sexta-feira, 8 de abril de 2011

A noite...

É noite e o céu já vestiu o seu pijama escuro salpicado de estrelas.
Sentado na varanda da sala de estar, observo o exterior. Está tudo calmo. Nem o o vento se atreve a uivar esta noite, limitando-se a existir sob a forma de uma aragem quente que me acaricia.
Escuto. Reina o silêncio, como é bom ouvi-lo. É interrompido de vez em quando pelos carros, mas isso não passa de uma semínima em decrescendo.

Tento acalmar-me. O dia foi longo e a minha cabeça não pára de pensar. Ultimamente tenho andado assim. Expiro... O meu coração parece relaxar. Sinto a minha essência a fundir-se lentamente com a noite.

Voo até às estrelas e embora me apeteça ir até à segunda à direita e sempre em frente até de manhã (para quem não sabe, é lá que habitam os meninos perdidos, na Terra do Nunca), paro para contemplar tudo à minha volta.

Nunca fui bom a identificar as constelações, por isso atribuo a cada estrela a cara de cada um dos meus familiares que já partiram. Lá está a minha avó materna - o seu olhar sábio, triste e cansado é inconfundível. E logo ao lado vejo o meu avô paterno e alguns tios que nunca cheguei a conhecer (um dia vou-vos conhecer!). Não muito distante vejo a minha avó paterna, com toda a sua doçura a brilhar intensamente. O meu tio (lamento que tenhas tido necessidade de acabar com a tua vida terrena, podias ter sido feliz num futuro próximo ao daquele dia, podia ter-te conhecido aqui...) também lá está, um pouco tímido. Reconheço muitas mais caras - amigos, vizinhos,... - e outras são me desconhecidas, mas fico feliz por iluminarem a minha noite.

Debato-me com uma pergunta. Não sei se a deva fazer (tenho medo da resposta), mas o pulsar dos meus familiares encoraja-me. "Têm orgulho em mim?". Fi-la, mas não obtenho resposta. Pelo menos não da parte deles. A resposta vem de mim. As lágrimas caem-me, salgadas como o mar.

O mar. Ouço-o lá ao fundo. Também ele está calmo esta noite. De vez em quando uma onda rebenta com impacto no rochedo, mas não sei se é mesmo isso que acontece ou se sou eu que estremeço. A noite faz isto em mim. Acalma-me e inquieta-me quando algo parece querer fugir daquele cenário calmo. São os fragmentos de uma vida em segredo que me provoca este medo contínuo. Mas embora à noite me sinta mais vulnerável, é também quando me sinto mais forte.

Volto para a cama. Não está lá ninguém para limpar a lágrima que ainda não secou, para me dar um beijo e dizer que amanhã será um dia melhor. O primeiro contacto com os lençóis arrepia-me, mas deixo-me abraçar por eles. Virão os sonhos, os momentos que são só meus e em que posso sonhar que há alguém ao meu lado. Alguém que me conhece e que sabe que estes momentos são muito importantes para mim e que por isso agora me dá a mão.

Dou-te a mão. Levo-a até aos meus lábios e beijo-a. "Amo-te. Nunca te deixarei. Dorme bem"

1 comentário:

  1. Vejo nas tuas palavras tanto de mim mesmo... E acho que o resto está dito no post, não vale a pena tornar o comentário comprido...

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