quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Já não sei o que costumo escrever aqui

Será possível não pensar em ti durante muito tempo, de maneira a que quando o fizer no futuro longínquo, não passes de nevoeiro na minha cabeça? Não, não será possível. Infelizmente não posso deduzir a incógnita e chegar à conclusão que a equação em que figuras não é possível no conjunto dos números reais. Talvez no conjunto dos números complexos fosse possível, mas já não me lembro muito bem como se resolvem e nunca soube aplicar os números imaginários ao dia a dia (a partir de agora, vou dizer que todas as coisas que não percebo e que não fazem sentido para mim pertencem a esse domínio).

Será então possível não pensar em ti de vez em quando? Talvez fosse, mas há algumas músicas no computador que trazem recordações, há hábitos muito anteriores a ti que agora já não são o mesmo para mim porque a tua memória simplesmente alterou o significado que tinham para mim. E claro, se de cada vez que tu resolves pavonear-te na minha cabeça eu dou por mim a escrever sobre e para ti, é claro que não serás nevoeiro. 

Mas sabes, mesmo em dias de nevoeiro, o Sol consegue brilhar se assim o quiser. E à noite, a Lua pode ainda exibir-se para mim sem nunca perder a dignidade. E as estrelas, as minhas estrelas, estão onde eu quiser, mesmo que o raio de um buraco negro tenha engolido uma bem acima da minha cabeça. Tu o que és? Podes ser a dor de garganta que parece que hoje tenho; só reparo nela quando me pergunto se estou a respirar. Amanhã provavelmente já não a vou ter, por isso talvez não tenhas oportunidade de ser um dos big bang que se formam a cada trinta e três vírgula quarente e sete segundos (e se fores, condeno-te a um imediato big crunch [não os cereais Crunch]).

E não, hoje não é um dos dias em que dou um dos teus gritos em silêncio. Na verdade, acho que já não grito desde há um mês e se hoje o fizesse, não seria em silêncio e tu deves perceber porquê (ou então és um bom patife e nunca voltas à cena do crime).

O Agosto está para acabar mas voltará para o ano. Se até os meses do ano vão e vêm, poderias achar que estás no direito de também fazer o mesmo. Nem tudo gira à minha volta pois não? Mas sabes, ainda bem que assim é - ainda vomitavam para cima de mim de tanto girarem.

Não se admirem se à noite me virem a dançar com os fantasmas


Não gosto de dormir de barriga para cima. Não sei se é por não estar habituado ou se é porque não sinto o meu coração a bater, apenas sei que 10 segundos depois de estar assim deitado, já estou impaciente e cansado. Viro-me então para um lado, para onde está a janela. Começo a contar as frinchas da persiana por onde as luzes dos candeeiros da rua se espreguiçam. Chego às 37, mas já me começam a doer os olhos pois a cabeça, imóvel, não ajuda na contagem. Fecho-os e meto uma mão a apoiar a cabeça. Assim consigo  sentir o meu coração, seja através da carótida que pulsa na mão, seja do rufar do próprio coração no cotovelo. Sinto-me tranquilo a sentir as diástoles e sístoles. Porque elas são eu e se alguém me quiser reduzir a um centro de massa, peço que tomem o meu coração como referência.

Não é só o coração que sinto e ouço. As tábuas de madeira rangem e eu interrogo-me se algo ou alguém saiu da caixa, se ele saiu da minha beira e anda a descobrir a casa às escuras ou se tudo não passa da amplificação do sons dos meus órgãos a funcionar. Quando estou nestes dilemas, é comum dar saltos na cama. Acho-lhes imensa piada e fico sempre à espera que voltem a acontecer. 

E também não é só isso. Um dente do siso está a crescer e eu tenho medo. Dentes do siso significam crescimento. De momento não dói, mas e no futuro? Que me reserva o futuro? Não tenho medo de envelhecer, apenas tenho medo que o meu futuro seja diferente do futuro que desejo no presente, que me esqueça da trovoada, da Lua e das estrelas.

E se um dia vir a chuva a cair e me lembrar de quem fui, mas não passar disso – uma recordação? Isso assusta-me, por isso espero que o dente do siso não cresça mais…

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Então, novidades?

As minhas mãos estão pesadas e doridas. O meu polegar direito parece ter um coração só para ele, bem perto da epiderme. Está vermelho e parece pulsar. Tenho ainda uma marca redonda e vermelha algures por cima do semilunar (acho que ele também se interroga muito acerca da outra face da lua, se bem que não da minha Lua. Os nossos ossos sofrem tanto com as coisas que lhes chamamos...). Nestas alturas gosto de abrir e fechar as mãos e esfregar uma na outra, descobrir as imperfeições delas e sentir a textura. Descubro sempre coisas novas e isso para mim são novidades, mas não aquelas que posso responder quando me perguntam "então, novidades?".

Quem quiser saber novidades, folheie o novo catálogo do IKEA. Eu vou fazê-lo daqui a pouco e sei que me entreterei durante muito tempo. Ele chegou hoje e trouxe-me um sorriso à cara, juntamente com recordações dos tempos que passei a montar móveis. Eu gosto de montar móveis. Gosto de ver os parafusos a juntarem as várias peças. Faço-os girar de um lado para o outro porque me fazem lembrar bailarinas, a andar aos círculos em pontas ao som do Quebra-Nozes.


