Os calendários marcaram o início de Outono, mas ele ainda não se apresentou em público. Deve andar a preparar uma entrada triunfal especialmente dedicada a mim. Ele sabe que o espero com entusiasmo e por isso está empenhado na preparação de uma precipitação bem grande. Enquanto isso, o calor tem-se prolongado para além dos limites de 22 de Setembro. Não é mau de todo, confesso. Não é demasiado tórrido, uma vez que vem acompanhado de uma brisa suave.
Há uns dias estive na varanda do quarto a banhar-me com os últimos raios de Sol de um dia supostamente outonal. Tirei a t-shirt e fechei os olhos. Sabia bem sentir a energia térmica a aquecer-me o peito e a aragem a envolver-me como se tivesse posto o Manto da Invisibilidade. As gaivotas grasnavam e havia um leve cheiro a maresia no ar. Algures dentro de casa chamaram-me para ir jantar e eu assim fui.
Há uns minutos, tentei passar um pente pelo cabelo. Os dentes do dito pente passavam, mas o meu cabelo prefere dedos e por isso fiz uma troca de utensílios. Aproximei-me da janela para me pratear com a Lua, mas não a encontrei. Estava antes uma estrela que brilhava muito. Assustei-me ao pensar que a luz que vejo dela conta-me o seu passado e que ela pode já nem existir. A noite está calma, mas não tenho o tronco nu. Vesti um casaco de malha que tem daqueles botões que parecem pirâmides (eu acho que eles têm um nome característico, mas a palavra não se forma na minha cabeça). Brinco com eles, acho-lhes muita piada (se algum dia for um botão, quero ser como aqueles), e abraço-me a mim mesmo. Os botões abraçam as casas que lhes são feitas, eu abraço-me a mim mesmo, não me parece assim tão despropositado.
Mas continuo à espera do Outono. Chuva, vento, relâmpagos, folhas douradas que piso para ouvir o crack, castanhas assadas numa folha de jornal, lençóis polares,…. Hum, sim, gosto muito. Vem Outono.
