sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Dia após dia

Os calendários marcaram o início de Outono, mas ele ainda não se apresentou em público. Deve andar a preparar uma entrada triunfal especialmente dedicada a mim. Ele sabe que o espero com entusiasmo e por isso está empenhado na preparação de uma precipitação bem grande. Enquanto isso, o calor tem-se prolongado para além dos limites de 22 de Setembro. Não é mau de todo, confesso. Não é demasiado tórrido, uma vez que vem acompanhado de uma brisa suave.

Há uns dias estive na varanda do quarto a banhar-me com os últimos raios de Sol de um dia supostamente outonal. Tirei a t-shirt e fechei os olhos. Sabia bem sentir a energia térmica a aquecer-me o peito e a aragem a envolver-me como se tivesse posto o Manto da Invisibilidade. As gaivotas grasnavam e havia um leve cheiro a maresia no ar. Algures dentro de casa chamaram-me para ir jantar e eu assim fui.

Há uns minutos, tentei passar um pente pelo cabelo. Os dentes do dito pente passavam, mas o meu cabelo prefere dedos e por isso fiz uma troca de utensílios. Aproximei-me da janela para me pratear com a Lua, mas não a encontrei. Estava antes uma estrela que brilhava muito. Assustei-me ao pensar que a luz que vejo dela conta-me o seu passado e que ela pode já nem existir.  A noite está calma, mas não tenho o tronco nu. Vesti um casaco de malha que tem daqueles botões que parecem pirâmides (eu acho que eles têm um nome característico, mas a palavra não se forma na minha cabeça). Brinco com eles, acho-lhes muita piada (se algum dia for um botão, quero ser como aqueles), e abraço-me a mim mesmo. Os botões abraçam as casas que lhes são feitas, eu abraço-me a mim mesmo, não me parece assim tão despropositado.

Mas continuo à espera do Outono. Chuva, vento, relâmpagos, folhas douradas que piso para ouvir o crack, castanhas assadas numa folha de jornal, lençóis polares,…. Hum, sim, gosto muito. Vem Outono.

sábado, 24 de setembro de 2011

Doraemon, el gato cosmico

Depois de regressar de uma noite fria que me deixou a garganta a doer, fiz um chá e liguei a TV. Nos canais habituais não estava a dar nada que me cativasse, pelo que fui mudando de canal até que parei no Panda Biggs, onde estava a dar o DoraemonNunca vejo tal canal, mas lembrei-me  de quando era mais pequeno e gostava de ver os desenhos animados do gato que tinha um bolso sem fundo de onde tirava invenções fantásticas que davam tanto jeito ao Nobita... Quantas vezes não quis eu os apetrechos dele!

No episódio de ontem o Nobita estava farto de ser chamado à atenção pelos pais e perguntou ao Doraemon se não tinha nada que o pudesse ajudar. (O que é que não há naquele bolso?) Foi-lhe dado um chapéu que fazia com que as pessoas não reparassem em quem o usasse. Lá foi então o Nobita fazer das suas com o chapéu. Tudo lhe estava a correr bem (ele chegou mesmo a fazer com que o Gigante caísse e batesse no Suneo) até que depois as coisas começaram a dar para o torto. Ele tentava tirar o chapéu porque ninguém reparava nele mas não conseguia. Tentou, tentou, mas só quando a mãe dele lhe atirou com um balde de água (porque não tinha reparado nele é claro [como se fosse costume a mãe ir para o portão da casa atirar baldes de água para a rua]) é que o chapéu saiu. E depois, mesmo quando os pais lhe ralharam por ele não estar a estudar, ele disse que preferia muito mais ser chamado à atenção do que não ser visto por ninguém.

Eu não sou como o Nobita. Os meus pais não me ralham para eu ir estudar e eu não posso recorrer ao Doraemon. Sim, acabo por não dar nas vistas, mas a culpa é minha. Mas mesmo sendo culpa minha, queixo-me dessa condição. Encho a cabeça com livros para evitar pensar em pessoas, mas quanto mais o faço, mais penso que me sinto isolado e que eu podia morrer esmagado por um livro que ninguém havia de reparar em mim. ("I try to live alone, but lonely is so lonely alone"). É um ciclo vicioso e eu cada vez menos gosto de ciclos porque não se têm revelado interessantes.

