quinta-feira, 6 de setembro de 2012

as crianças


Estás tão grande! E magro!
Pois estou. Foi de jogar ao jogo do elástico no ATL. Tinha de esticar as pernas para conseguir ultrapassar os elásticos e elas acabaram por crescer. É certo que às vezes também as adubava. Sabia bem enterrar os pés na areia na praia, molhá-los ao saltar nas pocinhas de água quando chovia e cobri-los com terra quando andava pelo jardim. A força de gravidade também me deu alguns milímetros ao puxar-me as pernas quando me pendurava no ferro superior dos baloiços. Mais deram-me os suissinhos que eu comia. Eram bons. No Inverno aquecia-os no microondas até que descobri que o cheiro de plástico queimado era mau sinal. E se sou magro é de me ter contorcido todo quando jogava às caçadinhas. Não eram só as boas pernas que me mantinham em jogo, era o conseguir esquivar-me das mãos que me persigam encolhendo a barriga ou arqueando as costas.

Tens uns olhos tão bonitos!
A mãe tratou disso. Não só através dos alelos – que o pai também deu – mas também porque às vezes descascava cenouras e dava-mas para comer. Era no tempo em que precisava de ficar em cima de uma cadeira junto à banca para ficar da altura dela. Às vezes usava avental e podia ser eu a temperar a comida sob o seu olhar atento. Também me dava a provar mais coisas e ensinou que tinha de comer o que quer que aparecesse na mesa. Por isso é que eu não fazia birras no infantário quando apareciam legumes no arroz. Sou do tempo em que se faziam vulcões com o puré que expeliam ervilhas e isso era o máximo! Só nunca gostei muito do feijão-frade nem dos brócolos nem dos grelos mas com o tempo controlei a cara de esgar.

E tens uma imaginação tão grande!
O pai obrigava a ler 20 páginas por dia, o que para os meus irmãos era uma obrigação mas que para mim era um momento de prazer e que se estendia para além das 2 dezenas de páginas. E o que sonhava depois com aquilo que lia! Diverti-me com os sobrinhos do pato Donald, lutei ao lado do Príncipe Valente, fiz amizades com o Harry, andei pelo Shire com o Frodo, fiquei triste com os irmãos Baudelaire, voei com o Eragon e com os meus irmãos nunca havia falta de brincadeiras. Às vezes eramos jornalistas, noutras cientistas, estilistas, médicos e pacientes, polícias, arqueólogos, actores de cinema, animais selvagens e outras tantas coisas!

Agora as crianças só queimam os dedos porque não largam as consolas e confundem ervilhas com feijões, couves com alface e morangos com pimentos. Pensam que o mikado é uma cidade, têm medo dos livros sem imagens e com mais de 10 páginas e têm amigos pelo facebook em vez de saírem à rua com um pauzinho do chinês na mochila a fazer de varinha de feiticeiro.

Fui uma criança feliz.

12 comentários:

  1. Este post é uma sucessão de frases narcisísticas.

    Um pouco de moderação e humildade não te fariam mal nenhum.

    Consideras-te muito especial, esquecendo que as pessoas verdadeiramente especiais e únicas não fazem questão de o afirmar, reafirmar, vezes e vezes sem conta como o fazes. Pensa nisso. É apenas um conselho de alguém mais experiente e vivido.

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    1. Pensei um pouco no que me disseste e gostava de explicar algumas coisas.

      As frases que se encontram a itálico não pretendem exemplificar comentários que eu faço acerca de mim mesmo ao espelho e não têm como objectivo engrandecer-me. São os típicos comentários que as pessoas conhecidas da mãe me dizem quando me vêem na rua e para os quais eu nunca tenho grande resposta a dar. Desta vez resolvi usá-los como mote para relembrar um pouco a minha infância e juventude. Gostei delas e não as trocaria por umas ajustadas aos tempos de hoje. A crítica do penúltimo parágrafo é o que costumo dizer a alguns primos mais novos e é o que penso das gerações mais novas. Não digo que a culpa seja inteiramente delas, há que considerar que os tempos mudaram e a culpa que os pais deles também têm já que em alguns casos mostraram-lhes os bancos mas lhes mostraram os jardins e o que neles podiam fazer.

      Quando escrevo não pretendo afirmar-me como especial. Falo sobre mim e sobre o que me acontece mas não o faço com os pressupostos de que sou especial e único. Se ainda assim soo arrogante então peço desculpa por não conseguir dominar as palavras e fazer-me expressar correctamente.

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    2. Não vejo qualquer falta de humildade neste texto. Vejo sim orgulho, não propriamente na pessoa que se o K. é, mas sim naquilo que aconteceu que o fez ser quem é. Um orgulho na infância e nos momentos vividos e numa superioridade humana, em relação às infâncias de hoje, que não pode ser negada.

