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segunda-feira, 16 de novembro de 2015
procura-se
alguém viu o K. por aí? ou o Klaus? ou a Ursa Apolar?
digam-lhes que voltem.
tenho saudades deles.
domingo, 17 de março de 2013
no Verão durmo com um pijama do Mickey
Lembro-me de rever os filmes do Toy Story há uns anos e de ficar a pensar nos meus bonecos de infância arrumados no sótão. Senti-me mal por uns minutos com a possibilidade deles se sentirem rejeitados mas pensando melhor no assunto concluí que essa situação não se aplicava. Embora o Crocodilo No Dentista já não esteja na prateleira, nem a caixa com os Legos debaixo da cama, não me esqueci dos momentos fantásticos que passei com eles nem deixo de brincar com eles quando vou ao sótão e tenho tempo para me sentar no chão e recriar brincadeiras de infância. Os brinquedos moldaram os meus sonhos e foram um marco importante na minha vida mas cresci e, inevitavelmente, algumas coisas mudaram. Mas mesmo mudando, as coisas não têm de deixar de ser aquilo que foram.
Agora sinto estar na altura de arrumar este blogue e ainda que ele vá deixar de existir, a amizade que desde sempre senti por ele manter-se-á. Eu e o Kevin(?) crescemos com este blogue mas já existíamos antes dele, sempre vivemos para além dele e havemos sempre de viver juntos, pelo que não faz sentido deixarmos este espaço a ganhar pó. Apagá-lo não será indigno. Já não tenho o tapete com estradas desenhadas sobre o qual brincava com os carrinhos (os contornos do tapete já estavam descosidos da idade e do uso) quando ainda era pequeno, mas não é por isso que ele perde a importância que teve. Recordaremos sempre este blogue como o tapete que nos apoiou quando andávamos demasiado confusos com a vida [ainda estamos, mas a confusão já é outra] e cujas estradas nos deram a conhecer outros amigos.
Até sempre!,
Protego maxima, Fianto Duri, Repello Inimicum,
K. (J) e Kevin (?)
terça-feira, 5 de março de 2013
Não é totalmente verdade. Estou constipado e sinto arrepios nas costas e comichão no nariz. Mas se me abster disso é como se não sentisse nada. Algures durante uma noite, uma parte de mim deve ter ido explorar a noite e ainda não voltou. Talvez ande a comer bolos de chocolate ou cheesecakes e não queira regressar à dieta de bolachas que normalmente eu como durante o dia. E deixou-me apático. Não sei porquê.
Sei que tenho cartas, mails e comentários por responder. Mas de momento não tenho vontade de o fazer...
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Terra e Marte
Às vezes a Terra parece demasiado grande - há pelo menos vários centímetros a separem-me no mapa de alguns amigos que eu gostava de ter apenas a janelas de distâncias. Noutras parece-me demasiado pequena e sinto que o meu espaço de segurança é violado constantemente.
Saber que duas pessoas se encontram pela primeira vez e que em relativamente pouco tempo estão a falar de mim (não falar por meias palavras como "conheço um fulano assim" mas "conheço o K., que é um fulano assim e assado) sem que eu saiba disso por terem então descoberto que eu conhecia ambas não é lá muito confortável. Faz-me sentir badalado e isso soa mal aos meus ouvidos. E deixa-me inseguro. Como se estivesse exposto em praça pública e as pessoas fossem comentando o que sabem de mim ao ponto de eventualmente os marcianos estarem a par da minha existência.
Então e privacidade?
