quarta-feira, 9 de maio de 2012

os gladiadores choram?


Preciso dos dias da chuva. Que as gotas se misturem com as lágrimas e que o trovão encubra o meu grito. Grito por não ser perfeito. Por achar que tu não és perfeito e que nós não somos perfeitos. Por achar que imperfeição é razão para não existirmos em conjunto.

Sim, preciso da chuva para me aperceber do quão ridículo sou sozinho mas que contigo não o sou. Ou sou-o noutra proporção mais agradável à existência. Porque tu vês mais de mim do que eu próprio vejo ao espelho. Porque quando tu não estás eu sinto-me sozinho com a minha companhia. E nunca pensei vir a dizer isto.

Mas preciso que me persigas durante a tempestade. Preciso que também te molhes. Gosto de sentir a chuva a cair ao longo dos nossos braços e acumular-se nas nossas mãos porque resolvemos enlaçá-las. Gosto de sentir as t-shirts coladas uma à outra. E das competições que fazemos para ver quem arremessa mais água quando saltamos para as poças.

Também gosto quando chegamos a casa e nos metemos debaixo do chuveiro. A roupa fica ainda mais pesada, mas o peso não nos incomoda. Se quiséssemos podíamos ser gladiadores e nem sequer precisávamos de comer feijão e cevada como a minha mãe dizia. Há muito que descobrimos que nos saciávamos com o vapor doce que emana da panela ainda quente das pipocas quando despejamos água fria para a limpar. Não se toma banho de roupa e por isso atiramo-la quando a água começa a ficar quente e os meus pés vermelhos. E a roupa jaz no chão e faz splash como as folhas que são empurradas pelo vento contra os muros.

Hão-de ser os meus passos a levar-me até ti e não eu a levá-los a ti. E vamos rir-nos dos beijinhos na testa. E eu vou saber que fiz bem em não ser anjinho.

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