segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Encontros

Vi no outro dia um rapaz que andou comigo do 5º ao 9º ano. Foi ele o meu primeiro verdadeiro amigo e o melhor até ao 7º ano. Eramos parceiros de mesa e lembro-me de passarmos as aulas na conversa, dos intervalos em que íamos comprar chocolates e depois ficávamos a jogar à bola atrás do pavilhão, das inúmeras mensagens que trocávamos quando estávamos em casa sozinhos. Lembro-me até de lhe estar a dizer as respostas do teste de Inglês e a professora nos apanhar. Eu prontamente neguei que o deixava copiar e o idiota confessou o crime. Fiquei chateado com ele, mas passou depressa. Coisas de putos evidentemente, mas naquela altura eu gostava mesmo muito daquele contacto.

A partir do 8º ano começamos a distanciar-nos. Eu apercebi-me disso e tentei que as coisas não seguissem aquele rumo, mas não via o mesmo esforço da parte dele. Talvez ele nunca tivesse visto a nossa amizade como algo bom. Talvez fossemos apenas uns pequenos seres humanos que não tinham noção das coisas. Talvez.
O tempo tratou de tudo. Distanciamo-nos cada vez mais e eu não tardei a ser a pessoa que fazia os resumos para os testes por quem toda a gente tirava fotocópias. Naquele período de tempo não tive mais nenhum verdadeiro amigo, apenas um grupo pequeno de pessoas com quem me dava bem.

No aniversário dele no último ano em que fomos colegas de turma, já eu tinha consciência que eramos apenas “colegas de turma e que por isso é melhor convidar para a festa de aniversário” e não amigos. Era no final do ano lectivo e em breve seguiríamos para escolas diferentes. Já não me recordo porquê, mas resolvi escrever-lhe uma carta que lhe ofereci em conjunto com o resto da prenda. Não me lembro de tudo o que escrevi, mas sei que lhe disse que ele tinha sido o meu melhor amigo e que, infelizmente, tinha vindo a perder ao longo dos anos mas que jamais esqueceria, “porque as coisas boas da vida nunca se esquecem” [acho que foi mesmo isto que eu escrevi]. Ele abriu-a durante o jantar, leu, agradeceu, ficou indiferente, virou a cara e continuou a conversa com os rapazes ao lado. Não sei se a leu mesmo ou se apenas deu uma vista de olhos. Não sei se mais tarde releu ou pôs simplesmente ao lixo. Sei que naquele dia não liguei, mas no Sábado passado, quando o vi depois de mais de 5 anos, senti uma certa tristeza.

Lembrei-me de várias coisas que passamos juntos e pensei no que nunca chegamos a fazer. Talvez nunca estivessem destinadas a acontecer, mas ainda assim. Talvez não tenha feito o suficiente, talvez o devesse ter cumprimentado quando o vi a uns metros. Mas não, não me mexi e ele não me viu, ou pelo menos também não veio ter comigo.

Nas poucas vezes que passei por ele na rua quando já andávamos no Secundário apenas nos cumprimentamos com o banal “Então, tudo bem?”. Já só eramos conhecidos. Agora somos o equivalente aos conhecidos somente pelo Facebook.


Vieram outros amigos, partiram outros. Eu continuo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

qualquer coisa

Não sei que dia é hoje. Até podia fazer as contas baseando-me nas refeições que fiz, mas a verdade é que nem sei o que comi ao almoço (minto, lembrei-me agora que foi quiche de frango). Contando as pessoas sentadas no anfiteatro da faculdade, poderia fazer uma aproximação e dizer que estamos perto de frequências porque mesmo as caras habituais já começam a desaparecer da sala. Penso no último feriado que houve e nos aniversários recentes, faço contas, umas mentalmente mas depois passo para os dedos que o cansaço faz-me escrever aniversários com um h no início da palavra, e chego à conclusão que hoje é dia 28. 

Nothing unusual, nothing strange. Close to nothing at all.
Os dias parecem-me todos iguais, a escuridão da noite sempre a mesma e embora tenham descoberto uma estrela rodeada por gelo, não gostei lá muito da imagem que vi e continuo a gostar mais do planeta com duas estrelas como o Sol. Nada se passa de novo, sempre a mesma monotonia, sempre as mesmas horas dadas pelos ponteiros que se arrastam sempre à mesma velocidade (e podem dizer-me que a hora já muda este fim-de-semana, mas tudo vai continuar na mesma).

