«Só lenta e imperceptivelmente, com o passar das estações das colheitas e das estações da chuva, a sua ironia decresceu, a sua superioridade acalmou-se. Lentamente, por entre a sua riqueza crescente, o próprio Siddhartha adquiriu alguns traços das pessoas vulgares, algo da sua ingenuidade e da sua ansiedade. E no entanto invejava-as, invejava-as tanto mais quanto mais se parecia com elas. Invejava a única coisa que lhe faltava e que elas tinham, a importância que atribuíam às suas vidas, a intensidade das suas alegrias e medos, a angustiada mas doce ventura da sua eterna capacidade para amar.»
«Olhou satisfeito para o rio. Nunca a água lhe agradara tanto como esta, nunca compreendera tão clara e profundamente a voz e o significado alegórico da água que corre. Parecia-lhe que o rio tinha algo especial para lhe dizer, algo que ele ainda não sabia, que ainda o aguardava.»
Ele foi para o rio, escutou-o e aprendeu muito. Eu tenho o oceano, que para caber no bolso dos calções de praia digo que é mar. E que aprendi com ele? Apenas ouço o chapinhar das pessoas ao meu lado ou das crianças que gritam no areal e constato mais uma vez que não sei boiar. Bem tento mas a cabeça é a única parte do corpo que consegue ficar à deriva. Eventualmente vem uma onda e sou obrigado a erguer-me para respirar. Às vezes grito dentro de água, o que é uma sensação assustadora. Falta o ar e a água parece esmagar-me. É desconfortável. Venho à tona e tento boiar novamente.
«Quando alguém procura pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. Tu, Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objectivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos.»
Hermann Hesse - Siddhartha
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