As minhas mãos estão pesadas e doridas. O meu polegar direito parece ter um coração só para ele, bem perto da epiderme. Está vermelho e parece pulsar. Tenho ainda uma marca redonda e vermelha algures por cima do semilunar (acho que ele também se interroga muito acerca da outra face da lua, se bem que não da minha Lua. Os nossos ossos sofrem tanto com as coisas que lhes chamamos...). Nestas alturas gosto de abrir e fechar as mãos e esfregar uma na outra, descobrir as imperfeições delas e sentir a textura. Descubro sempre coisas novas e isso para mim são novidades, mas não aquelas que posso responder quando me perguntam "então, novidades?".
Quem quiser saber novidades, folheie o novo catálogo do IKEA. Eu vou fazê-lo daqui a pouco e sei que me entreterei durante muito tempo. Ele chegou hoje e trouxe-me um sorriso à cara, juntamente com recordações dos tempos que passei a montar móveis. Eu gosto de montar móveis. Gosto de ver os parafusos a juntarem as várias peças. Faço-os girar de um lado para o outro porque me fazem lembrar bailarinas, a andar aos círculos em pontas ao som do Quebra-Nozes.
[apetecia-me agora um bolo de noz...]
Mas também ninguém está interessado no bailado que faço com os parafusos e as ferramentas. Não sei mesmo o que algumas pessoas pretendem que lhes diga quando me perguntam por novidades. Será que estão à espera que lhes diga que morreu alguém? Afinal, todos os noticiários de televisão abrem com mortes e desastres por este mundo fora.
Talvez um dia invente uma história como quando o Orson Welles se lembrou de fazer uma adaptação dA Guerra dos Mundos pela rádio. Talvez já achem isso novidades.
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