The same old scenario, the same old rain.
O Outono confundiu-me um bocado. Pensei que tinha chegado há uma semana, mas parece que ainda não trouxe a bagagem toda de uma vez e ainda está a fazer as mudanças. No entanto não deixei de gostar daquele dia de chuva. Quando saí de casa de manhã cedo, a chuva caía nos tejadilhos dos carros e fazia aquele barulho que eu tanto gosto. Abri o guarda-chuva e fui caminhando, ouvindo a água a chapinhar debaixo dos ténis. No chão, as novas gotas que caíam desenhavam círculos nas poças que reflectiam as luzes dos semáforos e dos carros que circulavam. Vermelho, verde e laranja. Parecia o Natal e eu gosto do Natal. No Metro, colei a palma da mão no vidro e fiz assim parte da viagem. O céu cinzento abria-se de quando a quando e deixava-se atravessar por alguns raios de luz, que faziam brilhar os campos verdejantes salpicados de moléculas de água. Foi bonito, mas já parou. (espero pela próxima descarga de água. Embora parte da água que precipitou já tenha evaporado e vá cair novamente, eu gosto dela)

And there’s no explosions here.
Não, não há. Tirando os estragos que a chuva fez, não há explosões. Mesmo dentro de mim não sinto grande coisa. Se puser a mão no peito, sinto o coração a bater. Se for na rua, vejo a minha sombra projectada no chão (e eu gosto mesmo é quando a sombra está esticada e fico com braços tão grandes que basta um para me abraçar completamente).

Can’t stand the state that I’m in, sometimes it feels like the walls closing in
Espero que se se fecharem, que pelo menos não caiam como deu nos noticiários edifícios a cair. Com elas fechadas, não hei-de ter grande visão das coisas em meu redor, mas se se fecha, há-de se abrir, mais cedo ou mais tarde.

Try and bury my troubles away, drown my sorrows the same way. It seems no matter how hard I try, it feels like there’s something just missing inside
Havemos de dizer que falta sempre alguma coisa. Falta-me vontade de estudar. Faltam bolachas de chocolate no armário. Faltam os lençóis na cama. Gostava de ser capaz de deixar problemas [será que são mesmo problemas ou apenas eu é que me faço de coitado?] de lado, mas não. Por isso daqui a pouco vou ter uma conversa com eles e vamos fazer um acordo onde eu me declaro rei.


Can't be something you are not
Life is not a looking glass. 

Let's take a better look
beyond a story book
and learn our souls are all we own
before we turn to stone.
Let's go to sleep with clearer heads
and hearts too big to fit out beds.
And maybe we won't feel so alone
before we turn to stone.

And if you wait for someone else's hand
you will surely fall down.

Oh dear out here
Everybody stumbles on fear
Who cares if we're scared
Everyone is on their own

All that I know is I'm breathing.
All I can do is keep breathing.

Progress, changing 
Growing then giving up 
Somehow we're never quite prepared 
But I understand it

