domingo, 20 de novembro de 2011

Podia nevar (...ou chover...)


Aqueci o leite e parti o pão numa fatia com a forma e tamanho que queria; só depois é que me apercebi que faltava a manteiga. Como não vi compotas, peguei na caneca e no pão e sentei-me na varanda. Tentei pintar o céu de  branco, mas nada aconteceu. Nem sequer consegui que nevasse e eu gostava muito que isso acontecesse. Algumas estrelas brilhavam no silêncio da noite e cintilavam, pelo que lhes pisquei o olho. Não tenho visto a Lua, mas sei que ela está algures lá em cima, sempre tímida, sem querer dar a revelar a sua outra metade. Estava frio e o vapor que subia da caneca confundia-se com o vapor que saia da minha boca quando expirava. Sentir frio é sentir algo, por isso terei de lhe dizer que sinto alguma coisa, que não sou assim tão insensível. Se para além do frio sinto mais alguma coisa? Às vezes, não sentir é sentir alguma coisa, mas outras é já mais complicado dizer. Quando sentimos alguma coisa, dá jeito certificar-mo-nos que o sentimento existe mesmo e que não passa de uma ilusão gerada apenas nalguma parte do nosso cérebro.
Se só conhecesse os meus botões de pipos, talvez soubesse exactamente aquilo que sinto e que sou capaz de sentir. Mas conheço outros botões e outras pessoas e às vezes as coisas misturam-se


My Worried Shoes

O meu cérebro está cansado (acho que não tem falta de glucose, tendo em conta que comi chocolate há poucos dias) e por isso algumas sinapses são mais inibitórias do que excitatórias ou nem sequer conseguem passar o limiar de excitabilidade. Falar e mexer tornam-se processos complicados ou então eu é que sou complicado. Não sei. Hoje torna-se complicado reflectir nisso. Amanhã talvez pense...

Ontem entrei na banheira a cogitar num pensamento que tem andado a nadar pelo meu sangue, plasma e líquido cefalorraquidiano nos últimos dias. Senti a água quente na pele, o que aumentou a agitação do pensamento. Todo ele se avivou com o calor e tomou conta dos córtex todos. Todas as vias necessárias para que eu pegasse no champô e no gel de banho foram inibidas. Só quando saí da banheira é que percebi que só me tinha molhado... O pensamento não se molhou nem foi lavado. Continua aqui. Mais tarde pensarei nele.

Molhar-me também o posso fazer quando chove, mas a minha disponibilidade para um passeio à chuva não tem coincidido com os momentos em que se reúnem as condições atmosféricas para tal acontecimento. No entanto, torna-se engraçado fazer uma viagem de Metro a escavar todos os tesouros que o Sol revela no asfalto. São na verdade pequenos minerais de quartzo que brilham, mas era capaz de jurar que vi gnomos a picarem o chão para se apoderarem dos meus tesouros.

Olho para os meus ténis preferidos e penso em tudo aquilo que fiz e que lhes reduziu a esperança média de vida. Com  o estado lastimável da minha cabeça, custou-me perceber que estava a tentar calçar o ténis direito no pé esquerdo. Ao que eu cheguei... Eles continuam bons para mim, embora a mãe diga que deixam entrar o frio e que me molham os pés. Eu gosto deles. Quem mais gostará deles quando eu cá não estiver?

Às vezes sinto necessidade de me apegar às coisas que já tenho. É assim que me defendo de qualquer estímulo que possa abalar-me. Isso acontece com os ténis. E com pessoas...


