domingo, 30 de dezembro de 2012

circo

No outro dia vesti o meu fato de criança e fui ao circo. Não consegui esconder o meu 1,86m (espero não ter tapado a vista aos miudinhos porque eles eram muitos e pequenitos) mas até bater palmas para acompanhar o ritmo dos malabaristas eu fiz. Só não achei piada aos palhaços porque eles eram irritantes valiam-se disso para terem piada. E retiro o que disse acerca dos ilusionistas: eles são fantásticos,  deixaram-me de boca aberta várias vezes e destruíram o meu sorriso da vez que pensei "oh, eu sei como eles fizeram aquilo".

Um dia fujo e junto-me a uma trupe de circo nem que seja como varredor do recinto. No fim meto-me no trampolim e fico aos saltos até não poder mais. Ou até chegar à Lua, fazer dela um escorregão e voltar à Terra.

Monumental Circo, no Coliseu do Porto, até dia 1 de Janeiro de 2013

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

domingo, 23 de dezembro de 2012

Toy Story Toons

O primeiro:
http://www.movie2k.to/Hawaiian-Vacation-watch-movie-950105.html

O segundo:

O terceiro:

sábado, 22 de dezembro de 2012

afinal

parece que o mundo não acabou. Oh, vou ter de continuar a estudar!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

hiperventilação

Acabada a noite e estando sozinho, deitado numa casa de uma amiga, o cheiro a tabaco dos cigarros que não fumei faziam sentir-se mais na minha roupa e cabelo. O pum pum alto da música já não se ouvia mas os ouvidos ainda não estavam habituados de novo ao silêncio e zumbiam. Não tão alto como os meus pensamentos porque esses ouço mesmo quando surdo. Ser capaz de domá-los eficazmente é algo que gostava de fazer. De facto, conseguir deitar-me tranquilamente à noite, sem ficar a ouvir um relato da minha consciência e dos meus medos e anseios, é das coisas que mais gostava de experimentar. Os meus medos assemelham-se-me a monstros gigantes que comem não só bolachas como também ar e pedaços de coração. Acho que é por isso que tenho sentido palpitações. E eu sei que, mais uma vez, o que sinto é exagerado e que devia controlar-me mas, mais uma vez, não consigo.
Acabada a festa da faculdade, começou o estudo para os exames. Sou um escravo da faculdade. E essa constatação não me agrada.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Phil's-osophy


»The most amazing things that can happen to a human being will happen to you,
if you just lower your expectations«

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

podíamos ser sempre crianças


como aquela do Metro no outro dia. Tinha uns 2, 3 anos, era loira e uma cara rechonchuda. Olhava para o meu reflexo no vidro e perante a minha língua de fora olhou para o lado, para me procurar e possivelmente ralhar, dizendo que aquilo não se fazia! Mas ao lado dele seguia a Mãe, e ao lado da mãe uma senhora. Onde estaria eu? Voltou a olhar para o vidro e imitou-me, pondo a língua de fora. Um movimento meu para o lado para me desviar do senhor que seguia entre mim e a criança foi o suficiente para ela perceber que a imagem do vidro não era mais do que uma representação minha, que estava não do lado dele mas à frente. E por isso seguiu o resto da viagem a meter-me a língua de fora pelo espaço entre a janela e os bancos. E a abrir a boca para se rir. Talvez a mãe tivesse pensado que ela sorria para o banco de plástico qual patetinha mas depois deu por mim e sorriu também. No final da viagem, já ao colo da mãe, riu-se e acenou-me. E eu segui viagem a olhar para o vidro, a desejar ser criança de novo e achar o mundo uma eterna novidade agradável.



I'm sorry to say that this is not the movie you will be watching. The movie you are about to see is extremely unpleasant. If you wish to see a film about a happy little elf, I'm sure there is still plenty of seating in theatre number two. However, if you like stories about clever and reasonably attractive orphans, suspicious fires, carnivorous leeches, Italian food and secret organizations, then stay, as I retrace each and every one of the Baudelaire children's woeful steps. My name is Lemony Snicket, and it is my sad duty to document this tale. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

get over it---

Ele queria ser feiticeiro. E fazia o que achava estar ao seu alcance. Mas nem tudo dependia dela e a carta de Hogwarts teimava em não vir.
Disseram-lhe que podia tentar ser ilusionista mas ele não achava piada a isso. Ilusionista era mais uma forma de passar o tempo, de ocupa-lo com acontecimentos que no fundo não eram aquilo que pareciam. Aquilo que ele queria. E ele queria viver. Ser ilusionista seria para ele a eterna consciência de que há uma diferença entre o que se quer e o que se tem.
Lá acabou por decidir arranjar um baralho de cartas do Harry Potter e começar a treinar, numa tentativa de conciliar o sonho e a realidade. 
É difícil quando se tem um Wingardium Leviosa tão bem formado na cabeça...


sábado, 3 de novembro de 2012

mudanças


Este blogue começou inicialmente por ser o local onde desabafava sobre o que então me pareciam ser buracos negros. Depois irritei-me com os meus próprios lamentos, percebi que usava eu próprio o lápis preto e passei então a divagar sobre o que fazia no dia-a-dia, evitando acusar os astros de me tramarem a vida. Mais tarde achei que embora as folhas dos calendários mudassem, a minha vida não mudava assim tanto e que os dias não passavam de imitações dos anteriores. E comecei a dar-me muito comigo e a estranhar a presença dos outros. Foi a fase do estar só. Entretanto, começou a criar-se um ciclo vicioso em que o tédio existencial me fazia refugiar em mim, o que me levava a fugir para uma realidade imaginária agradável, onde paradoxalmente me fazia acompanhar de outras pessoas, que tornava a realidade vivida ainda mais desagradável e por aí em diante. E essa incapacidade em definir um equilíbrio de segurança entre a realidade e a imaginação deixava-me – deixa-me – irrequieto, emocionalmente instável e com a sensação de que os buracos negros se voltaram para mim.

Talvez esteja na altura de deixar este blogue. Ultimamente escrever aqui era já um pouco patológico porque embora me proporcionasse um momento agradável, não deixava de ser a constatação de que a minha vida não é tudo aquilo que eu penso, o que é um pouco frustrante.
Talvez esteja na altura de aprender francês, a andar de skate e a tocar cavaquinho, em vez de imaginar que o faço, e de aceitar que na vida há uma diferença entre o que se quer e o que se tem. Tentarei que esta aceitação não seja uma resignação nem mais um queixume, mas o princípio para tomar uma atitude mais activa.

(a verdade é que não sei como vou conseguir, mas tenho também de parar de tentar controlar tudo de uma vez, pelo que vou tentar viver um dia de cada vez...)

Sei que me vai custar deixá-lo. Muito. Porque embora escrever seja algo que gosto de fazer, foram vocês, os que cá passaram e passam, que tornaram inesquecível a minha estadia aqui. Obrigado por me terem ouvido, por falarem e sorrirem comigo, por me puxarem as orelhas e ajudado a crescer. Habituei-me a sentir-vos como amigos e alguns de vocês são-me até melhores amigos! Continuarei a passar pelos vossos espaços, talvez menos vezes e talvez mais discretamente (sei que nunca fui um bom comentador. Peço desculpa por isso e por todas as situações em que vos possa ter deixado mal) mas apenas porque caso contrário terei tendência a regressar ao meu próprio blogue e porque tenho também de me habituar à ideia de que não posso estar sempre rodeado de pessoas tão fixes como vocês. Estarei ausente e presente ao mesmo tempo!
(não vou dizer nomes. Acho que há coisas que não precisam ser ditas para que se saiba serem verdade. Contudo, não há mal em dizer o quanto gostamos de alguém. Quando tiver tempo vou ver se mando uma coruja a cada um de vós!)