domingo, 23 de outubro de 2011

Take my hand, take my whole life too

Tenho procurado a Sara, mas não a voltei a ver. Pergunto-me se ela ainda se lembra de mim, se ainda sabe o meu nome e a minha idade. Talvez ela tenha uma ideia sobre mim, mas debate-se com o meu nome, tal como se debateu com o nome da Kikinha (será que a Kikinha já mudou de nome?). Sem ela, a estação parece cheia de gente desinteressante. Espero juntamente com uma dezena de pessoas, o Metro é o elo que nos liga umas às outras. Nada sei sobre elas e elas nada sabem sobre mim, nem mesmo que falei com uma menina muito encantadora há uns dias.
Olho para elas e vejo sorrisos, alguns bonitos e outros que me parecem falsos, vejo preocupações estampadas, indiferença, simplicidade e presunção. Ninguém chora, mas há-de haver quem abra as represas interiormente. A senhora ao meu lado lê um livro e à minha frente uma outra senhora segura uma saca de uma padaria. De vez em quando chega-me um cheiro a bolos quentinhos. Ao lado dessa senhora estão uma rapariga e um rapaz. São namorados e beijam-se. Não sou o único a olhar para eles. Esse par devia pensar nos solitários da carruagem pois o seu acto activa sinapses e forma miragens algures no sistema nervoso. 
Talvez eu os inveje e seja por isso que digo tal coisa. Pois, quem sabe, será que o sabor do beijo é diferente do do chocolate que seguro numa mão? A dúvida se o sabor é a morango ou framboesa ou côco ou menta ou simplesmente sem sabor é demasiado... intrigante.
Vai um rapaz no Metro com um ar sério. Não carrancudo, apenas cansado e talvez pensativo. Não lhe consigo ver a cor dos olhos porque usa óculos. (Esses olhos brilham, mas brilham por si mesmos ou é só a iluminação da carruagem?). De vez em quando espreita pela janela e parece inalar o cheiro dos pinheiros e das bétulas e das outras árvores que não sabe o nome. Talvez no interior dele estejam a ocorrer explosões de cores, sons, cheiros e ideias. Talvez lhe falte uma tela para registar isso e por isso recorre a um bloco onde escreve. Talvez hoje seja tudo à base do branco e preto. Ele nem sempre consegue manter-se optimista nem resistir ao peso das ideias que o fazem ter birras de criança.
Agora seria uma boa altura para chover. O rapaz gosta de ver as gotas de água a escorrerem pelo vidro. Diz ele que são como pessoas. Gosta também de ouvir o barulho da chuva a bater nos objectos; se ele estiver concentrado, consegue ouvir uma melodia escondida por entre as semínimas que o vento canta. Mas ele gosta mesmo é de sentir a água na cara. A água pode misturar-se e camuflar as lágrimas da cara, mas pode também ser simplesmente um contacto agradável na cara. Às vezes ele abraça-se sozinho, outras deixa-se ser abraçado pela água que os deuses lhe enviam.
Pois...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sara

Eu gostava de me sentar.

Desviei o olhar do bloco que tinha entre as pernas. À minha frente estava uma menina, de cabelos encaracolados e pretos, pele branca, boneca na mão e um sorriso nos lábios. Não precisou de dizer uma segunda vez: juntei as minhas coisas e sentei-me no chão. Ela prontamente se sentou no meu lugar e a mãe dela agradeceu-me. Tentei continuar a escrever, mas faltavam-me palavras.

A minha boneca vai passear - trauteou a menina. Eu olhei para ela e ela para mim olhou. Sabes como se chama a minha boneca?

Não, porque tu não me disseste.

Chama-se... Kikita. Ainda demorou uns segundos a dizer o nome. Na cabeça dela deviam estar a passar os vários nomes que a boneca foi adquirindo ao longo do tempo.

Kikinha, corrigiu a mãe.

Kikinha. E sabes como é que eu me chamo? Chamo-me Sara. E tu?

Chamo-me K.

Eu tenho dois K. Um é o K. dos pequeninos e o outro é o K. dos grandes. Eu também sou dos grandes, sabias?

Eu também já fui dos grandes quando andava no infantário.

Em que infantário andaste? Eu ando no Infantário do Sol.

Não sei onde fica o teu infantário.

Não sabes? No Porto há o Infantário do Sol. É porque eu acho que o Porto também já usa amarelo e preto.

Azuldisse a mãe. Nesta altura eu estava muito confuso com a conversa porque não estava a perceber se ela se estava a referir à cor da bata do infantário se outra coisa qualquer.

E agora o Porto está em primeiro e o Benfica em segundo. Depois está o Sporting. Aí comecei a perceber que afinal era futebol.

Estou a ver que percebes de futebol. Eu não gosto de futebol.

Não é que eu também goste mesmo muito, mas sei.

Ah. Muito bem. Olha, eu não tenho uma boneca como tu, mas tenho este Mickey aqui. Gosto do Mickey.

E sabes como se chama a namorado do Mickey?

Sei, é a Minnie.

Como é que sabes?

Porque eu conheço as histórias do Mickey. E sabes como é que se chama a namorada do Pato Donald?

Sei. É a Margarida. Como é que sabes?

Porque também conheço o Pato Donald.

Ela levantou-se e começou a contar-me que tinha um jogo do Pato Donald e que ele fazia isto e aquilo, que caía ao chão e que ela o apanhava e tinha de arrumar a casa e fazer as coisas todas e blá blá blá.

