamos na altura, e perdemos alguns satélites naturais que rolaram para baixo dos armários). Promete-me que te posso encontrar sempre que olhar para o tecto à procura da Ursa. Promete-me que te sentirei em cada gota de chuva.


domingo, 20 de novembro de 2011

My Worried Shoes

O meu cérebro está cansado (acho que não tem falta de glucose, tendo em conta que comi chocolate há poucos dias) e por isso algumas sinapses são mais inibitórias do que excitatórias ou nem sequer conseguem passar o limiar de excitabilidade. Falar e mexer tornam-se processos complicados ou então eu é que sou complicado. Não sei. Hoje torna-se complicado reflectir nisso. Amanhã talvez pense...

Ontem entrei na banheira a cogitar num pensamento que tem andado a nadar pelo meu sangue, plasma e líquido cefalorraquidiano nos últimos dias. Senti a água quente na pele, o que aumentou a agitação do pensamento. Todo ele se avivou com o calor e tomou conta dos córtex todos. Todas as vias necessárias para que eu pegasse no champô e no gel de banho foram inibidas. Só quando saí da banheira é que percebi que só me tinha molhado... O pensamento não se molhou nem foi lavado. Continua aqui. Mais tarde pensarei nele.

Molhar-me também o posso fazer quando chove, mas a minha disponibilidade para um passeio à chuva não tem coincidido com os momentos em que se reúnem as condições atmosféricas para tal acontecimento. No entanto, torna-se engraçado fazer uma viagem de Metro a escavar todos os tesouros que o Sol revela no asfalto. São na verdade pequenos minerais de quartzo que brilham, mas era capaz de jurar que vi gnomos a picarem o chão para se apoderarem dos meus tesouros.

Olho para os meus ténis preferidos e penso em tudo aquilo que fiz e que lhes reduziu a esperança média de vida. Com  o estado lastimável da minha cabeça, custou-me perceber que estava a tentar calçar o ténis direito no pé esquerdo. Ao que eu cheguei... Eles continuam bons para mim, embora a mãe diga que deixam entrar o frio e que me molham os pés. Eu gosto deles. Quem mais gostará deles quando eu cá não estiver?

Às vezes sinto necessidade de me apegar às coisas que já tenho. É assim que me defendo de qualquer estímulo que possa abalar-me. Isso acontece com os ténis. E com pessoas...


Talvez o problema não seja apenas do cansaço. Se calhar saturei o cérebro com glucose...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Desidratação

Às vezes não consigo controlar a água que escorre pelos meus olhos. Assim que permito que uma gota caia, vem mais uma a seguir e depois outra e mais outra. Um pouco como a chuva. Às tantas podia construir uma piscina onde os bonequinhos da Lego podiam passar uma tarde agradável de Verão. Mas o Verão já era, o Outono chegou. A piscina tornar-se-ia uma verdadeira catástrofe natural para os homenzinhos amarelos. Penso neles [será?] e tento conter a perda de água.

Enquanto cortava a cebola, pingava líquido da face. Era inevitável, uma vez que só me ensinaram o truque para isso não acontecer depois de tudo à minha frente ser névoa. Não conseguia ver nada por causa dos olhos húmidos e inchados, mas respondia a cada gota que caía com um novo corte, mais violento que o anterior, no resto da planta que ainda tinha na mão. Talvez tenha aproveitado para chorar por algo maior que o jantar que preparava, talvez não. Ardiam-me os olhos, a pele estava molhada e quando secou, fiquei com comichão.

E agora, que resta? O jantar foi devorado e o vermelhão dos olhos passou. Jaz o livro de estudo aberto na página 226. Olhei agora com mais atenção para o seu conteúdo e apercebi-me que já a li e que a tenho de virar.

Já o fiz.

Mas e agora? Agora resta-me ler e tentar assimilar o máximo que conseguir. Saber o número da página já conta como alguma coisa? “If you can measure that of which you speak, and can express it by a number, you know something of your subject, but if you cannot measure it, your knowledge is meagre and unsatisfactory” (Lord Kelvin). Bem, talvez seja. Senão for, amarrar-me-ei a essa ideia caso me sinta mal com o rendimento do estudo.

Os livros aturam-me e eu aturo-os a eles. Já passei a mão pela lombada e senti-lhes o relevo, peguei-os com uma mão e avaliei-lhe o peso, abri-os numa página à sorte e li as palavras formadas por conjuntos de letras e já lhes ouvi o barulho quando o vento sopra neles. Eu também sopro para eles e sussurro-lhes coisas. Acho que às vezes nos conseguimos entender, eu e eles. E se estes à minha frente não me satisfazerem, há sempre outros.

Livros não são tão complicados como as pessoas. Complicados são as pessoas que os escrevem. E as que os lêem.

sábado, 1 de outubro de 2011

Não vás. Ainda é noite



Os meus sonhos costumam ser demasiado imbecis para que neles pudesse ouvir uma música tão bonita. Nem mesmo nos sonhos menos anormais conseguiria ouvir aquilo. Só podia ser o despertador a tocar e sendo assim, já não dormia. Estava acordado.

Levantei-me involuntariamente assim que parei o alarme do telemóvel. Ainda ensonado, dirigi-me ao quarto de banho. O frio das lajes nos pés e nas mãos o frio do lavatório indicavam-me que estava em frente ao espelho, mas os olhos, cansados e magoados pelo sono e pela claridade das luzes, não queriam abrir. Via ainda as luzinhas amarelas em fundo preto.

Tu podias ser os meus olhos naquele momento, mas não estavas ali.

