domingo, 11 de dezembro de 2011

Mais logo escrevo um título

A chover, a pingar,
A raposa no quintal
A fazer a comidinha
Para o dia de Natal

Chove. Lá fora, não em mim. Em mim só cai a água vinda lá de cima. Dias de chuva fazem-me pensar. Bem, reformulo a frase: dias de chuva fazem-me pensar mais do que o normal. Não sei se é comigo que tal acontece, mas o meu olhar perde-se a ver o cinzento no céu durante o dia (chego mesmo a achar que é quando o céu fica mais bonito) e sou capaz de ficar horas a contemplar o padrão da água nos vidros.

Estive a boiar nas múltiplas gotas que deslizavam pelo vidro do carro. Eram bem redondas e aparentavam serem mais finas no centro. Comecei a contá-las, mas o pára-brisas apagava tudo quando eu ainda estava a começar, o que me obrigava a retomar a contagem inúmeras vezes. Deixei de o fazer porque entretanto pus-me a ver os carros a passar. Quando chove, todos os sons que se ouvem nas estradas tornam-se mais agradáveis por causa das pingas de água que saltam de um lado para o outro para caírem em breve. E a luz que nelas incide proveniente dos faróis dilui-se e todo o chão parece brilhar.

Passeei à chuva, marcando os segundos que passavam com cada passada e a borracha dos ténis deslizava nas tampas de saneamento. Também o meu casaco parecia brilhar. Pelas mangas e pelos botões juntaram-se pequenas gotas que explodiram quando sacudi o casaco ao passar a porta. E o silêncio que reinava nas escadas foi violentamente quebrado quando o fiz.

Na minha cabeça as coisas acontecem lentamente como se tivessem medo de existir. Eu estou com medo e não sei se tenho razões para isso. Pode ser que esteja a fazer uma tempestade com as gotas que trouxe na roupa, no cabelo, nos óculos, nos ténis e na pele, mas também pode ser que não esteja. E seja qual for a resposta, não gosto da situação em que isso me deixa.


Já não chove. Pelo menos não ouço aquele som que me costuma acalmar. Ouço o relógio aqui ao lado e parece querer dizer-me que não me vai deixar dormir. Não sei se assim será. Hoje tenho o cansaço a meu favor, por isso talvez consiga silenciar os segundos...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Verão

Pavões, patos, pombas e outros pássaros que desconheço o nome, apenas conheço a forma e a cor (ou talvez nem isso. Talvez seja já tudo uma memória que existe na minha cabeça) - ouvia-os a piar algures no céu ou nas árvores. Ouvia também a água a correr pela fonte e via o orvalho nas folhas das árvores. Sobre essas sei pouco. A espécie é-me desconhecida e o mesmo posso dizer do filo, classe, ordem, família, género e sei lá mais quanto taxa. O reino conheço, bem como a rugosidade da casca. Passei-lhes a mão ao de leve enquanto caminhava à procura de um lugar para me sentar. Sentei-me num banco de pedra e à minha frente via o rio, acima de mim ouvia os pássaros a grasnar, confundindo-se com os galhos das árvores que se projectavam no ar. Era capaz de ficar ali um dia inteiro. É certo que às tantas tanto azul faria comichão aos meus olhos, verdes, e por isso tinha já colocado um livro na mochila para me entreter quando isso acontecesse. Não cheguei a esse ponto. Quando os ponteiros do relógio fizeram entre si um determinado ângulo obtuso, tive de me levantar porque a minha presença era necessária noutro lugar. Ou pelo menos convenci-me disso.

Estava mais bonita hoje, vestida
um pouco à Outono
Fiz o caminho  inverso àquele que tinha percorrido, passei pela estátua Verão (foi a única que os meus olhos identificaram) e vi que pessoas começavam a chegar e a sentar-se nos bancos da entrada (se se aventurassem, veriam que a vista é mais bonita mais no interior).Procurei uma pena de um pavão, mas o chão estava antes incrustado de folhas que o vento atirara ao chão. Talvez um dia encontre uma e a dê a alguém. Talvez à Sara. Depois levava-a a provar o "melhor bolo de chocolate do mundo". Ela gosta de chocolate e eu também. Não acho que seja o melhor do mundo, mas deixava-a ter uma opinião, nem que fosse gritar com a boca cheia de uma maneira imperceptível.

São agora 02:18. O frio entra pelas frinchas da janela e arrefecem-me os pés. Em resposta, há erecção dos pêlos para tentar manter a temperatura corporal. É um fenómeno engraçado de assistir e gosto de sentir o relevo da pele com a mão. Vou no entanto deslizar para dentro da cama, fechar os olhos e esperar que o sono me venha visitar.

domingo, 4 de dezembro de 2011


A Lua parece-me mais sensual hoje do que quando fui ver as estrelas ontem. Ontem as nuvens pareciam aconchegá-la no berço, formando um C que a abraçava. Hoje pareceu-me que eram uma camisa quase transparente que a envolvia e lhe conferia uma certa misticidade. Fiquei a beber o leite com chocolate na varanda (podia ser que ela hoje revelasse o seu outro lado) sozinho, já que há sempre uma distância, seja medida em quilómetros, milhas ou porque o tempo não permite

(Weasley, vê se passas no teste de Aparição [cuidado com as meias sobrancelhas que ficam para trás] ou se aprendes a fazer um Portus forte. Quanto aos outros, podiam ter aparecido que havia bolo e conversa para todos)

