"It is by definition impossible to say what the form of an unobserved boggart is"
Não sei ao certo quem tu és. Houve uma 'série de pessoas' que me escreveram e que afinal tomavam um só nome e uma só cabeça e cujo contacto com elas terminou sempre da mesma maneira. Em silêncio ['gritos em silêncio'], dúvidas e sim, com algum medo. Mas lá acabei por lançar o riddikulus e acalmava-me.
Serás tu mais uma forma dessa pessoa ou és alguém diferente?
E agora será diferente? Vais voltar a fugir sem explicação para o teu armário?
e eu fiz o mesmo que tu. Vergonhoso, não é? Pois, mas eu cá não gosto da sensação e já pedi desculpa. Mas já vou tarde e mesmo querendo acreditar que não vou, não posso deixar de lhe dar razão se ele for de opinião contrária.
Será possível não pensar em ti durante muito tempo, de maneira a que quando o fizer no futuro longínquo, não passes de nevoeiro na minha cabeça? Não, não será possível. Infelizmente não posso deduzir a incógnita e chegar à conclusão que a equação em que figuras não é possível no conjunto dos números reais. Talvez no conjunto dos números complexos fosse possível, mas já não me lembro muito bem como se resolvem e nunca soube aplicar os números imaginários ao dia a dia (a partir de agora, vou dizer que todas as coisas que não percebo e que não fazem sentido para mim pertencem a esse domínio).
Será então possível não pensar em ti de vez em quando? Talvez fosse, mas há algumas músicas no computador que trazem recordações, há hábitos muito anteriores a ti que agora já não são o mesmo para mim porque a tua memória simplesmente alterou o significado que tinham para mim. E claro, se de cada vez que tu resolves pavonear-te na minha cabeça eu dou por mim a escrever sobre e para ti, é claro que não serás nevoeiro.
Mas sabes, mesmo em dias de nevoeiro, o Sol consegue brilhar se assim o quiser. E à noite, a Lua pode ainda exibir-se para mim sem nunca perder a dignidade. E as estrelas, as minhas estrelas, estão onde eu quiser, mesmo que o raio de um buraco negro tenha engolido uma bem acima da minha cabeça. Tu o que és? Podes ser a dor de garganta que parece que hoje tenho; só reparo nela quando me pergunto se estou a respirar. Amanhã provavelmente já não a vou ter, por isso talvez não tenhas oportunidade de ser um dos big bang que se formam a cada trinta e três vírgula quarente e sete segundos (e se fores, condeno-te a um imediato big crunch [não os cereais Crunch]).
E não, hoje não é um dos dias em que dou um dos teus gritos em silêncio. Na verdade, acho que já não grito desde há um mês e se hoje o fizesse, não seria em silêncio e tu deves perceber porquê (ou então és um bom patife e nunca voltas à cena do crime).
O Agosto está para acabar mas voltará para o ano. Se até os meses do ano vão e vêm, poderias achar que estás no direito de também fazer o mesmo. Nem tudo gira à minha volta pois não? Mas sabes, ainda bem que assim é - ainda vomitavam para cima de mim de tanto girarem.
Compota de ameixa e canela numa fatia de queijo. Hum… A compota saía pelas duas extremidades do queijo enrolado, mas ainda assim muito bom. Pão com compota de ameixa e canela. Não tão bom como o queijo, mas com direito a repetir. A acompanhar, um iogurte de pêssego.
Depois do lanche, troquei o sofá pela varanda da cozinha como lugar de leitura. A almofada do sofá aquecia-me demasiado o pescoço e comecei a suar. Tudo isso contribuiu para um estado de sonolência, no qual as palavras deixaram de fazer sentido e só sonhava em encontrar pessoas cuja cara desconhecia.
Na varanda, no meio de baldes, esfregonas, cestos de vime e muitas mais tralhas, procurei embrenhar-me mais na savana africana (e a minha em nada se comparava à do livro). Esperava que as gaivotas se transformassem em juburus e marabus, mas elas continuaram gaivotas, de um lado para o outro, o grasnar delas a repetir-se de um lado para o outro. E se tivesse elefantes dentro de mim, aquele era também o momento ideal para eles saírem. Na verdade, queria ver as trombas deles. Se os visse a lançar água uns para os outros, saberia que ia chover. Se os ouvisse a bramir, saberia que trovejava na minha savana.
Mais tarde, trovejou e choveu na minha savana e na minha cidade. Inicialmente calmo como um tambor, o ribombar do trovão foi-se tornando cada vez mais forte. O chão parecia tremer e gritei, não de medo, mas de contágio. E a chuva, apesar de não ser tão forte como eu queria, foi o suficiente para arrefecer o meu corpo e produzir aquele barulho que eu tanto gosto nas folhas das árvores.
E lembrei-me de ti e quis insultar-te, mas não vale a pena fazê-lo, pois não?Acho que me tornei um pouco inacessível por tua causa, mas ainda não tenho a certeza. Se calhar a culpa é minha. E cada coisa a seu dono.
Gostava de ler o pensamento das pessoas. Não porque quisesse saber os seus segredos íntimos, não porque não haja mais nada interessante para fazer, não porque gostasse de fazer disso a minha vida. Gostava somente de saber se quando estão caladas, sozinhas, fazem como eu.
Quando estou calado, não estou calado comigo mesmo. Estou sempre a fazer perguntas, algumas dirigidas a mim outras a alguém - a Deus -, critico o que fiz e o que não fiz, canto para mim mesmo, crio histórias ridículas na minha cabeça (algumas das quais gostaria que fossem realidade) e sei lá mais o quê.
Às vezes tenho medo de me ir deitar.