-.-
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
recordações e relógios
Hoje lembrei-me de quando era pequeno e a mãe me levava e aos irmãos ao mercado, aos Sábado de manhã. Era uma enchente de gente que ia dando encontrões para avançar pelos corredores e nós íamos de mãos dadas para que ninguém se perdesse. Nós eramos os anões ali no meio, se bem que eram algumas senhoras que vendiam legumes e peixe que tinham bigode, o que provocava o riso entre mim e os irmãos. Gostávamos de ir ver as galinhas e os patos e os coelhos mas o aproximarmo-nos era um desafio. É que tínhamos medo quando os animais se mexiam ou quando as aves começavam a grasnar e a esvoaçar, fazendo com que as penas se soltassem e sujassem o chão. Íamo-nos aproximando devagarinho para não as assustar mas regressávamos assustados e a correr pouco tempo depois. À saída do mercado havia uma senhora que vendia uns bolos que eram uns cones de massa folhada com creme de ovos no interior. Às vezes o creme vinha por inteiro na primeira lambidela pelo que comíamos primeiro o creme e só depois a massa, que costumava ser seca. Mas nós não nos importávamos. Eram bons!
Quando era pequeno e ainda não sabia ver as horas, tinha um relógio de plástico em que no mostrador havia só alguns números e os ponteiros não andavam. Gostava de o usar porque, ainda que não fosse sério, dava-me ar de gente crescida. Às vezes tenho saudades de um relógio assim e do ser criança. Talvez não fosse um escravo do tempo. Quando hoje o despertador do telemóvel tocou, calei-o e vi na lista de alarmes as horas a que acordo: 6h, 6h05, 6h30, 6h35, 6h45, 6h50, 6h55, 7h, 7h20, 7h30, 7h45, 8h, 8h15, 8h30, 8h45, 9h, 9h15, 9h30. Activo-os conforme o Metro que tenho de apanhar no dia seguinte, conforme a preguiça que prevejo ter, se só terei de me levantar da cama e sentar na cadeira da secretária ou se tenho de fazer algo antes disso. Acordo sempre com um daqueles alarmes e quando me custa levantar conto até três e no último número atiro os cobertores para trás e salto da cama. Era assim que o pai fazia quando eu e os irmãos íamos para a cama dele e da mãe e era preciso um impulso para que nos levantássemos.
Há pouco estava a arrumar umas canetas e resolvi pegar numa e desenhar um relógio no pulso. Em vez de números e ponteiros fiz uns olhos e uma boca, de modo que agora olho para o pulso e tenho algo a sorrir para mim.
E eu sorrio de volta.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
2012
Parece que chegamos ao fim do ano que alguns diziam ser o nosso fim. Algumas canetas e chocolates chegaram de facto ao fim mas não desapareceram por inteiro, seja porque as folhas brancas ficaram coloridas a azul e com relevo que agora me delicio a sentir com as polpas dos dedos, seja porque há memória de ter deixado o chocolate amolecer na boca e depois ter serpenteado a língua por entre os dentes para que não houvesse desperdícios. Os calendários já marcam 2013 mas 2012 continuará por aí, nem que por engano ao escrever as datas nos cantos das primeiras folhas, e não há um verdadeiro recomeço mas antes uma continuação porque no balanço dos 365 dias que passaram, pensando neles na medida em que os vivi ou existi e não de um ponto de vista muito factual e objectivo que há-de estar muito bem clarificado num livro de História, o que conta é a percepção que tivemos deles, o que reflecte aquilo que nós somos. E eu continuo aqui, mudado em relação ao que fui porque não consigo jogar às escondidas com o poder do crescimento, evolução, involução, adaptação e outras forças modeladoras mas não tão mudado quanto isso, pelo que os dias que ainda estão para vir, ainda que pertencentes a um novo ano civil, não se assemelham para já muito diferentes daqueles cuja meia-noite já tocou.
Houve dias bons e houve dias menos bons em 2012. Houve momentos que de bom grado repetiria e outros que faço figas para que não voltem a acontecer, e como «os nossos momentos pertencem à matilha e lembramo-nos de nós através dos outros» há que pensar nas pessoas com quem partilhei os dias. Houve pessoas que entraram na minha vida, tanto pela blogosfera como por fora (Al, não hás-de ler isto mas ficas aqui), e às quais me afeiçoei e a quem agradeço sinceramente por estarem ou terem estado presentes (não conheço pessoalmente metade das pessoas que me acompanham por aqui mas isso não faz de nós desconhecidos nem me impede de gostar de vós. Tinha começado a escrever nomes mas resolvi apagar para não me esquecer de ninguém ao escrever este post. Com os comentários, corujas, emails, sms, …, que fui enviando ao longo do tempo a probabilidade disso acontecer é menor), reforçaram-se os laços já existentes com outras (Weasley e driftin', obrigado por tudo. São das minhas pessoas favoritas e trago-vos sempre comigo) e afastei-me de algumas não porque tivessem sido más comigo mas porque as deixei de sentir em mim como dantes as sentia (e acho que mais vale preservar boas recordações do que ficar a assistir ao estancamento de uma relação…).