Talvez um dia me encontrem e eu a vocês por aí. Se virem alguém a saltar discretamente nas pocinhas de água da chuva talvez seja eu. Se virem alguém a rir-se sozinho talvez seja eu na brincadeira com a minha sombra. Se virem alguém a mexer a boca enquanto anda talvez seja eu a cantar. Se virem alguém a passear na praia à noite talvez seja eu. Se virem alguém a passar várias vezes pela secção das bolachas no supermercado talvez seja eu a tentar decidir qual o pacote a levar. E podem ajudar-me nessa tarefa e sentar-se a comê-las comigo. 

Um brinde a vós,
hip hip hooray!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

5 anos. Obrigado :)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

domingo, 28 de outubro de 2012

da tuberculose à diabetes


A avó torcia sempre o nariz e dizia que já nada era como dantes quando via os jovens extasiados a dançar. Dizia ela que aquilo era coisa do diabo e uma degradação de valores morais. E achou que o termos ficado tuberculosos era castigo divino (mas é claro que uns dias depois já rezava por todos os cantos que tínhamos aprendido a lição e que não valia a pena continuarmos a ser castigados). 

Fomos mandados para o campo para respirar ar saudável e quando a tuberculose passou voltamos a dançar e a cantar. A avó havia de resmungar novamente se nos visse de um lado para o outro e pior seria se percebesse que era assim que trocávamos bilhetinhos apaixonados, mas nós éramos jovens e o sangue fervia dentro de nós, mesmo sem a febre e o calor do sol. Também ela tivera o seu tempo dos amores, por isso no fundo ela havia de nos compreender. 

The way you dance and hold me tight
The way you kiss and say goodnight
Rave on it's a crazy feeling and
I know it's got me reeling
When you say I love you, rave on

Well! you're gonna miss me
Early in the morning, one of these days 

The little things you say and do
Make me want to be with you
Rave on it's a crazy feeling and
I know it's got me reeling
When you say I love you, rave on

It`s so easy to fall in love.
People tell me love`s for fools.
So, here I go, breaking all the rules. 

Take your time and take mine too
I have time to spend
take your time - go with me through
times 'til all time's end

Hey hey look at me and tell me
What's gonna happen to you
When you've spoken sweet words of love to me
And i want to marry you 

Moondreams can be a sensation
Moondreams may be fascination
Love can be our destination
You and I can share this dream




E na altura das vindimas nós éramos peritos em esvaziar os baldes.  Comíamos tantas uvas que as pessoas, vendo-nos sempre tão contentes, começaram a tecer teorias de que as uvas fermentavam em nós e que nós estávamos constantemente bêbados. E nós ríamos e comíamos mais uvas.

Agora estamos diabéticos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

»Gosto de quando me olhas com cara séria, com uma sobrancelha erguida e um olhar desafiador, e depois abres a boca num grande sorriso e te ris. Por isso é que às vezes pisco muitos os olhos nessas alturas. É a minha maneira de te tirar muitas fotografias para criar uma animação gif mental. E quando depois estou sozinho e fecho os olhos, passas a ser o papel de parede dos meus olhos.«

lista de contactos

Às vezes sento-me, ou deito-me, ou fico de pé, a percorrer a lista de contactos do telemóvel. Ao ler o nome de cada uma das pessoas lá marcadas formam-se imagens e sons de como as conheci, da sua aparência, do que vivi com elas, do que entretanto deixei de viver com algumas delas e às vezes até aparecem imagens inventadas pelo meu cérebro do que elas estarão a fazer naquele preciso momento. Perante tudo isso sorrio. Um sorriso misto. Crescem saudades e imagino conversas com algumas pessoas [não sei se vos acontece, mas às vezes dou por mim a ter conversas pensadas com outras pessoas. Noutras tenho verdadeiros diálogos comigo] e sobre outras recordo o passado e mentalmente permaneço lá porque foi então que a existência de um nós foi mais presente. Esta última situação é sempre algo que me deixa perturbado. Ainda que tenha sido pelo movimento natural dos astros e não porque eles conspiraram contra nós, custa-me pensar que algumas pessoas outrora frequentemente presentes na minha vida deixaram de o ser. Quando principiei o hábito de usar a lista de contactos como bola de cristal custou entender que a ordem natural dos acontecimentos era que houvesse um ponto onde os caminhos se dividiam. Tentei então criar intersecções e cruzamentos mas nunca fui inteiramente bem sucedido. As circunstâncias de vida passaram a ser diferentes e  o que aconteceu foi um ajuste da realidade.
Talvez agora, resignado, já tenha deixado de tentar fazer isso. Ou então percebi que a vida é cíclica e que na sucessão de etapas há diferentes pessoas a acompanhar-nos e cada uma tem a sua importância que permanece mesmo com a ausência... Não sei. Sei que às vezes actualizo a lista telefónica e apago contactos. Faço-o com pesar mas acho que é preferível à ideia de ficarem a ganhar pó... 

sábado, 20 de outubro de 2012

a brincar aos médicos

Aprendi a auscultar em ti.
Não o podia fazer em mim porque desde que te conhecia o meu coração batia mais rápido e as arritmias eram matéria avançada para quem estava a começar. Lembro-me de pôr os dedos na tua incisura jugular e descê-los pelo teu peito para encontrar o ângulo de Louis. Uma vez encontrado estava também descoberto o segundo espaço intercostal, que marquei com um marcador para saber onde tinha de pousar o estetoscópio. Estremeceste com as cócegas que a ponta fria te provocava mas contiveste o riso. Fui pressionando as tuas costelas para encontrar o quinto espaço intercostal e voltei a marcar. E para me facilitar o estudo (isso disse-te eu - na verdade queria ter era um pretexto para sentir a tua pele) marquei-te à superfície todos os contornos do coração e dos pulmões. Escalei-te a coluna vertebral com as polpas dos dedos e beijei-te a espinha mais saliente, aquela que dava um aspecto frágil à nuca quando te sentavas e apoiavas a cabeça na perna flectida. Quando já tinha feito de ti um mapa do tesouro pousei o estetoscópio nos locais certos e ouvi. Depois pousei directamente o ouvido.
Era tranquilizador ouvir-te e sentir-te comigo.
Agora que não estás deito-me com o relógio no pulso e ponho as mãos debaixo da cabeça porque o tic tac ritmado dos ponteiros fazem-me lembrar o teu coração. E ao sentir a minha carótida interna a pulsar na mão, perto do relógio, deixo-me enganar até adormecer ao pensar que existe um nós.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

dias e dias

Nunca fiz Primaveras. É sempre Outonos que celebro. E sabe bem ter chuva, vento a acompanhar-me o assobio e folhas estaladiças a fazerem de pandeireita.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

enganos

Recebi esta sms e fiquei com pena do remetente: «oi sou o diogo eu nao tenho sms er so para te dizer que es muito bonita». É que não só gastou dinheiro desnecessariamente (ou então gastou a última mensagem grátis comigo) como pode ter também perdido a oportunidade de conquistar a rapariga. Espero que não porque caso contrário recai alguma culpa sobre mim por ele ter estado na hora e momento errados e não me agrada essa posição. Respondi-lhe que se te tinha enganado no destinatário e desejei que as coisas corressem melhor na próxima tentativa. Vamos torcer para que sim!

domingo, 14 de outubro de 2012

»autodidacta

Aprendi sozinho a estar só
E sei fazê-lo tão bem
Que acho um desperdício
Não poder ensinar a ninguém.«

Lido numa parede de rua, num daqueles momentos em que vou a cantarolar sozinho.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

vidas...