      Adorei o post, K.!

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  2. Acho que a nova geração de crianças nunca vai saber o que é um livro, um mikado, lego, um playmobil. Vão ser cada vez mais materialistas e solitários com os seus jogos de consola e redes sociais.
    Acho que aqueles que nasceram na década de 90 (não sei se é o teu caso), sabem dar valor a essas coisas, a dar valor à imaginação.
    Para mim faz-me imensa confusão uma criança de 8 anos já saber mexer num computador como uma de 15 anos, e passar a vida agarrada à consola sem sair com os amigos e divertir-se, aproveitar a infância.
    Tal como me faz confusão as miúdas já desde tenra idade a usar maquilhagem, unhas postiças e a portarem-se como pequenas mulherzinhas.

    Mas tudo isto é apenas um sinal de que estamos a envelhecer, mas verdade seja dita, tenho medo da próxima geração.

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    1. Sou sim da década de 90, uma década de boas colheitas x)
      Eu adorava brincar com os legos e playmobil! Ainda tenho isso tudo guardado no sótão e quando vou lá arrumar alguma coisa é frequente acabar sentado no chão a relembrar um pouco os tempos em que passava as tardes a brincar com os meus irmãos!
      Eu vejo os meus primos mais novos e os amigos deles e apercebo-me de que a infância deles foi totalmente diferente da minha e ainda que eles também sejam felizes assim não nego que prefiro a minha à deles. Eu joguei consolas mas também joguei ao eixo, à macaca, aos berlindes e aos tazos das batatas fritas. Agora eles ficam desnorteados quando lhes acaba a bateria da psp e ds e outras coisas porque não sabem o que hão-de fazer para se entreter!

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  3. Gostei tanto do que escreveste.
    Muito mesmo!
    Fiquei furioso com o comentário "sucessão de frases narcisísticas".
    Buuuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
    O blogue é teu, escreves o que quiseres e como quiseres!
    ...Ah! Ah! experiente e vivido!!!, se comentasse algum dos blogues onde se escreve mal.
    Tu escreves bem e até não vejo nada de narcisismo em gostares de ti próprio e dizê-lo sem problemas.
    Até mostras o que és quando aceitaste o comentário e respondeste "Assim farei"!
    Desculpa, K. eu sou teu seguidor, mas desta vez vai como anónimo...
    Se quiseres não publiques; estás à vontade.

    Um abraço.

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    1. Obrigado pela parte que me diz respeito ;)

      Quanto à questão dos anonimatos, cada um tem direito à sua opinião, que se pressupõe ser fundamentada. Não vamos andar a atirar pedras uns aos outros que não vale a pena!

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  4. Sou o anónimo das 11:15.
    És um tipo fixe.
    E... se eu não fosse anónimo não conseguiria dizer-te que gosto de ti por aquilo que de ti revelas.
    :)

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    1. Sou um tipo fixe?! :) És um porreiraço só por teres dito isso xD

      O anonimato tem as suas coisas boas. Por eu também ser um desconhecido para ti a ideia que tens de mim tem várias lacunas e só é preenchida com base naquilo que escrevo. E garanto-te que não escrevo os meus podres :P

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  5. Os conselhos serão, certamente, como os comboios. Há-os vindos de todos os lugares, a todas as horas, e só pegamos aqueles cujo destino julgamos que nos irá deleitar. Por vezes, lá nos aventuramos a entrar num cujo itinerário é desconhecido...

    Aqui fica o meu conselho, um conselho de alguém experiente em certas coisas e novato em outras - a condição perpétua a que todos estão sujeitos: come mais manteiga de amendoim. Com moderação e sem humildade. E usa os dedos, vezes e vezes sem conta.
    Pensa nisso. A criança que vive em ti dará pulos de alegria!

    E para a próxima vez, escreve um texto sobre a tua tia!
    Tanta coisa já exposta sobre ti, só te torna uma personalidade narcisista...!


    Esta sucessão de frases, muito engraçadas, relativas à tua infância deixou-me bem-disposto. Só não tenho mais palavras inteligentes para aqui escrever...
    (se é que alguma, anteriormente digitada, o foi :-P)

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  6. WTF??? O anónimo lá de cima não passa de um cretino.
    Que eu saiba narcisismo é quem está deslumbrado/apaixonado por si próprio e este teu texto fala de tudo menos disso. Fala de ti, dos teus pais, da educação que tiveste, do mundo à tua volta e de como isso foi determinante para ser quem és. E as considerações finais que fazes são mais que assertivas, as crianças hoje brincam nos centros comerciais.

    Grande abraço K. :)

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