domingo, 8 de outubro de 2017

encontros aleatórios no metro

há pouco mais de um mês, vinha eu a ler no Metro (um livro muito bom que recomendo vivamente - O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexander Soljenitsin), quando percebo ouvindo uma conversa que acabava de entrar na minha carruagem uma rapariga que iria sair dali a 2 estações. essa rapariga, para quem ainda não olhara mas que via sobre as páginas amarelas do meu livro, sentou-se à minha frente. passados uns segundos, ouço
ela: esse livro é antigo?
levantei o olhar e vi uma rapariga no início da casa dos 20 anos, cabelo curto, cara redonda com uns óculos coloridos, pele branca.
eu: sim é. foi publicado no final da década de 70 e a acção decorre nos primeiros anos após a morte do Estaline.
com este pequeno discurso, chegámos ao destino que a rapariga dera a conhecer como o seu quando entrara na carruagem ao telemóvel. foi, então, com espanto que a ouvi dizer
ela: eu devia sair aqui, mas estou a gostar da conversa, por isso acompanho-te até à estação seguinte [que era a última da linha].
estranhei tal atitude mas a rapariga parecia inofensiva e a próxima paragem era já dali a 2 minutos, que preenchemos a falar do livro que ela transportava. percebi que gostava de ler mas que ainda não lera muitos livros. abandonámos o veículo e virei-me para me despedir dela quando
ela: GÉRMEN!
gritou ela repentinamente. não gritou realmente, antes disparou aquela palavra sem razão aparente.
eu (confuso): o quê?!
ela (levantando as mãos até à altura do peito, de punhos cerrados, só com os indicadores esticados e batendo a ponta de um na ponta do outro): ah, já não sabia o que havia de dizer então li a palavra que está ali escrita para continuar esta conversa.
esbugalhei os olhos, confuso quanto àquela abordagem...
ela: então, há algum livro que tenha mudado a tua vida?
eu (ainda confuso): não sei se posso dizer que mudou a minha vida mas o meu livro favorito é O Fio da Navalha, do Somerset Maugham.
ela ficou a olhar para mim, com um sorriso nos lábios e uma expressão que parecia indicar que queria que eu continuasse a falar. perguntei então, timidamente
eu: e tu?
ela: eu gosto muito de livros de saúde mental.
peculiar aquela resposta na sequência daquela conversa também peculiar.
eu: a sério? acho que o mais próximo que li sobre isso foram os livros do Dostoievski, porque ele é incrível em abordar problemas de consciência e a loucura que daí pode advir.
ela: ah, bem, eu gostava dantes de livros de saúde mental. agora acho que é melhor não ler. [coçando a cabeça com uma mão continuou:] é que, sabes, eu não devia dizer isto a alguém que acabo de conhecer, mas estive internada recentemente num hospital psiquiátrico, saí há uma semana e fui para um centro fazer um retiro espiritual e estou a chegar hoje.
eish! não, não é o tipo de coisa que se diga a um estranho que se acaba de conhecer na rua. revela-nos a fragilidade de quem o diz e pode incutir-nos medo, pena ou até uma sensação de poder, ou de superioridade. quanto a mim, naquele momento em particular, fiquei sem saber como reagir. percebi que a ser verdade o que acabara de me dizer, a rapariga certamente via em mim não um desconhecido mas alguém que por ter trocado com ela algumas palavras era já um amigo. mas eu não era um amigo dela e sentia-me encurralado. mostrar qualquer tipo de interesse significava que ficaria preso naquela falsa amizade. por outro lado, o desinteresse podia ser um choque para a rapariga.
eu: ah, lamento saber isso... espero que o quer que tenha acontecido esteja resolvido ou em andamento para se resolver e que não haja necessidade de novo internamento.
ela (como se nada fosse): bem, pessoas que morreram não voltam a morrer, por isso acho que vou ficar bem.
eu: sim, isso é verdade. espero mesmo que fiques bem.
e tentado acabar aquela conversa, torci o corpo para anunciar que me iria despedir e mal tive tempo para dizer
eu: então,
porque ela cortou-me logo com
ela: pois, já me vais despachar não é...
eu (em pânico): Não! Não é despachar, é só que já é tarde e tenho de ir para casa e tu também.
ela não fez caso do que eu dissera e desatou a falar. falou durante imenso tempo. por vezes, fazia-me perguntas e eu respondia, noutras limitava-me a intercalar o discurso dela com "hum hum", "pois", "entendo". falou dela, de amigos e conhecidos dela, alguns dos quais eu conhecia e caí no erro de dizê-lo.
ao fim de 1 hora, já eu tremia de frio (passava das 22h e eu estava em calções e t-shirt) e fome. enchi o peito e disse que estava na hora de nos despedirmos. aceitou, deu-me um abraço mas pediu-me o número de telemóvel... não sabia como me havia de desenvencilhar disso depois dela já me ter visto com o telemóvel na mão e sabendo que tínhamos amigos em comum. pedi-lhe que me desse antes o dela, esperando que com isso se esquecesse de me voltar a pedir o meu contacto. não fui bem sucedido. depois de ter soletrado o seu número de telemóvel pediu-me o meu. não quis dar um número errado não fosse ela logo ali experimentar o número e perceber isso, então dei o correcto.
mandou-me mensagem ainda naquela noite, a dizer que nem a propósito de termos falado de livros naquele encontro, quando chegara a casa descobrira um livro na caixa de correio. passada uma semana, ligou-me para me contar em 15 minutos uma reunião de família que tivera, queixando-se do que o tio e a avó disseram. ligou-me novamente uma semana depois mas eu não atendi nem retornei a chamada. voltou a fazê-lo no dia seguinte. confirmei a suspeita de que os conceitos dela estavam um pouco alterados e que me via já como um grande amigo. depois de um dia em que não tentou estabelecer contacto comigo, voltou a tentar ligar-me. como ainda não decidira como haveria de lhe dizer que não me sentia confortável naquele papel e que ela devia procurar antes a companhia da família ou de pessoas que a conheciam melhor do que eu e o seu meio, não atendi. ao 5º dia mandou mensagem. ao 6o, outra mensagem por outra aplicação do telemóvel. não podia deixar que aquilo se arrastasse por mais tempo. respondi-lhe, então, à mensagem dizendo que não me sentia confortável naquele papel de amigo de longa data quando na verdade só nos conhecíamos de uma viagem de Metro.
ela: "ok, desculpa."
às vezes sinto que procedi mal por a ter deixado desamparada e que deveria ter-me assegurado que ela estava a ser acompanhada por alguém.
espero que ela esteja bem. sinceramente.