Talvez o problema não seja apenas do cansaço. Se calhar saturei o cérebro com glucose...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Tudo faz barulho. Até a chuva

Ao caminhar para a estação vejo as pessoas a correrem para se abrigarem da chuva. Os carros são implacáveis e não abrandam quando passam nas passadeiras e a água salta por tudo quanto é lado para depois voltar a cair. Olhando para as poças que se acumulam no pavimento não vejo o meu reflexo, vejo antes as luzes dos painéis luminosos dos edifícios circundantes. Continuo a andar e chego lá dentro. Desço pelas escadas normais, vazias como sempre, para depois subir do outro lado. Vejo caras conhecidas, dou o típico “olá” e vou para um canto esperar que chegue o veículo. Foi ali que conheci a Sara. Não a voltei a ver desde então e tenho-a procurado sempre que lá estou. Ela já deve ter ido várias vezes à Terra do Nunca e talvez já não se lembre de mim. O Peter também se esquecia da Wendy…

As viagens de metro tornam-se bastante agradáveis assim que o céu se torna negro e as nuvens aliviam as mágoas. Encosto a cabeça ao vidro e tento perscrutar a noite. No vidro vão várias gotas de água que deslizam desde lá de cima até cá baixo e olhando para os candeeiros de lá de fora vejo pequenos risquinhos que vão desaparecendo para darem lugar aos primos. Sinto por vezes o sono a querer apoderar-se. A semana tem sido cansativa. Tenho o caderno aberto entre as pernas e os olhos lêem sempre o mesmo. Naquele estado sonolento as coisas parecem fazer sentido e eu dou um salto e penso “isto é óbvio”, mas quando tento recordar-me do pensamento que tinha estado há momentos na minha cabeça tudo parece uma mancha. E é claro que nada daquilo fazia sentido porque devia era estar a misturar duas realidades, a que fica posterior às pálpebras e a que lhe fica imediatamente adiante.

Quando a gravação anuncia a última paragem, há já um rapaz que está pé, com o casaco vestido, o carapuço sobre a cabeça com os cordões completamente puxados. Fica bastante engraçado com a cabeça praticamente tapada. Há também o senhor que ainda dorme encostado à janela e que eu vou acordar antes de sair.

Caminho em direcção a casa. Os ténis embatem no chão e ouve-se o repinchar da água. Ouço também os pensamentos na cabeça com os quais me debato. Alguns guardo em gavetas, outros exigem que reflicta neles mais alguns momentos. Pensar pode evitar erros. Pensar pode conduzir a erros. Mas não será essa uma maneira de tirar um certo peso ao erro? Penso que voltei a ser Harry ou Dobby, mas por algum motivo acho que as pessoas ficam demasiado ligadas e eu demasiado afeiçoado de modo que depois ficamos todos com a mente toldada. Urgh, odeio esta sensação.

Já perto de casa, cai-me uma gota na cara. Apenas uma que se dividiu em muitas assim que passou por entre a lente dos óculos e o olho para embater na bochecha. Sorri.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Growing then giving up

Chove do lado de lá da janela. O vento uiva e leva tudo pelo ar. Não me leva a mim porque estou no quarto iluminado pelo candeeiro. A secretária está demasiado arrumada, ou pelo menos mais do que o normal, e eu tenho frio. Tirei há pouco o casaco e não me apetece vesti-lo. Enquanto sentir tremores, sei que sinto alguma coisa. Ela disse que eu estava incapacitado de falar e sentir. Estarei? Não sei, o espelho não me revela isso.

Os dias têm passado a uma velocidade rapidamente lenta. Lembro-me do Agosto, do Setembro, do Outubro (que ainda me está tão presente porque acho que todos os meses deveriam ser Outubro) e agora olho para o canto inferior direito do monitor e cumprimento Novembro [Olá Novembro]. E no entanto, que mudou? Tudo e nada. Big bangs e big crunchs. Buracos negros e super novas. E eu, terei mudado? É certo que a cada dia que passa as minhas células ficam mais velhas e eventualmente perfazem anos exactos de existência. Mas tirando todos os processos biológicos que vão desde a mitose, ao crescimento e à apoptose, passando por muitos outros, algo mudou? Penso que não. Continuo eu, apenas mais envelhecido um pouco.

Haverá algo mais que nos faça crescer sem ser a sucessão dos segundos? Pessoas fazem-nos crescer? Eu diria que sim. Se tenho crescido assim? Não sei não, só espero é não fazer ninguém mingar.