Que o mundo não girava à minha volta já eu sabia porque ele não parece ficar enjoado mas já eu estive assim na segunda-feira. Mas às vezes parece que me esqueço de que há mais pessoas para além de mim e das pessoas que vivem e convivem comigo e que essas pessoas são muito mais do que figurantes dos meus sonhos e espectadores que nos vêem passar pela rua.
A senhora H paga a uma senhora, mesmo tendo sobrinhos e netos, para a levar ao médico, lhe preparar as refeições e ajudar a tomar banho... É cega do olho direito mas acho que depois de me ter contado da morte do marido e da filha ela os via encostados à janela. Quando saí ela lá ficou a olhar naquela direcção com os seus olhos azuis... A senhora D depende completamente do marido e do filho porque tem mobilidade muito reduzida mas quando falou deles sorriu muito e a voz tornou-se meiga. «Se me ajudam... Fazem tudo por mim!». A senhora A disse que estava preparada para morrer porque tinha gozado muito da vida mas que sabia que não podia morrer porque não tinha ninguém que tomasse conta do filho que dependia dela. No Metro entrou um casal de velhinhos e o senhor só se sentou depois da mulher se ter sentado. Ela fê-lo sem problemas, ele tinha problemas em curvar-se. Ela ficou a olhar pela janela com a sua cara encorrilhada pela idade e ele tirou uma revista que sublinhava à medida que lia.
Fico sem saber o que ando por aqui a fazer. Confuso com a vida. E vou sentindo-me pequenino...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

diz-me o Álvaro

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano, 
Firmo o projeto, aqui isolado, 
Remoto até de quem eu sou. 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 
O tique-taque estalado das máquinas de escrever. 
Que náusea da vida! 
Que abjeção esta regularidade! 
Que sono este ser assim! 

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros 
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância), 
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho, 
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve, 
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes. 

Outrora. 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 
O tique-taque estalado das máquinas de escrever. 

Temos todos duas vidas: 
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância, 
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa; 
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros, 
Que é a prática, a útil, 
Aquela em que acabam por nos meter num caixão. 

Na outra não há caixões, nem mortes, 
Há só ilustrações de infância: 
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler; 
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde. 
Na outra somos nós, 
Na outra vivemos; 
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer; 
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ... 

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Álvaro de Campos



«nesta morremos, que é o que viver quer dizer»... nestes últimos dias parece-me que é mesmo assim...

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

no campo

As linhas do arado perpendiculares à sombra das árvores desenhavam uma folha quadriculada na terra. Ainda pensei em chamar os primos para que jogássemos xadrez mas em vez disso pusemo-nos a comer uvas. Atirávamo-las ao ar e tentávamos que caíssem direitinhas na boca. Muitas bateram nos óculos ou na testa ou nos dentes mas não magoavam nem deixavam a gengiva a sangrar como quando uma vez resolvi comer M&M's desta forma. Rimo-nos e para que não dissessem que estávamos a estorvar ainda colhemos alguns cachos para a caixa mas guardámos alguns nos bolsos para comer no caminho de regresso a casa.  Deixámos que o Sol nos aquecesse as costas e nas descidas da estrada aproveitava-mos o impulso para correr e abrir os braços para sentir a deslocação do ar a roçar-nos na pele. Depois sentámo-nos no muro de casa e ficamos à espera que o resto da família chegasse.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

hands, touching hands

Alertam-nos para a importância de lavar as mãos e até nos mostram vídeos de como o fazer. E eu fico a pensar que toco num monte de objectos mas em pessoas é relativamente raro. Um aperto de mão ou nem isso.
Convivemos diariamente com pessoas e conhecemo-las de várias maneiras, mas o tacto da cara não costuma ser uma delas…

Que parvoíce a minha. O álcool desinfectante deve ter-me atingido o cérebro!

salta

Temos o mundo aos nossos pés até ao dia em que fazemos o pino. Por vezes fazemo-lo porque queremos, outras porque as leis do cosmo se alteram e nós sofremos com isso. Às vezes ainda podemos brincar com o mundo nas mãos, seja aos berlindes ou ao malabarismo. Mas pode dar-se o caso de sermos atingidos por meteoritos que acham que nos estamos a divertir muito e que assim não pode ser. Os berlindes rolam, alguns para debaixo dos armários e nada é como dantes. E andamos perdidos até percebermos que temos os pés no mundo e que ele faz de nós o que quiser.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Outono=Outubro

Na minha cabeça Outubro e Outono são a mesma coisa, tanto é que andei a pensar que hoje era o começo do Outono e não de Outubro. E se me perguntarem quando é que faço anos talvez vos diga que é no Outono e não em Outubro [e talvez diga que tenho 18 anos quando na verdade já tenho 19. Passou já quase um ano e ainda não me habituei ao novo número].
Chegou o Outono. Vamos viver. Vamos passear à chuva. Comer castanhas em casa com manteiga [ou com batata doce] ou na rua embrulhadas em papel de jornal. Vamos usar camisolas de malha e casacos com botões de pipos. Vamos à praia correr de um lado para o outro porque ela é toda nossa. Vamos para a janela fazer apostas nas gotas de chuva para ver qual é a primeira a chegar lá baixo. Vamos ver os espectáculos de luzes dos semáforos e dos carros reflectidas nas poças de água. Vamos!






domingo, 30 de setembro de 2012

ao telefone

Ontem experimentei ligar para mim mesmo. Ao fazê-lo surgiram-me três hipóteses no ecrã: ignorar, desligar+atender e em espera+atender. Achei que era muito ridículo ignorar-me, pelo que exclui a primeira hipótese. Desligar e atender ia deixar-me a falar sozinho, o que não tinha lógica. Escolhi então a terceira opção mas a chamada desligou-se. Ainda assim falei: "Boa noite! Quem fala? Está? Está?! Está aí alguém?!". Depois ri-me sozinho e continuei a andar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Outono!


Bem-vindo Outono ;)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

encontros no metro

Acho sempre imensa piada quanto vou a olhar pela janela no Metro e numa paragem está um veículo na outra linha também parado e o meu olhar se cruza com o da pessoa do outro lado do vidro.
Hoje foi engraçado quando esperava na estação para vir para casa e no veículo do lado oposto estava um amigo que ficou a olhar pelo vidro para mim enquanto eu acenava.

sábado, 22 de setembro de 2012

noites

polar night: occurs when the night lasts for more than 24 hours.