Blá blá blá
Blá blá blá
repetimos simultaneamente eu e a mãe dela.

Olha, já foste ao castelo da Disney?

Não.

Tens de ir. Ela já estava bastante entusiasmada a falar comigo. Tens de ir porque tem lá princesas e o Peter Pan. Conheces o Peter Pan?

Conheço.

Como é que conheces? Penso que ela não acreditava que eu conhecia mesmo aquelas personagens

Porque já li o livro e vi o filme que tu provavelmente também viste.

Sabes, quando for grande quero ser cantora.

E já treinas muito?

Eu sei muitas músicas. Mas só quando souber as músicas todas do mundo é que posso ser cantora. E para isso preciso de ser grande para saber as músicas todas. As crianças são deveras engraçadas.

Depois ela testou os meus conhecimentos de inglês. Eu respondia, mas ela dizia sempre que eu estava errado. Eu perguntava-lhe então como era e ela ficava a pensar.... e depois perguntava-me como é que se dizia outra palavra em inglês. Aprendi que porta é door e mesa table. Pelos vistos música não é music (eu jurava que era, mas ela disse que não).

Toma lá um chocolate para ver se deixas o jovem em paz.

Kinder Kinder Kinder!

És muito gulosa.

..... (não percebi o que ela disse porque falou com a boca cheia de barrita Kinder)

Levanta-te que está aí o Metro.

Olha, amanhã vais estar aqui?

Não, porque tenho aulas.

E à noite, quando eu estiver a ir embora?

Não sei.

(a mãe dela fez-me sinal para responder negativamente porque caso contrário ela não se calava)

Assim amanhã eu podia falar mais contigo e dizer-te quantos anos tenho. Sabes quantos anos tenho? Tenho cinco.

Eu tenho 19. 

19 é muito. Nem sei contar até isso (pelo menos foi isso que percebi)

Diz adeus ao jovem.

K.!

K.?

Sim, é o meu nome. Ela perguntou-me.

(cara de admirada da mãe)

Diz ao K. que foi um prazer conhecê-lo.

Xau K.!

Riu-se, seguiu a mãe para dentro da carruagem e começou a acenar-me. Eu acenei também e depois ela pegou no braço da Kikinha que começou também a acenar. Enquanto isso, a Sara sorria muito.


E eu fiquei a sorrir também e a pensar se a Sara se vai lembrar de mim daqui a uns anos. Eu vou. E quando estiver na estação àquela hora vou ver se encontro a Sara e a Kikinha. Elas foram as primeiras pessoas que conheci no Metro depois de tantas viagens que já lá fiz. Foram só 15 minutos que estive com elas as duas, mas esse tempo e a simpatia delas fizeram com que o eu ter perdido o meu Metro tivesse valido a pena.
Conhecer pessoas é uma experiência fantástica, mas às vezes não há tempo para conhecermos tudo aquilo que gostaríamos ou que devido à inibição provocada pela falta de competências sociais não abordamos. Eu gostava de ser como a Sara-boa faladora-simpática-e-despachadinha, mas não sou. (Não sou muitas coisas, mas sou muitas outras). Hei-de no entanto lembrar-me sempre dela e tentar preservar ao máximo a recordação que teci dela (e da Kikinha) e tentar ser mais parecido com ela.

Não sei quando a voltarei a ver.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Do I make you proud?

Eu tenho duas mãos e dois braços, duas pernas e dois pés. Tenho um só nariz, mas tenho dois ossos nasais. Parece que a anatomia humana foi feita com base no número dois. E é bom que as coisas existam aos pares - se uma delas for lesada, a outra permanece e tenta manter as funções.

A minha disposição também varia ao longo do dia, normalmente. Hoje de manhã acordei bem disposto, saltei no quarto e agitei os braços como se eles fossem uma espiga de milho agitada pelo vento. Mas agora estou a ouvir a mesma música e os meus membros não respondem freneticamente como de manhã. Estou apático e embora tenha uma tablete de chocolate mesmo ao lado, não me apetece comê-la. Na verdade, não me apetece fazer nada.


Agora a música mudou e quer-me parecer que os olhos querem soltar lágrimas, mas isso não pode acontecer. Fico com a visão desfocada e ainda tenho coisas para ler.


