Que o mundo não girava à minha volta já eu sabia porque ele não parece ficar enjoado mas já eu estive assim na segunda-feira. Mas às vezes parece que me esqueço de que há mais pessoas para além de mim e das pessoas que vivem e convivem comigo e que essas pessoas são muito mais do que figurantes dos meus sonhos e espectadores que nos vêem passar pela rua.
A senhora H paga a uma senhora, mesmo tendo sobrinhos e netos, para a levar ao médico, lhe preparar as refeições e ajudar a tomar banho... É cega do olho direito mas acho que depois de me ter contado da morte do marido e da filha ela os via encostados à janela. Quando saí ela lá ficou a olhar naquela direcção com os seus olhos azuis... A senhora D depende completamente do marido e do filho porque tem mobilidade muito reduzida mas quando falou deles sorriu muito e a voz tornou-se meiga. «Se me ajudam... Fazem tudo por mim!». A senhora A disse que estava preparada para morrer porque tinha gozado muito da vida mas que sabia que não podia morrer porque não tinha ninguém que tomasse conta do filho que dependia dela. No Metro entrou um casal de velhinhos e o senhor só se sentou depois da mulher se ter sentado. Ela fê-lo sem problemas, ele tinha problemas em curvar-se. Ela ficou a olhar pela janela com a sua cara encorrilhada pela idade e ele tirou uma revista que sublinhava à medida que lia.
Fico sem saber o que ando por aqui a fazer. Confuso com a vida. E vou sentindo-me pequenino...
Não te sintas pequenino nem confuso com a vida. Só o facto de escreveres o que escreves revelas a tua preocupação com os outros e isso demonstra o tamanho do teu coração. Então não és pequeno...
ResponderEliminarFica com o meu abraço amigo, K.
Há um provérbio que diz: quando morre um velho perde-se uma biblioteca.
ResponderEliminarSão vidas enormes e só a da senhora A, me parece um pouco mais dramática. Deduzo que o filho tenha alguma deficiência e isso para ela é uma preocupação enorme, e compreensível.
Eu tenho uma pessoas conhecidas que tinham uma filha com com deficiência. Foi sempre uma preocupação para eles, embora ela tivesse um irmão que iria cuidar dela. Ela já tinha 40 e poucos anos e há algumas semanas atrás faleceu... Aquilo que se comentou entre o círculo de pessoas conhecidas, foi que tinha sido um descanso para a mãe... E sinceramente foi tb a primeira coisa que me ocorreu quando soube da notícia.
Um dos problemas, senão o maior, é que não nos preocupamos com os nossos velhos. É tão dramático como isso.
ResponderEliminarPercebo o que queres dizeres com o 'sentires-te pequenino', mas não há explicações para tudo, a vida simplesmente acaba por acontecer de uma certa maneira...