Não aprendi a falar francês nem a tocar cavaquinho nem a andar de skate, mas qualifiquei-me para conduzir o Ford Anglia Voador, aprendi algumas coisas sobre como andar de caiaque e novos palavrões na faculdade, deixei uma carta sentada no banco do Metro e descobri que não gosto de sushi.
Para 2013 peço um sistema imunitário competente para mim, para os meus familiares e amigos e para os familiares e amigos deles (porque estamos todos ligados e a tristeza e felicidade são partilhadas), nada de acidentes (a não ser aqueles que nos fazem rir muito depois de acontecerem), a capacidade de domar a ansiedade que em mim se tem instalado, de controlar-me quando tiver vontade de avançar os ponteiros do relógio e de saber avaliar a direcção do vento para saber orientar o guarda-chuva quando o uso e uma memória melhor porque acho que tinha mais coisas para contar quando comecei a escrever este texto mas já não me lembro do que era.
Espero que tenham entrado no novo ano com os dois pés (reconheçamos que a falta de alguns dos membros acarreta sempre algumas limitações) e se precisarem de estar em dois sítios ao mesmo tempo ou reparar algo que já aconteceu, tenho um Vira-Tempo, pode ser que ajude.
:)
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Phil's-osophy
»The most amazing things that can happen to a human being will happen to you,
if you just lower your expectations«
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
get over it---
Ele queria ser feiticeiro. E fazia o que achava estar ao seu alcance. Mas nem tudo dependia dela e a carta de Hogwarts teimava em não vir.
Disseram-lhe que podia tentar ser ilusionista mas ele não achava piada a isso. Ilusionista era mais uma forma de passar o tempo, de ocupa-lo com acontecimentos que no fundo não eram aquilo que pareciam. Aquilo que ele queria. E ele queria viver. Ser ilusionista seria para ele a eterna consciência de que há uma diferença entre o que se quer e o que se tem.
Lá acabou por decidir arranjar um baralho de cartas do Harry Potter e começar a treinar, numa tentativa de conciliar o sonho e a realidade.
É difícil quando se tem um Wingardium Leviosa tão bem formado na cabeça...
sábado, 3 de novembro de 2012
mudanças
Este blogue começou inicialmente por ser o local onde
desabafava sobre o que então me pareciam ser buracos negros. Depois irritei-me
com os meus próprios lamentos, percebi que usava eu próprio o lápis preto e passei
então a divagar sobre o que fazia no dia-a-dia, evitando acusar os astros de me
tramarem a vida. Mais tarde achei que embora as folhas dos calendários mudassem,
a minha vida não mudava assim tanto e que os dias não passavam de imitações dos
anteriores. E comecei a dar-me muito comigo e a estranhar a presença dos
outros. Foi a fase do estar só. Entretanto, começou a criar-se um ciclo vicioso
em que o tédio existencial me fazia refugiar em mim, o que me levava a fugir
para uma realidade imaginária agradável, onde paradoxalmente me fazia acompanhar
de outras pessoas, que tornava a realidade vivida ainda mais desagradável e por
aí em diante. E essa incapacidade em definir um equilíbrio de segurança entre a
realidade e a imaginação deixava-me – deixa-me – irrequieto, emocionalmente
instável e com a sensação de que os buracos negros se voltaram para mim.
Talvez esteja na altura de deixar este blogue. Ultimamente
escrever aqui era já um pouco patológico porque embora me proporcionasse um
momento agradável, não deixava de ser a constatação de que a minha vida não é
tudo aquilo que eu penso, o que é um pouco frustrante.