Hoje abri a caixa que vive debaixo da secretária onde guardo tudo aquilo que me é especial e que lá pode ser colocado. Adicionei-lhe o guia Don't Panic, o que encheu praticamente o espaço, mas é ali o verdadeiro lugar dele, junto daquelas coisas todas que me fazem sorrir. Como a caixa desempenha também funções de Pensatório, adicionei-lhe recordações do resto dos meus vizinhos. Eu estou por ali, em todos aqueles papéis, objectos e memórias, desde o miúdo que era há anos atrás até ao miúdo que agora sou. Cresci, claro que sim, mas ali não se medem os centímetros a mais que os meus ossos ganharam. Crescer é muito mais do que um crescimento de epífises e diáfises segundo uma proporção matemática qualquer e uma evolução da nossa personalidade. Crescer é viver e eu vivi (e existi apenas também).
Ao ver aquele conteúdo precioso vejo que algumas coisas ficaram para trás. Por vezes é necessário que isso aconteça para que novas explosões se dêem. Quando o combustível se acaba às estrelas, elas explodem, mas o nada não se formou (é certo que se podem formar buracos negros, mas até isso é alguma coisa).  Para que haja estimulação do que quer que seja, tem de haver inibição dos fenómenos antagonistas. Assim, houve quem se esbatesse ao longo dos anos que passaram na caixa, mas há novos inquilinos que são a base de tudo aquilo e que permitiram que a explosão não se desse só na caixa, mas na pessoa que agora se delicia a ver o seu interior.

Escrevo isto e estou a chorar e a rir ao mesmo tempo, o que me deixa com uma cara muito estúpida (e só por tentar imaginar essa cara choro e rio mais).

sábado, 3 de dezembro de 2011

O meu vizinho é quase cego porque usa o cabelo grande à frente dos olhos

Na rua, os artistas projectavam o lápis no ar, semicerravam os olhos e tiravam proporções dos edifícios e da ponte. Seria, talvez, mais fácil se pudessem não dar importância às proporções das construções que a vista alcançava mas antes pintar com todas as cores e tamanhos o que lhes ocupa o coração. Poderiam inventar, afinal de contas imaginar é essencial. Imaginar permite-nos ir mais longe, ainda que tudo se forme apenas na nossa cabeça. 

Na aula, também o rapaz ao meu lado desenhava em vez de tirar apontamentos. Talvez seja daqueles alunos a quem basta ouvir para assimilar aqueles palavrões ou então não estava com vontade de ouvir o professor a dizer piadas para tentar chamar a atenção. Ficava engraçado com a cara apoiada na mão esquerda apoiada no tampo da mesa enquanto usava a mão direita para fazer os traços no caderno. Tem uma cara bonita, uns olhos profundos e um cabelo que denuncia o gosto pela praia e pelo Sol. Quando se ri, admito que me perco um pouco a ver se nascem fadas. Sorrio-lhe quando ele olha para mim e em seguida desvio o olhar para o caderno. Desenha cães e claves de sol. Se calhar há algum significado naquilo ou então é apenas aquilo que sabe desenhar. Eu nunca desenho porque não o sei fazer, por isso uso o meio do caderno ou a capa para escrever coisas patetas.

Se nunca tivesse escrito, algumas coisas nunca teriam acontecido. Se nunca ninguém tivesse imaginado, nunca teria havido a comunicação transatlântica por rádio que viria revolucionar os meios de comunicação. Ainda bem que isso aconteceu! Que seria de mim?!

Se um dia pudesse, pintava a minha rua, mas não ligava muito às proporções das casas. Mudava antes as pessoas que habitam nas redondezas. Mudava os vizinhos, mudava as frases que lhes dirijo, mudava o sorriso que tenho na cara. Sorrio ao pensar nisso, sorrio ao pensar nos novos inquilinos.

Olá, o meu nome é K. É um prazer ver-vos por aqui!



Agora imagino eu e vou mais longe. To infinity and beyond dizia o Woody. Já o disse mentalmente vezes sem conta. A minha serotonina está elevada, há-que aproveitar!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

No porta-lápis

Depois de tanto escrever, poder-se-ia pensar que a mão estava quente. Não, não estava. Era, aliás, a única parte de mim que estava fria. Talvez fosse pelo contacto com a superfície metálica que também deixou a polpa do dedo dorida. Estranhei a caneta quando lhe peguei, mas era escusada aquela sensação de desconforto.
No final folheei as páginas para lhes ver as palavras azuis e vermelhas que com algum cuidado tinha escrito. Minto. Não fico a admirar a minha letra como dizem que faço. Folhei o caderno para ouvir as folhas a estalarem e para sentir o relevo que a ponta da caneta deixou. Lá fora chove e também ouço o barulho das gotas de água a baterem no vidro da janela. Gostava de estar ali a falar com vento.
Fui aquecer leite e misturei-lhe chocolate e canela. Parece que só assim o frasco da canela vai ficando mais vazio. Toda a combinação estava boa, mas fiquei baralhado. O que deveria acabar primeiro, o leite ou as bolachas? Qual dos dois o melhor para ganhar o prémio de perdurar mais tempo?

Foram as bolachas. O sabor a limão cativou-me.

As mãos aqueceram, ficaram os pés frios. Tirei o pé esquerdo da pantufa e meti-o na outra pantufa junto com o outro pé. Serão siameses até ficaram à mesma temperatura. Parece-me justo. Um transferirá energia para o outro segundo as Leis da Termodinâmica. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

E agora nada mais me cativa e fiquei irritado.

Relembrando um certo dia, quis transformar a falta de contacto que havia entre nós em palavras que voam não no bico de uma coruja das torres, mas pelo telemóvel. Fi-lo, mas não vou prolongar isso a falar do tempo, mesmo que depois me digam que estou diferente. Enquanto o sabor de limão permanecer nas papilas, regressarei ao mato.

Não gosto que digam que estou diferente. Em parte porque não concordo, em parte porque receio que isso pode ter acontecido e eu não me apercebi...