Não nos vamos levantar da cama nesses dias-noites. Empanturramo-nos de comida no dia anterior para que  os roncos da barriga não nos acordem quando passarmos o dia inteiro a sonhar. Até usamos fralda se for preciso mas temos de aproveitar as 24h para sonhar. Sonharemos com tudo e mais alguma coisa. Podem ser sonhos ridículos mas não imbecis - estes ficam para as noites banais. Depois esperamos pelas noites brancas e pelo sol da meia-noite.

midnight sun: the midnight sun is a natural phenomenon occurring in summer months at places north of the Arctic Circle and south of the Antarctic Circle where the sun remains visible at the local midnight. Around the solstice and given fair weather the sun is visible for the full 24 hours.

Talvez seja possível que nessas noites-dias os sonhos que sonhámos e que só foram reais no interior do nosso córtex occipital se tornem mesmo reais. Não seria fantástico?!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

se o Arrakis tivesse uma piscina seria assim

Se o Arrakis tivesse uma piscina seria assim:


e não esquecer que o interior da casa teria uma parte assim!:



Na minha cabeça o Arrakis tem de facto uma casa e piscina como estas e confesso que às vezes me auto-convido para usufruir delas. Salto a sebe e mergulho em bomba na piscina. Depois de molhado ele já não pode mandar-me embora sem primeiro me deixar secar dentro de casa. E a casa dele é mesmo fixe! Poder-se-ia dizer que é um museu mas pode-se deitar no chão quando se está cansado que ninguém nos olha de canto e não é preciso andar de um lado para o outro pela cidade para ver diferentes temas. Ah, e às vezes encontra-se por lá o Marcel, o Thomas e o Matthew e fica-se com sorrisos patetas durante uns tempos. Mas não se esqueçam de fazer uma vénia à Dama Elizabeth Taylor quando a virem lá!

domingo, 16 de setembro de 2012


às vezes todo eu sou vazio. vou então até ao quarto dos pais e deito-me na cama de braços e pernas abertas para encher o espaço à minha volta. fico a olhar para o tecto, de onde roubo tinta branca para tentar pintar a cores na cabeça. depois levanto-me e começo a fazer alguma coisa até que surja outra que passe a ocupar o meu tempo. agora vou dormir e esperar que o sonho da neve de ontem continue hoje. vou ver se consigo abrir os braços e as pernas para fazer um anjo no gelo.



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

monopólio


Everybody else will be out drinking
But I don't feel like drinking
Do you wanna stay in and hang out with me?
We could play some Monopoly

It's embarrassing to think that at 25
I'm not doing something more wild with my life
There's a party over here, a party there
But my favourite party is in my bed

So will you please spend New Year's with me?
We can hide in my bedroom and watch cartoons all night




»-Calhei nas tuas propriedades. Não tenho dinheiro para te pagar.
-Não faz mal. Aceito beijos.
-Quantos?
-Vai dando até eu mandar parar.
.
..
...
-Posso calhar mais vezes nas tuas casas?
-Podes.
:)«

domingo, 9 de setembro de 2012

el final


Quando vi a série Verão Azul há uns anos rapidamente aprendi a cantarolar a música e no último episódio instalou-se um silêncio em mim e os olhos humedeceram. E naquele Verão, e no seguinte, quis conhecer um Piraña, um Tito, uma Bea e Desi, um Javi, Pancho e Quique com quem pudesse entreter-me. Houve um ano em que numas férias a Espanha ainda cheguei a conhecer uns rapazes e raparigas espanhóis no hotel e com quem passei algumas tardes mas não passámos de companhia útil para nos divertirmos na piscina ou na esplanada. Actualmente as pessoas que me acompanham na praia têm nomes portugueses e são amigos e colegas dos tempos do secundário e eu já me limito a assobiar, seja porque a realidade caiu em mim seja porque já tenho amigos com quem partilhar emoções.

E o Verão chega ao fim. Não porque o Outono já ocupou o seu lugar mas porque a faculdade começa amanhã e já não haverá tempo para ir para a praia, que é a situação patognomónica da estação solarenta. Sinto-me apático. Passei o dia a montar um puzzle e depois desfi-lo. Às vezes a efemeridade das coisas mexe comigo. Mas o Outono está para chegar e eu gosto dele.

Amanhã tenho de comprar canetas. Azuis. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

as crianças


Estás tão grande! E magro!
Pois estou. Foi de jogar ao jogo do elástico no ATL. Tinha de esticar as pernas para conseguir ultrapassar os elásticos e elas acabaram por crescer. É certo que às vezes também as adubava. Sabia bem enterrar os pés na areia na praia, molhá-los ao saltar nas pocinhas de água quando chovia e cobri-los com terra quando andava pelo jardim. A força de gravidade também me deu alguns milímetros ao puxar-me as pernas quando me pendurava no ferro superior dos baloiços. Mais deram-me os suissinhos que eu comia. Eram bons. No Inverno aquecia-os no microondas até que descobri que o cheiro de plástico queimado era mau sinal. E se sou magro é de me ter contorcido todo quando jogava às caçadinhas. Não eram só as boas pernas que me mantinham em jogo, era o conseguir esquivar-me das mãos que me persigam encolhendo a barriga ou arqueando as costas.

Tens uns olhos tão bonitos!
A mãe tratou disso. Não só através dos alelos – que o pai também deu – mas também porque às vezes descascava cenouras e dava-mas para comer. Era no tempo em que precisava de ficar em cima de uma cadeira junto à banca para ficar da altura dela. Às vezes usava avental e podia ser eu a temperar a comida sob o seu olhar atento. Também me dava a provar mais coisas e ensinou que tinha de comer o que quer que aparecesse na mesa. Por isso é que eu não fazia birras no infantário quando apareciam legumes no arroz. Sou do tempo em que se faziam vulcões com o puré que expeliam ervilhas e isso era o máximo! Só nunca gostei muito do feijão-frade nem dos brócolos nem dos grelos mas com o tempo controlei a cara de esgar.

E tens uma imaginação tão grande!
O pai obrigava a ler 20 páginas por dia, o que para os meus irmãos era uma obrigação mas que para mim era um momento de prazer e que se estendia para além das 2 dezenas de páginas. E o que sonhava depois com aquilo que lia! Diverti-me com os sobrinhos do pato Donald, lutei ao lado do Príncipe Valente, fiz amizades com o Harry, andei pelo Shire com o Frodo, fiquei triste com os irmãos Baudelaire, voei com o Eragon e com os meus irmãos nunca havia falta de brincadeiras. Às vezes eramos jornalistas, noutras cientistas, estilistas, médicos e pacientes, polícias, arqueólogos, actores de cinema, animais selvagens e outras tantas coisas!

Agora as crianças só queimam os dedos porque não largam as consolas e confundem ervilhas com feijões, couves com alface e morangos com pimentos. Pensam que o mikado é uma cidade, têm medo dos livros sem imagens e com mais de 10 páginas e têm amigos pelo facebook em vez de saírem à rua com um pauzinho do chinês na mochila a fazer de varinha de feiticeiro.

