há pouco mais de um mês, vinha eu a ler no Metro (um livro muito
bom que recomendo vivamente - O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexander
Soljenitsin), quando percebo ouvindo uma conversa que acabava de entrar
na minha carruagem uma rapariga que iria sair dali a 2 estações. essa
rapariga, para quem ainda não olhara mas que via sobre as páginas
amarelas do meu livro, sentou-se à minha frente. passados uns segundos,
ouço
ela: esse livro é antigo?
levantei
o olhar e vi uma rapariga no início da casa dos 20 anos, cabelo curto,
cara redonda com uns óculos coloridos, pele branca.
eu: sim é. foi publicado no final da década de 70 e a acção decorre nos primeiros anos após a morte do Estaline.
com
este pequeno discurso, chegámos ao destino que a rapariga dera a
conhecer como o seu quando entrara na carruagem ao telemóvel. foi,
então, com espanto que a ouvi dizer
ela: eu devia sair aqui, mas estou a gostar da conversa, por isso acompanho-te até à estação seguinte [que era a última da linha].
estranhei
tal atitude mas a rapariga parecia inofensiva e a próxima paragem era
já dali a 2 minutos, que preenchemos a falar do livro que ela
transportava. percebi que gostava de ler mas que ainda não lera muitos
livros. abandonámos o veículo e virei-me para me despedir dela quando
ela: GÉRMEN!
gritou ela repentinamente. não gritou realmente, antes disparou aquela palavra sem razão aparente.
eu (confuso): o quê?!
ela
(levantando as mãos até à altura do peito, de punhos cerrados, só com
os indicadores esticados e batendo a ponta de um na ponta do outro): ah,
já não sabia o que havia de dizer então li a palavra que está ali
escrita para continuar esta conversa.
esbugalhei os olhos, confuso quanto àquela abordagem...
ela: então, há algum livro que tenha mudado a tua vida?
eu
(ainda confuso): não sei se posso dizer que mudou a minha vida mas o
meu livro favorito é O Fio da Navalha, do Somerset Maugham.
ela
ficou a olhar para mim, com um sorriso nos lábios e uma expressão que
parecia indicar que queria que eu continuasse a falar. perguntei então,
timidamente
eu: e tu?
ela: eu gosto muito de livros de saúde mental.
peculiar aquela resposta na sequência daquela conversa também peculiar.
eu:
a sério? acho que o mais próximo que li sobre isso foram os livros do
Dostoievski, porque ele é incrível em abordar problemas de consciência e
a loucura que daí pode advir.
ela: ah, bem, eu
gostava dantes de livros de saúde mental. agora acho que é melhor não
ler. [coçando a cabeça com uma mão continuou:] é que, sabes, eu não
devia dizer isto a alguém que acabo de conhecer, mas estive internada
recentemente num hospital psiquiátrico, saí há uma semana e fui para um
centro fazer um retiro espiritual e estou a chegar hoje.
eish!
não, não é o tipo de coisa que se diga a um estranho que se acaba de
conhecer na rua. revela-nos a fragilidade de quem o diz e pode
incutir-nos medo, pena ou até uma sensação de poder, ou de
superioridade. quanto a mim, naquele momento em particular, fiquei sem
saber como reagir. percebi que a ser verdade o que acabara de me dizer, a
rapariga certamente via em mim não um desconhecido mas alguém que por
ter trocado com ela algumas palavras era já um amigo. mas eu não era um
amigo dela e sentia-me encurralado. mostrar qualquer tipo de interesse
significava que ficaria preso naquela falsa amizade. por outro lado, o
desinteresse podia ser um choque para a rapariga.
eu: ah, lamento saber isso... espero que o quer
que tenha acontecido esteja resolvido ou em andamento para se resolver e
que não haja necessidade de novo internamento.
ela (como se nada fosse): bem, pessoas que morreram não voltam a morrer, por isso acho que vou ficar bem.
eu: sim, isso é verdade. espero mesmo que fiques bem.
e tentado acabar aquela conversa, torci o corpo para anunciar que me iria despedir e mal tive tempo para dizer
eu: então,
porque ela cortou-me logo com
ela: pois, já me vais despachar não é...
