quarta-feira, 7 de setembro de 2011

All Love

«É mas é a melhor razão de todas! As outras eram só para satisfazer os meus caprichos, e também os do Edgar… para ele ficar contente. E esta é por uma pessoa que congrega em si tanto os meus sentimentos pelo Edgar como os que nutro por mim mesma. Não sei como explica-lo, mas certamente que tu e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, um outro eu para além de nós próprios. Para que serviria eu ter sido criada, se apenas me resumisse a isto? Os meus grandes desgostos neste mundo foram os desgostos do Heathcliff, e eu acompanhei e senti cada um deles desde o início; é ele que me mantém viva. Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim numa vastidão desconhecida, a que eu não teria a sensação de pertencer. O meu amor pelo Linton é como a folhagem dos bosques: transformar-se-á com o tempo, sei-o bem, como as árvores se transformam com o Inverno. Mas o meu amor por Heathcliff é como as penedias que nos sustentam: podem não ser um deleite aos olhos, mas são imprescindíveis. Nelly, eu sou o Heathcliff. Ele está sempre, sempre, no meu pensamento. Não por prazer, tal como eu não sou um prazer para mim própria, mas como parte de mim mesma, como eu própria.»

«Catherine Earnshaw, enquanto eu viver não descansarás em paz! Disseste que te matei. Pois então assombra-me a existência! Os assassinados costumam assombrar a vida dos seus assassinos, e eu tenho a certeza de que os espíritos andam pela terra. Toma a forma que quiseres, mas vem para junto de mim e enlouquece-me! Não me deixes só, neste abismo onde não te encontro! Oh! Meu Deus! É indescritível a dor que sinto! Como posso eu viver sem a minha vida?! Como posso eu viver sem a minha alma?!»
Emily Brontë - O Monte dos Vendavais


A pergunta aqui deverá ser: é isto o amor? Se assim for, é uma coisa bastante poderosa. O eu ser um poderoso nós e o nós ser uma só identidade ainda mais forte. Os actos de loucura estão explicados. O amor é a nossa identidade, por isso é que nos sentimos incompletos grande parte da vida. E quando nos sentimos completos, tememos a fragmentação, pois perdemos muito mais do que nós próprios.

2 comentários:

  1. Creio que, algures em Lisboa, deve estar um disco que minha mãe comprou já não sei bem quando.

    Numa das faixas, um poema de JC Ary dos Santos, pode escutar-se mais ou menos isto: «...E depois, quando tudo transforma o amor em ternura, fica apenas a coisa mais séria, a coisa mais pura, que resiste e persiste ao cansaço da carne madura. E perdura!»

    São palavras que, afinal, não diferem daquelas de Catherine Earnshaw, pois não?

    Penso já ter-te dito que, por vezes, te revelas uma autêntica caixinha de surpresas. Este "post" é uma dessas vezes!...

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  2. :) (se bem que as surpresas podem ser boas ou más :P)

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