Talvez não tenha sido bom terem mudado o tema de conversa na praia. É verdade que não participava muito nos outros dias, mas assim hoje ter-se-ia evitado o comentário dirigido a mim "estou admirado com a tua insensibilidade". Hum, nada disse na altura - poderia parecer orgulhoso da minha parte e convencido o achar tão terminantemente que não enquadrava em tal papel -, pelo que vim para casa pensar no assunto.
Há quem veja a amizade como uma competição (melhor dizendo, há pessoas que partem do princípio que são melhores amigos do que outras pessoas) ou como uma relação recíproca idêntica entre os indivíduos em causa. Não sei se serei o único, mas não concordo minimamente com tais ideias.
Aqui há uns tempos, uma grande amiga chateou-se comigo pelo facto de eu ter uma outra grande amizade. Disse-me ela que o conjunto de melhores amigos deveria ser um conjunto unitário. Não concordei com isso na altura nem concordo agora (a pessoa também já não). Assim como no seio da família há um grupo de pessoas que se destaca, com as amizades também o há. E assim como procuramos o pai para falar de A e a mãe para discutir B (...), também com os vários amigos nos relacionamos de modo diferente, mesmo com os melhores amigos.
[espero não estar a cometer nenhuma barbaridade por não usar a primeira pessoa do singular]
Dizem que os amigos são para as ocasiões. Sim, é certo, mas parece-me igualmente correcto dizer há diferentes amigos para as várias ocasiões.
Exigir uma relação recíproca idêntica também não me parece certo. Seria quase como exigir que a pessoa de quem gostamos também gostasse de nós. Cada pessoa tem percepções diferentes do que se passa à sua volta, pelo que para mim é compreensível que a relação possa ser vista de forma diferente pelas várias pessoas envolvidas.
O que se passou hoje foi mesmo isso. Alguém que me considera um melhor amigo não o é para mim e ficou magoado com isso (até compreendo que possa sentir-se assim, mas não pode fazer exigências). Podia preferir que eu tivesse mentido, mas amizade fundada em mentira não é amizade. Não para mim. Tenho no entanto noção que também não sou o amigo perfeito.
O valor que atribuía ao contacto humano tem vindo a enfraquecer desde há uns tempos ("se me dessem a possibilidade de deixar quase tudo para trás e viver sozinho, eu aceitava. Iria sentir muitas saudades de algumas pessoas, mas acho que me ia fazer bem"), em grande parte porque não consigo extrair dele o que vejo nitidamente na minha cabeça. Posso ser difícil, mas não sou incompreensível.