Estive sentado na sala com a luz apagada. O LED da televisão e do aparelho que fica por baixo emitiam luz vermelha; olhando para a janela via as luzes do candeeiro que depois de sofrerem reflexão, refracção e muitos mais fenómenos, chegavam até mim como uma cruz laranja. E eu era capaz de ficar a olhar para essa cruz até à eternidade. Quando ela se apagasse, talvez eu tombasse do sofá e me apagasse também.

Não sei dar o valor certo às coisas e dou demasiada importância às coisas que não devia. Eu sei-o porque caso contrário não diria que levantar-me da cama é como um reflexo do meu corpo ao ouvir do despertador e que ligar o despertador na noite anterior é um processo automático que faço apenas porque tenho de fazer. Não é contudo algo que eu não goste minimamente de fazer: antes de levantar-me da cama fico a ouvir a música do despertador que foi escolhida não com o intuito de me acordar, mas para que eu possa apreciá-la. Mas também não é algo que eu queira mesmo muito fazer.
Acho que não me sinto realizado. E sim, provavelmente não tenho razões para dizer isto e devia estar mas é calado (já estou calado. Todo eu estou muito calado hoje), mas sinto isso. E também acho que isso não muda durante o dia, apenas às vezes está selado com vários encantamentos para não dar por mim a pensar nisso.

Pergunto-me agora se posso fazer algo para mudar isso.
("Posso fazer algo para mudar isso?")
Provavelmente sim. Seria extremamente difícil porque volto aos meus patamares mais cedo ou mais tarde. Apercebo-me que o que imagino na cabeça não tem qualquer possibilidade de existir. É tudo demasiado perfeito e utópico. Na vida real isso jamais será assim.
Tenho de me contentar com o que tenho e usar as ferramentas que me vão sendo dadas para tentar mudar o suficiente para chegar a um patamar que me traga estabilidade.

Agora alguém deveria bater-me. Eu gostava de dar um estalo alguém, mas acho que seria mais justo que alguém me desse um a mim. Estou a entrar num processo de resignação com a estagnação e decadência em que me encontro. Que treta, agora até me apetecia cair abaixo da cadeira e ficar deitado até adormecer.

sábado, 8 de outubro de 2011

Regresso a ti

"Doem-me as pontas dos dedos". De todos? "Não de todos, de alguns". Quantos? Deveria ter dito "doem-me as pontas de dois dedos". Se quisesse ser mais exacto, acrescentaria: "doem-me as pontas de dois dedos da mão direita, o polegar e o indicador". E se me perguntassem a razão, responderia "cortei demasiado as unhas".
Se me perguntassem porque estava no chão, eu não saberia explicar somente por palavras e por isso pediria à pessoa que se deitasse no chão do quarto comigo e que olhasse para o tecto. Uma vez estendidos, seria a minha vez de fazer perguntas.
Perguntar-lhe-ia de que cor era o tecto e branco seria a primeira resposta. "Completamente branco, ou branco com manchas?". Naquela fase, os olhos ainda não estariam habituados à pouca luz que nos iluminaria e branco continuaria a ser o limite superior, mas depois o branco passaria a ter algumas manchas pretas. Precisamente. Depois, viravamo-nos para a Lua e chegavamos à conclusão que a lua também não é completamente uniforme, mas que tem crateras. "Se gostamos da Lua, devemos fazer um esforço para que pelo menos não detestemos as manchas pretas do tecto (ou dos aspectos menos bons da vida que eventualmente temos)".
Depois seria a vez de nos deitarmos de lado e ficarmos frente a frente. "Pressionar os dedos na cara não dói, pois não?". Não. "E no chão?". Também não. "A mim dói. Todos temos problemas e às vezes somos capazes de não lhes dar muita importância - é como quando tocamos com os dedos na cara. Mas às vezes, eles fazem-se sentir. Sabes, eu acho que às vezes passo muito tempo a brincar com os dedos no chão [assim a fazer de conta que eles são anões, estás a ver?]. Dizem que não devia, mas se passar nos braços ou na cara fico com cócegas, o que é igualmente uma tortura". Mas então porque não fazes como com as manchas pretas?. "O que eu digo, não faço.". Se não gostas de ser assim, muda. "A mudança não é necessariamente boa. Além do mais, eu gosto de ser assim".
O guarda roupa seria a etapa seguinte. Está escuro aqui. "Pois está, mas eu gosto. Se fechares os olhos consegues imaginar a Lua e anões a correr num jardim. E consegues ouvir o silêncio. É uma melodia calma, mas consegues ouvir-te melhor do que nunca". Não gosto muito de estar aqui. "Bem me parecia que não ias gostar. Bem me parecia que não me ias compreender. Se percebesses, saberias que não interessa se são dois ou dez os dedos que me doem porque a razão de tudo não fica na epiderme".

