quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Vida dos Outros

A estação de Metro está sempre cheia de pessoas, barulhos, cores, cheiros...
Sento-me no banco de pedra e assisto àquele oceano humano. Quando chega um veículo, as ondas rebentam e surgem pessoas novas. Depois as águas recuam e somem-se algumas das que esperavam.
Gosto de ficar a olhar para as pessoas e imaginar a vida delas.

Vejo a senhora que segura um flor - terá sido a sua cara-metade a dar-lhe? Ela está a sorrir, deve ter sido. Desejo-lhe felicidades na minha mente. Espero que a vida lhe sorria como ela está a fazer agora.
Lá está o grupo de rapazes e raparigas que aguarda para ir para a escola. Percebo que há um grupo dos "fixes" e um grupo dos "renegados". Nunca percebi porque é que na escola sempre se fizeram estas distinções. Gostava de lhes dizer para não serem tão limitadores, para os extrovertidos se abrirem e falarem com o rapaz mais calado ou com a rapariga que tenta esconder o acne. Porquê criar barreiras? 
Junto à entrada estão as pessoas a fumar e já é o 3º dia consecutivo em que sai no jornal uma notícia sobre os malefícios do tabaco. Na minha cabeça dou-lhes uma aula de prevenção tabágica. Falo-lhes das doenças e da qualidade e potenciais anos de vida perdidos. Uns apagam os cigarros, outros...
Outros entram na estação e começam a pedir trocos às pessoas porque, dizem eles, não têm trabalho e precisam de dinheiro. Então e o dinheiro que gastaram no maço de tabaco? Então e irem procurar um emprego?

O meu metro chega. Sento-me junto à janela, tiro o mp3 da mochila ou então um livro para estudar. Não fico especado a olhar para as pessoas ou a escutar as suas conversas, mas às vezes algumas delas gostam de dar nas vistas ou então há alguma coisa que me chama a atenção nelas.
Ao meu lado vão 2 raparigas que falam alto como tudo e riem-se feitas histéricas. "Ai, preciso de fazer a depilação nas virilhas", "eu preciso de pintar as unhas". Depois começam a dançar que nem loucas nos bancos. Espero que a minha "idade da parvalheira" não tenha sido tão grande como a delas pois elas são deveras irritantes.
Algum idiota começou a bater no vidro do lado de fora. Que selvagem!
Ouçam, lá começou o bêbado a cantar. Bêbados... Irrita-me profundamente as cenas tristes que as pessoas fazem quando estão bêbadas. As pessoas pedem-lhe para se calar, mas ele continua cada vez mais desafinado e imperceptível a sua música.
Apesar deste reboliço todo, há quem permaneça impávido.
Admiro a senhora que, a julgar pelas sacas que vão a seus pés, veio das compras para a casa. Examina um papel muito atentamente. Apercebo-me que é o talão da loja e está a fazer contas. Gostava de a tranquilizar, dizer que a crise está quase a acabar, mas aquela senhora não precisa de mais uma mentira.
Já falei da senhora, na sua casa dos 50 anos, a estudar os seus apontamentos de código penal ou os livros que exibem sempre na capa a palavra "Direito"? Anda na faculdade, provavelmente a tirar o curso que, quando jovem, não teve oportunidade de tirar. Faz-me pensar nos estudantes mimados que só querem festa o ano inteiro e que vão deixando as cadeiras todas por fazer...
Sou interrompido pelas gargalhadas do grupo de colegas de trabalho que habitualmente apanham o mesmo Metro que eu. Desde que as SCUT começaram a ser pagas eles trocaram o prazer de uma viagem solitária de carro pelo prazer de uma viagem de transportes públicos mas com muita gente conhecida. Vão a falar dos filhos que gostam da Miley Cyrus ou do Justin Bieber ou então das férias que estão a planear fazer. Penso no meu futuro, mas não consigo imaginar-me daqui a 5 anos quanto mais com a idade deles.
Há um rapaz que olha constantemente para o relógio e para as estações do Metro que vão passando. Estará à espera de alguém? Bem, esse alguém não apareceu porque ele bem espreitou lá para fora e agora sentou-se com uma cara triste...
Enfim, no Metro reúnem-se sempre estranhos. E são todos tão diferentes uns dos outros. Gostava de conhecer alguns deles melhor. Seja pela sua expressão facial, marcas na pela ou na maneira de falar, sei que alguns deles têm histórias fantásticas para contar.