Se tivesse uma abelha que me indicasse se os meus pensamentos se iam tornar realidade (o Doraemon deu uma ao Nobita no episódio seguinte), talvez fosse mais fácil. Mas não devemos tomar o caminho mais fácil porque a aprendizagem é mínima e não nos apercebemos que há muito mais para além do que aquilo que queremos. Muito melhor do que encontrar uma moeda no chão, é ver as folhas das árvores a mudarem de cor e adquirirem uma cor avermelhada.
Vermelho é a cor do amor dizem e eu não me importo que as folhas arranjem um par no meio da folhagem.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Nevoeiro

O Outono aproxima-se lentamente como que com medo de expulsar o Verão que veio fora do tempo (na verdade, não é medo. Ele não gosta é de se impor). O céu tingiu-se de preto e por todo o lado há nevoeiro. Era capaz de jurar que das traseiras de minha casa havia um prédio, mas agora estou confuso. Não o vejo. Aliás, só vejo, e mal, as luzes emitidas pelos candeeiros de rua, que provocam sombras estranhas na estrada.
Os meus pés estão molhados do orvalho que começou a formar-se na relva. Gosto de caminhar por jardins à noite. Não costuma haver mais ninguém para além de mim. Só eu assisto à dança dos ramos das árvores. Mas sozinho, torno-me presa fácil para os Dementors. O meu coração ainda não voltou à frequência normal. Quando não contamos com a sua presença, é tudo mais difícil. E doloroso. Magoou, mas não posso fazer mais nada porque ainda se repete tudo, com muita pena minha...

Que venham o nevoeiro e o orvalho e me façam companhia esta noite...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Valerie


"I know there’s no way I can convince you this is not one of their tricks. But I don’t care. I am me.

My name is Valerie. I don’t think I’ll live much longer, and I wanted to tell someone about my life. This is the only autobiography that I’ll ever write, and – God – I’m writing it on toilet paper.

I was born in Nottingham in 1985. I don’t remember much of those early years. But I do remember the rain. My grandmother owned a farm in Tottlebrook, and she used to tell me that God was in the rain.

I passed my eleven plus, and went to a girl’s grammar. It was at school that I met my first girlfriend. Her name was Sarah. It was her wrists – they were beautiful. I thought we would love each other forever. I remember our teacher telling us that it was an adolescent phase that people outgrew.

Sarah did.

I didn’t.

In 2002 I fell in love with a girl named Christina. That year I came out to my parents. I couldn’t have done it without Chris holding my hand.

My father wouldn’t look at me. He told me to go and never come back. My mother said nothing.

I’d only told them the truth. Was that so selfish? Our integrity sells for so little, but it is all we really have.

It is the very last inch of us.

And within that inch, we are free.

I’d always known what i’d wanted to do with my life, and in 2015 I started my first film: The Salt Flats.

It was the most important role of my life. Not because of my career, but because that was how I met Ruth. The first time we kissed, I knew I never wanted to kiss any other lips but hers again.

We moved to a small flat in London together. She grew scarlet carsons for me in our window box. And our place always smelt of roses.

Those were the best years of my life.

But America’s war grew worse and worse, and eventually came to London.

After that there were no roses anymore. Not for anyone.

I remember how the meaning of words began to change. How unfamiliar words like “collateral” and “rendition” became frightening. When things like norsefire and the articles of allegiance became powerful. I remember how different became dangerous.

I still don’t understand it: why they hate us so much.

They took Ruth while she was out buying food. I’ve never cried so hard in my life. It wasn’t long until they came for me.

It seems strange that my life should end in such a terrible place.

But for three years I had roses – and apologised to no-one.

I shall die here. Every inch of me shall perish. Every inch.

But one.

An inch.

It is small and it is fragile, and it is the only thing in the world worth having. We must never lose it or give it away. We must never let them take it from us.

I hope that - whoever you are - you escape this place. I hope that the world turns, and that things get better.

But what I hope most of all is that you understand what I mean when I tell you that even though I do not know you, and even though I may not meet you, laugh with you, cry with you, or kiss you: I love you.

With all my heart.

I love you.
Valerie."

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O barulho do silêncio é reconfortante por vezes

Estava quase a conseguir adormecer, já conseguia ver as coisas do outro lado e subitamente.... PUM! PUM! PUM! Não sei onde tinham a cabeça para lançarem foguetes àquela hora da noite. Parecia que estavam a fazer pipocas e que o milho batia com estrondo nas paredes do recipiente. (Já não como pipocas há muito tempo. Para a semana tenho de comer). Quando parecia que já todo o milho tinha sido convertido em pipoca, eis que se ouvia novamente PUM! PUM! PUM! Voltar a conseguir passagem para o lado do sonho foi difícil, fosse porque o barulho ainda ecoava nos ouvidos, fosse porque a simples visão de pipocas tivesse aumentado a concentração de glicose no meu sangue, que agora parecia fervilhar nos vasos sanguíneos.

E agora, conseguem ouvir alguma coisa? Eu não, não ouço nada para além das teclas do computador a serem pressionadas. Nem mesmo as vozes da cabeça, essas estão tão surpreendidas quanto eu. Nem mesmo a esfera da caneta que comprei a semana passada, porque, embora ainda tenha quase a carga de tinta cheia, deixou de escrever há cinco minutos. Já tentei cantar, mas pareceu-me que estava a abafar o silêncio e por isso calei-me. Pus-me então a ouvir o silêncio e fechei os olhos para não me distrair com outras coisas. Pareceu-me demasiado confuso, quase um grito de desespero. Vou tentar mais tarde, pode ser que então consiga perceber o que o silêncio me diz. (E o que o vazio me traz.)