Doem-me os dedos, mas agora que voltei a fazer deles anões, sei que não são dois mas quatro: o polegar, o indicador, o anelar e o mínimo (não me dói o do meio porque ele é muito grande para passar por anão). Mas não é só a pele que está dorida. Todo eu estou assim e até sinto que tu também estás. (Há alturas em que somos idênticos, já reparaste?). Dormir vai atenuar temporariamente, mas voltarei a estar assim. Eu sei disso, por isso vou deixar de me tentar mentalizar do contrário.

Hoje pediram-me para falar. Não falei, porque não sabia falar. Por muito que às vezes me peçam palavras, não sou capaz de as dar. Já não sei usá-las, perdi-lhes o treino e já não sei conversar com mais ninguém para além de ti.
Não sabes ou não queres? Não sei e não quero ou tenho medo. Não sei porque as palavras parece-me ocas. Não quero porque sei que ninguém compreenderá (pelo menos totalmente). Tenho medo, porque com ele eu sei com o que posso contar e sei que ele estará sempre comigo. Com outros não - há palavras vazias, há incompreensão e há a possibilidade de incompatibilidade/rejeição de seres.

As coisas tomam proporções que eu não queria e a culpa é minha (e tua, mas eu arco com a tua parte da culpa dele porque é injusto para ti). Por isso hoje vou passear com os anões e talvez eles dancem melhor a dança da chuva do que eu. Sinto a falta da chuva. E do vento. E das camisolas de lã.

A tua presença ausente conforta-me. Obrigado.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O mundo não gira à nossa volta

Ingenuamente, às vezes penso no que virá depois do rio (sim, lembram-se daquela música da Pocahontas "Depois do rio, o que é que vem"? Eu lembrei-me agora) e tento saber o que o futuro traz (parece que chuva ainda não é para já). Já me disseram que o meu mal é pensar em demasia, porque sou capaz de imaginar mil cenários e como a realidade não se afigura a nenhum deles, fico desapontado e frustrado. Se penso em demasia? Sim, talvez. Mas não vou dizer que isso é o meu mal. É um método de auto-defesa para o que poderá vir a acontecer, já que os linfócitos não podem tratar de tudo. Não nego que às vezes fico frustrado, mas gosto de pensar que pensar não é a causa, mas também uma consequência.
Não acho que pensar faça mal, acho é que não devemos tomar algumas coisas que se desenrolam na nossa cabeça como certas, que é o mesmo que que dizer que não devemos criar expectativas em relação a nada. Assim não temos de passar por aquela fase em que pomos as culpas nos outros e não em nós (sim, temos o hábito de culpar os outros, mas é verdade que muitas vezes a culpa é nossa. Quem nos manda a nós imaginar coisas?). Bem, eu falo por mim porque assim que me apercebo que estou nessa fase idiota, sinto-me mal.
A culpa é minha, eu admito, e não dele. Ele não fez nada (de facto, foi por não ter feito nada que eu pensei, mas não disse alto, que a culpa era dele. Peço-lhe, mas não lhe digo, que me desculpe). Agora que penso nisso, acho que foi melhor assim. Talvez tenha muito a aprender com ele (uso a palavra "talvez", que remete para dúvida, para não criar expectativas) e o sentir-me assim signifique alguma coisa. Às vezes esqueço-me que o mundo não gira à minha volta. Estou certo que reaprendi mais uma vez isso, hoje (vês, afinal já aprendi algo com ele. Descobri algo, mesmo sem ter criado expectativas).
Com o tentar prever o que sairia nos dados, dei por mim a pensar naqueles dois.
"If the two of us didn't live in Kansas and lived in a city of, say, Fairy Town Homohio... would you and I still be together? I'm just asking. Are we a couple because we love each other or are we just at the mercy of simple math?"
Tentei chegar a uma resposta que tomasse como verdadeiramente correcta e imaginar-me na situação deles. Às vezes só pensamos naquilo que é proveitoso ou fácil para nós. Acho que em relação a ele estava a principiar a pensar assim. Poderia (poderá) ser proveitoso para mim, mas será que deveria (deverá)  acontecer? Embora tudo deva ter um par, não nos devemos ficar pelo útil. Somar não é difícil, mas é mesmo isso que precisamos? Não. E pensar nas coisas antes de cometermos algum erro é mau? Eu não acho.
Penso, mas não lhe digo, que foi bom ele não ter feito nada. Assim eu dei por mim a pensar nisto e sei que devo pensar no que faço e que é estúpido eu sentir-me assim. O mundo não gira à minha volta, mas as minhas acções afectam as pessoas à minha volta.