Fui uma criança feliz.

domingo, 2 de setembro de 2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

diário

Agosto, 8

Sonhei com um rapaz que andou comigo no secundário e que esteve um período de tempo na mesa do lado e a quem eu dizia as escolhas múltiplas de Matemática. Era de noite e ele vinha por trás de mim e abraçava-me como se viesse para as minhas cavalitas e perguntava como é que eu estava. Depois dizia que me queria dar um beijo e fazia-o sem esperar por consentimento meu. Dávamos as mãos e continuávamos a andar.
Foi um sonho estranho e perturbador.
Não foi o namorar em si que me perturbou. Foi o modo como me sentia no sonho.
Tenho sonhos estúpidos em que não sinto nada. Tenho aqueles sonhos ou lá que é durante a paralisia do sono em que sinto medo porque parece que vou ficar preso naquele estado. Quando acordado tenho mil e uma coisas a passar-me pela cabeça. Mas no sonho de hoje era tudo diferente. Eu estava bem. Calmo comigo mesmo. Feliz com ele. Foi assustadoramente bom.
«Antigamente sonhava acordado. Desta vez sonhei dormindo. E dormindo os sonhos se parecem mais com realidade.»
E dias mais tarde tive um sonho com cheiro...




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

actualizações com formatação do disco



Se pudesse, comia distâncias ao pequeno-almoço e enchia a caneca até cima as vezes que fossem preciso para que no dia seguinte pudesse comer já cereais de trigo com mel, ou chocolate em pó, ou nestum, ou cerelac, ou bolachas, ou chá, ou sumo, acompanhado. Ou que pelo menos pudesse embrulhar um pão com queijo ou fiambre, ou com queijo e fiambre, ou com manteiga de amendoim, ou manteiga simplesmente, ou chocolate de barrar, ou compota, ou pão simples num guardanapo para depois partilhar.

As distâncias existem e não são poucas as vezes em que se tornam muito próximas e provocam uma comichão nos olhos ou no coração. E custa sempre.

Talvez certas situações pudessem tornar-se menos difíceis se eu resolvesse aumentar certas distâncias até que estas fossem superior ao raio de alcance da minha máquina de sentir. Talvez se eu deixasse de tentar que o presente se assemelhasse ao passado e o deixasse evoluir naturalmente para o futuro a comichão passasse mais rápido quando estou com certas pessoas.

A rapariga da biblioteca continua a resistir ao tirar o top na praia e a recusar-se a ir à água por causa da temperatura que para ela é sempre gelada. Continua a comer gelados e a implicar comigo quando a ganho no Uno e a considerar-se a melhor do mundo quando a vitória lhe calha a ela. Continua a insistir em comparar os nossos tons de pele só para depois gozar comigo por ser branco e atira-me areia para a toalha depois de eu acabar de a sacudir.

Mas agora já não larga o telemóvel e suspira por a mãe não a deixar ir mais cedo para a cidade onde estuda. Agora reformula o podíamos ir a tal sítio para vou lá com os meus amigos da faculdade. Agora já não fala das peripécias de quando no secundário fomos acampar ou do baile de finalistas porque já disse mais do que uma vez que agora é que está mesmo bem. E custa-me sempre ouvir isso.

Também eu fiz amigos quando fui para a faculdade que se tornaram pessoas importantes para mim mas tento deixar espaço em mim para as que já existiam. Foi no secundário que as amizades se enraizaram em mim e talvez por isso sinta que devo investir sempre nessas e que sou desleal caso não o faça. Mas não depende tudo de mim e não tenho força para segurar as pessoas.

Acho que foi por isso que deixei de usar o beijinhos nas sms ou postais ou emails para um abraço grande!. Acho que assim sinto sempre mais a pessoa em mim, ainda que apenas pelo tempo que a pessoa demora a ler as palavras.

heartbeat chilli

E já que estou numa de culinária, fica aqui uma música que me agrada bastante de uma banda que canta muitas vezes comigo.





I was in the kitchen on my own making chilli
You came in with an onion and got dicing
It seems silly, but this chilli has two heartbeats in the recipe
So come over, give your heart to me

I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine

* * *

I was in the kitchen on my own making spaghetti
You came in with an onion and got dicing
It seems silly, but spaghetti has two heartbeats in the recipe
So come over, give your heart to me
So come over, give your heart to me
I adore you, give your heart to me

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

bolo de noz

Ingredientes:
   .6 ovos
   .250g de nozes moídas
   250g de açúcar
   30g de farinha

Modo de preparação: bata as gemas com o açúcar até obter um creme esbranquiçado, misture a farinha com as nozes moídas. Acrescente a mistura de farinha e das nozes ao batido de gemas e açúcar. Envolva tudo muito bem e, por fim, junte as claras batidas em castelo. Leve ao forno 50 minutos a 160ºC em forma untada de manteiga e farinha. 



Separar a gema e a clara é sempre uma trabalheira! Bater o ovo na esquina da banca, parti-lo em dois com os dedos e embalar as metades para a clara escorrer. Os dedos vão ficando pegajosos e besuntados mas com cuidado não há misturas indevidas dos constituintes do ovo.
Na altura de juntar o açúcar, esqueço-me de que sei ler e ignoro todos os avisos de segurança da professora de Química porque para me certificar de que pego no pacote certo mergulho os dedos na embalagem e levo-os à boca [nunca devem cheirar ou provar o conteúdo dos frascos. Devem sempre ler os rótulos e estar atentos aos sinais de perigo, dizia ela]. É só lá que sei que peguei no ingrediente certo. [às vezes repito o procedimento. Não faz mal nenhum jogar pelo seguro (e até é bom!].
Por muito que desse à manivela com a colher de pau, os ovos caseiros impossibilitaram que o creme ficasse esbranquiçado. Ainda assim segui em frente. 
As nozes ainda tinham de ser partidas porque a razão de fazer o bolo era gastar as nozes que tinham dado aos meus pais. Foram 30 minutos de crack crack. A mão tremia do esforço continuado dos músculos. Enquanto isso tentava procurar uma noz que fosse o mais parecida com um cérebro humano. Algumas tinham o giro central mas não tinham o parieto-occipital, outras tinham o giro frontal mas não tinham o calcarino. Algumas que não passavam na selecção eram comidas e dadas como sacrifício aos sucos digestivos que se começavam a formar com a mera visualização de comida. 
A farinha não foi adicionada sem primeiro passar pela minha cara. Assim como gosto de fazer de conta que sou estrangeiro quando vou passear com a minha irmã e falamos em inglês, gosto de às vezes passar por outras pessoas. Com a farinha na cara era como o palhaço do circo. Ou como as senhoras que metem pó na cara antes de saírem de casa para um encontro romântico. 
Por fim, juntar as claras em castelo. São, a seguir ao acto de comer, a minha parte preferida. Bater tudo, inverter a bacia sobre a cabeça e certificar-me de que não cai. É sempre a medo que o faço ainda que possam estar bem presas. Se pudesse voltar atrás no tempo ensinava aos construtores a maneira de edificarem castelos e fortalezas sem risco de derrubamento por forças inimigas. O segredo estaria no uso das claras na argamassa. Acho que seria infalível.
Enquanto o bolo ganhava consistência no forno, guardava e lavava o material todo. Guardei uma casca de noz que mascarei de barco. Usei um palito para fazer de mastro, enchi o interior com açúcar para fazer de mercadoria e a farinha foi usada para fazer de espuma do mar que era as claras que tinham ficado nas cascas dos ovos.

E o bolo ficou bom. Para a próxima vou ver se faço este.

domingo, 26 de agosto de 2012

tatuagem


A menina no penúltimo banco da igreja, de vestido com flores estampadas e cabelo loiro apanhado numa trança caída no ombro esquerdo, ficou encantada quando descobriu a tatuagem feita pelos raios de Sol assim que atravessavam o vidro e se dividiam nas suas muitas cores. Quando viu o arco-íris mexer-se quando moveu o braço os olhos abriram-se ainda mais e começou a rir-se. 

