quinta-feira, 7 de junho de 2012

nitro

Quando a mãe ameaçava que nos lavaria a boca com o sabonete se não nos portássemos bem nós temíamos seriamente pela nossa vida.

Será que a mãe não via que o sabonete era de glicerina?

Se se juntasse nitro, o que quer que aquilo fosse (e a mãe tinha de tudo no armário da cozinha), fazia-se uma bomba. A mãe podia criar uma bomba! 

Mas ela não nos faria isso, pois não? Mas o avô também não nos mentiria, pois não?

Quando ele regressou do hospital contou-nos que os homens da bata branca lhe tinham posto nitroglicerina no sangue e que aquilo era o componente das caixas verdes do jogo do Crash Bandicoot, que nós tínhamos aprendido à custa de muitos game over que aquilo matava. Nem mesmo a máscara Aku Aku nos salvava! O avô ainda disse que por causa disso já não podia brincar tanto connosco porque podia explodir. Naquele momento sustivemos a respiração e abandonámos o quarto em bicos de pé, não fosse a oscilação do chão desencadear uma tragédia. 

E a partir de então, sempre que víamos a mãe a ficar zangada com algumas brincadeiras, tratávamos logo de nos acalmar. E sempre que podíamos, não nos lavávamos com aquele sabonete. Mais valia viver sem cheiro a morango do que espalhar o nosso corpo cheiroso pelas paredes do quarto-de-banho.


E também a partir dessa altura comecei a não gostar de médicos. Gente difícil.


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