segunda-feira, 5 de setembro de 2011

"A amizade é um bem demasiado precioso para confiar a um ser humano"

Talvez não tenha sido bom terem mudado o tema de conversa na praia. É verdade que não participava muito nos outros dias, mas assim hoje ter-se-ia evitado o comentário dirigido a mim "estou admirado com a tua insensibilidade". Hum, nada disse na altura - poderia parecer orgulhoso da minha parte e convencido o achar tão terminantemente que não enquadrava em tal papel -, pelo que vim para casa pensar no assunto.

Há quem veja a amizade como uma competição (melhor dizendo, há pessoas que partem do princípio que são melhores amigos do que outras pessoas) ou como uma relação recíproca idêntica entre os indivíduos em causa. Não sei se serei o único, mas não concordo minimamente com tais ideias.

Aqui há uns tempos, uma grande amiga chateou-se comigo pelo facto de eu ter uma outra grande amizade. Disse-me ela que o conjunto de melhores amigos deveria ser um conjunto unitário. Não concordei com isso na altura nem concordo agora (a pessoa também já não). Assim como no seio da família há um grupo de pessoas que se destaca, com as amizades também o há. E assim como procuramos o pai para falar de A e a mãe para discutir B (...), também com os vários amigos nos relacionamos de modo diferente, mesmo com os melhores amigos. 
[espero não estar a cometer nenhuma barbaridade por não usar a primeira pessoa do singular]
Dizem que os amigos são para as ocasiões. Sim, é certo,  mas parece-me igualmente correcto dizer há diferentes amigos para as várias ocasiões.

Exigir uma relação recíproca idêntica também não me parece certo. Seria quase como exigir que a pessoa de quem gostamos também gostasse de nós. Cada pessoa tem percepções diferentes do que se passa à sua volta, pelo que para mim é compreensível que a relação possa ser vista de forma diferente pelas várias pessoas envolvidas. 

O que se passou hoje foi mesmo isso. Alguém que me considera um melhor amigo não o é para mim e ficou magoado com isso (até compreendo que possa sentir-se assim, mas não pode fazer exigências). Podia preferir que eu tivesse mentido, mas amizade fundada em mentira não é amizade. Não para mim. Tenho no entanto noção que também não sou o amigo perfeito.


O valor que atribuía ao contacto humano tem vindo a enfraquecer desde há uns tempos ("se me dessem a possibilidade de deixar quase tudo para trás e viver sozinho, eu aceitava. Iria sentir muitas saudades de algumas pessoas, mas acho que me ia fazer bem"), em grande parte porque não consigo extrair dele o que vejo nitidamente na minha cabeça. Posso ser difícil, mas não sou incompreensível.

domingo, 4 de setembro de 2011

Vermelho

Uma mão segurava a embalagem de Chocapic, a outra levava os passageiros de chocolate à boca. Não era um acto mecânico como o Metro. Procurava conhecê-los melhor através do toque, tentar descobrir como havia sido a mistura do castanho do cacau com o branco do açúcar, a impregnação com os aromas de vanilina e canela e o enriquecimento com vitaminas e ferro.

(ferro para seres forte quando cresceres e vitaminas para seres saudável, dizia a mãe há muitos anos)

A forma deles lembrava-me a Lua e por isso atravessei a casa para ir para a outra janela. Lá, ela era visível, mas estava ligeiramente diferente dos cereais. Lembrava antes um círculo, ao qual alguém resolveu pintar metade da cor do céu e deixou a outra metade intacta. É, talvez, um pouco injusto para ela não poder ser una o tempo inteiro. Acho que quando está lua cheia, há dois amores fundidos numa só Lua, feliz. Quando está em fase crescente (como hoje) ou decrescente, houve um desencontro entre eles. E quando está lua nova, resolveram fugir da nossa vista porque também têm direito à sua privacidade!

Depois dos cereais, depois da Lua, depois do jantar, vieram as castanhas assadas barradas em manteiga. Primeiro delicio-me a ouvir os estalidos da casca, depois com o calor que se sente ao partir a castanha em duas, segue-se a manteiga a derreter e depois... hum. As papilas gustativas regozijam-se, a amílase salivar começa a decomposição do amido e eu encontro felicidade momentânea. Fecho os olhos e vou preparando o próximo passageiro, mas sinto uma picada no dedo. Abro os olhos e apercebo-me que uma casca me cortou  a polpa do dedo. Sai o líquido vermelho que me corre nos vasos sanguíneos.