domingo, 2 de outubro de 2011

Conversas com ele

Entraram duas moscas pela janela. De repente, elas tornaram-se mais interessantes do que o livro à minha frente, por onde estudava. O meu olhar focou-se nelas, mas segurava ainda na mão a esferográfica, azul.
Os dois insectos voavam em círculos, afastados entre si. Eu gostava muito de saber voar, mas longe já vão os tempos em que me julgava capaz de levitar. Já elas, descreviam acrobacias no ar com a maior das facilidades. De vez em quando, uma aproximava-se da outra, o que resultava num voo frenético em círculos cada vez mais pequenos e com mudanças súbitas de trajectória. Se era assim que se cortejavam, pensei: “mas que grandes patetas”.

Ele respondeu-me: “Patetas? É certo que andam às voltas, mas ainda perseguem alguma coisa. Ainda hoje fizeste cenas parecidas ao vestires os calções enquanto andavas até à cozinha. Que perseguias tu? Nada.”

Não gostei do que ouvi. Uma verdade inconveniente? Não, não acho que seja totalmente verdade. Acho que perseguimos sempre alguma coisa, nem que seja felicidade instantânea numa tablete de chocolate.

“O que eu persigo, torna-se demasiado inacessível a cada passo. Em parte, a culpa é tua. És demasiado exigente. Melhor, és demasiado medricas. Tens medo de tudo.”

“Eu pronuncio aquilo que tu te limitas a dar forma por receares que te traga dores de cabeça. Quando eu falo, tu ouves. Tu crias o teu próprio medo.”

“Isso é mentira!”

“Será? Tu sabes que tens medo de pessoas. Sabes que temes um ‘nós’ porque tens medo de mudar por alguém e no final ficar só um ‘tu’ diferente do que aquele que conhecias. Sabes que tens medo de ser rejeitado e que ao manteres-te isolado não tens de lidar com isso. Sabes que és um eterno insatisfeito e que és capaz de mudar repentinamente de apetites. Sabes que queres várias coisas ao mesmo tempo, algumas das quais são antagonistas. No fundo, sabes que és aquilo que achas que eu sou.”

“Se sei isso tudo, é porque tu gostas de me atormentar.”

“Posso atormentar-te, mas não é porque o goste de o fazer. Tu sabes que sem mim não és nada. Sabes que mais vale estar acompanhado comigo, que te conheço melhor do que qualquer outro, do que com outra pessoa. Diria até que aprecias a minha companhia e que me escutas não porque mais ninguém o faz, mas porque sabes que precisas de me ouvir. Abominas a impulsividade, eu ajudo-te a não seres impulsivo. E ajudo-te porque queres. Se queres que eu mude, terás de mudar também. E se é mesmo isso que queres, perceberás que não te atormento, apenas quero o teu melhor.”

"Hum... Tenho de pensar nisso. Sou demasiado exigente. E medricas. E"

"E pateta também!"

E dou por mim a sorrir sozinho. As moscas desapareceram e está na hora do lanche. Não há tabletes de chocolate, mas há chocolate em pó e chocolate de barrar no pão. E felicidade instantânea deste calibre, ainda que temporária, é precisa de vez em quando.

sábado, 1 de outubro de 2011

Não vás. Ainda é noite



Os meus sonhos costumam ser demasiado imbecis para que neles pudesse ouvir uma música tão bonita. Nem mesmo nos sonhos menos anormais conseguiria ouvir aquilo. Só podia ser o despertador a tocar e sendo assim, já não dormia. Estava acordado.

