Estive 20 a minutos com a página do blogger aberta. E nesses 20 minutos, a minha língua andou a tentar encontrar todos os bocadinhos de chocolate que tivessem ficado na boca.
Penso que isto seria o que escreveria num daqueles diários de quando tinha uns 12 anos. Se calhar naquela altura era capaz de escrever de forma mais idiota, mas agora escrevo assim.
Depois de escrever aquilo ali em cima, fiquei 10 minutos a pensar se apagava ou se escrevia alguma coisa, algo que fizesse mais sentido. A verdade é que não sei o que escrever, mas não queria estar a apagar. Às vezes não é bom querer apagar as coisas. Por vezes, o melhor é deixá-las escritas, para que um dia, ao lê-las, talvez perceba que não quis dizer que comi um chocolate delicioso e que isso me afectou o cérebro, mas que viver sempre também cansa.
Interrompo agora o vómito de cima para dizer que estou contente por não ter puxado o autoclismo. Tudo porque ao escrever "viver sempre também cansa", consegui lembrar-me de um poema que li uma vez:
Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
Sim. Eu cá não me importava de morrer por 6 meses ou mais tempo...
Gostava de ter um pensatório como o Dumbledore tinha. Se calhar conseguiria perceber-me menos dificilmente. Só me questiono se as memórias seriam recolhidas como lágrimas ou como coisas a sair dos cabelos ou da testa. Há dias em que seriam lágrimas, sem dúvida. E talvez, quem sabe, fossem todas a mesma memória.
A memória da minha vida.
Da vida do rapaz que acorda todos os dias ao som do despertador e que caminha por caminhos trémulos entre a realidade e o sonho. Um dia talvez seja real no sonho ou um sonho na realidade. Talvez não seja nada, nem exista sequer.
Não, ele sabe que existe, por isso é que às vezes gosta de ver sangue a sair dele e sentir aquela dor no lado direito onde ele julga estar um pulmão.
Mas ainda assim, há uma diferença entre existir e viver e talvez isso é que ele já não sabe bem. Não há um manual de instruções (e ele sempre leu os manuais de instruções que vinham com as coisas que eventualmente lhe passavam pelas mãos) da vida e agora ele está a pensar se gostava que houvesse um.
Ele nada sabe, é apenas um pateta, mas não o Pateta, pois esse sabia que era um desenho animado e que era pateta.
Bem, talvez esteja errado. Talvez o que eu queria mesmo dizer era que o meu cérebro foi afectado pelo chocolate. Ou pela música. Talvez a culpa seja toda da música, porque deixa palavras na minha cabeça que se enraízam em locais estratégicos e vão crescendo, manifestando-se em sentimentos, olhares, ideias, em desejos de comer chocolate ou em coisas indescritíveis.
Gostava que amanhã chovesse muito. Se também trovejasse, seria óptimo. A chuva é como um disfarce por vezes. Ninguém se aperceberia das memórias que de mim saem....