Não, não é por causa do bicho papão, nem por achar que tenho monstros debaixo da cama ou no guarda-roupa. A única vez que me lembro de ter medo que estivesse alguma coisa no quarto foi há muito tempo e eram tubarões. Achava que tinha um bando de tubarões a nadar à volta da minha cama.
Não, não é por causa de aranhas que desconheço existirem no quarto ou outros bichos quaisquer. Os cientistas dizem que comemos perto de uma dezena de aranhas numa vida enquanto dormimos e embora isso seja algo nojento, consigo dormir à noite.
Não. Tenho medo é de me deitar por causa do que vou ou não pensar. Há pensamentos que são assim coisinhas irritantes que vêm em momentos em que tudo o que queremos é topping de morango.
Ontem deitei-me e resolvi desligar o telemóvel. Ele costuma ficar ligado, silencioso (não penses que ainda o deixo com o som ligado), não me incomoda sequer, mas ontem uma parte de mim quis desligá-lo.
Os lençóis estavam frios, a cama tinha sido feita de lavado. A almofada não era a minha. Alguém deve ter-se enganado a pôr a fronha. Estranhei a falta de recheio, mas não quis procurar a minha almofada. Sabia que ia custar a adormecer, com ou sem a almofada certa.
Nunca se deve ignorar um Gritador (o Neville descobriu-o da pior maneira), pelo que dali a nada alguns pensamentos começaram a destilar. Tentei não prestar-lhe atenção, mas era escusado. Analisei-os não um a um, mas vários ao mesmo tempo. Vinham aos pares, às vezes aos trios. Uma confusão. Às vezes nem tinham nada a ver uns com os outros. Foi uma destilação mal feita.
Vento, gaivotas, não as ouvi. Ouvi o camião do lixo a passar na rua lá em baixo e o barulho que as sacas faziam ao serem atiradas lá para dentro.
Mesmo antes de me ir deitar fui-me pesar. Quando acordei voltei a assentar os pés sobre aquela superfície fria. 900 gramas tinham ficado algures entre a noite. Mas os pensamentos continuavam cá.O ar ocupa espaço e pode ser pesado, mas os pensamentos não. Não seria nada se não os tivesse, por isso tenho [tenho?] de lidar com eles.
A Lua estava quase em lua cheia, não era? Acho que ontem à noite não a vi, mas vi-a anteontem. Mas existem outras luas, outras que não são constituídas por anortosito e feldspato. O Ursinho Pooh ia gostar delas. São de mel, ou pelo menos assim chamadas.
"A nossa lua de mel vai brilhar toda a vida. Os seus raios só se apagarão sobre o teu túmulo ou sobre o meu".
Charlotte Brontë ("Jane Eyre")
Talvez um dia me vejas sentado de perninhas à chinês na Biblioteca, a ler as lombadas dos livros ou a folhear algum deles. Gosto do cheiro do papel.
Talvez um dia me pises a mão e depois me peças desculpa. Eu responderei com um "desculpa eu". É a força do hábito.
Talvez um dia sejas tu o meu pensamento. Ou talvez me ajudes a fazer a destilação. Nunca gostei de destilações. Então fraccionadas eram uma valente seca.
E o "tu" é tão incógnito [da próxima vez que resolver uma equação, uma das incógnitas será "tu"]. Quer dizer, só o "eu" é exacto e conhecido. "Tu" não. Quem é o "tu"? Não sei. Por vezes, as equações não têm uma solução. Ainda não estou certo se esta tem ou não.
"Fica sempre à minha espera e então, alguma noite hás-de ouvir-me grasnar"
Fiz pipocas. E não sei se é pelo que aconteceu das últimas vezes que fiz ou pensei em fazer pipocas, não soube medir as proporções certas e fiz pouquinhas. Duraram apenas uns minutos. Além disso saíram brancas e agora que já estou um pouco moreno, não combinamos.
Mas o cúmulo foi que quando as estava a comer em frente ao computador, a música estava na parte do:
I am missing someone but I don't know who
Now I'm standing alone and I'm trying to remember
Sometimes I wonder how I ever started loving you
Só tenho de fazer uma pequena alteração:
Sometimes I wonder how I ever started caring about you
Oh. Engraçado. Já é Agosto. E eu fiz a transição a ouvir aquela música. Sabes, aquela que deu origem a tema de conversa entre nós (se calhar não sabes nem nunca vais ler isto, mas isso não me impede de escrever).
Hoje interroguei-me se existias. Devia agora estar a interrogar-me se realmente aquela conversa teve lugar. Teve, tenho os antecedentes dessa conversa guardados, por isso sei que existes (talvez não totalmente como eu imaginava) e que aquela conversa teve lugar.
Engraçado eu estar aqui a escrever a pensar em ti e no que aconteceu. Um dia meto-te numa caixa e guardo-a num sítio fácil de identificar, para quando quiser poder deitá-la fora ou simplesmente ver o que ela tem. Ou se calhar não te meto.
Não sei.
De momento pouco sei (aliás, só sei que me apetecia beber uma 7up fresca - mas não muito fresca - e comer um sundae de morango).
Acho que mudei por tua causa. Não estou muito triste por isso ter acontecido. Já estive mais, muito mais. Mas o tempo cura tudo, não? E se não curar enquanto vivo, a morte virá (porque todos os homens morrem, se é que me entendes). Foi uma mudança de crescimento. Sabes, nunca tive dores de pernas quando estava a crescer, por isso estou de bem por agora isto magoar um bocadinho. Sim, magoa, mas eu aguento. As cicatrizes não são visíveis e nem precisei de pôr baba de caracol (que aliás, deve ser nojento). O que quer que tenha ficado, não me deixou mais pequeno.
Isto está a ficar parecido com os textos que eu lhe escrevia e não é justo. Nunca estarás ao nível dele. Nunca estiveste nem estás.