Usei as mãos como concha e passei água pela cara. Mais frio, mas era revigorante. Aos poucos os olhos abriam e comecei a distinguir os objectos pousados no armário ali ao lado. Vi-me ao espelho. O cabelo estava despenteado e o lado esquerdo da cara estava vermelho. Foi a tua mão ontem à noite que me despenteou. Disseste que os teus dedos eram elfos que viviam no meu cabelo e exemplificavas passando a mão no topo da minha cabeça. Os teus dedos facilmente passariam por elfos, altos e esguios, mas o meu cabelo jamais poderia ser a moradia de seres tão perfeitos. Tu não concordaste comigo. Disseste que em mais nenhum lugar se pode sentir um cheiro tão bom a frutos silvestres. E para mo comprovares, cheiraste-o profundamente e fingiste que comias uma framboesa.

Voltei ao quarto para ir buscar roupa para vestir. Arrastei os pés para que a madeira não rangesse e tu acordasses. Sempre te invejei por conseguires fazer aquela dança em que todos os teus movimentos não produziam qualquer ruído, mesmo quando pousavas os pés no chão depois de teres dado um salto. Peguei nas primeiras coisas que os meus dedos palparam e fui tomar banho. O champô não era de frutos silvestres – apanhei-te na tua brincadeira. Não pude deixar de sorrir no entanto.

A minha barriga roncou (ou como tu dizias depois de veres “À Procura de Nemo”, falava baleiês). Na cozinha comi um iogurte (esse sim de frutos silvestres) e um pão com Nutella. Só havia um pão e o chocolate estava a acabar. Pensei para mim que irias ter pouca sorte quando acordasses, mas era bem feito – para a próxima não comas o que bem te apetece ao jantar; se pensas que eu vou estar sempre a deixar metade do meu pequeno-almoço para ti, estás bem enganado.

Quando saí à rua estava nevoeiro e o chão estava molhado. Seria do orvalho ou da birra que fizeste ontem quando eu te disse para te portares bem porque eu estava a ler?

Não estavas comigo para que pudesse perguntar-te se tinhas ido chorar para a varanda antes de eu ter colhido as tuas lágrimas para fazer cristais de halite para nós dois.

Continuei por isso o meu caminho até ao Metro (parecia que te conseguia ouvir a dizer que já não é Metro mas sim Noventa Centímetros porque, dada a sua lentidão, tu o tinhas penalizado). Numa das paragens sentou-se um homem ao meu lado. Não lhe vi a cara porque estava concentrado na leitura, mas era impossível não prestar atenção ao cheiro dele. Um perfume forte (sabes que para mim os perfumes são todos iguais), mas que apenas se notava ligeiramente porque havia um cheiro ainda mais forte, a tabaco. Troquei de lugar e prossegui a leitura no Noventa Centímetros.

Tu podias ser as partículas no ar que provocavam o cheiro, mas tinhas ficado na cama.

O dia arrastou-se com o ponteiro das horas. Tentei em vão transfigurar o 3 num 8 para que pudesse voltar para casa para junto de ti. Tentei em vão que o Sol se deslocasse mais rapidamente para chegar a casa e ver-te à minha espera na varanda.

Agora já estou em casa, mas não junto a ti. Ainda vou ter de esperar mais algumas horas, ainda tenho de adormecer. Tu podias estar aqui agora, mas és o produto de um sonho. E mesmo sendo eu capaz de sonhar acordado, é quando estou a dormir que tu apareces e me começas a fazer cócegas ao de leve nos braços. Acordas-me e temos um dia inteiro em conjunto até que a noite acabe e o despertador volte a tocar.

domingo, 18 de setembro de 2011

Podíamos ser felizes, mas podes sê-lo só tu


You could be happy and I won't know
But you weren't happy the day I watched you go
And all the things that I wished I had not said
Are played on loops 'till it's madness in my head

Is it too late to remind you how we were?
But not our last days of silence, screaming, blur
Most of what I remember makes me sure
I should have stopped you from walking out the door

You could be happy, I hope you are
You made me happier than I'd been by far
Somehow everything I own smells of you
And for the tiniest moment it's all not true

Do the things that you always wanted to
Without me there to hold you back, don't think, just do
More than anything I want to see you girl
Take a glorious bite out of the whole world




E eu julgo-me detentor do mesmo direito de ser feliz. Por isso posso ser feliz e tu (quem quer que seja a pessoa a quem ele se refere. "Tu" pode ser muita gente e não ser ninguém) também, sozinhos porque não nos conhecemos, ou juntos, um dia.

(eu costumo inventar um "tu" para dar um corpo a uma das vozes que tenho na cabeça. Assim as pessoas não pensam que sou louco)


(agora os meus dedos estão a dançar pelo teclado... 
odjg oodrj 9034w v0trh0 iy 45gr nkxcf bngfibgns o sgftpohij 0rs WOP VGDS9GH)

e eu estou feliz a fingir. Também estás? Espero que não. Ou então que pelo menos sejas um bom fingidor como eu. Não digas a ninguém, mas eu vou ganhar o Óscar de Melhor Fingidor (e nem sequer sou poeta). Vai ser a Maggie Smith a entregar-me a estatueta (e eu vou dar-lhe um abraço porque gosto muito dela) e no meu discurso a fingir, vou fingir que estou surpreendido por ter ganho aos outros concorrentes. E eles vão fingir que estão contentes por mim, mas como não são tão bons fingidores, eu vou perceber. Mas não me vou importar, porque vou fingir que estou contente.

Se algum dia nos conhecermos, vou mostrar-te o cavaleiro (não de bronze, mas de estanho com folha de ouro) e podemos deixar de fingir. Seremos felizes a sério!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Não havia uma almofada, mas um aspirador

Dêem-me um quarto almofadado e um colete de forças, prometo que quando ficar irritado não chateio ninguém para além de mim! Enquanto não me derem, percebam que às vezes tenho razão para estar assim.