Talvez esteja na altura
de aprender francês, a andar de skate e a tocar cavaquinho, em vez de imaginar
que o faço, e de aceitar que na vida há uma diferença entre o que se quer e o
que se tem. Tentarei que esta aceitação não seja uma resignação nem mais um
queixume, mas o princípio para tomar uma atitude mais activa.
(a verdade é que não sei como vou conseguir, mas tenho
também de parar de tentar controlar tudo de uma vez, pelo que vou tentar viver um dia de
cada vez...)
Sei que me vai custar deixá-lo. Muito. Porque embora
escrever seja algo que gosto de fazer, foram vocês, os que cá passaram e passam,
que tornaram inesquecível a minha estadia aqui. Obrigado por me terem ouvido,
por falarem e sorrirem comigo, por me puxarem as orelhas e ajudado a crescer. Habituei-me
a sentir-vos como amigos e alguns de vocês são-me até melhores amigos! Continuarei a passar pelos vossos espaços, talvez menos vezes e talvez mais discretamente (sei que nunca fui um bom comentador. Peço desculpa por isso e por todas as situações em que vos possa ter deixado mal) mas apenas porque caso contrário terei tendência a regressar ao meu próprio blogue e porque tenho também de me habituar à ideia de que não posso estar sempre rodeado de pessoas tão fixes como vocês. Estarei ausente e presente ao mesmo tempo!
(não vou dizer nomes. Acho que há coisas que não precisam
ser ditas para que se saiba serem verdade. Contudo, não há mal em dizer o
quanto gostamos de alguém. Quando tiver tempo vou ver se mando uma coruja a cada um de vós!)
Talvez um dia me encontrem e eu a vocês por aí. Se virem
alguém a saltar discretamente nas pocinhas de água da chuva talvez seja eu. Se
virem alguém a rir-se sozinho talvez seja eu na brincadeira com a minha sombra.
Se virem alguém a mexer a boca enquanto anda talvez seja eu a cantar. Se virem
alguém a passear na praia à noite talvez seja eu. Se virem alguém a passar
várias vezes pela secção das bolachas no supermercado talvez seja eu a tentar
decidir qual o pacote a levar. E podem ajudar-me nessa tarefa e sentar-se a comê-las comigo.
Um brinde a vós,
hip hip hooray!
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
vidas...
Que o mundo não girava à minha volta já eu sabia porque ele não parece ficar enjoado mas já eu estive assim na segunda-feira. Mas às vezes parece que me esqueço de que há mais pessoas para além de mim e das pessoas que vivem e convivem comigo e que essas pessoas são muito mais do que figurantes dos meus sonhos e espectadores que nos vêem passar pela rua.
A senhora H paga a uma senhora, mesmo tendo sobrinhos e netos, para a levar ao médico, lhe preparar as refeições e ajudar a tomar banho... É cega do olho direito mas acho que depois de me ter contado da morte do marido e da filha ela os via encostados à janela. Quando saí ela lá ficou a olhar naquela direcção com os seus olhos azuis... A senhora D depende completamente do marido e do filho porque tem mobilidade muito reduzida mas quando falou deles sorriu muito e a voz tornou-se meiga. «Se me ajudam... Fazem tudo por mim!». A senhora A disse que estava preparada para morrer porque tinha gozado muito da vida mas que sabia que não podia morrer porque não tinha ninguém que tomasse conta do filho que dependia dela. No Metro entrou um casal de velhinhos e o senhor só se sentou depois da mulher se ter sentado. Ela fê-lo sem problemas, ele tinha problemas em curvar-se. Ela ficou a olhar pela janela com a sua cara encorrilhada pela idade e ele tirou uma revista que sublinhava à medida que lia.