Levantei-me involuntariamente assim que parei o alarme do telemóvel. Ainda ensonado, dirigi-me ao quarto de banho. O frio das lajes nos pés e nas mãos o frio do lavatório indicavam-me que estava em frente ao espelho, mas os olhos, cansados e magoados pelo sono e pela claridade das luzes, não queriam abrir. Via ainda as luzinhas amarelas em fundo preto.

Tu podias ser os meus olhos naquele momento, mas não estavas ali.

Usei as mãos como concha e passei água pela cara. Mais frio, mas era revigorante. Aos poucos os olhos abriam e comecei a distinguir os objectos pousados no armário ali ao lado. Vi-me ao espelho. O cabelo estava despenteado e o lado esquerdo da cara estava vermelho. Foi a tua mão ontem à noite que me despenteou. Disseste que os teus dedos eram elfos que viviam no meu cabelo e exemplificavas passando a mão no topo da minha cabeça. Os teus dedos facilmente passariam por elfos, altos e esguios, mas o meu cabelo jamais poderia ser a moradia de seres tão perfeitos. Tu não concordaste comigo. Disseste que em mais nenhum lugar se pode sentir um cheiro tão bom a frutos silvestres. E para mo comprovares, cheiraste-o profundamente e fingiste que comias uma framboesa.

Voltei ao quarto para ir buscar roupa para vestir. Arrastei os pés para que a madeira não rangesse e tu acordasses. Sempre te invejei por conseguires fazer aquela dança em que todos os teus movimentos não produziam qualquer ruído, mesmo quando pousavas os pés no chão depois de teres dado um salto. Peguei nas primeiras coisas que os meus dedos palparam e fui tomar banho. O champô não era de frutos silvestres – apanhei-te na tua brincadeira. Não pude deixar de sorrir no entanto.

A minha barriga roncou (ou como tu dizias depois de veres “À Procura de Nemo”, falava baleiês). Na cozinha comi um iogurte (esse sim de frutos silvestres) e um pão com Nutella. Só havia um pão e o chocolate estava a acabar. Pensei para mim que irias ter pouca sorte quando acordasses, mas era bem feito – para a próxima não comas o que bem te apetece ao jantar; se pensas que eu vou estar sempre a deixar metade do meu pequeno-almoço para ti, estás bem enganado.

Quando saí à rua estava nevoeiro e o chão estava molhado. Seria do orvalho ou da birra que fizeste ontem quando eu te disse para te portares bem porque eu estava a ler?

Não estavas comigo para que pudesse perguntar-te se tinhas ido chorar para a varanda antes de eu ter colhido as tuas lágrimas para fazer cristais de halite para nós dois.

Continuei por isso o meu caminho até ao Metro (parecia que te conseguia ouvir a dizer que já não é Metro mas sim Noventa Centímetros porque, dada a sua lentidão, tu o tinhas penalizado). Numa das paragens sentou-se um homem ao meu lado. Não lhe vi a cara porque estava concentrado na leitura, mas era impossível não prestar atenção ao cheiro dele. Um perfume forte (sabes que para mim os perfumes são todos iguais), mas que apenas se notava ligeiramente porque havia um cheiro ainda mais forte, a tabaco. Troquei de lugar e prossegui a leitura no Noventa Centímetros.

Tu podias ser as partículas no ar que provocavam o cheiro, mas tinhas ficado na cama.

O dia arrastou-se com o ponteiro das horas. Tentei em vão transfigurar o 3 num 8 para que pudesse voltar para casa para junto de ti. Tentei em vão que o Sol se deslocasse mais rapidamente para chegar a casa e ver-te à minha espera na varanda.

Agora já estou em casa, mas não junto a ti. Ainda vou ter de esperar mais algumas horas, ainda tenho de adormecer. Tu podias estar aqui agora, mas és o produto de um sonho. E mesmo sendo eu capaz de sonhar acordado, é quando estou a dormir que tu apareces e me começas a fazer cócegas ao de leve nos braços. Acordas-me e temos um dia inteiro em conjunto até que a noite acabe e o despertador volte a tocar.