O metro parou. Saio...

Questiono-me se alguém repara em mim quando não me estão a pedir para dar um jeitinho para que se possam sentar.
Será que alguém já reparou nos minutos ou até horas que às vezes espero para encontrar uma amiga ou amigo? Será que alguém me vê sorrir quando os abraço ou falo com eles? Será que alguém já me apanhou a olhar pensativamente para a paisagem que vai mudando do lado de lá da janela e que faz com que os meus olhos estejam sempre a mexer? Ou então alguém já me viu a lutar para me manter acordado a estudar mas, vencido pelo cansaço, a minha cabeça cai e eu sorrio por tal ter acontecido? Será que alguém já me viu subir as escadas normais quando toda a gente usa as escadas rolantes?


Será?

6 comentários:

  1. Ah as viagens de Metro.

    É claro que alguem repara em ti. Há sempre alguem que repara em nós.

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  2. Isto de imaginar a vida dos outros, fez-me lembrar o anúncio do vinho verde Gazzela: "Será um copo meio cheio ou meio vazio? Serão lágrimas de alegria ou de tristeza? Será que corre para não chegar tarde, ou corre para fugir de algo?". Não é nada que eu nunca tenha feito - imaginar a vida dos desconhecidos que me rodeiam. x) [No entanto não sei se estou tão afim quanto isso que reparem em mim... xP]

    Mas sim, acho que haverá sempre alguém que repara em ti. [Estou a dizer isto sem contar comigo, obviamente xD]

    Eu não ando muito de metro nem de comboio, que tenho a sorte de viver perto da escola, mas sempre que atravesso a estação de comboios para ir para lá, há uma maré de pessoas que vem dos cais de embarque, e eu imagino donde virão todas aquelas pessoas, para onde irão? Incógnitas que põem a minha imaginação a trabalhar ;)

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  3. humm.... interessante os teu post

    deves ser alguém muito... como dizer, tipo, fiquei curioso acerca da tua maneira de ver as coisas. O que habitualmente chamamos alguém de "observador", o que quer dizer muita coisa. Mas quem procura ver, também é visto!

    abc

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  4. Francisco, pergunto-me se haverá mesmo alguém...

    James (para mim ainda é Ragdoll), é mesmo que eu penso. Uma vez até fui até ao aeroporto. Era na altura do Natal e estava cheio de gente. Gostei de ver a emoção na cara das pessoas quando viam os seus entes queridos a aparecer.

    Se7e, fiquei um pouco confuso com o teu comentário. Eu observo não com aquele olhar fulminante, reprovador ou examinador do aspecto físico como vejo muita gente fazer, mas sim um olhar com o qual pretendo conhecer melhor as pessoas. Às vezes, observar as pessoas que estão a observar os outros é mesmo caricato. Fazem cada expressão xD

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  5. Simplesmente adorei o post.
    Acho que é lindo viver determinadas coisas, realmente é, mas é ainda mais gratificante e admirável ter o papel de "Observador".
    Esse papel de observador é tanto melhor que o papel de quem vive. É optimo olhares para alguém que está a sair do metro e a uns 50cm está alguem pronto para recebê-lo, melhor, é optimo veres ambos, como em slow-motion, a fervilhar com todas aquelas emoçoes espontânes.
    Mas realmente o melhor de tudo, é vivenciares tudo isto sem sentir qualquer sentimento de inveja, ou algo que lhe valha...

    è simplesmente lindo...
    Faria disso hobbie, se pudesse. :p

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  6. Como viajo muito de metro (uma vez que vivo nos arredores do Porto), há muito que faço como tu, pois as viagens são um bocadinho "seca" às vezes...

    Além de observar e de imaginar as pessoas, por vezes olhando a paisagem que passa à medida que o metro avança, faz-me pensar também...nas pessoas que vejo, nas raras vezes que vejo águias e outros pássaros...nas florestas que aos poucos vão sendo devastadas, tornando-se um espaço inóspito e vazio...

    Quem sabe se nós já nos cruzamos no metro e ficamos a imaginar o motivo daquele sorriso ou daquela tristeza... ^^

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