Vermelho, a cor do amor segundo dizem. Levei o dedo à boca, na esperança que o vermelho deixasse de ser apenas cor e que o líquido deixasse de ser apenas um estado físico e que amor deixasse de ser apenas uma palavra.

Nada de diferente senti.
Mas não comi mais castanhas.

sábado, 3 de setembro de 2011

Pirilampos


Here come real stars to fill the upper skies,
And here on earth come emulating flies,
That though they never equal stars in size,
(And they were never really stars at heart)
Achieve at times a very star-like start.
Only, of course, they can't sustain the part. 
Robert Frost

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

"To die will be an awfully big adventure"

J. Barrie



- Sure... 
- Look at the cup, tell me what you see! 
- Oh yeah... well, Harry's got a sort of wonky cross... that's trials and suffering. And, uh, that there could be the sun, and that's happiness, so... you're gonna suffer... but you're gonna be happy about it... 
- Give me the cup. Oh, my dear boy. My dear... you have the Grim.
- The Grin? What's the Grin?
- Not the Grin, you idiot. The Grim. "Taking form of a giant spectral dog. It's among the darkest omens in our world. It's an omen... of death."»


A minha caneca do leite ficou como naquela imagem depois de comer Oreo, se bem que eu não pensasse num cão, mas em formigas. De vez em quando elas passeiam pela minha secretária, mesmo sem haver nada que as atraia (para além da minha companhia é claro). Depois somem sem que as circunstâncias mudem (para além do meu humor). Talvez eu seja o meu próprio Sinistro. Provações, sofrimento e felicidade fazem parte do passado e do presente. A morte virá num futuro, próximo ou longe e as bolachas que comi podem ter já desencadeado todo esse processo. Se assim for, que seja. Apenas espero que as bolachas não tenham tornado os meus órgãos pouco viáveis para transplantação. Ao menos que o meu maior acto seja depois de morto...

Setembro


Vejo na rua os carros estrangeiros a serem enchidos com malas e mais malas. Enquanto uns facilmente empilham facilmente as coisas na bagagem do carro, outros têm mais um problema a resolver ainda antes da partida. Certamente perguntam-se que se tudo coube na vinda, tudo deverá caber para a ida. A verdade é que assim não é. A vontade de querer ficar mais uns dias também ocupa espaço e por outro lado, a saudade dos que ficaram na partida ocupa o mesmo ou ainda maior espaço.

A praia está deserta. Já não há matilhas a aquecerem-se ao Sol, mas sim lobos solitários (a maioria nativos) no meio das barracas despidas. Não se ouvem gritos de crianças nem a senhora que vende língua da sogra e pipocas, apenas o lamento do mar que continuamente vai e vem. Já não se vêem os arcos íris que as diversas toalhas formavam. Vê-se antes o branco das gaivotas, que agora podem andar mais calmamente pela areia à procura de comida (embora não esteja certo que a encontrem). Acho que gosto mais da praia assim. Já não me importo de ser um lobo solitário ou uma formiga. A minha cor branca combina melhor com o vazio daquele cenário, mas o meu espírito (se é que existe) pode brincar livremente nas pocinhas de água que se formam no meio dos rochedos.

O céu também mudou. Ora está completamente cinzento, ora está azul com nuvens cinzentas. Às vezes chora, pois também ele sente saudades de algum amor perdido. Não são namoricos de Verão. Se assim fosse, ele não choraria intensamente nos meses que aí vêm. Amem como o céu, brilhem como o Sol ou a Lua, chorem como a chuva, gritem como trovões.


O que em mim mudou? Não sei bem. A vontade de me querer prolongar pelo Verão não existe, por isso apenas tenho de compensar as saudades que sinto por quem ficou na partida. Contudo, acho que elas não existem ou então não são assim tão grandes. Uma partida requer a existência de uma meta e talvez seja nisso que penso, com medo. O troféu que possa existir por lá não é nítido e isso assusta sempre um pouco. E como não sei a distância que tenho de percorrer, receio não ser capaz de chegar ao final ou então que não me aperceba que  já percorri tudo que havia a percorrer. Qual dos dois o pior?