Fico sem saber o que ando por aqui a fazer. Confuso com a vida. E vou sentindo-me pequenino...
domingo, 9 de setembro de 2012
el final
Quando vi a série Verão Azul há uns anos rapidamente aprendi a cantarolar a música e no último episódio instalou-se um silêncio em mim e os olhos humedeceram. E naquele Verão, e no seguinte, quis conhecer um Piraña, um Tito, uma Bea e Desi, um Javi, Pancho e Quique com quem pudesse entreter-me. Houve um ano em que numas férias a Espanha ainda cheguei a conhecer uns rapazes e raparigas espanhóis no hotel e com quem passei algumas tardes mas não passámos de companhia útil para nos divertirmos na piscina ou na esplanada. Actualmente as pessoas que me acompanham na praia têm nomes portugueses e são amigos e colegas dos tempos do secundário e eu já me limito a assobiar, seja porque a realidade caiu em mim seja porque já tenho amigos com quem partilhar emoções.
E o Verão chega ao fim. Não porque o Outono já ocupou o seu lugar mas porque a faculdade começa amanhã e já não haverá tempo para ir para a praia, que é a situação patognomónica da estação solarenta. Sinto-me apático. Passei o dia a montar um puzzle e depois desfi-lo. Às vezes a efemeridade das coisas mexe comigo. Mas o Outono está para chegar e eu gosto dele.
Amanhã tenho de comprar canetas. Azuis.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
as crianças
Estás tão grande! E magro!
Pois estou. Foi de jogar ao jogo do elástico no ATL. Tinha de esticar as pernas para conseguir ultrapassar os elásticos e elas acabaram por crescer. É certo que às vezes também as adubava. Sabia bem enterrar os pés na areia na praia, molhá-los ao saltar nas pocinhas de água quando chovia e cobri-los com terra quando andava pelo jardim. A força de gravidade também me deu alguns milímetros ao puxar-me as pernas quando me pendurava no ferro superior dos baloiços. Mais deram-me os suissinhos que eu comia. Eram bons. No Inverno aquecia-os no microondas até que descobri que o cheiro de plástico queimado era mau sinal. E se sou magro é de me ter contorcido todo quando jogava às caçadinhas. Não eram só as boas pernas que me mantinham em jogo, era o conseguir esquivar-me das mãos que me persigam encolhendo a barriga ou arqueando as costas.
Tens uns olhos tão bonitos!
A mãe tratou disso. Não só através dos alelos – que o pai também deu – mas também porque às vezes descascava cenouras e dava-mas para comer. Era no tempo em que precisava de ficar em cima de uma cadeira junto à banca para ficar da altura dela. Às vezes usava avental e podia ser eu a temperar a comida sob o seu olhar atento. Também me dava a provar mais coisas e ensinou que tinha de comer o que quer que aparecesse na mesa. Por isso é que eu não fazia birras no infantário quando apareciam legumes no arroz. Sou do tempo em que se faziam vulcões com o puré que expeliam ervilhas e isso era o máximo! Só nunca gostei muito do feijão-frade nem dos brócolos nem dos grelos mas com o tempo controlei a cara de esgar.
E tens uma imaginação tão grande!
O pai obrigava a ler 20 páginas por dia, o que para os meus irmãos era uma obrigação mas que para mim era um momento de prazer e que se estendia para além das 2 dezenas de páginas. E o que sonhava depois com aquilo que lia! Diverti-me com os sobrinhos do pato Donald, lutei ao lado do Príncipe Valente, fiz amizades com o Harry, andei pelo Shire com o Frodo, fiquei triste com os irmãos Baudelaire, voei com o Eragon e com os meus irmãos nunca havia falta de brincadeiras. Às vezes eramos jornalistas, noutras cientistas, estilistas, médicos e pacientes, polícias, arqueólogos, actores de cinema, animais selvagens e outras tantas coisas!
Agora as crianças só queimam os dedos porque não largam as consolas e confundem ervilhas com feijões, couves com alface e morangos com pimentos. Pensam que o mikado é uma cidade, têm medo dos livros sem imagens e com mais de 10 páginas e têm amigos pelo facebook em vez de saírem à rua com um pauzinho do chinês na mochila a fazer de varinha de feiticeiro.
