domingo, 4 de setembro de 2011

Vermelho

Uma mão segurava a embalagem de Chocapic, a outra levava os passageiros de chocolate à boca. Não era um acto mecânico como o Metro. Procurava conhecê-los melhor através do toque, tentar descobrir como havia sido a mistura do castanho do cacau com o branco do açúcar, a impregnação com os aromas de vanilina e canela e o enriquecimento com vitaminas e ferro.

(ferro para seres forte quando cresceres e vitaminas para seres saudável, dizia a mãe há muitos anos)

A forma deles lembrava-me a Lua e por isso atravessei a casa para ir para a outra janela. Lá, ela era visível, mas estava ligeiramente diferente dos cereais. Lembrava antes um círculo, ao qual alguém resolveu pintar metade da cor do céu e deixou a outra metade intacta. É, talvez, um pouco injusto para ela não poder ser una o tempo inteiro. Acho que quando está lua cheia, há dois amores fundidos numa só Lua, feliz. Quando está em fase crescente (como hoje) ou decrescente, houve um desencontro entre eles. E quando está lua nova, resolveram fugir da nossa vista porque também têm direito à sua privacidade!

Depois dos cereais, depois da Lua, depois do jantar, vieram as castanhas assadas barradas em manteiga. Primeiro delicio-me a ouvir os estalidos da casca, depois com o calor que se sente ao partir a castanha em duas, segue-se a manteiga a derreter e depois... hum. As papilas gustativas regozijam-se, a amílase salivar começa a decomposição do amido e eu encontro felicidade momentânea. Fecho os olhos e vou preparando o próximo passageiro, mas sinto uma picada no dedo. Abro os olhos e apercebo-me que uma casca me cortou  a polpa do dedo. Sai o líquido vermelho que me corre nos vasos sanguíneos.

Vermelho, a cor do amor segundo dizem. Levei o dedo à boca, na esperança que o vermelho deixasse de ser apenas cor e que o líquido deixasse de ser apenas um estado físico e que amor deixasse de ser apenas uma palavra.

Nada de diferente senti.
Mas não comi mais castanhas.

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