Vejo na rua os carros estrangeiros a serem enchidos com malas e mais malas. Enquanto uns facilmente empilham facilmente as coisas na bagagem do carro, outros têm mais um problema a resolver ainda antes da partida. Certamente perguntam-se que se tudo coube na vinda, tudo deverá caber para a ida. A verdade é que assim não é. A vontade de querer ficar mais uns dias também ocupa espaço e por outro lado, a saudade dos que ficaram na partida ocupa o mesmo ou ainda maior espaço.
A praia está deserta. Já não há matilhas a aquecerem-se ao Sol, mas sim lobos solitários (a maioria nativos) no meio das barracas despidas. Não se ouvem gritos de crianças nem a senhora que vende língua da sogra e pipocas, apenas o lamento do mar que continuamente vai e vem. Já não se vêem os arcos íris que as diversas toalhas formavam. Vê-se antes o branco das gaivotas, que agora podem andar mais calmamente pela areia à procura de comida (embora não esteja certo que a encontrem). Acho que gosto mais da praia assim. Já não me importo de ser um lobo solitário ou uma formiga. A minha cor branca combina melhor com o vazio daquele cenário, mas o meu espírito (se é que existe) pode brincar livremente nas pocinhas de água que se formam no meio dos rochedos.
O céu também mudou. Ora está completamente cinzento, ora está azul com nuvens cinzentas. Às vezes chora, pois também ele sente saudades de algum amor perdido. Não são namoricos de Verão. Se assim fosse, ele não choraria intensamente nos meses que aí vêm. Amem como o céu, brilhem como o Sol ou a Lua, chorem como a chuva, gritem como trovões.
O que em mim mudou? Não sei bem. A vontade de me querer prolongar pelo Verão não existe, por isso apenas tenho de compensar as saudades que sinto por quem ficou na partida. Contudo, acho que elas não existem ou então não são assim tão grandes. Uma partida requer a existência de uma meta e talvez seja nisso que penso, com medo. O troféu que possa existir por lá não é nítido e isso assusta sempre um pouco. E como não sei a distância que tenho de percorrer, receio não ser capaz de chegar ao final ou então que não me aperceba que já percorri tudo que havia a percorrer. Qual dos dois o pior?

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