Fui uma criança feliz.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
actualizações com formatação do disco
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Se pudesse, comia distâncias ao pequeno-almoço e enchia a
caneca até cima as vezes que fossem preciso para que no dia seguinte pudesse
comer já cereais de trigo com mel, ou chocolate em pó, ou nestum, ou cerelac, ou
bolachas, ou chá, ou sumo, acompanhado. Ou que pelo menos pudesse embrulhar um
pão com queijo ou fiambre, ou com queijo e fiambre, ou com manteiga de amendoim,
ou manteiga simplesmente, ou chocolate de barrar, ou compota, ou pão simples
num guardanapo para depois partilhar.
As distâncias existem e não são poucas as
vezes em que se tornam muito próximas e provocam uma comichão nos olhos ou no
coração. E custa sempre.
Talvez certas situações pudessem tornar-se menos difíceis se
eu resolvesse aumentar certas distâncias até que estas fossem superior ao raio
de alcance da minha máquina de sentir. Talvez se eu deixasse de tentar que o
presente se assemelhasse ao passado e o deixasse evoluir naturalmente para o
futuro a comichão passasse mais rápido quando estou com certas pessoas.
A rapariga da biblioteca continua a resistir ao tirar o top na
praia e a recusar-se a ir à água por causa da temperatura que para ela é sempre
gelada. Continua a comer gelados e a implicar comigo quando a ganho no Uno e a
considerar-se a melhor do mundo quando a vitória lhe calha a ela. Continua a
insistir em comparar os nossos tons de pele só para depois gozar comigo por ser
branco e atira-me areia para a toalha depois de eu acabar de a sacudir.
Mas agora já não larga o telemóvel e suspira por a mãe não a
deixar ir mais cedo para a cidade onde estuda. Agora reformula o podíamos ir a
tal sítio para vou lá com os meus amigos da faculdade. Agora já não fala das
peripécias de quando no secundário fomos acampar ou do baile de finalistas
porque já disse mais do que uma vez que agora é que está mesmo bem. E custa-me
sempre ouvir isso.
Também eu fiz amigos quando fui para a faculdade que se
tornaram pessoas importantes para mim mas tento deixar espaço em mim para as
que já existiam. Foi no secundário que as amizades se enraizaram em mim e talvez
por isso sinta que devo investir sempre nessas e que sou desleal caso não o
faça. Mas não depende tudo de mim e não tenho força para segurar as pessoas.
Acho que foi por isso que deixei de usar o beijinhos nas
sms ou postais ou emails para um abraço grande!. Acho que assim sinto sempre
mais a pessoa em mim, ainda que apenas pelo tempo que a pessoa demora a ler as palavras.
sábado, 18 de agosto de 2012
é assim a minha mãe
A mim doem-me as pernas da corrida de hoje quando me armei em Usain Bolt. À mãe doem as pernas mesmo agora que está de férias mas não é de usar tacões altos como as modelos. E os calos nas minhas mãos não passam da prova do meu capricho em frequentar o ginásio enquanto que os da mãe e a sua pele áspera são a impressão de anos de trabalho. As pernas da mãe, com as suas varizes, cicatrizes e outras marcas, contam também várias histórias. Era ainda miúda e já trabalhava. E nunca parou.
"Lembro-me de ver a tua mãe a caminho do trabalho a empurrar-te no carrinho de bebé com os teus irmãos, um de cada lado", dizem-me. Pois, talvez não devesse ter feito isso. Teria sido melhor se tivesse abrandado um pouco naquele tempo (e que agora também resolvesse descansar entre as muitas coisas que arranja para fazer - ou que deixasse os filhos fazerem alguma coisa!). Tem 55 anos mas o peso da vida dá-lhe uma marcha de pessoa mais velha. Mesmo sem brincar comigo aos piratas de perna de pau, às vezes a mãe manca. Os ossos estão gastos os tendões dos músculos frágeis das operações que já fez...