5 comentários:

  1. Olá K.
    Estará ela apaixonada por ti?
    Só de te ouvir, de saber do que gostas, de conhecer um 'ser' culto e interessante, pode acontecer o amor à primeira vista!
    É tão fácil apaixonarmo-nos por ti.
    Acredita!
    P.

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    1. Conhecemo-nos pela 1a vez naquela viagem de Metro, teria sido suficiente para ela se apaixonar por mim?
      "Ser culto e interessante, fácil apaixonar-se por mim" cof cof. De quem estás a falar mesmo?
      Em tempos passados deste blogue, chegamos a trocar emails, P.?

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  2. Podias ter dado oportunidade a uma futura amizade, ou não.
    Ok, ela entrou de pés juntos e sei que as amizades não se escolhem mas...
    para quem procura "amizades"pelo tinder...
    Sim foste mauzinho, ela começou a falar contigo porque viu que tinham algo em comum.
    Lidar com a rejeição nao deve ser facil para quem sai dum hospital psiquiatrico...

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  3. Não, lidar com a rejeição quando se sai dum hospital não deve ser fácil (nenhuma rejeição é) mas qual a minha obrigação ou dever? Naquela vez em que contactamos presencialmente ouvi-a durante mais de 2h. Podia ter vindo embora mas fiquei, independentemente da razão. depois disso, a rapariga já estava a ser algo invasiva, a "incluir-me" em reuniões de família e a ligar-me todos os dias...
    (não percebi a referência ao tinder...)

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  4. Eu ficava super desconfiado. Não sei. Não gosto muito deste tipo de abordagens. Ela não tem culpa, mas tu também não. As coisas são como são, e cada um tem os seus "tempos" para se dar ao outro.

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