É bom ser-se criança e o mundo caber-nos nas mãos. E as coisas acontecerem-nos a nós porque somos maiores do que nós mesmos. Somos o Robin Hood, o Power Ranger vermelho, as Tartarugas Ninjas, o Batman, o Action Man, o San Goku e o Inspector Gadget e quem nos apetecer. 

Aprendi algures que a jarra de vidro cortava a mão mas ainda assim o Game Boy só existia verdadeiramente quando o tinha na mão. Quando me esquecia dele em casa conseguia-o imaginar no sofá mas era como se ele não existisse porque ninguém estava a olhar para ele. Mas agora o mundo é demasiado grande e as minhas mãos só fazem nonas no piano e o meu metro e oitenta e cinco só me permite chegar facilmente às prateleiras de cima, onde às vezes escondo as bolachas.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

o Verão dos pepinos

Acho que as varandas nunca são tão usadas como no Verão. E com isso acho também que é no Verão que os mexericos se espalham mais facilmente de janela em janela, mesmo sem haver grande vento que ajude no processo. Eu não falo com os meus vizinhos porque não partilho o gosto de fumar ou de atirar lixo do 2º andar do rapaz da frente e no lado estão agora franceses que não se impressionariam simplesmente com a minha conjugação do verbo avoir e être. Quem falou comigo foi a senhora do comboio e eu fiquei a saber a vida do filho dela, que até era parecido comigo.

Às vezes das janelas projectam-se câmaras fotográficas e então eu passo a desfilar pela rua a acenar com a mão, discretamente, para não ficar com cara de emplastro caso fique enquadrado nalguma fotografia. Às vezes é nesses actos que faço realmente figuras menos felizes porque sou apanhado em flagrante e tenho de fingir que estava a passar a mão pelo cabelo áspero do sal da praia. Talvez um dia venha a descobrir que apareço em postais de férias à conta disso, tal como aconteceu às minhas tias. É já por isso que ando a treinar os autógrafos na última página do bloco que anda comigo.

Das panelas das cozinhas saem cheiros que perfumam a rua, alguns dos quais conheço e outros que me são totalmente desconhecidos. Os cheiros provocam-me miragens e activam-me a fase cefálica da digestão. Inicia-se o jogo mental de tentar descobrir o que vai ser o jantar, que acaba quando chego a casa e vejo a travessa na mesa. Às vezes engulo em seco a lasanha que tinha imaginado porque há uma diferença entre aquilo que quero e aquilo com que me deparo. Mas mesmo quando a comida não me agrada tenho de deixar o prato bem composto porque senão a mãe diz que estou cada vez mais magro. (e não é verdade, a balança testemunha em meu favor!) Este é o Verão dos pepinos. Há sempre pepino a acompanhar o prato principal e eu viciei neles. Se fossem como os espinafres do Popeye eu já estava um verdadeiro gladiador de tanto os comer. 

sábado, 18 de agosto de 2012

é assim a minha mãe

A mim doem-me as pernas da corrida de hoje quando me armei em Usain Bolt. À mãe doem as pernas mesmo agora que está de férias mas não é de usar tacões altos como as modelos. E os calos nas minhas mãos não passam da prova do meu capricho em frequentar o ginásio enquanto que os da mãe e a sua pele áspera são a impressão de anos de trabalho. As pernas da mãe, com as suas varizes, cicatrizes e outras marcas, contam também várias histórias. Era ainda miúda e já trabalhava. E nunca parou.
"Lembro-me de ver a tua mãe a caminho do trabalho a empurrar-te no carrinho de bebé com os teus irmãos, um de cada lado", dizem-me. Pois, talvez não devesse ter feito isso. Teria sido melhor se tivesse abrandado um pouco naquele tempo (e que agora também resolvesse descansar entre as muitas coisas que arranja para fazer - ou que deixasse os filhos fazerem alguma coisa!). Tem 55 anos mas o peso da vida dá-lhe uma marcha de pessoa mais velha. Mesmo sem brincar comigo aos piratas de perna de pau, às vezes a mãe manca. Os ossos estão gastos os tendões dos músculos frágeis das operações que já fez...
Quando sobe as escadas do prédio reconheço-a pelo barulho dos sapatos na pedra ou pelo das sacas que carrega quando batem na porta e pelo tilintar do colar de ouro. Levanto-me para lhe abrir a porta e ajudar com os sacos. E uma parte de mim está quase sempre naqueles sacos. Um chocolate, umas bolachas, um sumo, um bolo... Sorri-me quando lhe digo que não precisava ter comprado aquilo para mim e diz que se pudesse me dava mais. Não é preciso que o faça. A minha mãe vale muito mais do que tudo aquilo mesmo que combinado com o ouro que ela mesma guarda na caixinha com muito orgulho.

Sim, mãe, gosto muito de ti!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

As histórias que o pai contava à noite passavam-se sempre num reino muito distante, o que devia ser depois da casa dos avós, a muitos pés de minha casa. Naquela altura contava a distância pelo número de passos que dava e a língua enrolar-se por não conseguir digerir as sílabas todas era sinal de que já tinha andado mesmo muito. Por isso é que nas histórias eles usavam cavalos. Depois aprendi na escola a contar centímetros e metros e a transformá-los em quilómetros. Passei então a usar um mapa e uma régua para saber o que era longe e o que era perto.

Isso falhou quando o avô morreu. A mãe ensinou-me a falar com ele através das estrelas, o que para mim era muito longe mas a mãe dizia que ele estava sempre comigo. Não percebia muito bem. Acho que foi por isso que não chorei. Pensei que o avô tinha pegado nas coisas de explorador e ido à procura da Terra do Nunca para depois me levar lá com ele. No entanto, a mãe não parecia não lidar muito bem com a situação e chorava muito. Eu só chorei mais tarde.

Quando compreendi que o mundo não girava à minha volta percebi melhor a importância dos outros na minha vida. E os beijos e abraços que dantes dava frequentemente e de modo quase automático tornaram-se mais raros mas com mais significado. Por isso foi mais difícil quando a avó morreu. Chorei quando me deram a notícia de que ela tinha partido e ainda mais quando descobri que a distância e a saudade andavam de mãos dadas mas eu não podia sentir uma última vez as mãos ásperas da avó a acariciar-me. E embora ajudasse ter as estrelas à janela, os anos-luz eram insuportáveis. 

Passei a temer a distância e cego por ela aproximei-me mais das pessoas que amava. Pensava eu que se as prendesse a mim talvez elas não partissem e assim não teria de recorrer a astrolábios. Foi duro quando vi que isso não acontecia. E pior era quando ficavam coisas em mim por dizer e fazer. Nunca me habituei à separação. Era até cada vez mais difícil. Acabava sempre por ficar mais sozinho. O silêncio que ficava era esmagador e eu desejei que o meu coração também se calasse de vez.

Não o fez e por isso resolvi combater a distância com distância. Sente-se mais a distância quanto mais perto estamos e eu quis estar longe. Se criasse uma distância emocional entre mim e os outros então não lidaria com mais nenhuma perda e isso parecia-me bem. Sabia que escolhia o caminho da solidão mas se era uma opção não podia ser tão mau como diziam. Achava eu.

