Aqueci o leite e parti o pão numa fatia com a forma e tamanho que queria; só depois é que me apercebi que faltava a manteiga. Como não vi compotas, peguei na caneca e no pão e sentei-me na varanda. Tentei pintar o céu de branco, mas nada aconteceu. Nem sequer consegui que nevasse e eu gostava muito que isso acontecesse. Algumas estrelas brilhavam no silêncio da noite e cintilavam, pelo que lhes pisquei o olho. Não tenho visto a Lua, mas sei que ela está algures lá em cima, sempre tímida, sem querer dar a revelar a sua outra metade. Estava frio e o vapor que subia da caneca confundia-se com o vapor que saia da minha boca quando expirava. Sentir frio é sentir algo, por isso terei de lhe dizer que sinto alguma coisa, que não sou assim tão insensível. Se para além do frio sinto mais alguma coisa? Às vezes, não sentir é sentir alguma coisa, mas outras é já mais complicado dizer. Quando sentimos alguma coisa, dá jeito certificar-mo-nos que o sentimento existe mesmo e que não passa de uma ilusão gerada apenas nalguma parte do nosso cérebro.
Se só conhecesse os meus botões de pipos, talvez soubesse exactamente aquilo que sinto e que sou capaz de sentir. Mas conheço outros botões e outras pessoas e às vezes as coisas misturam-se

Sem comentários:
Enviar um comentário