“Que grande parvalhão que me saíste, é assim que se trata as pessoas?”


Peço desculpa, eu cresci com pessoas, é verdade! Cresci bastante. Não se reflecte em centímetros (vá, não quero crescer mais em altura, estou bem assim), mas cresci, embora saiba que ainda tenho uma criança dentro de mim que gosta de saltar nas poças de água. O crescimento é positivo, mas assim como nos ossos temos deposição e reabsorção simultâneas de cálcio, também já me deitaram abaixo, também já verguei o olhar. Sim, já o fiz, tenho ainda talvez algumas sequelas, mas isso também me ajudou a crescer ou eu pelo menos acredito que sim. Há, contudo, quem se queixe desse meu crescimento. Talvez me tenha tornado ligeiramente insuportável de vez em quando, mas de momento nada farei no sentido de alterar isso. (Também os acho ligeiramente insuportáveis, por isso há um equilíbrio dos dois lados).

Tudo acontece por uma razão, até a morte,

You do not die from being born, nor from having lived, nor from old age. You die from something... There is no such thing as a natural death: Nothing that happens to a man is ever natural, since his presence calls the world into question. All men must die: but for every man his death is an accident and, even if he knows it and consents to it, an unjustifiable violation

por isso terei de pedir novamente desculpa por um certo comentário que fiz.

Apaixonem-se. Amem. Isso acontecerá por algum motivo. A felicidade passa por fazer os outros felizes. Ao amarem, haverá felicidade dos dois lados. E dizem que também faz crescer.

Eu vou comer agora um Suissinho para ver se cresço também.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Desidratação

Às vezes não consigo controlar a água que escorre pelos meus olhos. Assim que permito que uma gota caia, vem mais uma a seguir e depois outra e mais outra. Um pouco como a chuva. Às tantas podia construir uma piscina onde os bonequinhos da Lego podiam passar uma tarde agradável de Verão. Mas o Verão já era, o Outono chegou. A piscina tornar-se-ia uma verdadeira catástrofe natural para os homenzinhos amarelos. Penso neles [será?] e tento conter a perda de água.

Enquanto cortava a cebola, pingava líquido da face. Era inevitável, uma vez que só me ensinaram o truque para isso não acontecer depois de tudo à minha frente ser névoa. Não conseguia ver nada por causa dos olhos húmidos e inchados, mas respondia a cada gota que caía com um novo corte, mais violento que o anterior, no resto da planta que ainda tinha na mão. Talvez tenha aproveitado para chorar por algo maior que o jantar que preparava, talvez não. Ardiam-me os olhos, a pele estava molhada e quando secou, fiquei com comichão.

E agora, que resta? O jantar foi devorado e o vermelhão dos olhos passou. Jaz o livro de estudo aberto na página 226. Olhei agora com mais atenção para o seu conteúdo e apercebi-me que já a li e que a tenho de virar.

Já o fiz.

Mas e agora? Agora resta-me ler e tentar assimilar o máximo que conseguir. Saber o número da página já conta como alguma coisa? “If you can measure that of which you speak, and can express it by a number, you know something of your subject, but if you cannot measure it, your knowledge is meagre and unsatisfactory” (Lord Kelvin). Bem, talvez seja. Senão for, amarrar-me-ei a essa ideia caso me sinta mal com o rendimento do estudo.

Os livros aturam-me e eu aturo-os a eles. Já passei a mão pela lombada e senti-lhes o relevo, peguei-os com uma mão e avaliei-lhe o peso, abri-os numa página à sorte e li as palavras formadas por conjuntos de letras e já lhes ouvi o barulho quando o vento sopra neles. Eu também sopro para eles e sussurro-lhes coisas. Acho que às vezes nos conseguimos entender, eu e eles. E se estes à minha frente não me satisfazerem, há sempre outros.

Livros não são tão complicados como as pessoas. Complicados são as pessoas que os escrevem. E as que os lêem.