Afinal era possível estar mais sozinho, mesmo com recordações. O silêncio é a batida das saudades e é nele que se ouve melhor as vozes e os risos e se sente mais a ausência do toque e do calor daqueles que já tinham partido. E daqueles de quem nos distanciamos. Se alguém tinha morrido tinha sido eu. Porque a vida é melhor partilhada e eu tinha-me distanciado. 





«E eu não me esquecia dêle. Das suas risadas. Da sua fala diferente. Até os grilos lá fora imitavam o réquete, réquete da sua barba. Não podia deixar de pensar nêle. Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segrêdo. Dor que dava desânimo nos braços, na cabeça, até na vontade de virar a cabeça no travesseiro.»

«Os anos se passaram, meu caro Manuel Valadares. Hoje tenho quarenta e oito anos e às vêzes na minha saudade eu tenho impressão que continuo criança. Que você a qualquer momento vai me aparecer me trazendo figurinhas de artista de cinema ou mais bolas de gude. Foi você quem me ensinou a ternura da vida, meu Portuga querido. Hoje sou eu que tento distribuir as bolas e as figurinhas, porque a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vêzes sou feliz na minha ternura, às vêzes me engano o que é mais comum.»
José Mauro de Vasconcelos, Meu Pé de Laranja Lima

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

sinais

Perdeu a cabeça! disseram quando perguntei quem me acompanhava num gelado em pleno Inverno. Eu não tinha perdido a cabeça (a mãe sempre me ensinou a ser responsável). Sabia onde ela estava. Depois de ma teres ocupado, decapitaste-me e levaste-a quando partiste. O hipocampo ficou e o hábito de comermos um gelado e competirmos para ver quem era o mais resistente ao frio ainda fazia com que fizesse aquela pergunta e esperasse uma resposta afirmativa. Agora apenas me chamavam louco.

Santinho! disseram quando depois espirrei. Mas era despropositado. A minha alma não iria sair. Já tinha saído. Levaste-a contigo. Espirrei novamente porque espirrava sempre aos pares. E não devia. Agora já não gostava de que as coisas existissem no plural porque faziam-me sentir pequeno. Já não era como dantes. Como eu gostava daqueles dias em que era o sono e não o sonho que me dava visão dupla logo ao acordar, permitindo-me assim ver-te duplamente. Não havia melhor forma de acordar. Depois tu passavas a mão no meu cabelo, limpavas-me alguma remela e acabavas com a minha diplopia. Passava a ver uma só imagem tua mas isso não era uma redução. Naquela altura eras tão grande que enchias todos os meus olhos. A menina dos olhos até se sentia intimidada. E tinha razões para isso.

Eras tudo para mim e quando foste embora do tudo que me fazias sentir ficou o nada. Nada. E como tu sempre foste a minha referência agora não sei encontrar-me. Já tentei unir com um marcador preto (até suportei as cócegas!) os sinais que tenho nas costas para encontrar a Ursa Maior e a Menor e o Orion mas não as encontro porque para além de não ser contorcionista, na minha pele branca há poucos pandas e o caçador não anda por lá a caçá-los para não os levar à extinção.

Faltam-me os teus sinais. Faltas-me tu.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

atestado médico

«Alguns empregados e psicólogos acreditam que estar longe da rede social pode ser um sinal de perigo»

«O ´Facebook` tornou-se numa parte tão importante da vida das pessoas que, hoje em dia, há quem acredite que não ter conta na rede social pode significar que algo está mal. A revista alemã ´Der Taggspiegel` chegou mesmo a salientar que o norueguês Anders Breivik e o atirador James Holmes tinham uma coisa em comum: nenhum deles tinha conta no ´Facebook`.

Segundo a revista, Holmes, suspeito da morte de 12 pessoas, frequentava apenas o site de encontros ´Adult Friend Finder`. Já Breivik usava o ´MySpace`. Nenhum deles tinha conta na maior rede social do mundo. Em entrevista ao ´Der Taggspiegel`, o psicólogo Christopher Moeller afirmou que ter conta no ´Facebook` é sinal de que se é saudável. 

O ´Slashdot` resumiu a notícia do ´Der Taggspiegel`, e declarou mesmo que “não ter conta no ´Facebook` pode ser o primeiro sinal de que você é um assassino em série.” 

Numa perspectiva menos agressiva, a ´Forbes.com` concluiu que os departamentos de recursos humanos norte-americanos consideram o ´Facebook` essencial na admissão de novos empregados. Se o candidato não está inserido na rede, isso pode significar que tem algo a esconder.


Num artigo de opinião, o jornalista Farhad Manjoo do ´Slate.com` aconselhou os jovens a não se envolverem com ninguém que não tenha conta no ´Facebook`. “Se tu tens uma certa idade, conheceste alguém com quem estás prestes a ir para a cama, e essa pessoa não tem página no ´Facebook`, tu podes estar a receber um nome falso. Pode ser uma espécie de alerta”, afirmou.»
(tirado daqui)




Não tenho Facebook. Não é preciso dizer mais nada. bang!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

call me maybe


adoro este espírito de camaradagem!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

jogos olímpicos

embora ontem e hoje já tenham decorrido os primeiros jogos de futebol, a cerimónia oficial de abertura dos Jogos Olímpicos é amanhã e dá em directo na rtp1 às 21h. Não estarei em Londres como queria mas darei uso à televisão. e às pipocas ainda por comprar.

i'm a lucky bastard!

«pensamos sempre em alguém quando vemos a Lua»

Tu fazes parte dos moradores permanentes da minha Lua e ponto de referência das constelações que invento [algumas das quais até invento só para te ter mais perto e sorrir para elas como o Principezinho ensinou]. E caso algum dia falhe a luz lá em cima não será difícil imaginar-te a voar numa vassoura e a trocar os fusíveis e de novo iluminares a minha existência porque isso é coisa que não tens dificuldade em fazer [parvoíce a minha. Em que é que tens dificuldades? És capaz dos feitos mais extraordinários - não nos esqueçamos que até desenvolveste uma linha de ansiolíticos da qual eu possuo o guia don't panic! Talvez agora devesse fazer um para curar a ressaca porque ainda não recuperei do Natal de ontem.]

Weasley é o nosso rei!

terça-feira, 24 de julho de 2012

dia dos primos

Hoje acordei e no telemóvel tinha à minha espera uma mensagem de uma prima a informar-me de que hoje era o dia dos primos. Respondi e desejei um bom dia a esses restantes familiares com quem mantenho contacto. Deveria ter mandado aos outros, mas não tenho o número deles e não ter facebook mantém-me longe de meio mundo. Espero que tenham tido um bom dia. E quem quer que leia isto também - certamente hão de ser primos de alguém.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Les amours imaginaires





c'est la fin de l'automne, là. Va falloir que... que je commence à chauffer. Puis là, tu sais, je me disais que
ce serait vraiment plus simple si... s'il y avait quelqu'un, parce que... c'est plus simple quand y a quelqu'un.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

praia

«Só lenta e imperceptivelmente, com o passar das estações das colheitas e das estações da chuva, a sua ironia decresceu, a sua superioridade acalmou-se. Lentamente, por entre a sua riqueza crescente, o próprio Siddhartha adquiriu alguns traços das pessoas vulgares, algo da sua ingenuidade e da sua ansiedade. E no entanto invejava-as, invejava-as tanto mais quanto mais se parecia com elas. Invejava a única coisa que lhe faltava e que elas tinham, a importância que atribuíam às suas vidas, a intensidade das suas alegrias e medos, a angustiada mas doce ventura da sua eterna capacidade para amar.»