Quando sobe as escadas do prédio reconheço-a pelo barulho dos sapatos na pedra ou pelo das sacas que carrega quando batem na porta e pelo tilintar do colar de ouro. Levanto-me para lhe abrir a porta e ajudar com os sacos. E uma parte de mim está quase sempre naqueles sacos. Um chocolate, umas bolachas, um sumo, um bolo... Sorri-me quando lhe digo que não precisava ter comprado aquilo para mim e diz que se pudesse me dava mais. Não é preciso que o faça. A minha mãe vale muito mais do que tudo aquilo mesmo que combinado com o ouro que ela mesma guarda na caixinha com muito orgulho.
Sim, mãe, gosto muito de ti!
quarta-feira, 18 de julho de 2012
praia
«Só lenta e imperceptivelmente, com o passar das estações das colheitas e das estações da chuva, a sua ironia decresceu, a sua superioridade acalmou-se. Lentamente, por entre a sua riqueza crescente, o próprio Siddhartha adquiriu alguns traços das pessoas vulgares, algo da sua ingenuidade e da sua ansiedade. E no entanto invejava-as, invejava-as tanto mais quanto mais se parecia com elas. Invejava a única coisa que lhe faltava e que elas tinham, a importância que atribuíam às suas vidas, a intensidade das suas alegrias e medos, a angustiada mas doce ventura da sua eterna capacidade para amar.»
«Olhou satisfeito para o rio. Nunca a água lhe agradara tanto como esta, nunca compreendera tão clara e profundamente a voz e o significado alegórico da água que corre. Parecia-lhe que o rio tinha algo especial para lhe dizer, algo que ele ainda não sabia, que ainda o aguardava.»
Ele foi para o rio, escutou-o e aprendeu muito. Eu tenho o oceano, que para caber no bolso dos calções de praia digo que é mar. E que aprendi com ele? Apenas ouço o chapinhar das pessoas ao meu lado ou das crianças que gritam no areal e constato mais uma vez que não sei boiar. Bem tento mas a cabeça é a única parte do corpo que consegue ficar à deriva. Eventualmente vem uma onda e sou obrigado a erguer-me para respirar. Às vezes grito dentro de água, o que é uma sensação assustadora. Falta o ar e a água parece esmagar-me. É desconfortável. Venho à tona e tento boiar novamente.
«Quando alguém procura pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. Tu, Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objectivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos.»
Hermann Hesse - Siddhartha
segunda-feira, 16 de julho de 2012
benjamin button
Tenho de aproveitar um dia destas férias para ver o filme. Ainda não o vi por inteiro porque adormeci quando era para o ver com o pai. Isto de adormecer durante o dia deve ser da idade e dos corpos arenáceos na glândula pineal. Disseram-me que tinha mentalidade de velho e julgo que isso conta mais do que os 15 anos de aspecto físico que me atribuíram. É a vida. Um dia destes faço amizade com o Benjamin e discutimos quem tem a vida mais peculiar.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
como nos sonhos
apago a luz e por uns momentos tudo é demasiado imperceptível. depois os meus olhos vão-se habituando à luz que entra pela janela vinda da Lua e dos candeeiros e fico a olhar para o tecto que durante o dia é branco e que à noite fica castanho. não sei por quanto tempo fico assim porque eventualmente adormeço e já não tenho percepção do tempo, apenas dos sonhos. e quando acordo tenho percepção de que a minha vida é diferente daquele sonho que tive.
A esperança é uma coisa terrível, disse ela.
Ai é?
Sim, mantém-nos a viver noutro lugar, num lugar que não existe.
Para algumas pessoas é melhor do que o sítio onde estão. Para muitos é um consolo.
Na vida, disse ela. Um consolo na vida? Será que isso é algum viver?
Há pessoas que não têm outra escolha.
Não e isso é terrível.
A esperança é melhor que a infelicidade, disse ele. Ou o desespero.
A esperança não é tão má, contrapôs ele.
Ao menos o desespero tem algo de verdadeiro.
Hoje estás num estado de espírito muito negro.
Ela tentou um sorriso. É deste tempo todo que passo com os olhos fechados. Fechou os olhos.
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