Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.
Outrora.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...
Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Álvaro de Campos
«nesta morremos, que é o que viver quer dizer»... nestes últimos dias parece-me que é mesmo assim...
Sabes k., não precisei de ler tudo... bastou o principio do poema e lá está Álvaro de Campos.
ResponderEliminarPessoa foi um génio - bem ele e os heterónimos que tão bem desenhou no seu espírito.
"Campos foi o único a manifestar fases poéticas diferentes ao longo da sua obra. Era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo."
Não há nenhum dos heterónimos de Pessoa que não me atraia.
Mas Pessoa é tanto...
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente
Um abraço amigo.
Fortíssimo o poema! Não conhecia. Obrigado pela partilha.
ResponderEliminarGrande abraço amigo K.
Li isto e relembrei-me de ti.
ResponderEliminarhttp://canaldepoesia.blogspot.pt/2012/10/jose-miguel-silva-para-agradar-uma.html
Espero que o Klaus esteja bem :-)