domingo, 10 de junho de 2012

nada muda em mim, só lá fora

às vezes gostava de ser actor de cinema e viver várias vidas. Um dia poderia ser um rei muito amado pelo povo, mas assim que escurecesse podia mandar pessoas para a guilhotina porque assim me apeteceu. No dia seguinte poderia ser um escritor famoso e no seguinte experimentava ser médico, doente, astronauta, bombeiro, empresário, professor, cientista, desenho animado, gente crescida, vendedor de gelados, comedor de gelados, bibliotecário, ... Podia ir circulando pelo drama, acção, fantasia, romance, animação e comédia. Se me fartasse disso sempre podia escolher um papel menor e ficar sentado no banco do café como figurante a ver as pessoas passar.

Na realidade, todos os dias acordo e sou o mesmo. Um dia mais velho é certo, mas só o cabelo parece diferente e geralmente é para pior. De resto nada muda. Sempre a mesma pasmaceira. Sempre a mesma rotina. E se às vezes penso que começo a resistir ao desencanto que isso me suscita, uns dias depois já ando novamente entediado. Deve ser síndrome da abstinência. Acho que o meu corpo não tolera que algo mude.

Tenho-me apercebido de que me ando a queixar muito e uma vez que nada faço para tentar mudar a situação o queixume repetido é completamente despropositado e só contribui para ficar irritado comigo mesmo. Já mandei cortarem-me a cabeça, mas até agora ninguém o fez.
Talvez não fosse mau fazer um esforço para mudar alguma coisa, mas a dúvida 'valerá a pena?' tem grandes efeitos teratogénicos e mata precocemente a vontade ou compromete seriamente a dedicação com que tento fazê-lo. Começo a recear os efeitos cumulativos no tempo e talvez isso devesse servir de adrenalina para fazer alguma coisa, mas a minha cabeça começa a pensar nos diversos sintomas secundários e fico a pensar que a mudança levaria a uma despersonalização. E isso não me agrada e por isso volto ao mesmo. A lado nenhum. Ao vazio. Ao chão do quarto, junto à janela, onde fico a ver a chuva bater no vidro. E não sei se é mesmo azar meu ou só coincidência, mas infelizmente chove quase sempre quando tenho de estudar.

1 comentário:

  1. :D

    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
    Muda-se o ser, muda-se a confiança;
    Todo o mundo é composto de mudança,
    Tomando sempre novas qualidades.

    Continuamente vemos novidades,
    Diferentes em tudo da esperança;
    Do mal ficam as mágoas na lembrança,
    E do bem, se algum houve, as saudades.

    O tempo cobre o chão de verde manto,
    Que já coberto foi de neve fria,
    E em mim converte em choro o doce canto.

    E, afora este mudar-se cada dia,
    Outra mudança faz de mor espanto:
    Que não se muda já como soía.

    Luís de Camões

    ResponderEliminar