eu (em pânico): Não! Não é despachar, é só que já é tarde e tenho de ir para casa e tu também.
ela
não fez caso do que eu dissera e desatou a falar. falou durante imenso
tempo. por vezes, fazia-me perguntas e eu respondia, noutras limitava-me
a intercalar o discurso dela com "hum hum", "pois", "entendo". falou
dela, de amigos e conhecidos dela, alguns dos quais eu conhecia e caí no
erro de dizê-lo.
ao fim de 1 hora, já eu tremia de frio
(passava das 22h e eu estava em calções e t-shirt) e fome. enchi o
peito e disse que estava na hora de nos despedirmos. aceitou, deu-me um
abraço mas pediu-me o número de telemóvel... não sabia como me havia de
desenvencilhar disso depois dela já me ter visto com o telemóvel na mão e
sabendo que tínhamos amigos em comum. pedi-lhe que me desse antes o
dela, esperando que com isso se esquecesse de me voltar a pedir o meu
contacto. não fui bem sucedido. depois de ter soletrado o seu número de
telemóvel pediu-me o meu. não quis dar um número errado não fosse ela
logo ali experimentar o número e perceber isso, então dei o correcto.
mandou-me
mensagem ainda naquela noite, a dizer que nem a propósito de termos
falado de livros naquele encontro, quando chegara a casa descobrira um
livro na caixa de correio. passada uma semana, ligou-me para me contar
em 15 minutos uma reunião de família que tivera, queixando-se do que o
tio e a avó disseram. ligou-me novamente uma semana depois mas eu não
atendi nem retornei a chamada. voltou a fazê-lo no dia seguinte.
confirmei a suspeita de que os conceitos dela estavam um pouco alterados
e que me via já como um grande amigo. depois de um dia em que não
tentou estabelecer contacto comigo, voltou a tentar ligar-me. como ainda
não decidira como haveria de lhe dizer que não me sentia confortável
naquele papel e que ela devia procurar antes a companhia da família ou
de pessoas que a conheciam melhor do que eu e o seu meio, não atendi. ao
5º dia mandou mensagem. ao 6o, outra mensagem por outra aplicação do
telemóvel. não podia deixar que aquilo se arrastasse por mais tempo.
respondi-lhe, então, à mensagem dizendo que não me sentia confortável
naquele papel de amigo de longa data quando na verdade só nos
conhecíamos de uma viagem de Metro.
ela: "ok, desculpa."
às vezes sinto que procedi mal por a ter deixado desamparada e que deveria ter-me assegurado que ela estava a ser acompanhada por alguém.
espero que ela esteja bem. sinceramente.
Olá K.
ResponderEliminarEstará ela apaixonada por ti?
Só de te ouvir, de saber do que gostas, de conhecer um 'ser' culto e interessante, pode acontecer o amor à primeira vista!
É tão fácil apaixonarmo-nos por ti.
Acredita!
P.
Conhecemo-nos pela 1a vez naquela viagem de Metro, teria sido suficiente para ela se apaixonar por mim?
Eliminar"Ser culto e interessante, fácil apaixonar-se por mim" cof cof. De quem estás a falar mesmo?
Em tempos passados deste blogue, chegamos a trocar emails, P.?
Podias ter dado oportunidade a uma futura amizade, ou não.
ResponderEliminarOk, ela entrou de pés juntos e sei que as amizades não se escolhem mas...
para quem procura "amizades"pelo tinder...
Sim foste mauzinho, ela começou a falar contigo porque viu que tinham algo em comum.
Lidar com a rejeição nao deve ser facil para quem sai dum hospital psiquiatrico...
Não, lidar com a rejeição quando se sai dum hospital não deve ser fácil (nenhuma rejeição é) mas qual a minha obrigação ou dever? Naquela vez em que contactamos presencialmente ouvi-a durante mais de 2h. Podia ter vindo embora mas fiquei, independentemente da razão. depois disso, a rapariga já estava a ser algo invasiva, a "incluir-me" em reuniões de família e a ligar-me todos os dias...
ResponderEliminar(não percebi a referência ao tinder...)