[apetecia-me agora um bolo de noz...]

Mas também ninguém está interessado no bailado que faço com os parafusos e as ferramentas. Não sei mesmo o que algumas pessoas pretendem que lhes diga quando me perguntam por novidades. Será que estão à espera que lhes diga que morreu alguém? Afinal, todos os noticiários de televisão abrem com mortes e desastres por este mundo fora. 

Talvez um dia invente uma história como quando o Orson Welles se lembrou de fazer uma adaptação dA Guerra dos Mundos pela rádio. Talvez já achem isso novidades.

sábado, 27 de agosto de 2011

Every time you close a door and nothing opens in its place you've wasted

Primeiro soube que a Terra já teve duas luas, mas que uma se perdeu pelo caminho. Depois foi o desaparecimento de uma estrela à conta de um buraco negro. O Universo perde coisas tal como eu (não sei se fico consolado por não ser o único. Em vez de uma só entidade incompleta e triste ficam duas...), mas hoje já soube que ele ganhou mais uma coisa para guardar na caixa dos tesouros, que é bem  maior do que a minha porque tudo o que lá existe, além de ser em grande número e estar cada vez mais a crescer (eu não acredito na história do Big Bang, mas pronto) é grande em dimensões.

"Quando se fecha uma janela, abre-se uma porta". Quando se perde algo, encontra-se outra coisa (nem que seja a realidade que perdemos uma coisa).
Foi uma grande aquisição é verdade. Um planeta formado por oxigénio, uma material em forma de cristais e... montes de carbono, como um diamante! E é maior do que a Terra, por isso imaginem a quantidade de diamantes bem mais pequenos que se podiam fazer.

Na minha caixa, que pode ser medida aos palmos, não há verdadeiros diamantes, feitos de carbono puro disposto em planos bem empacotados. Se atender à sua importância e beleza, posso então dizer que tenho muitos diamantes lá. E se atender ao brilho, então quando numa das inúmeras noites em que observo o céu (à procura das minhas estrelas. Elas são como as ovelhas e eu sou o pastor que as leva até ao monte para pastarem) e vejo as gotas de água da chuva que se acumulam na varanda, tenho pequenos diamantes perto de mim.

O Universo ganhou um planeta feito de diamante, mas eu não. Contento-me com os 16kg de carbono que fazem parte do meu corpo. Talvez um dia deixe que alguém faça de mim um diamante. Um dia, quando encontrar alguém capaz de tal. E se ele me deixar e eu estiver com paciência, faço dele o par. Seremos dois diamantes como nunca antes ninguém viu. Alma com alma, carbono com carbono. E já que juntos ocuparemos o termo máximo da escala de Mohs, só poderemos ser riscados um pelo outro. E como eu não deixarei que tal aconteça, brilharemos para sempre, mesmo quando o hidrogénio do Sol acabar. 

.:.   .:.

A obra mais cara do mundo é uma caveira incrustada com 8601 diamantes no valor de 100 milhões de dólares. Mas que grande parvoíce. Não trocava nada da minha caixa por isto.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

It seems you only want the things that you can't have


Estudos nos anos 70 demonstraram que crianças até aos 10 anos que tinham perdido a ponta do dedo tinham a capacidade de a regenerar num mês, desde que o ferimento não fosse tratado com excerto de pele. Em 2005, graças a matriz extracelular em pó, assistiu-se à regeneração de praticamente um dedo inteiro de um adulto.

O fígado pode regenerar-se a partir de 25% de tecido hepático.

Dizem que o cabelo cresce a uma taxa de 0,44 mm por dia (as células do cabelo são das que crescem e dividem mais rapidamente, por isso é que são tão afectadas pela quimioterapia) e as unhas 0,1mm por dia. 

Os ossos só estão totalmente formados depois de muitos dias de vida, quando os dias dão lugar a meses e os meses a anos e os anos a décadas. É por isso que deixamos de crescer.

Ainda bem que existem genes alelos, porque senão fico com a sensação que Genética seria uma coisa bastante desinteressante.

Ontem choveu muito à noite, mas hoje os raios de Sol aquecem-me os pés enquanto leio na varanda. Apesar de as coisas serem sempre as mesmas que às vezes cansa, é bom saber que há estas pequenas alterações.

Depois da tempestade vem a bonança

Parece que assim é, às vezes. E ainda bem. Algumas coisas não ficam bem incompletas (estive a pensar, acho que as únicas coisas que ficam bem incompletas são os chocolates e os bolos. É sinal que já os comemos e que tivemos a nossa dose de felicidade instantânea e momentânea).
Mas às vezes eu gosto da tempestade (e da chuva de ontem - só a chuva - eu gostei), por isso tenho medo de voltar a escapulir-me da bonança. Há no entanto coisas pelas quais não vale a pena arriscar a felicidade instantânea e momentânea. Corremos o risco dela se tornar infelicidade duradoura. Corremos o risco de ser sugados por buracos negros. Por isso, evitarei certos trilhos.

Ontem perdi uma estrela, não perderei mais nada. Seria como se tivesse sido levado para outro planeta e não ter ninguém com quem ver as estrelas cadentes. Teria de esperar solitariamente pela morte do Sol. E quem sabe, pela minha...