quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Desidratação

Às vezes não consigo controlar a água que escorre pelos meus olhos. Assim que permito que uma gota caia, vem mais uma a seguir e depois outra e mais outra. Um pouco como a chuva. Às tantas podia construir uma piscina onde os bonequinhos da Lego podiam passar uma tarde agradável de Verão. Mas o Verão já era, o Outono chegou. A piscina tornar-se-ia uma verdadeira catástrofe natural para os homenzinhos amarelos. Penso neles [será?] e tento conter a perda de água.

Enquanto cortava a cebola, pingava líquido da face. Era inevitável, uma vez que só me ensinaram o truque para isso não acontecer depois de tudo à minha frente ser névoa. Não conseguia ver nada por causa dos olhos húmidos e inchados, mas respondia a cada gota que caía com um novo corte, mais violento que o anterior, no resto da planta que ainda tinha na mão. Talvez tenha aproveitado para chorar por algo maior que o jantar que preparava, talvez não. Ardiam-me os olhos, a pele estava molhada e quando secou, fiquei com comichão.

E agora, que resta? O jantar foi devorado e o vermelhão dos olhos passou. Jaz o livro de estudo aberto na página 226. Olhei agora com mais atenção para o seu conteúdo e apercebi-me que já a li e que a tenho de virar.

Já o fiz.

Mas e agora? Agora resta-me ler e tentar assimilar o máximo que conseguir. Saber o número da página já conta como alguma coisa? “If you can measure that of which you speak, and can express it by a number, you know something of your subject, but if you cannot measure it, your knowledge is meagre and unsatisfactory” (Lord Kelvin). Bem, talvez seja. Senão for, amarrar-me-ei a essa ideia caso me sinta mal com o rendimento do estudo.

Os livros aturam-me e eu aturo-os a eles. Já passei a mão pela lombada e senti-lhes o relevo, peguei-os com uma mão e avaliei-lhe o peso, abri-os numa página à sorte e li as palavras formadas por conjuntos de letras e já lhes ouvi o barulho quando o vento sopra neles. Eu também sopro para eles e sussurro-lhes coisas. Acho que às vezes nos conseguimos entender, eu e eles. E se estes à minha frente não me satisfazerem, há sempre outros.

Livros não são tão complicados como as pessoas. Complicados são as pessoas que os escrevem. E as que os lêem.

2 comentários:

  1. há alguns truques para não chorar com a cebola, um deles é deixá-la um tempo no frigorífico, ajuda:-)

    Fizeste-me lembrar o processo de criação de uma norma jurídica aos olhos da filosofia do direito, em que há uma norma universal, a apreensão da mesma, a passagem dela para o papel, e a interpretação final...a compreensão está na alma, quanto mais te aproximares à ideia transcendente, melhor, significa que te elevaste o suficiente para ir além da letra, e é isso que os livros nos fazem, ajudam-nos a elevar:-)

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  2. Para a próxima já sei ;)

    Às vezes os livros também nos deitam abaixo (isto digo eu, já que ler romances me deprime xD)

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