«Olhou satisfeito para o rio. Nunca a água lhe agradara tanto como esta, nunca compreendera tão clara e profundamente a voz e o significado alegórico da água que corre. Parecia-lhe que o rio tinha algo especial para lhe dizer, algo que ele ainda não sabia, que ainda o aguardava.»



Ele foi para o rio, escutou-o e aprendeu muito. Eu tenho o oceano, que para caber no bolso dos calções de praia digo que é mar. E que aprendi com ele? Apenas ouço o chapinhar das pessoas ao meu lado ou das crianças que gritam no areal e constato mais uma vez que não sei boiar. Bem tento mas a cabeça é a única parte do corpo que consegue ficar à deriva. Eventualmente vem uma onda e sou obrigado a erguer-me para respirar. Às vezes grito dentro de água, o que é uma sensação assustadora. Falta o ar e a água parece esmagar-me. É desconfortável. Venho à tona e tento boiar novamente.




«Quando alguém procura pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. Tu, Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objectivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos.»

Hermann Hesse - Siddhartha

segunda-feira, 16 de julho de 2012

benjamin button

Tenho de aproveitar um dia destas férias para ver o filme. Ainda não o vi por inteiro porque adormeci quando era para o ver com o pai. Isto de adormecer durante o dia deve ser da idade e dos corpos arenáceos na glândula pineal. Disseram-me que tinha mentalidade de velho e julgo que isso conta mais do que os 15 anos de aspecto físico que me atribuíram. É a vida. Um dia destes faço amizade com o Benjamin e discutimos quem tem a vida mais peculiar.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

eles

Não sei se também vos acontece, mas tenho dado por mim a falar para o espelho.

Olá. Estás bom?Sim, estou. E tu?
Também. Olha, tens coragem de fazer isto?Tenho.
Não, não tens.Tenho sim. Vai uma aposta?

E aposto e faço as coisas. Poder-se-ia pensar que sou corajoso, mas estou mais perto é do idiota. Faço apostas absurdas que nunca deveriam passar de uma ideia. E depois como é que explico às pessoas?
Era uma aposta.
Com quem?.... Com eles.

E o eles é vago e nunca ninguém chega a saber quem são. Mas às vezes eu começo a achar que eles existiam mesmo. Essa é a hora da estalada a mim mesmo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

companhias nocturnas

Estava deitado no chão e as pernas e os pés dos familiares eram a alternativa à televisão da sala. Descobri que a minha mania de enrodilhar as pernas não é hereditária e quando estava prestes a descobrir se o meu irmão estava a usar os meus chinelos ele deitou-se ao meu lado. Gosto quando ele faz isso. Pousa a cabeça em mim e se não lhe faço uma carícia pelo corpo serve-se do focinho para me empurrar o braço e chamar a minha atenção. Às vezes acerta exactamente naquele sítio que despoleta em mim uma reacção de defesa a cócegas (psicológicas ou reais - qualquer movimento direccionado para aquele sítio origina um reflexo de dar um salto, quer haja contacto entre as duas superfícies quer não) e eu estremeço. Vingo-me e faço-lhe cócegas nas patas. Ele levanta-se e saímos. Vamos até à praia e invadimos o território das gaivotas, a orquestra de serviço à noite na praia. Marcamos território com as nossas pegadas e quando o frio nos esfria a ponta do nariz e os dedos dos pés rumamos de volta a casa. Aí são os relógios que fazem de violinos e, às vezes, o meu irmão faz de ronca.

física

o mundo podia ser nosso se fossemos um do outro.
dominariamos o português com o existirmos como pronome pessoal nós.
a matemática, porque seríamos o resultado de 1+1 (e seria válido sermos 2 como 1. tudo depende se incluirmos aí a dominância da metafísica porque seríamos duas criaturas a existirem como algo uno).
a anatomia, porque seríamos mais um exemplo de que quase tudo existe aos pares.
a química, porque são precisos dois reagentes para que haja uma reação química.
a física, porque...   
como a dominariamos não teríamos de dar satisfações a ninguém. nunca gostei de física.


«Underneath the stars on the ferris wheel
You swung your feet
And sang my favourite Weezer song
So I sang along

"I'm a lot like you so please
Hello I'm here, I'm waiting
I think I'd be good for you
and you could be good for me"

Then I kissed your lips
And they were kind of salty
Then I kissed your lips
And they were kind of sweet too
Then I kissed your lips
And for a moment it was heavenly
Because you found me, baby
Baby I found you»

sábado, 30 de junho de 2012

todas as cartas de amor são ridículas


A primeira coisa que reparei em ti? O teu pescoço. Sim, foi ele que me atraiu. Quando olhei para ti pela primeira vez o decote redondo descentrado da tua t-shirt permitia ver um pouco do teu peito. A tonalidade clara da tua pele lembrava-me a minha própria pele mas o teu peito algo musculado formava uma lomba logo abaixo das clavículas, tornando-as mais interessantes do que as minhas. De bom grado os meus dedos andariam de escorregão pelo teu peito e sentar-se-iam na tua incisura jugular, com os pés a bater no teu esterno, quando estivessem cansados da euforia. Quer dizer, na verdade acho que eles nunca assentariam por lá porque rapidamente perceberiam que seria mais divertido escalar-te o esternocleidomastoideu. Tive até de apertar a mão para que eles não se sentissem tentados a fazerem isso sem permissão. O problema é que já não eram só as minhas mãos a querer tocar-te. Os lábios queriam provar a tua pele e os dentes queriam atacar-te as carótidas e a jugular porque se sentiam intimidados perante ti. Ou talvez quisessem saber se a tua maçã-de-adão era do tipo reineta, fuji, red delicious ou golden para não terem de lhe chamar proeminência laríngea. Quis percorrer todos os triângulos musculares e as fossas anatómicas e baptizá-las com o meu nome para saber que eras meu. Não o pude fazer, mas quando ganhei coragem dei-te aquele postal. 


Gosto do teu pescoço.



quinta-feira, 28 de junho de 2012

como nos sonhos

apago a luz e por uns momentos tudo é demasiado imperceptível. depois os meus olhos vão-se habituando à luz que entra pela janela vinda da Lua e dos candeeiros e fico a olhar para o tecto que durante o dia é branco e que à noite fica castanho. não sei por quanto tempo fico assim porque eventualmente adormeço e já não tenho percepção do tempo, apenas dos sonhos. e quando acordo tenho percepção de que a minha vida é diferente daquele sonho que tive.



A esperança é uma coisa terrível, disse ela.
Ai é?
Sim, mantém-nos a viver noutro lugar, num lugar que não existe.
Para algumas pessoas é melhor do que o sítio onde estão. Para muitos é um consolo.
Na vida, disse ela. Um consolo na vida? Será que isso é algum viver?
Há pessoas que não têm outra escolha.
Não e isso é terrível.
A esperança é melhor que a infelicidade, disse ele. Ou o desespero.
A esperança não é tão má, contrapôs ele.
Ao menos o desespero tem algo de verdadeiro.
Hoje estás num estado de espírito muito negro.
Ela tentou um sorriso. É deste tempo todo que passo com os olhos fechados. Fechou os olhos.